O FANTASMA BRANCO - Conto Clássico de Horror - Renato Schittler

O FANTASMA BRANCO

Renato Schittler

(Séc. XX)



Vaqueiro intrépido, arrojado, hábil, Mariano era, apesar disso, um sujeitinho medroso quando era preciso andar sozinho, à noite, por uma estrada erma e escura. Mesmo acompanhado, ainda ia transido de receios. Era mesmo de matar, aquela neurose.

Falaram-lhe muito, em pequeno, sob qualquer pretexto, de peraltagem ou desobediência, sobre ente malignos e sobrenaturais — fantasmas, almas penadas, mulas sem cabeças, sacis… Cresceu assim, fez-se homem, sem perder nunca a fobia, a qual, aliás, se desenvolveu extraordinariamente. Agora, nem mesmo ouvir falar dessas coisas era capaz. Quando o Gugu, à noitinha, ateava o fogo fácil na lenha boa de queimar, para “esquentar o frio”, reunindo, em torno, os seus companheiros, Mariano, de longe, e só, contemplava aquilo, sem ânimo de se chegar. É que, geralmente, aquele Gugu sarado, no meio da conversa, contava as suas historias medonhas, cujos personagens ruins eram sempre sobrenaturais.

Caçoavam:

Mariano, por que é que você não bota umas saias?

Havia tempo que a noite se fechara inteiramente, entranhando-se por todos os ocos sem iluminação. Mariano estava insone. Mas não de medo. Era de raiva, de indignação. Já estava aborrecido com o fato de ser o motivo para tanto ditos espezinhantes devido àquela sua fraqueza.

Sem ter pregado as pestanas, pela madrugada Mariano correu para o campo, e veio, de lá, com uma abóbora redonda e ainda verde, remoendo tenções sádicas que lhe ardiam no cérebro cheio de ideias de vingança. E, mal a noite se debruçava pesadamente sobre tudo, confundindo a coisas num mimetismo extraordinário, o caboclo foi à beira do caminho que terminava lá longe, no arraial, dali a quatro quilômetros. Pegou na abóbora na qual havia feito uns cortes — os dois furos dos olhos, o nariz cavado, e a boca com alguns dentes —, e pô-la à beira do caminho, entre o mato, mas bem visível. Acendeu dentro do oco da abóbora um toco de vela e espiou satisfeito a sua arte diabólica. Estava perfeita! Com o vento, a luz tremia lá dentro, e dava, mais ainda, à abóbora, uma autêntica aparência de mistério e de sobrenatural.

Meio à distância, escondido no mato, Mariano ficou aguardando chegada de Gugu, que havia ido ao arraial fazer umas compras. Sem demora, ele passaria por ali. Mariano queria vingar-se, fazendo medo aos outros. Gugu iria passar por um susto tremendo. Sairia correndo, aos gritos, assim que desse com a coisa tremeluzindo terrível, ali na escuridão. E, no outro dia, contaria a todos, orgulhoso, a sua façanha sensacional, provando, com ela, que, além dele, havia, também, na fazenda Soledade, e em toda a parte, gente que temesse essas aparições fantásticas. Mas a sua satisfação ainda era maior porque, no caso, se tratava, apenas, de uma abóbora iluminada por dentro…

A noite estava silenciosa.

Na escuridão, só se via a caveira impressionante espiando as trevas.

Mariano, impaciente, esteve esperando.

Mas, a pouco e pouco, foi tendo medo de sua própria façanha. Foi ficando impressionado. Foi tendo uma tremedeira que não era de frio: era de medo.

Uma coruja traçou um risco branco, imperceptível, indeciso, quebrando, quase próximo dele. E piou.

Mau agouro. Mariano, com mais isso, quase desistiu de ficar ali. Mas ficou, foi ficando…

De repente, estremeceu, apavorado. Olhou, firme, o que estava acontecendo. Podia ser ilusão, uma fantasia maluca dos seus sentidos, mas, realmente, não estava enganado.

