O LOBO - Guy de Maupassant - Conto Clássico de Horror


O LOBO

Guy de Maupassant

(1850 – 1893)

Tradução de Paulo Soriano

 

 

Eis o que nos narrou o velho Marquês d’Arville, ao fim de um jantar em Saint-Hubert, na casa do Barão de Ravels.

Havíamos caçado um cervo durante o dia. O marquês era o único hóspede que não havia participado da caçada, porquanto jamais o fazia.

Durante toda a longa refeição, somente se falara do abate de amimais. Até mesmo as mulheres se interessavam pelas histórias sangrentas e muitas vezes inverossímeis. E os narradores gesticulavam, reproduzindo os ataques e combates dos homens contra os animais. Levantavam os braços e narravam os fatos com vozes trovejantes.

O Sr. d’Arville falava bem, com alguma poesia enfática, repleta de efeitos. Deveria ter repetido muitas vezes a mesma história, pois a contava fluentemente, sem qualquer hesitação nas palavras habilmente escolhidas para representar as imagens.

— Senhores, eu nunca cacei. Nem meu pai, o meu avô ou o meu bisavô. Este último era filho de um homem que caçou mais que todos vocês juntos. Ele morreu em 1764. Eu lhes direi como foi.

Seu nome era Jean, era casado, pai dessa criança que era o meu bisavô, e morava com o seu irmão mais novo, François d’Arville, em nosso castelo na floresta de Lorraine.

Françoise D’Arville permanecera solteiro por amor à caça.

Eles caçavam o ano inteiro, sem descanso, sem interrupção, sem cansaço. Amavam apenas isso, nada sabiam além da caça, só dela falavam e somente para ela eles viviam.

Tinham no coração essa terrível e inexorável paixão, que os consumia, invadia-os completamente, não deixando espaço para mais nada.

Haviam proibido que os perturbassem durante a caça, fosse qual fosse o motivo. Meu bisavô nasceu quando o pai perseguia uma raposa, e Jean d’Arville não interrompeu a sua corrida, praguejando:

— Diabos! Este patife bem poderia ter esperado pelo toque de vitória depois de acuado o animal!

O seu irmão François exibia-se ainda mais empolgado que ele. Assim que se levantava, ia ver os cães, depois os cavalos e, em seguida, atirava nas aves que voavam ao redor do castelo até o instante em que deveria partir para caçar um animal de porte.

Eram chamados na região de Sr. Marquês e Sr. Caçula, porquanto os nobres daquela época não eram como os de nossos dias, que pretendem estabelecer os títulos nobiliárquicos em hierarquia descendente; mas o filho de marquês não é conde, e nem o filho de um visconde é barão, da mesma forma que o filho de um general não é coronel por nascimento. Mas a vaidade mesquinha de nossos tempos tira proveito desse arranjo.

Mas volto aos meus antepassados.

Ao que consta, eram eles extremamente altos, ossudos, cabeludos, violentos e vigorosos. O caçula, ainda mais alto que o irmão, tinha uma voz tão poderosa que, segundo uma lenda da qual ele se orgulhava, todas as folhas da floresta se agitavam quando ele gritava.

E quando montavam nas selas para irem à caça, deveria ser um soberbo espetáculo contemplar esses dois gigantes cavalgando em seus grandes cavalos.

Ora, em meados do inverno desse ano de 1764, o frio era excessivo e os lobos tornaram-se ferozes.

Eles atacavam os camponeses retardatários, rondavam à noite em torno das casas, uivavam ao pôr e ao nascer do sol e deixavam os estábulos despovoados.

E logo circulou um rumor. Falava-se de um colossal lobo de pelo cinza, quase branco, que havia comido duas crianças, devorado o braço de uma mulher, estrangulado todos os cães de guarda da região e que penetrava nos campos cercados para farejar sob as portas. Todos os moradores disseram ter sentido o seu hálito, que fazia tremer as chamas das velas. E logo o pânico grassou toda a província. Ninguém mais ousava sair de casa depois do crepúsculo. As trevas pareciam povoadas da imagem da besta.

