A HONRA DE ISRAEL GOW - Conto Clássico Macabro e de Mistério - G. K. Chesterton

A HONRA DE ISRAEL GOW

G. K. Chesterton

(1874 – 1936)

Tradução de autor anônimo do séc. XX

 

Em tormentosa tarde cor de azeitona e prata, o padre Brown, envolto numa capa escocesa de um cinzento acentuado, subia a uma colina para contemplar o castelo de Glengyle. O castelo fechava a passagem de um desfiladeiro e parecia estar no fim do mundo. Aquela cascata de tetos inclinados e cúspides de piçarra verde-mar, ao estilo dos velhos chateaux franco-escoceses, fazia um dos contos. E os pinheirais, que se balançavam em torno de seus verdes torreões, semelhavam inumeráveis bandos de corvos. Esta nota de sonhador diabolismo não era uma simples casualidade da paisagem. Pairava ali uma dessas nuvens de orgulho, loucura e misteriosa aflição que caem com maior peso sobre as casas nobres da Escócia do que sobre quaisquer outras moradias dos filhos dos homens. A Escócia sofre em dose dupla o veneno chamado herança: a tradição do sangue na aristocracia, a tradição do destino no calvinista.

O sacerdote tirara um dia para ir visitar um amigo, Flambeau, o detetive, no castelo de Glengyle. Acompanhado de um empregado oficial, Flambeau estava fazendo averiguações sobre a vida e a morte do conde Glengyle. Esta misteriosa personagem era o último representante de uma raça cujo valor, loucura e violenta astúcia a tornaram ainda mais terrível entre a sinistra nobreza do país, lá pelo século XVI. Nenhuma outra família esteve tão mergulhada naquele labirinto de ambições, nos segredos dos segredos daquele palácio de mentiras edificado em torno de Maria, rainha dos escoceses.

Uma canção local dava testemunho das causas e resultados de suas maquinações nestas cândidas palavras:

        “O ouro é para os Ogilvie como a seiva verde é para as árvores”.

 Durante séculos, o castelo Glengyle não tivera um ano digno e era de acreditar que, na época da rainha Vitória, esgotadas as excentricidades, seria de outro modo. O último Glengyle, entretanto, cumpriu a tradição de sua tribo, fazendo a única coisa original que lhe restava fazer: desapareceu. Não que tivesse ido para outra parte. Ao contrário, e ainda que se encontrasse em algum lugar, todos os indícios faziam crer que permanecia no castelo. Mas, ainda que seu nome constasse do registro da igreja, como também do volumoso livro vermelho dos pares, ninguém jamais o vira, à exceção de certo criado solitário, que era para ele algo assim como jardineiro e palafreneiro. Este indivíduo era tão surdo que as pessoas apressadas o tomavam por mudo, ainda que os mais penetrantes o tivessem como meio imbecil. Era um tipo fraco, de olhos azuis quase negros, o queixo e barba apontados para a frente. Respondia pelo nome de Israel Gow o era o único criado da deserta propriedade. Mas a diligência com que cuidava de tudo e a regularidade com que desaparecia na cozinha faziam pensar, a quem estivesse presente, que estava preparando alguma refeição para o patrão, obrigando alguns a concluírem que o conde continuava escondido no castelo. Contudo, quando alguém desejava averiguar tal coisa, o criado afirmava, com a maior persistência, que o amo estava ausente.

Certa manhã, o diretor da escola e o pastor (os Glengyle eram presbiterianos) receberam um convite para comparecer ao castelo. Tiveram oportunidade ver o quanto o jardineiro era diligente. Juntara aos ofícios de cozinheiro e palafreneiro o de empresário de pompas fúnebres e colocara num ataúde o nobre e defunto senhor. Se o caso foi aclarado ou deixou de ser, é assunto ainda confuso. Nunca se procedeu a uma investigação legal até que Flambeau apareceu por aquela região do Norte. Até então, o cadáver de lorde Glengyle (se é que era seu cadáver) estava depositado na igreja da colina.

Ao passar pelo jardim, para entrar no sombrio castelo, o padre Brown correu os olhos por umas nuvens opacas e sentiu que o ar estava úmido e tempestuoso. Ao baixar o olhar, viu um homem de cartola e enxada ao ombro. Tal combinação fazia crer tratar-se de um coveiro. O padre Brown achou, porém, natural, ao recordar que o criado mudo plantava batatas. Não lhe eram desconhecidos os costumes dos camponeses da Escócia e sabia que eram bastante solenes para se sentir obrigados a vestir roupa preta no decorrer de uma investigação oficial e bastante econômicos para não desperdiçar, por isso, uma hora de trabalho. O olhar, entre surpreso e desconfiado, com que acompanhou o sacerdote, era, também, algo que convinha muito bem ao seu papel de zeloso guardião.

Flambeau veio abrir a porta em pessoa, acompanhado de um homem de aspecto frágil, cabelos de um cinzento metálico, que trazia um rolo de papeis na mão: era o inspetor Craven, da Scotland Yard. O vestíbulo estava inteiramente deserto, mas os rostos perversos dos sátiros Olgivie os contemplavam lá de suas enegrecidas telas. Seguindo-os até uma sala interior, viu o padre Brown comprida mesa cheia de papeis, uísque e tabaco num dos extremos. O resto era ocupado por vários objetos, tão inexplicáveis como diferentes. Um deles parecia um monte de vidro quebrado. Outro era um monte de pó preto. O terceiro, um bastão.

—Até parece um museu geológico — disse o padre, sentando-se e apontando para os objetos.

—Geológico não é bem o termo — esclareceu Flambeau. — