A CAVEIRA - Conto Clássico de Horror - Camilo Castelo Branco



A CAVEIRA

Camilo Castelo Branco

(1825 - 1890)


I

 

Morreu, há seis anos, em Vila Real, um velho de oitenta e oito anos. Chamava- se D. João de Noronha, e habitava uma casa pequena, mas decorada de grande brasão de armas, e não sei quantas ameias modeladas pelos pilares das açoteias mouriscas. O leitor, que, por louvável curiosidade, quiser, de perto, capacitar-se da fidelidade arquitetônica desta casa, vá a Vila Real, e na rua do Cabo da Vila, pergunte pela casa de D. João de Noronha. Não terá de que maravilhar-se, a não ser da sisuda gravidade, e rigorosa certeza com que o autor lhe conta histórias interessantíssimas.

Algumas palavras a respeito deste D. João de Noronha.

O dom é quase sempre, entre portugueses, indicação de fidalguia remota; mas em D. João de Noronha era uma irrisão para o povo, e uma ignomínia afrontosa aos fidalgos da terra. E a razão é esta:

Há cento e vinte anos que viveu em Vila Real uma senhora D. Paula Coronel e Noronha, protetora de um tal Antônio da Silva, sapateiro da casa.

Este homem era desordeiro e valentão. Em rixas com um freguês por causa de umas tombas, matou-o desastradamente. A justiça apanhou-o, e condenou-o a pena última.

D. Paula exaurira os grandes recursos da sua influência, sem conseguir salvar da forca o seu afilhado. Avaliem-se, porém, os extremos de D. Paula pelo condenado, e atenda-se à época em que os grandiosos esforços de uma fidalga são ansiosamente empenhados na salvação de um arrastado verme da plebe.

D. Paula, em último recurso, declara que o sapateiro é filho bastardo de seu irmão, e como tal o perfilha. Desde que esta adoção foi consignada no livro dos alvarás de perfilhamentos, Antônio Coronel de Noronha está salvo da forca. O processo atravessa novos tramites; e a lei, esmagada sob o rebolo transformado em pedra d'armas condena o réu a cinco anos de degredo para Castro-Marim.

O nobre exilado, um ano depois, morreu de uma indigestão de figos do Algarve; e, honra lhe seja feita, à hora da morte, declarou que vivera sapateiro e cristão, e como sapateiro pedia perdão aos homens, e como cristão a Deus porque muito queria salvar-se.

Seu irmão Francisco, mestre ferreiro, morreu ferreiro, porque não quis partilhar das honras heráldicas de seu irmão, que, pelos modos, não eram muito lisonjeiras para a memória de sua mãe.

Este ferreiro deixou um filho, chamado João, e uma fortuna avultada, adquirida na bigorna.

João, órfão aos quinze anos, quis ordenar-se; mas o amor tolheu-lhe as vocações ardentes do sacerdócio.

 Por aqueles tempos a sociedade estava retalhada em classes. João da Silva invejava o acaso de um nascimento, e desesperava-se na impotência de associar-se dois apelidos eufônicos, que o guindassem à região dos homens superiores em raça aos outros homens, como o onagro de Sevilha superior em raça ao onagro de Cacilhas.

Zombavam cruelmente dele, quando lhe disseram que se encabeçasse na linhagem, embora bastarda, de seu tio, que morrera legalmente inscrito no livro dos costados a folhas 1473.

João da Silva foi conscienciosamente fidalgo desde esse instante. Tirou uma certidão, hipotecou metade da sua fortuna ao foro, e consegui-o. Não diremos ao certo quem foi o concussionário daqueles tempos, que lhe recebeu os dois mil cruzados do pergaminho. As urgências do estado de hoje eram literalmente as urgências do estômago dos chanceleres mores do reino.

A fidalguia protestou silenciosa contra tão grave injúria. Fechou os seus salões ao adepto insolente, que ousara assinar-se D. João de Noronha, e mandara insculpir na fachada de uma casa ameiada as armas dos Noronhas. É tradição em Vila Real que os Pintos Coelhos, representados hoje por José Antônio Teixeira Coelho de Melo Pinto da Mesquita, mandaram borrifar de sangue as armas de D. João de Noronha. Nada fez recuar o propósito do filho do ferreiro. Os tempos correram, mas os ódios ao pobre homem não se extinguiram. Digno destes tempos, D. João, seria hoje afavelmente recebido pela velha nobreza, com tanto que as diferenças no azul do sangue fossem saldadas com o amarelo do ouro.

Conheci este homem, e tratei-o muito de perto. Era eu bem criança, e respeitava as loucuras daquele velho, com a mais sisuda tolerância. Quando o vi, aos oitenta e seis anos, casar-se com uma donzela (oitava maravilha!) de oitenta e nove, cingi-me com aquele par conjugal, e quis ouvir-lhe os colóquios amorosos, as expansões delirantes, as ternuras idealíssimas. Não pude; e o leitor perdeu muito com isso, que eu não era homem de privar de um capítulo precioso a Fisiologia do Casamento de Balzac.

O vento das tempestades da vida impeliu-me de Vila Real para outra linha no mapa-múndi das minhas observações; e o meu caro D. João morreu poucos dias depois de sua mulher, e é de crer que, abraçados em frenética paixão, renascessem, viçosos e frescos como Paulo e Virgínia, em mundos novos, e novas constelações. Assim seja!

Como vinha dizendo, leitor atencioso, quando eu tive a honra de ser admitido ao trato íntimo de D. João de Noronha, reparei numa caveira, contida em uma redoma de vidro, com pedestal de pau preto, enviesado de arabescos de marfim.


Esta redoma pousava em uma mesa torneada em bilros de custoso lavor. Reparei, outrossim, que em certo dia do ano um véu fúnebre cobria aquela redoma. Este dia era Quinta-Feira Santa. Não concebi que relação pudesse existir entre aquela caveira e a Paixão de Jesus Cristo; não ousava, porém, interrogar-lhe o profundo mistério.

Entrava eu uma vez, sem fazer-me anunciar, na sala da redoma, e encontrei D. João ajoelhado com austero fervor na presença da caveira. Voltou-se de repente sentindo-me os passos, e eu não pude recuar sem ser conhecido. Vi-lhe lágrimas; eram majestosas, e eu juro que muitos dos meus leitores de coração petrificado chorariam, se vissem a sincera angústia daquele rosto venerando.

– Venha cá – me disse ele – que eu não tenho vergonha de chorar. Choram- se na decrepitude os risos da mocidade. Entra-se no túmulo a chorar como se entra na vida.

Vi-me embaraçado em responder-lhe. Eu não tinha aprendido estas palavras artificiosas, com que fingimos um quinhão de sentimento impostor. Então senti e chorei. Hoje... eu sei cá! Faria uma nênia em prosa de muita melodia, e citara- lhe não sei quantos velhos, que a história diz que choraram desde Belisário até ao abade de Chateneuf.


– Sente-se aqui ao pé desta relíquia – prosseguiu o consternado ancião. – Devo-lhe um lavor muito delicado: nunca o senhor me perguntou o segredo deste crânio. Eu gosto de quem respeita a dor alheia. Quero pagar-lhe essa fineza invocando do túmulo do meu coração o mistério, que aqui está sepultado há sessenta anos. Se eu me calar, no correr da minha história, respeite o meu silêncio... É que não poderei... Talvez possa... O coração... dizem que manda aos lábios muito do seu fel, quando os lábios lhe pedem as amarguradas reminiscências de uma grande desgraça... Será assim? Eu não sei... vê-lo-emos.

Ora atenda-me, meu amigo. A inocência deve alegrar-se com a história, onde figura um anjo. Hei de falar-lhe de Lúcifer também... Seja o anjo para o recreio; e o Lúcifer para a experiência... Um velho é um livro. Eu vou abrir-me... quero dar-lhe a leitura de minha alma, hoje, que, amanhã, talvez a pedra rasa de uma sepultura nem ao menos lhe diga que eu durmo ali o suspirado sono do infeliz...