Os irmãos d’Arville resolveram encontrar e matar o animal, e convidaram os senhores da região para uma grande caçada.

Foi em vão. Por mais que percorressem as florestas e esmiuçassem as matas, nunca o encontravam. Mataram outros, mas não aquele lobo. E toda as noites, após a caçada, o animal, como que por vingança, atacava algum viajante ou devorava algumas reses, e sempre em locais bens distantes daquele em que o haviam procurado.

Por fim, numa noite, ele entrou no celeiro de porcos do castelo de Arville e comeu os dois mais cevados.

Os dois irmãos ficaram inflamados de ódio, considerando esse ataque como uma bravata do monstro, um insulto direto, um desafio. Eles reuniram todos os seus sabujos, fortes e habituados a perseguir feras formidáveis, e encetaram a caçada com o coração repleto de cólera.

Desde o amanhecer à hora em que o sol carmesim se pôs atrás das árvores nuas, eles percorreram os bosques, sem nada encontrar.

Os dois, enfim, furiosos e desolados, regressaram, aos passos de seus cavalos, por uma vereda orlada de silvas, admirados de sua ciência ter sido burlada pelo lobo, e tomados por uma espécie de temor misterioso.

O mais velho disse:

—Esse animal não é comum. Parece que ele pensa como um homem.

O mais jovem respondeu:

— Talvez devêssemos mandar benzer uma bala pelo nosso primo bispo ou rogar a um padre que pronuncie as palavras adequadas.

Então, ficaram em silêncio.

Jean continuou:

— Olhe para o sol. Veja como está vermelho. O grande lobo irá causar algum infortúnio esta noite.

Ele mal tinha acabado de falar quando o seu cavalo empinou e o de Françoise começou a escoicear. Uma grande touceira forrada de folhas mortas abriu-se à frente deles e um colossal animal, todo cinza, surgiu e fugiu através da floresta.

Ambos soltaram uma espécie de grunhido de alegria e, inclinando-se sobre o pescoço de seus pesados cavalos, lançaram-nos para frente com um impulso de todo o corpo, impondo-lhes um tal ritmo acelerado — excitando-os, incitando-os, enlouquecendo-os com a voz, os gestos e as esporas — que os fortes cavaleiros pareciam conduzir os pesados animais com as coxas, como se estivessem voando.

Iam, portanto, a toda velocidade, atravessando a mata, cortando as ravinas, galgando as encostas, descendo as gargantas e tocando a trompa com os plenos pulmões para atrair suas gentes e seus cães. E, de repente, nesta corrida frenética, o meu antepassado bateu com a cabeça num enorme galho que lhe rachou o crânio. E caiu morto no chão, enquanto o seu cavalo fugia em pânico, desaparecendo na escuridão que envolvia a floresta.

O mais jovem dos Arville parou prestamente, saltou ao chão, tomou o irmão nos braços e viu que o cérebro fluía da ferida, juntamente com o sangue.

Então se sentou ao lado do corpo, repousou a cabeça vermelha e desfigurada sobre os joelhos e esperou, contemplando a face imóvel do irmão mais velho. Paulatinamente, o temor o invadia, um medo singular, que jamais sentira antes: o medo da escuridão, o medo da solidão, o medo da floresta desolada e também o medo do fantástico lobo que acabara de matar seu irmão por pura vingança.

As trevas adensavam, o agudo frio fazia ranger as árvores. Françoise se levantou, tremendo, incapaz de permanecer ali por mais tempo, sentindo-se quase a desmaiar. Nada mais se ouvia, nem a voz dos cães, nem o som das trompas. Tudo estava silencioso no horizonte invisível. E esse tépido silêncio da noite fria tinha algo de assustador e estranho.

Então tomou em suas mãos enormes o corpanzil de Jean e colocou-o na sela para levá-lo ao castelo. Depois, pôs-se lentamente a caminho, com a mente perturbada, como se estivesse embriagado, perseguido por imagens terríveis e surpreendentes.

