O SINAL - Conto Clássico Trágico - Vsevolod Garshin


 

O SINAL

Vsevolod Garshin

(1855 – 1888)

 

Semyon Ivanov era um operário de ferrovia. Sua cabana ficava a dez verstas de uma estação ferroviária, numa direção, e a doze verstas na outra. Havia, a cerca de quatro verstas dali, a uma fábrica de algodão, inaugurada no ano anterior, cuja alta chaminé erigia-se, sombria, por detrás da floresta. As únicas moradias ao redor eram as cabanas distantes de outros operários.

A saúde de Semyon Ivanov estava completamente abalada. Nove anos atrás, servira, durante a guerra inteira, como servo de um oficial. O sol o assara, o frio o congelara e a fome o consumia nas marchas forçadas — de quarenta e cinquenta verstas por dia —, submetido ao calor e ao frio, à chuva e ao sol. As balas zuniram sobre ele, mas — graças a Deus! — jamais um inimigo o alvejou.

O regimento de Semyon já esteve na linha de fogo. Durante uma semana inteira houve escaramuças com os turcos, e apenas uma profunda ravina separava os exércitos inimigos. Da manhã à noite, havia um constante fogo cruzado. Três vezes ao dia, da cozinha do acampamento à ravina, Semyon levava um samovar fumegante e as refeições de seu oficial. As balas zumbiam ao seu redor e esmigalhavam-se ferozmente contra as rochas. Semyon ficava apavorado e, às vezes, chorava, mas não desistiu. Os oficiais estavam sempre satisfeitos, porque Semyon ele sempre lhes mantinha o chá pronto e quente.

Ele voltou da campanha com os membros intactos, mas padecia de reumatismo. Desde então, não era pouca a sua tristeza. Ao voltar para casa, descobriu que seu pai, um homem idoso, e seu filhinho, de apenas quatro anos, haviam morrido. Semyon permaneceu sozinho com sua esposa. Eles não podiam fazer muita coisa. Era difícil arar com braços e pernas reumáticos. Já não mais podiam ficar naquela aldeia. Propuseram-se, pois, buscar a sorte em novos lugares. Eles permaneceram por pouco tempo em Kherson e Donshchina, mas em lugar algum tiveram sorte. Então, a esposa fez-se serviçal e Semyon continuou a viajar. Certa feita, tomou um trem. Numa das paradas, o chefe da estação lhe pareceu familiar. Olharam-se e se reconheceram.

—Você é Ivanov? — disse o chefe.

—Sim, senhor.

— Como você veio parar aqui?

Semyon contou-lhe tudo.

— Para onde está indo?

— Não posso lhe dizer, senhor.

— Tolo! O que você quer dizer com 'não posso te dizer?'

— Eu quero dizer o que já estou dizendo. Não há nenhum lugar para onde eu possa ir. Devo procurar trabalho, senhor.

O chefe da estação olhou-o, pensou um pouco e disse:

—Veja bem, amigo. Fique aqui um pouco, na estação. Você é casado, eu acho. Onde está sua esposa?

—Sim, senhor, eu sou casado. Minha esposa está em Kursk, a serviço de um comerciante.

— Bem, escreva para sua esposa e diga-lhe par para vir. Darei a ela um passe livre. Há uma vaga de operário. Falarei com o chefe em seu nome.

— Fico grato ao senhor! — respondeu Semyon.

Semyon ficava na estação, ajudava na cozinha, cortava lenha, limpava o jardim e varria a plataforma. Quinze dias depois, chegou-lhe a mulher e Semyon foi num carrinho de trilho para a cabana. Esta era nova e aquecida, com tanta lenha quanto poderia pretender. Havia uma pequena horta — legado dos antigos moradores — e, de cada lado do aterro da ferrovia, cerca de meio dessiatin de terra arada. Semyon ficou feliz. Começou a pensar em plantar alguma coisa e comprar uma vaca e um cavalo.

Semyon recebeu todos os utensílios necessários — uma bandeira verde, uma bandeira vermelha, algumas lanternas, uma buzina, um martelo, uma chave de fenda para as porcas, um pé de cabra, pás, vassouras, parafusos e pregos; deram-lhe dois volumes contendo os regulamentos e os horário dos trens. A princípio, Semyon não conseguia dormir à noite, decorando todos os horários. Duas horas antes da chegada do trem, ele saía da cabana, sentava-se no banco e verificava se os trilhos tremiam ou se ouvia o barulho do trem. Até mesmo aprendeu o regulamento de cor, embora apenas pudesse ler soletrando palavra por palavra.