 

II

 

D. João de Noronha, sentado de modo que encostava o cotovelo à mesa da redoma, principiou a história do seu segredo, em tom de profunda comoção:

“Tinha eu vinte anos... Há que tempo isto vai!... Há sessenta e oito anos que eu estudava latim no convento de S. Francisco. Era minha tenção ordenar-me. Meu pai granjeara-me uma fortuna, que me estimulou ambições de subir na posição social. Quis ser padre, e era-o, se nascesse na igreja luterana, onde o padre não sofre a cruelíssima amputação da vida da alma, em comércio com o mundo.

Quando encontrei uma mulher, que me imprimiu nos sonhos a sua imagem, perdi o império da vontade, e as fervorosas vocações do sacerdócio. Adorei uma dessas belas mulheres, que trazem consigo uma sina de desgraças, um contágio de desastres, e a perpetuidade de uma chaga, aberta no coração com um ferro em brasa.

Esta mulher, por quem me fizera nobre, por quem me sentira ambicioso de um fausto, que a sociedade me ultrajou com justos motivos, por quem, finalmente, me fizera estúpido... atraiçoou-me.

No meu tempo o amor era uma coroa de espinhos. Então apaixonava-se um homem, e sentia-se perdido para a sua liberdade, e escravo de uma angústia interminável. Eu, por mim, senti-me ultrajado por uma traição incrível, e não pude, ainda assim, estalar as algemas ignóbeis que me prendiam à desonra de um abandono injustificável.

Ajoelhei aos pés de Marta. Pedi-lhe a pouca ventura que me roubara cruelmente... Pedi-lhe a dignidade do homem que por ela se desprezara... Encontrei-a morta para mim, e vencida por uma paixão, que devia matá-la! Tive então dó daquela flor, que se desfolhava na madrugada da sua primavera? O meu amor era grande e generoso! Pedi-lhe que fosse minha irmã, minha amiga... Nem isso!... Nem sequer me aceitou um conselho de pai na hora em que mais precisa lhe fosse uma proteção que a salvasse da desonra, a que se tinha cegamente abandonado.

Eu valia menos que Pedro de Mesquita.

Este homem era oficial de cavalaria. Nascera ilustre; conquistara-se uma opinião de herói; batera-se ardidamente como um leão nas últimas batalhas. Era aqui apontado em Vila Real; como o primeiro homem nos triunfos difíceis do amor.

E não o lisonjeavam! O homem, que obrigara Marta a desprezar-me, devia ser tudo isso.

Era muito linda esta mulher! Diziam-no as emulações, os ódios, e as intrigas, que a sua formosura causara entre pretendentes, que não queriam ceder a prioridade do mérito a nenhum.

Um dos mais poderosos era Heitor Corrêa, cadete de cavalaria e filho segundo de uma nobre casa desta vila, que não tenho necessidade de mencionar-lhe.

Não obstante Heitor Corrêa era repelido, porque Pedro de Mesquita não tinha concessões a esperar para ser mais amado que outro qualquer.

Marta arrancara, como Luzia, os belos olhos, se assim pudesse afastar de si os perseguidores que a tornavam suspeita ao homem que tão caro devia ser-lhe. E era.

Estes dois homens odiavam-se rancorosamente, e procuravam à porfia um ensejo em que pudessem travar as espadas. Corrêa confiava demasiado em si. Mesquita sobejava-lhe a certeza de superar o débil adversário.


O momento ambicionado chegou. Era Quinta-Feira Santa.

Marta assistia ao ofício da paixão na igreja de S. Francisco.

Heitor Corrêa antecipara-se a ocupar o mais próximo, lugar de Marta. Pedro de Mesquita viera depois, e mordera colericamente o beiço inferior. Marta tremeu e chorou. Quis sair; não a deixaram as multidões espessas. Heitor Corrêa compreendeu-a, e indignou-se. Era muito desprezo para a altivez do seu caráter.