De repente, no caminho que a noite começava a invadir, passou um grande vulto. Era a fera. Um choque de pavor sacudiu o caçador. Algo frio, como uma gota d’água, deslizou ao longo de seus rins e ele, como um monge atormentado pelo diabo, fez um grande sinal da cruz, perturbado pelo repentino retorno do vagamundo assustador. Mas seus olhos caíram sobre o corpo sem vida deitado à sua frente e, de súbito, passando abruptamente do medo à cólera, estremeceu, dominado por uma ira descontrolada.

Esporeou, então, o cavalo e arremeteu contra o lobo.

Ele o perseguiu pelas matas, ravinas e bosques, atravessando a floresta que já não reconhecia, os olhos fixos na mancha branca que fugia na noite a descer sobre a terra.

Seu cavalo parecia também animado por uma força e um ardor desconhecidos. Avante, ele galopava de pescoço esticado, batendo nas árvores e nas rochas, com a cabeça e os pés do morto atravessado na sela. As silvas arranhavam-lhe os pelos. A testa, chocando-se com os troncos enormes, borrifava o sangue nos galhos. As esporas extraíam pedaços de casca das árvores.

E, de repente, o animal e o cavaleiro saíram da floresta a toda carreira, mergulhando num pequeno vale, no momento em que a lua surgia sobre os morros. Era um vale pedregoso, fechado por enormes rochas, sem saída possível. E o lobo, encurralado, virou-se para ele.

Então Françoise emitiu um brado de alegria, que os ecos repetiram como o estrondo de um trovão. Ele saltou do cavalo com a faca na mão.

A fera, eriçada, de costado arqueado, aguardava-o. Seus olhos reluziam como duas estrelas. Mas, antes de lançar-se ao combate, o forte caçador, tomando o irmão, sentou-o numa rocha e, firmando nas pedras a cabeça que não era senão uma mancha de sangue, gritou-lhe aos ouvidos, como se falasse com um surdo:

— Jean, olhe! Veja isto!

Em seguida, ele se lançou contra a fera. Sentia-se suficientemente forte para derrubar uma montanha e esmigalhar pedras com as mãos. A fera tentou mordê-lo, buscando cravar os dentes em seu ventre. Mas ele a tinha agarrado pelo pescoço, mesmo sem o emprego de armas, e a estrangulava lentamente, ouvindo cessar a respiração na garganta e as batidas do coração. Ele ria, num desfrute desvairado, aumentando cada vez mais a pressão sufocante, gritando num delírio de alegria:

— Olhe, Jean! Olhe!

Toda resistência do animal cessou. O corpo do lobo tornou-se flácido. Estava morto.

Então Françoise tomou-o nos braços, carregou-o e o depôs aos pés do morto, a repetir, com a voz emocionada:

— Olhe, olhe, olhe, meu pequeno Jean! Ei-lo aqui!

Então colocou sobre a sela os cadáveres, um sobre o outro, e retomou o caminho.

E retornou ao castelo, rindo e chorando, como Gargântua no nascimento de Pantagruel[1], dando gritos de triunfo e pulando de alegria ao narrar a morte do animal, e gemendo e arrancando as barbas, ao narrar a do irmão.

E muitas vezes, mais tarde, quando se lembrava desse dia, proclamava, com lágrimas nos olhos:

— Se pelo menos Jean tivesse me visto a estrangular o outro, tenho certeza que teria morrido feliz.

A viúva de meu antepassado incutiu no seu filho órfão o horror pela caça, que se transmitiu de pai para filho, até chegar a mim.

O Marquês d’Arville se calou. Alguém perguntou:

— Essa história é uma lenda, não?

O narrador respondeu:

— Eu lhes juro que é de todo verdadeira.

Então disse uma mulher, com uma vozinha suave:

— Dá no mesmo: é bom ter semelhantes paixões.


 



[1] Personagens de Rebelais no romance Les horribles et épouvantables faits et prouesses du très renommé Pantagruel Roi des Dipsodes, fils du Grand Géant Gargantua ("Os horríveis e apavorantes feitos e proezas do mui renomado Pantagruel, rei dos dipsodos, filho do grande gigante Gargântua"). A mãe de Pentagruel, filho de Gargântua, faleceu ao dar à luz ao filho.

 


 

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