Era verão. O trabalho não era pesado: não havia neve para remover e os trens, naquela linha, não eram tão frequentes. Semyon costumava repassar o terreno duas vezes por dia, examinar e desaparafusar as aqui e ali, manter o leito dos trilhos nivelado, olhar os encanamentos de água e, depois, cuidar de seus próprios assuntos em casa. Só havia uma desvantagem: ele sempre precisava da permissão do inspetor para a mínima coisa que quisesse fazer. Semyon e sua esposa estavam, até, começando a ficar entediados.

Dois meses decorreram e Semyon se pôs a conhecer os vizinhos, os operários de ambos os lados. Um deles era um homem muito velho, a quem as autoridades sempre pretendiam socorrer. Quase não saía da cabana. Sua esposa costumava fazer todo o seu serviço. O outro empregado, que morava mais perto da estação, era um homem jovem e magro — malgrado musculoso. Ele e Semyon se encontraram pela primeira vez na linha intermediária entre as cabanas. Semyon tirou o chapéu e fez uma reverência:

—Boa saúde para você, vizinho — disse ele.

O vizinho olhou-o de soslaio.

—Como vai? — respondeu; depois, virou-se e partiu.

Mais tarde, as esposas se conheceram. A esposa de Semyon passava o dia com a vizinha, mas ela, também, era de poucas palavras.

Em certa ocasião, Semyon disse à vizinha:

— Minha jovem, o seu marido não fala muito.

A princípio, a mulher nada disse. Depois, depois respondeu:

— Mas o que tem ele para falar? Cada um tem seu próprio negócio. Siga seu caminho, e que Deus esteja com você.

No entanto, depois de mais ou menos um mês, eles deveras se conheceram. Semyon ia com Vasily ao longo dos trilhos, punha o cachimbo na boca, fumava e falava sobre as coisas da vida. Vasily, na maior parte do tempo, mantinha-se em silêncio, enquanto Semyon discorria sobre sua aldeia e sobre a guerra pela qual havia passado.

— Não tive pouca tristeza na vida — dizia ele. — E Deus sabe que não vivi muito. Deus não me deu felicidade. Ofereça-me ele o que lhe aprouver... que assim seja! Isso mesmo, amigo Vasily Stepanych.

Vasily Stepanych entronou as cinzas de seu cachimbo no trilho, levantou-se e disse:

— Não é a sorte que nos segue na vida, mas os seres humanos. Não há fera mais cruel, nesta terra, do que o homem. O lobo não come o lobo, mas o homem devora, prontamente, outro homem.

— Vamos, amigo, não diga isso: lobo come lobo.

—As palavras vieram à minha mente e eu disse o que disse. Mesmo assim, nada há de mais cruel do que o homem. Se não fosse por sua maldade e ganância, viver seria possível. Todo mundo tenta roer-lhe até o sabugo; morder-lhe e devorá-lo.

Semyon ponderou um pouco.

— Eu não sei, irmão — disse ele. — Talvez seja assim; talvez seja a vontade de Deus.

— E talvez — disse Vasily — seja perda de tempo falar como você fala. Pôr às costas de Deus tudo o que é desagradável, sentar-se e sofrer significa, irmão, não ser um homem, mas um animal. É isso que tenho a dizer.

 E, sem se despedir, virou-se e foi embora.

Semyon também se levantou.

— Vizinho — disse — por que perde a paciência?

Mas o vizinho não olhou para trás e continuou o seu caminho.

Semyon olhou-o até que Vasily desapareceu numa curva. Então, foi para casa e disse à esposa:

—Arina, nosso vizinho é um ente perverso, não um homem.

No entanto, os homens não brigaram. Encontraram-se novamente e discutiram os mesmos tópicos.

—Tudo bem, se não fosse pelos homens, não estaríamos enfurnados nessas cabanas — disse Vasily, em uma ocasião.

— E se estivermos enfurnados em cabanas, o que há demais? Não é assim tão ruim. Você bem pode viver nelas.

— Sim, viver nelas! Bah! Ora, você viveu muito, mas aprendeu pouco; olhou muito, mas pouco viu. Que tipo de vida existe para um homem pobre, enfurnado numa cabana aqui ou ali? Os canibais o estão devorando. Eles estão sugando todo o seu sangue vital e, quando você envelhecer, eles o jogarão fora, da mesma forma que fazem com as cascas para alimentar os porcos. Que salário você recebe?

