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Mostrando postagens de janeiro, 2026

SALOMÉ - Conto Clássico Cruel - Ítala Gomes Vaz de Carvalho

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SALOMÉ Ítala Gomes Vaz de Carvalho (1892 – 1948) A mocinha, linda, fez um gesto brusco 1 com a mão morena e as suas 2 aias retiraram-se. Quando se viu 3 só, levantou-se do divã em que ainda há pouco descansava, deliciosamente, sob a sensação agradável da massagem depois do banho perfumado e com as negras madeixas úmidas, sem enfiar as sandálias, foi de um salto até a sacada de mármore. O vasto pátio mergulhava nos tons do crepúsculo oriental; a sombra noite vinha subindo, aos poucos, as estrelas faiscavam 4 , ainda pálidas, no céu de violeta e um coro de galinhas 5 rompia o grande silêncio (...) 6 . Encostou 7 a cabecinha à ombreira da porta-janela e quedou-se imóvel, ouvindo. Era tão criança ainda! Os longos cabelos negros caiam-lhe soltos pelos ombros até os joelhos redondos e burilados, como se fossam de marfim polido. Tinha um perfil puríssimo. O queixo redondo, a boca pequena, o nariz reto e as órbitas profundas, cheias de mistério, de onde emergiam as pestanas longas ...

CRIMES E CONFISSÃO - Narrativa Clássica Cruel - Alexandre Dumas

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CRIMES E CONFISSÃO Alexandre Dumas (1802 – 1870) Tradução de Paulo Soriano PRIMEIRO CASO Dominicus Soto, um canonista muito famoso e grande teólogo, confessor de Carlos V, que participou das primeiras assembleias do Concílio de Trento, sob Paulo III, apresentou um caso referente a um homem que havia perdido um papel no qual escrevera os seus pecados. Sucedeu que tal papel caiu nas mãos de um juiz eclesiástico, que quis apresentar uma denúncia contra o autor com base em tal documento. Ora, esse juiz foi justamente punido por seu superior, ao fundamento de que a confissão é tão sagrada que tudo aquilo em que se consubstancia deve sepultar-se em eterno silêncio. Foi em virtude dessa proposição que se pronunciou o seguinte juízo, relatado no Tratado dos Confessores do célebre arcebispo português Rodrigo da Cunha. Um catalão, natural da cidade de Barcelona, ​​que fora condenado à morte por homicídio e declarou-se culpado, recusou-se a confessar quando chegou a hora da execuçã...

O FANTASMA BRANCO - Conto Clássico de Horror - Renato Schittler

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O FANTASMA BRANCO Renato Schittler (Séc. XX) Vaqueiro intrépido, arrojado, hábil, Mariano era, apesar disso, um sujeitinho medroso quando era preciso andar sozinho, à noite, por uma estrada erma e escura. Mesmo acompanhado, ainda ia transido de receios. Era mesmo de matar, aquela neurose. Falaram-lhe muito, em pequeno, sob qualquer pretexto, de peraltagem ou desobediência, sobre ente malignos e sobrenaturais — fantasmas, almas penadas, mulas sem cabeças, sacis… Cresceu assim, fez-se homem, sem perder nunca a fobia, a qual, aliás, se desenvolveu extraordinariamente. Agora, nem mesmo ouvir falar dessas coisas era capaz. Quando o Gugu, à noitinha, ateava o fogo fácil na lenha boa de queimar, para “esquentar o frio”, reunindo, em torno, os seus companheiros, Mariano, de longe, e só, contemplava aquilo, sem ânimo de se chegar. É que, geralmente, aquele Gugu sarado, no meio da conversa, contava as suas historias medonhas, cujos personagens ruins eram sempre sobrenaturais. Caçoavam: ...

O LENHADOR - Conto Clássico Fantástico - Coelho Neto

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O LENHADOR (Apólogo) Coelho Neto Ainda escuro, com as estrelas vivas no céu, lá saía o lenhador a caminho da floresta. Machado ao ombro, marmita à ilharga, lá ia ele para a faina diária de abater os troncos. Fosse o inverno rigoroso, de gelar, ou abrasasse o sol, o homem não se ressentia. Robusto e ambicioso, mal o galo cantava punha-se de pé e, sem mesmo volver os olhos para o pequenino filho, que dormia num berço de vime, saía apressado, sempre receoso de chegar tarde, como se as pobres árvores, que o seu cortante machado detorava, pudessem fugir, como fugiam os animais ariscos, mal lhe sentiam os passos nas folhas secas do bosque. A casa ficava entregue à mulher, que preparava a alimentação, cuidava dos demais deveres domésticos e ainda, apesar de fraca e enfermiça, fazia renda que ia vender à cidade. Era o marido com os pesados carros de lenha e ela com o cestinho cheio de lindas rendas. Os que a viam, tão pálida e tão magra, sempre a tossir, lastimavam-na: “Pobre ...