Terminara o ofício. O povo evacuou o templo. Marta sumiu-se nas turbas. Dois homens apenas, como duas estátuas, se fixavam sós, e imóveis, na nave da igreja. Saíram, simultaneamente. Encontraram-se no adro. Trocaram poucas e rápidas palavras, e desembainharam os fains.

Pedro de Mesquita ostentava no rosto a superioridade de mestre. Heitor chamejava a cólera, a vingança, o capricho, e porventura o desejo de matar, ou morrer.

Esta cena passava-se na presença de mil pessoas. As beatas benziam-se horrorizadas; e os mancebos estorciam-se no frenesi de espedaçarem o forasteiro Mesquita, cuja superioridade sobre o seu patrício era indubitável, e perigosa.

Perigosa, não; porque o valente era generoso. Heitor não tinha já um botão na farda, quando Pedro de Mesquita, desprezando demasiadamente a defesa, se sentiu ferido ligeiramente no braço esquerdo.

A cena tornou-se cruel! O orgulhoso não podia conciliar com aquele sangue a sua generosidade. Heitor foi mortalmente ferido, e caiu banhado em sangue. Alguém correu sobre Mesquita, gritando contra o assassino. Mesquita esperou com bravura! Não houve mão que lhe tocasse.

 

 

III

 

Heitor Corrêa, reanimado pelos alentos da desesperação, ergueu-se, e esgrimiu ainda o florete com braço impotente. Mesquita, ferido num braço, afastou-lhe os botes, com admirável presença de espírito.

O duelo em Vila Real era uma coisa nova. O fato, em um dia tal, redobrava de escândalo. Não se atravessavam as multidões espessas, que reprovavam ruidosamente um tamanho desacato. A causa do seu espanto não era a moral ultrajada, nem a perda voluntária da vida. Dava-se como razão suprema de tal algazarra estar exposto o Santíssimo Sacramento, quando dois homens se cortavam a ferro frio.

As autoridades, cônscias do acontecimento, deram ordens imediatas de captura. Estas ordens não podiam ser cumpridas por meirinhos; e não houve desgraçadamente autoridade militar que capturasse os duelistas.

Heitor Correa, exausto de forças, perdidas no sangue, que os recursos da cirurgia não estancaram, desmaiou, e deu sintomas de morto. O alferes de cavalaria, ligeiramente ferido no braço, curava-se numa botica, afetando um ar de placidez que indignava as turbas, tumultuosas na rua. Dentre elas saíam gritos terríveis de “morra!” Os que assim gritavam diziam que estava exposto   o Santíssimo Sacramento; e, portanto, não podiam deixar de matar o ímpio que desacatara, em Quinta-Feira Santa, a solenidade da Paixão de Cristo. Como eles saciavam a sede de sangue com o fervor beatífico das suas crenças, explicam-no milhares de fatos semelhantes que acompanham sempre a edificante história dos muito austeros autores da integridade religiosa, tanto em Roma, como em Constantinopla.

Fernando Corrêa, irmão de Heitor, estava à janela quando viu entrar seu irmão nos braços de dois soldados. Desceu ao átrio, e interrogou o fato. Contaram-lhe, com as mais irritantes circunstâncias, o acontecimento.

Fernando, sem atender a súplicas da família, e de amigos prudentes, saiu de casa, tal qual estava, embrulhado num capote. Mas, debaixo deste capote, levava um bacamarte.

Quando chegou à entrada da rua do Jogo da Bola, viu um grupo de povo, que parecia vedar a saída de uma botica. Lá dentro estava Pedro de Mesquita, a quem faltara a coragem para afrontar a força bruta da populaça.

Em frente dessa botica morava a infeliz Marta, a atribulada amante daquele homem, que ali estava ameaçado das iras da plebe, tigre desenfreado da licença, naqueles dias de escravidão, logo que um acaso lhe alargasse um pouco as algemas.

Fernando Corrêa abriu uma clareira entre a multidão. Descobriram-se todos, exclamando: “Chega o fidalgo! Deixem passar o fidalgo.”