— Não muito, Vasily Stepanych: doze rublos.

— E eu, treze rublos e meio. Porquê? Pelos regulamentos, a empresa deveria nos dar quinze rublos por mês, com combustível e iluminação. Quem decide que você deve ter doze rublos, ou eu treze e meio? Pergunte a si mesmo! E você me diz que um homem pode viver com isto? Você entende que não se trata de um rublo e meio ou três rublos, mesmo que eles paguem quinze rublos a cada um de nós. Eu estive na estação, no mês passado. O diretor passou por lá. Eu o vi. Tive essa honra. Ele tinha um vagão privativo. Saiu e ficou na plataforma... Não ficarei aqui por muito tempo. Irei a algum lugar, a qualquer lugar... Devo seguir o meu faro.

— Mas aonde você vai, Stepanych? Pense bem. Aqui você tem casa, aconchego, um pedacinho de terra. Sua esposa é uma mulher trabalhadeira.

 — Pedacinho de terra! Você deveria olhar para o meu pedaço de terra. Não há um só galho nele — nada! Plantei alguns couves na primavera, justamente quando o inspetor apareceu. Ele disse-me: 'O que é isso? Por que você não relatou isso? Por que você fez isso sem permissão? Desenterre-os, com raízes e tudo. Ele estava bêbado. Noutra ocasião, ele não teria dito uma palavra, mas, desta vez, sentiu-se incomodado. Três bons rublos!

Vasily ficou em silêncio por um tempo, puxando seu cachimbo. Depois, acrescentou, baixinho:

— Um pouco mais e o que eu não faria com ele?!

—Você é temperamental.

— Não, eu não sou temperamental. Apenas digo a verdade e o que penso. Sim, ele ainda vai ficar com o nariz sangrando por minha causa. Vou reclamar com o chefe. Veremos, então!

E Vasily reclamou com o chefe.

Certa vez, o chefe veio vistoriar a linha. Em três dias, pessoas importantes viriam de São Petersburgo e a cruzariam. Estavam fazendo uma inspeção; assim, antes da viagem, era necessário pôr tudo em ordem. O lastro foi colocado, o leito foi nivelado, os dormentes examinados cuidadosamente, pregos cravados, porcas aparafusadas, postes pintados. E ordens foram dadas para espalhar areia amarela nas passagens de nível. A mulher da cabana vizinha mandou o velho à erva daninha. Semyon trabalhou por uma semana inteira. Ele colocou tudo em ordem, consertou seu kaftan, limpou e poliu sua placa de latão até que ela brilhasse razoavelmente. Vasily também trabalhou duro. O chefe chegou em um carrinho, com quatro homens labutando nos cabos e alavancas, fazendo zumbir as seis rodas. O carrinho viajava a vinte verstas por hora, mas as rodas rangiam. Chegou à cabana de Semyon, que saiu correndo e fez o seu relato à maneira militar. Tudo parecia estar em conserto.

— Você está aqui há muito tempo? — perguntou o chefe.

— Desde 2 de maio, senhor.

—Tudo bem. Obrigado. E quem está na cabana nº 164?

— O inspetor de trânsito (ele estivera viajando com o chefe no carrinho) Vasily Spiridov — respondeu.

— Spiridov, Spiridov... Ah! Ele é o homem contra quem você fez uma anotação no ano passado?

— Sim.

— Bem, veremos Vasily Spiridov. Prossigam!

Os operários começaram a trabalhar e o carrinho partiu. Semyon observou e pensou:

— Haverá problemas entre eles e meu vizinho.

Cerca de duas horas depois, ele deu início à ronda. Viu alguém vindo da linha de corte. Algo branco. Semyon pôs-se a olhar com maior atenção. Era Vasily. Ele tinha uma vara na mão, um pequeno embrulho no ombro e seu rosto estava enrolado num lenço.

— Para onde você vai? — gritou Semyon.

Vasily chegou bem perto. Ele estava muito pálido, branco como giz, e tinha um olhar selvagem. Quase sufocando, ele murmurou:

—Para a cidade... Para Moscou... Para o escritório central.

— Escritório Central? Ah, você vai reclamar, eu suponho. Desista! Vasily Stepanych, esqueça.

— Não, amigo, eu não vou esquecer. É muito tarde. Veja! Ele me golpeou no rosto, tirou sangue. Enquanto eu viver, não esquecerei. Não vou deixar isto assim!

