O FANTASMA DO CASTELO - Conto Clássico de Mistério - Jack Dee
O FANTASMA DO CASTELO
Jack Dee1
(Séc. XX)
Era uma vez um fantasma de Northumberland…
Ora, acontece que, na minha vida de homem que sempre sorriu das histórias de assombração, me vi uma noite às voltas com um desses fatos misteriosos capazes de enlouquecer um frade de pedra. Felizmente, tenho bons nervos e uma reputação incólume de cético a defender.
O velho copeiro da casa senhorial estava farto de ver o fantasma do feudo, à noite, e não era sem muita comoção que o descrevia como a forma de um homem corpulento e sem cabeça, a passear impune ao longo dos corredores do vetusto casarão feudal.
O fantasma do feudo fizera renome na redondeza, mas só o copeiro tivera oportunidade de vê-lo, talvez em virtude de algum dom especial. Os outros não viam, mas ouviam. Para se convencer da sua realidade, bastava dormir a gente uma noite naquela herdade de Northumberland.
Foi há alguns anos que, abrindo a minha correspondência à mesa de jantar, como era dos meus hábitos, deparei-me com uma carta de um oficial reformado do exército, possuidor de uma herdade em Northumberland.
Esse cavalheiro me informava que, conhecendo a minha reputação de investigador de fenômenos ocultos, estava disposto a receber minha visita à sua casa para desvendar uma série de fatos inexplicáveis, quando eu quisesse e achasse conveniente…
Seis meses mais tarde, tive oportunidade de aceitar o convite e tornar-me seu hóspede.
A casa era um majestoso edifício do tempo de Maria Stuart, erguendo-se em meio de um parque e tendo ao fundo um bosque. Um quadro romântico e magnífico. Grande, quadrada, tinha as paredes e o teto cobertos de hera. Um aspecto poético!
À noite, ao jantar, foi que o meu hospedeiro contou a história:
—Eu sou o homem menos supersticioso que existe neste mundo, Sr. Howel — falou gravemente —, mas devo dizer-lhe que não há, nem pode haver, a menor dúvida sobre esse fantasma. Ele existe definitivamente.
—Realmente!? Está aí uma informação que muito me agrada, pois eu sempre desejei ver um fantasma que exista. Os de que apenas falam são banalíssimos.
Ele sorriu.
—Está bem! O senhor não o “verá”, mas terá ocasião de “ouvi-lo”.
Eu escutava-o, incrédulo.
—Que faz ele? Fala ou canta?
—Nem uma nem outra coisa — falou o homem. — Toca uma espineta2. Toca uma bela musica antiga e o mais incrível é que toca através de toda a casa. Mas deixe-me explicar. Eu ouvi essa historia há anos, quando herdei essa casa. Disseram-me ser ela mal-assombrada, que aqui vagava, à noite, a alma penada de um dos meus ancestrais, que se insurgira contra Cromwel3, combatendo-o de armas na mão, em defesa do rei. Vencido e aprisionado, foi decapitado. É essa a razão por que se apresenta hoje sem cabeça. Marchou para o cadafalso cantando: “À glorificação de sua majestade!”. Acreditei candidamente nessa história durante certo tempo. Depois, o mundo e a vida mudaram-me o modo de pensar e acabei achando-a ingênua e supersticiosa. Mas, uma noite, sentado à biblioteca, que é o cômodo situado imediatamente acima deste, fiquei estupefato ao ouvir uma bela música tocada numa espineta no mesmo local em que eu estava lendo. Devo explicar-lhe que a música não era tocada completamente. Ouvia-se a primeira linha, a frase musical correspondente ao verso “ À glorificação de sua majestade”. Havia uma pausa. A linha seguinte da música era omitida, mas alguns segundos mais tarde fazia-se ouvir a terceira linha, “Confusão aos seus inimigos!”. E a musica terminava com falhas apenas de umas doze notas, como aconteceria num piano de teclado deficiente. Exceto eu, não havia pessoa alguma no apartamento e eu não encontrava uma explicação para o estranho fato, mas o meu copeiro, que tem estado ao serviço de meu pai e meu desde pequeno, sendo, ao que se diz, médium vidente e entendido em assuntos espíritas, afirma ter visto frequentemente, nos últimos tempos, e em vários quartos, o velho cavaleiro, vestido com as suas roupas luxuosas, sem cabeça e tocando uma espineta. O homem afirma convicto e sinceramente. Não sei até que ponto vai a verdade, mas a espineta eu ouço iniludível e frequentemente, tocando sempre a mesma musica ou fragmentos dela, e o mais interessante é que isso se dá através da casa toda.