E o fidalgo entrou, perguntando quem era o assassino de seu irmão.

—Assassino... Não!... – respondeu o alferes. — Fui eu que o feri, e honro-me de ser ferido pelo cavalheiro com quem me bati.

Fernando Corrêa, estúpido como fatalmente são os que podem contar muitos avós robustos de músculos, e nenhum de vigor intelectual, não compreendeu a delicadeza daquela resposta. O que ele praticou é um ato de barbaridade, que envergonha a espécie humana. Recuou um passo atrás, aperrou o bacamarte, e despejou-lho, à queima roupa, no peito.

Foi horrível, senhor! Foi esse um lance, que eu tenho aqui diante de meus olhos, noite e dia, porque nesse instante ouvi um grito de arrepiar as carnes. Era Marta que caíra, com a face na laje da janela, fulminada pela angústia mais atroz, e mais inconcebível dos tormentos possíveis nesta vida.

Voltaram-se todos para aquela janela, e viram-me... a mim, que subira, alentado pela coragem da minha dor, as escadas daquela casa, e levantara da janela a pobre menina que julguei morta. Olhei em redor de mim... não vi ninguém, exceto uma criada que chorava, perplexa, sem atinar com o que devia fazer. A família, a essa hora, na igreja da Misericórdia, orava, talvez, à Virgem protetora das virgens...

Fernando, consumado o assassínio, saiu galhardamente por entre as turbas que saudavam o nobre algoz. A paralisia do terror gelara os poucos que lhe reprovavam a infâmia. Ninguém ousou, sequer, lembrar-lhe que aquele sangue lhe tingia os pergaminhos!

O nobre amante de Marta foi conduzido ao quartel. O seu último lance de olhos nesta vida, viram-no todos fixar-se na janela da infeliz. Depois... fechou-os, e fechou-os para sempre.

Passada uma hora, Fernando Corrêa, montado numa possante mula, e seguido de um criado, e dois bacamartes, passava em Almodena, caminho de Lisboa. E, para que esta circunstância me não esqueça, dir-lhe-ei que, um mês depois, o assassino, impune pelo privilégio dos seus pergaminhos, entrava em Vila Real, com um alvará de real mercê que o isentava de responder pela morte de Pedro de Mesquita.

O povo, desde esse dia, vergava respeitosamente a cabeça ao fidalgo, que passava soberbo por entre aqueles que lhe liam na face a altivez do assassino, que zombara da lei.

Heitor Corrêa... esse foi enterrado no mesmo dia em que os sinos dobraram por alma de Pedro de Mesquita.

 

IV

 

É necessário falarmos de Marta... É a luz única deste quadro negro... Nem a história valia a pena de ser ouvida, se não tivesse um heroísmo de virtude para a admiração, e uma santa para o culto das almas nobres, e apaixonadas pelo sublime do martírio.

Porventura, pode o senhor compreender a situação de um homem, que tem desmaiada nos braços aquela por quem fora atraiçoado...? Não é bastante compreender isto: é necessário compenetrar-se mais da minha situação...

Marta iludira-me... ou iludira-se; Marta desprezara-me com cinismo indigno da sua idade; Marta escarnecera as loucuras que me sacrificaram a ela; Marta desmaiara, adivinhando a morte do meu rival... Compreende porventura agora o tormento indefinível da minha situação?... Não compreende, porque se eu lhe disser que naquele trance original o meu sentimento era a piedade... se eu lhe disser que dera a minha vida pela do rival assassinado, contanto que Marta não fosse assim desgraçada... o senhor, por certo, não concebe este fenômeno, este sacrifício... esta monstruosidade de resignação... Quem sabe!... A sociedade capitular-me-ia de imbecil, e o meu amigo, por muito favor, concedera-me a celebridade dos tolos inofensivos, não é assim?”