Semyon pegou-lhe a mão.

— Desista, Stepanych. Olhe que lhe dou bons conselhos. Assim, você não vai melhorar as coisas...

—Melhorar as coisas! Eu mesmo sei que não vou melhorar as coisas. Você estava certo sobre o destino. Para mim, seria melhor não o fazer... Mas é preciso defender o que é certo.

—Mas me diga: como isso aconteceu?

Como? Ele esmiuçou tudo! Desceu do carrinho, olhou para o interior da cabana. Eu sabia de antemão que ele seria rigoroso e por isso coloquei tudo em ordem. Ele estava saindo quando fiz minha reclamação. Imediatamente, ele gritou: 'Aqui vem um inquérito do governo e você faz uma reclamação sobre uma horta. Aqui estão chegando conselheiros particulares, e você me aborrece com couves!”. Eu perdi a paciência e disse algo, não muito, mas o ofendi, e ele me deu um tapa na cara. Fiquei inerte. Não fiz nada, como se o que ele fez estivesse perfeitamente bem. Eles partiram. Voltei a mim, lavei o rosto e fui embora.

—E a cabana?

—Minha esposa ficou lá. Ela cuidará das coisas. Não se preocupe com as estradas deles.

Vasily se levantou, recompondo-se.

—Adeus, Ivanov. Não sei se conseguirei alguém, no escritório, que me ouça.

— Com certeza você não vai andando...

— Tentarei, na estação, pegar um trem de carga e amanhã estarei em Moscou.

Os vizinhos se despediram. Vasily permaneceu ausente por algum tempo. Em seu lugar, a esposa trabalhara noite e dia. Ela nunca dormia e se cansava, esperando pelo marido. No terceiro dia, a comissão chegou. Uma locomotiva, um carro de bagagens e dois saloons de primeira classe; mas Vasily ainda estava longe. Semyon viu a esposa do companheiro no quarto dia. O rosto da mulher estava inchado de tanto chorar e seus olhos estavam vermelhos.

— Seu marido voltou? — perguntou. Mas a mulher apenas fez um gesto com as mãos e, sem dizer uma palavra, seguiu seu caminho.

Semyon aprendera, ainda garoto, a fazer flautas com uma espécie de junco. Ele costumava queimar o âmago do caule, fazer furos onde necessário, fixar um bocal em uma extremidade e afiná-la tão adequadamente que quase seria possível tocar, com ela, qualquer ária. Ele fez várias flautas em seu tempo livre e as enviou, por seus amigos, entre os freios de carga, para o bazar da cidade. Conseguiu dois copeques por cada um. No dia seguinte à visita da comissão, deixou a esposa em casa para apanhar o trem das seis e partiu para a floresta para cortar alguns gravetos. Foi até o final de seu terreno — neste ponto a linha fazia uma curva fechada —, desceu o aterro e chegou à floresta no sopé da montanha. A cerca de meia versta havia um grande pântano, e era ao seu redor que cresciam os esplêndidos juncos para as suas flautas. Cortou um feixe inteiro de talos e pôs-se de volta para casa. O Sol já estava baixo e, naquela mortal quietude, somente o gorjeio dos pássaros e o crepitar da madeira morta, sob seus pés, eram audíveis. Enquanto caminhava rapidamente, imaginou ouvir o tilintar de ferro batendo em ferro e redobrou o passo. Não havia nenhum reparo acontecendo em sua seção. O que seria aquilo? Ele emergiu da floresta; o aterro ferroviário estava bem alto, diante dele. No topo, um homem estava agachado no leito da linha, ocupado com alguma coisa. Semyon começou a rastejar, silenciosamente, em sua direção. Pensou que era alguém atrás das porcas que seguravam os trilhos. Observado, viu que o homem se levantava, segurando um pé de cabra na mão. O homem havia afrouxado um trilho, movendo-o para um lado. Uma névoa flutuou diante dos olhos de Semyon. Quis gritar, mas não pôde. Era Vasily! Semyon subiu à margem, enquanto Vasily, com o pé de cabra e a chave inglesa, deslizava de ponta-cabeça para o outro lado.

—Vasily Stepanych! Meu querido amigo, volte! Dê-me o pé de cabra. Vamos colocar o trilho de volta. Ninguém saberá de nada! Volte! Salve sua alma do pecado!

Vasily não olhou para trás. Desapareceu na floresta.