Houve um longo silencio. O meu amigo acendeu um cachimbo e baforou algumas fumaradas. Erguemo-nos automaticamente e nos aproximamos da janela. Lá fora, o arvoredo ramalhava com um sussurro perene sob o céu constelado. Estávamos, cada um, entregue aos nossos pensamentos. Não era ele um homem inculto nem supersticioso, e as suas palavras mereciam, portanto, respeito.
— Eu gostaria de ouvir! — falei.
—Oh!… Mas não tenha dúvidas. O senhor ouvirá. É muito frequente agora.
—Toca regularmente? — interroguei. — Ou há períodos de interrupção?
—É, como já expliquei, frequente em certas épocas, mas há longos lapsos de tempo em que ninguém o escuta.
—Quando, mais ou menos?
Ele refletiu um minuto:
— É difícil determinar, mas parece-me que é menos frequente no verão, e isso, suponho, devido à existência de reduzido número de pessoas para ouvi-lo, pois a maioria dos cômodos fica fechada. Estou convencido de que hoje o ouviremos. Talvez toque no seu próprio quarto, mas eu vou dar instruções para que todas as portas fiquem abertas, a fim de que possamos correr a ouvir a música onde quer que seja tocada.
Eu estava confuso. O meu hospedeiro era um homem inteligente e incapaz de se deixar impressionar por qualquer conto infantil e, apesar disso, estava plenamente convencido de que a estranha música existia. Não havia solução. A coisa parecia ser séria e, em breve, eu haveria de ouvi-la também.
Eram duas horas da madrugada quando fui acordado pelo homem.
—Depressa, Sr. Howel. O copeiro ouviu-a, nesse momento! Está tocando na sala de jantar.
De fato, encontramos o copeiro no corredor, vestindo um sobretudo por cima do pijama, os olhos arregalados, em expressão de assombro.
—Viu alguma coisa? — interroguei.
—Vi, sim, senhor. Vi-o de novo! Ouvi a música e espiei através da porta da sala de jantar. O quarto estava em plena escuridão, mas lá junto da janela, no alto, estava o fantasma, meio luminoso, com uma espada e sem cabeça. Estava vestido de veludo e tocando naquele instrumento esquisito. Ah, meu senhor, isso é horrível… Quem pode se acostumar com uma coisa dessas?!
—Vamos descer — convidei.
Passamos pela escada e andamos ao longo de um grande corredor, chegando à porta da sala de jantar que estava em plena escuridão. Não se ouvia som algum, exceto o ruído dos nossos passos sobre o tapete. Logo que entramos, o meu hospedeiro acendeu a luz. Pouco depois, suave mas distintamente, começaram as notas da musica misteriosa: “À glorificação de sua majestade!”. Ficamos mudos, olhando um para o outro. Subitamente parou. Não havia a menor dúvida no meu espírito de que o som vinha da direção em que o copeiro afirmava ter visto o fantasma. Eu estava maravilhado. Era algo de assombroso e inexplicável.
— Bem! — exclamou o dono da herdade. — Que diz o senhor agora a respeito? Não lhe parece realmente admirável?
— Sem dúvida! — respondi, perplexo.
Depois de alguns comentários, voltamos cada um para a sua cama. Deitei-me preocupado, quando qualquer coisa me fez sentar assustado sobre a cama.
A música estava agora sendo tocada no meu próprio quarto!
Acendi a luz. Não se via coisa alguma ali. Todos os móveis nos seus lugares, tudo parado, silencioso... E aquela musica!... Muito tempo depois foi que consegui conciliar o sono.
No outro dia, esforcei-me o mais que me foi possível para descobrir uma explicação para o estranho fato. Apesar da inutilidade das minhas investigações, persistia-me no espírito a suspeita de haver alguma coisa oculta acerca da música do fantasma.
Já estava desanimado de decifrar o enigma e, depois de investigar por lodo o parque, dirigindo-me para a grande vivenda na intenção de confessar o fracasso ao meu hospede, dizendo-lhe que, pela primeira vez na vida, me via forçado a acreditar em assombrações. Um golpe súbito de vento arrebatou-me o chapéu e fui obrigado a sair, correndo atrás dele, através do pomar e junto aos fundos da casa.
Quando me abaixei para apanhá-lo, o meu olhar se deteve na folhagem das trepadeiras que cobriam as paredes da casa — o sopro do vento tirava em alguns ramos um som esquisito, como um silvo. Apesar de inverosímil e mal delineada em começo, a estranha ideia se apoderou do meu espírito. Talvez por ali eu chegasse a uma solução do mistério.
Corri, empolgado, em redor da casa, entrei. Vinte minutos mais tarde, estávamos com longas escadas de mão colocadas contra as paredes, nas faces exteriores, e o mistério do velho feudo deixava de ser mistério.
O velho cavalheiro que combatera tão ardentemente os cromwelianos fora certamente dotado de um apreciável senso de humor. Ele havia previsto que a sua bela vivenda seria presenteada a alguns partidários de Cromwel depois do confisco.
Mas os novos moradores da casa não haveriam de viver muito bem ali. Ele haveria de deixar um fantasma a atormentá-los, um aleijão partidário do rei a assombrá-los constantemente com as suas lamúrias patrióticas E fê-lo com habilidade.
Do lado oriental da majestosa mansão, no alto, coberto pela densa hera, descobrimos uma série de buracos, regularmente feitos, estendendo-se sobre todo o lado da parede. Retirando alguns tijolos, vimos, atrás desses, palhetas metálicas e canudos semelhantes aos tubos de órgãos. Quando o vento soprava de leste, penetrava na cavidade da parede e era conduzido através de longo tubo metálico, que o levava aos canudos de órgão, sendo esses colocados na mesma ordem das notas do canto. Atrás dos canudos havia uma cavidade oca e uma caixa de pinho que aumentava a sonoridade; depois, a parede, que era muito grossa em conjunto, tornava-se tão tênue que o som penetrava facilmente dentro de casa.
O mesmo princípio era aplicado no lado ocidental sobre o terceiro andar; ao norte, sobre o segundo, e, ao sul, sobre o primeiro.
Quando o vento mudava de direção, a música era ouvida num apartamento e andar diferentes.
O mistério estava deslindado para tranquilidade e alegria de todos. A única pessoa que não gostou da descoberta foi o velho copeiro da casa senhorial, pois este, graças às suas excepcionais qualidades de vidente, havia visto repetidas vezes o cavaleiro fantasma da velha história, sem cabeça e tocando uma espineta…
Em toda história há sempre uma vítima e não seria razoável que nesses casos da música fantástica alguém não saísse perdendo.
Fonte: “A Noite Illustrada”/RJ, edição de 6 de setembro de 1933.
Notas:
1Provavelmente pseudônimo.
2Instrumento musical de cordas e teclado semelhante ao cravo.
3Oliver Cromwell (1599 – 1658), foi um militar e líder político inglês, a quem se atribui a responsabilidade pela condenação e execução do rei Carlos I (1600 – 1649).

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