Não lhe respondi; mas aqui me puno, confessando que D. João me adivinhara. Corei, decerto, quando fui surpreendido no segredo dos meus juízos. Nada menos lisonjeiro que o meu silêncio para o pobre velho! Era decerto um pungente assentimento à sua conjectura! A dor é generosa, e cala as afrontas. Reconheço hoje que ultrajei aquele grande sacrifício, que compreendo agora. Se não receasse mesclar com a gravidade melancólica desta narrativa um anexim popular e graciosamente filosófico, diria que o diabo não quis nada com rapazes, e D. João de Noronha, de certo, não era mais privilegiado que Lúcifer para tirar de mim melhor partido.

D. João prosseguiu:

“A família de Marta veio encontrar-me, com ela nos braços. A mãe, que profetizara, em seus virtuosos pressentimentos, a desgraça da filha, apertou-a contra o seio, cobriu-a de lágrimas, e acordou-a daquele letargo, com aflitivos gemidos.

Marta abriu os olhos; mas nunca mais descerrou os lábios. Esperávamos ansiosos que a sua angústia respirasse pelas lágrimas. Não chorou uma só. Enquanto os sinos dobravam a finados pela alma dos dois amantes, Marta estremecia, mas não posso dizer-lhe como era aquele tremor... A corda de um instrumento ferida, e deixada ao impulso da vibração estremece assim.

No fim de três dias extinguiu-se o sofrimento, porque a vimos pender serenamente a cabeça nos braços de sua mãe. Felicitamo-nos pelo repouso da infeliz. Imaginamos que ela devia acordar mais tranquila, ou, pelo menos, mais desabafada daquela agonia que lhe sufocava não só os gemidos, mas até a respiração. Esperamos... Mas quem não esperava era o médico, que, ao retirar- se, deixou dito que não era Cristo para restituir a filha à viúva de Naim.

Estava morta, portanto... E morta sem balbuciar uma palavra! Como se morre assim? Dizem que a morte é a aniquilação da matéria... Mas aquele anjo morreu dentro em si, antes que os sintomas da destruição nos revelassem o rápido dilacerar daquela morte! Quem dirá que aquela mulher sofreu no corpo? Ninguém! A alma, só a alma, este ser imortal que foge do mundo, onde a vida do amor lhe falta; a alma, reconcentrada no seu mistério de dores inconcebíveis, relutando por estalar as algemas que a prendem ao cavalete do corpo... A alma, e só a alma, meu amigo, consumou aquele transe de inconfortável inferno, e passou ao mundo da penitência ou da glória...

Agora principia a minha cena nesta tragédia... É só minha, e só eu a compreendo...  Mas hei de contar-lha. Acompanhei à igreja de S. Francisco o cadáver de Marta. Fui o último que se retirou de ao pé da sepultura; e fui o primeiro que todos os dias, em três anos sucessivos, lhe ajoelhou na pedra que eu não queria fosse a nossa eterna separação.

Empreguei os meios para obrigar o coveiro a não tocar naquela sepultura durante três anos.

Findo este prazo, venci com dinheiro a repugnância do coveiro, e a pedra que cobria os ossos de Marta foi levantada.

Era meia noite, e perpassavam em redor de mim as larvas do terror, agitadas pelo lampejar trêmulo das lâmpadas, suspensas no altar do Santíssimo Sacramento.

O coveiro, afeito a lidar com os mortos, tremia, e largava maquinalmente a enxada com que afastava as camadas da terra.

Não posso dizer-lhe até que ponto fui enganado pelas larvas que a desvairada fantasia, ou a misteriosa realidade revocou em volta de mim... Estou quase jurando-lhe que a vi... a ela... como nos dias da sua esplendida formosura iluminada pelo resplendor da sua inocência, purpureada do pejo com que a candura se rende ao império dos instintos... Era ela, quando, nos primeiros tempos da nossa infância, me oferecia de seu coração a parte que não podia dar a sua mãe, e a seus irmãos... Era ela, quando me perguntava o segredo daquela atração irresistível, que a arrastava para mim, que a entristecia sem motivo, que a fazia ambicionar uma riqueza imaginária, que a fazia sonhar umas delícias que sua mãe lhe não explicava nem realizava com os seus carinhos... Foi assim que eu a vi, enquanto o eco da enxada, que feria o seio da sepultura, reboava nas naves da igreja... Gelava-se-me de terror o pensamento... A fantasia esfriava-se ao roçar pela mortalha daqueles ossos, e eu sentia-me morto em metade da vida, quando a terra sacudida da enxada me vinha cair aos pés.