Semyon estava diante do trilho que havia sido torcido. Jogou no chão seu feixe de gravetos. Um trem estava para chegar; não um cargueiro, mas um trem de passageiros. E Semyon não tinha nada para detê-lo, nem mesmo uma bandeira. Ele não conseguiu recolocar o trilho e nem cravar as pontas com as próprias mãos. Era necessário correr. Era absolutamente necessário correr até a cabana para apanhar algumas ferramentas.

— Deus me ajude! — murmurou.

Semyon se pôs a correr, tomando a direção da cabana. Já estava sem fôlego, mas ainda corria, caindo de vez em quando. Ele havia desbravado a floresta e estava a apenas algumas centenas de metros de sua cabana — não mais —, quando ouviu a sirene distante da fábrica: seis horas! Em dois minutos, o trem nº 7 chegaria.

—Oh, Senhor, tenha piedade das almas inocentes!

 Em sua mente, Semyon viu a locomotiva bater, contra o trilho solto, com sua roda esquerda, estremecer, despencar, rasgar e estilhaçar os dormentes — e bem ali havia uma curva e o aterro de 22 metros de altura, no qual a máquina iria tombar. E os vagões de terceira classe estariam lotados... criancinhas... Todos sentados no trem agora, nem de longe sonhando com o perigo.

—Oh, Senhor! Diga-me o que fazer!... Não... É impossível correr para a cabana e voltar a tempo.

Semyon não correu à cabana. Voltou e disparou, ainda mais rápido do que antes. Ia às cegas, quase mecanicamente. Ele mesmo não sabia o que iria acontecer. Então, correu até o trilho que havia sido puxado: os dormentes estavam amontoados. Ele se abaixou, pegou um deles, sem saber por quê, e correu mais longe. Parecia-lhe que o trem já estava chegando. Ouviu o apito distante e o tremor silencioso e regular dos trilho. Mas suas forças se esgotaram. Não mais conseguiu correr e parou a cerca de duzentos metros do tétrico lugar. Então, uma ideia iluminou-lhe o cérebro, literalmente como um raio de luz. Tirando o gorro, extraiu de dentro dele um lenço de algodão, puxou a faca do cano da bota e benzeu-se, murmurando:

— Que Deus me abençoe!

Então, enterrou a faca em seu braço esquerdo, acima do cotovelo. O sangue jorrou, fluindo numa corrente quente. Depois, ele encharcou o seu lenço, alisou-o, amarrou-o à chulipa e estendeu aquela bandeira vermelha.

E ficou, de pé, acenando com a sua bandeira. O trem já estava à vista. O maquinista não o veria — chegaria perto, e um trem pesado não pode ser parado em duzentos metros.

E o sangue continuava a fluir. Semyon pressionou as bordas da ferida para fechá-la, mas a torrente de sangue não diminuiu. Evidentemente, ele havia cortado o braço muito fundo. A cabeça começou-lhe a girar, manchas pretas puseram-se a dançar diante de seus olhos e, então, tudo escureceu. Havia-lhe um zumbido nos ouvidos. Ele não podia ver o trem ou ouvir-lhe o barulho. Apenas um pensamento o dominava: “Não vou conseguir ficar de pé. Vou cair e soltar a bandeira. O trem vai passar por cima de mim. Ajude-me, ó Senhor!

Depois, tudo escureceu. A sua mente esvaziou-se e ele deixou cair a bandeira. Mas a bandeira manchada de sangue não tombou ao chão. Uma mão a agarrou; e a segurou, bem alto, para alertar o trem que se aproximava. O maquinista a viu, fechou o regulador e inverteu o vapor. O trem parou.

As pessoas saltaram do vagão e formaram uma multidão. Viram um homem caído, sem sentidos, sobre os trilhos, encharcado de sangue. E viram outro homem, parado ao seu lado, com um pano manchado de sangue atado à chulipa.

Vasily olhou em volta. Depois, abaixando a cabeça, disse:

— Prendam-me! Fui eu quem descarrilou os trilhos!

 

Versão em português de Paulo Soriano a partir da tradução em inglês, de autor desconhecido, publicada em “Best Russian Short Stories”, de 1917.

 

 

Comentários

  1. Que autor extraordinário, Barão! Fui pesquisar em páginas em inglês sobre a vida dele! que vida sombria ele teve! Que ele esteja agora na luz, porque era um bom homem! E grande autor! embora só tenha 20 contos publicados, pelo que pesquisei. Ass. Roger

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