Mexendo-se, primeiramente, no meio da mata, a caveira se levantou, depois, a um metro de altura, suspensa na sombra, veio caminhando lentamente para ele. Teve uma sensação de inércia; um mal-estar esquisito. Quis gritar, quis correr, mas a voz morreu-lhe na garganta, e suas forças falharam. Esteve algum tempo assim, sem poder gritar nem correr. Um suor frio, abundante, umedeceu-lhe a fronte, o peito, o corpo todo. E só quando a visão fantasmagórica estava a uns metros de distância, foi que Mariano, vencendo providencialmente a inércia, conseguiu caminhar alguns passos. Mas, com as pernas bambas, os sentidos fugidios: o terror tirar-lhe, mais uma vez ainda, e então completamente, o comando de sua vontade. Caiu no meio da estrada. Olhou outra vez a caveira demoníaca quase sobre ele e, abrindo a boca para um grito inútil, sem eco, porque não fora emitido, Mariano perdeu os sentidos…


***


No outro dia, quando se soube do fato, o pessoal da fazenda Soledade não se cansava de fazer comentários; E Gugu, contrafeito, explicava rindo muito:

Ô xentes, eu, quando vi aquilo no mato, adivinhei que era brincadeira de arguém. E como estava muito escura a noite, aproveitei a abóbora para ir clareando passage…

E desculpando-se:

O moço tá na cama, de febre. Quase morreu de susto com o diabo daquela coisa que ele mesmo feiz. Tenho curpa, não. Clarimundo, meio envergonhado de ter um irmão patife como era o Mariano, chegou, contando que o rapaz já estava bom. Eu curo ele — afirmava.

E como todos sorrissem duvidando:

Deixe'stá. Isto é doença. Mas eu curo ele, vão ver — repetiu, convicto, o matuto.


***


Levando cada um a sua lanterna, sua fisga1 e o seu embornal, foram o Gugu, o Mariano, o Clarimundo, e tantos outros, caçar rã na várzea. Já sobre o chão úmido e o tijuco da planície imensa, separaram-se. Cada qual foi para um lado. Mariano ficou só. Começou a fisgar as primeiras rãs. Quantas havia! Foi enchendo o embornal2. Botava a luz na vista dos bichinhos e, imóveis, magnetizados pela claridade da lanterna, eles não podiam se esquivar dos golpes certeiros e violentos que Mariano tão bem aplicava. Caçou, foi caçando, sem se lembrar dos companheiros. Mas, a um certo ponto, olhando em volta, achou tudo mais silencioso e sem indícios de viva alma.

Diabo, onde é que eles se meteram?

Começou a ter medo.

Chamou pelo irmão. Não teve resposta.

Ó Gugu. Ó Manduca…

Nada! Ninguém respondia. A sua voz se acabava ao longe sem ninguém ouvir nem responder. Os sapos coaxavam. E era sinistra aquela melopeia. A noite, bem escura por ali, havia-se aderido à terra, formando um só bico de sombra, sem fim e sem forma…

Ó Clarimundo… Clarimundo!…

Ainda ninguém respondeu. Por isso, foi andando indeciso. Depois mais depressa e com pouco estava correndo, cheio de terror. Saltava valetas. Transpunha alagadiços. Varava capoeiras.


***


Quis retroceder, mas veio aquela inércia, aquela moleza nas pernas. Tinha corrido muito dês que começara a ter medo. Largara as rãs. A lanterna caíra também. Cansado, ofegante, o que via iria consumi-lo de terror. Tentou gritar. Inútil. Quis retroceder outra vez. Não pôde. Estava estatelado diante da visão esmagadora. O fantasma branco veio se aproximando, passos lentos, macios. E gargalhava mefistofelicamente.

Mariano continuava absorto, imóvel, comprimido entre as trevas. Todavia, quando o fantasma estava bem perto, abrindo, para abraçá-lo, os braços longos, que tremiam, e deveriam triturar-lhe, por certo, os ossos, o moço, lembrando-se da fisga conservada em seu poder, pôde de arremessá-la, com violência, sobre o terrificante espectro.


***


Imediatamente depois que o vulto tombou ao chão, gemendo de dor, surgiu ainda, da mesma capoeira, outros vultos que não eram fantasmas e não eram brancos. O primeiro iera Gugu, o segundo, Manduca, depois o Juca e os outros…


***


Mariano descobriu o rosto branco, suarento, de Clarimundo. Tirou-lhe a fisga com esforço. Tirou-lhe o lençol em que estava envolto, espiou-lhe o peito amplo e nu: do lado esquerdo, ao que fatalmente a fisga acertara, atingindo o coração, escorriam, abundantes, três fios vermelhos de sangue…


Fonte: “Fon Fon”/RJ, edição de 27 de julho de 1940.


Notas:

1Arpão de pesca.

2Saco onde são colocados alimentos. 

 

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