E depois... as larvas, que a razão não podia espavorir, tornavam a cingir-se com os pilares da nave, a pendurar-se nas grades do coro, a tremularem por entre os cortinados dos altares, e a esvoaçarem na abóbada do templo como nuvens escuras, espedaçadas pela tempestade.

Erguera-se do túmulo para ajoelhar, a meus pés... Tinha a face lacerada pelos vermes. E era bela ainda... Devo ser sincero, meu amigo... É impossível que a imaginação me mentisse... Ouvi-lhe a sua voz... senti o frio das suas mãos... ergui-a de meus pés... perdoei-lhe... chorei com ela...

A voz de um homem chamou a minha alma à realidade acerba daquela cena, que se me figurava um sacrilégio, uma profanação.

Era o coveiro, que me dizia: “a enxada já topou com os ossos.”

Esta nova, comunicada friamente pelo coveiro, alvoroçou-me, e coou-me nas veias não sei que terror semelhante ao do sacrílego, que não tem ainda bastante barbarizada a alma pelo crime, e vacila, horrorizado de si próprio, quando atira ao pavimento do altar as hóstias contidas no cálix, que rouba.

Aqueles ossos, aquele meu tesouro, ambicionado há três anos, tinham agora para mim uma superstição, um cunho sagrado, que me fazia na alma não sei que pesar semelhante ao remorso.

Cheguei ainda a proferir a primeira palavra do coração, que se arrependera. Quis deixar intactas aquelas cinzas. Lutei comigo para vencer um excesso de medo, um abuso, talvez, da imaginação. Não pude; mas não pude também retirar-me sem uma relíquia, um ser sem alma, uma recordação para as lágrimas, e uma glória só minha neste mundo... A glória de possuir na morte uma companhia que tivesse sido incentivo de lágrimas, já que não pude conseguir como companheira na vida essa preciosa existência, que me espera há sessenta e seis anos na eternidade.

Eis aqui a relíquia, a testemunha imóvel, terrível, e silenciosa dos longos sofrimentos de um homem, que atravessou uma longa existência, sem conciliar com os prazeres do mundo a eterna viuvez da sua alma!

Eis aqui a caveira de Marta que eu revisto a cada instante das feições com que a vi partir deste mundo. Há ali naquelas órbitas uns olhos que me veem... Olhos mais penetrantes que os da vida, porque, nos sonhos angustiosos desta paixão desastrada, eu vejo sempre esta caveira, animada umas vezes do gracioso riso da inocência, outras vezes das contorções frenéticas da desesperação... Há ali naqueles ossos, onde os lábios articulavam hinos dos anjos, uns lábios que, a cada instante, me balbuciam um perdão... E tenho momentos de inferno nas minhas dolorosas contemplações, aqui diante desta redoma... Às vezes juraria que essa caveira estremece em convulsões rancorosas contra mim, balbuciando o nome do homem, que a levou consigo à sepultura!... Então... sinto-me demente, porque tenho ciúmes do nada... ciúmes destas cinzas esquecidas no mundo... ciúmes da memória doutras cinzas, que, há três quartos de século, esperam o dia final... É lamentável a situação deste pobre velho, que não pôde roubar-se a uma agonia, das que o mundo reputa quimeras, não é assim?

Deixe-me agora dizer-lhe o meu segredo, que esse ainda eu lho não disse, nem lho diria, se lhe não acreditasse umas lágrimas que lhe vejo nos olhos.

Eu creio em Deus, como creio na vida. Creio na vida como creio na dor. O que eu não creio é na morte. A morte é uma palavra convencional, com que os homens explicam a passagem de sobre a terra para o seio de uma nova existência. A imortalidade é uma ideia abstrata de tudo que é compreensível aos homens. O homem não explica a imortalidade, enquanto não sobe um grau na escala dos seres inteligentes. Veja se me compreende... Há uma escala de seres que principia na matéria bruta, e termina nos espíritos. As funções do espírito, sem formas corpóreas, pertencem à criatura, superior ao homem. Ora, o homem não explica essas funções, que devem ser a sua futura existência, pela mesma razão que o animal, inferior ao homem, não compreende as funções do pensamento aperfeiçoadas, mas não perfeitas, no homem. Todos os seres, portanto, vão subindo na escala da inteligência. Todos se transfiguram de forma em forma até deixarem na terra o invólucro da matéria, e vagarem nos espaços incógnitos como vagam os espíritos. É lá em cima, nas proximidades do grande mistério, ao clarão da eterna luz, que se lê o livro de Deus. É nas regiões, que a minha alma adivinha, que eu devo sentir pelo órgão espiritual em que recebi a interminável impressão de agonia, que foi na terra a minha lenta peregrinação. O amor ardente e sublime não é um atributo do espírito? Aquele que muito ama, e muito devorado morre de paixões grandes e ideais, não é um profeta da vida futura, uma preexistência do futuro amor? A não ser o amor, qual será a existência do espírito?

Conheço que o fatiguei... Pois, em verdade, lhe digo que quis elevar o seu espírito à altura das minhas grandes doutrinas, do meu querido segredo. Quis convencê-lo, não digo bem, quis entusiasmá-lo por essa eternidade em que aí se fala, despida de afetos, de poesia, de esperanças, e... deixe-me dizer-lhe... indigna de Deus e dos homens...

Meu amigo, há na minha vida um oásis. Tenho exaltações de júbilo, aqui, neste quarto, onde conto, há perto de setenta anos, os minutos da minha existência. Este gozo é a minha convicção na imortalidade... É a minha esperança, confirmada pela meditação e pela ciência, de que hei de encontrar essa alma, que tem vindo aqui revelar-me os segredos do céu...

Basta... Seja digno da minha confidência... Não diga às turbas de Vila Real os segredos de D. João de Noronha. Aqui escarnecem-se os que sofrem, logo que não sofrem pelas más colheitas do vinho, ou pela barateza dos cereais. Não fale a linguagem dos espíritos, onde a matéria organizada dispõe do maquinismo da boca para lhe dar uma gargalhada em resposta.”

D. João de Noronha despediu-me.

Desde esse dia foram mais da alma e da inteligência as nossas comunicações. Aprendi com ele a ciência do espiritualismo. Se depois me materializei, é porque a faísca daquele gênio não me tinha abrasado mais que a superfície da matéria. O espírito tem a força dos imponderáveis. A força da matéria pode muito bem calcular-se pela força dos vapores... tantos cavalos.

Pergunta-me uma senhora de crítica muito fina:

– Como se explica o casamento de D. João de Noronha aos 86 anos de idade, com uma donzela sua contemporânea?!

– De uma maneira muito simples. As núpcias de D. João não podem considerar-se físicas nem morais. “Absurdo! – replica a espirituosa dama.” Está enganada, minha senhora. D. João tinha uma pequena fortuna, e queria deixá-la a uma criada, que o servira desveladamente toda a sua vida. D. João encarava filosoficamente as fórmulas sacramentais do casamento. Achava-o utilíssimo como carimbo de contrato civil. Casou-se para recompensar uma criada que lhe consolou muitas lágrimas, e lhe enxugou nas faces mortas as últimas que ele chorou. Era digna do sacrifício. Poucos dias suportou a viuvez.

– E a caveira? – perguntou ainda a amável síndica dos meus romances.

– A caveira deve estar confundida nos ossos de D. João de Noronha. A viúva cumpriu religiosamente as suas ordens: envolveu-a na mesma mortalha.

 

Imagem: Paulo Soriano

 

 

 

 


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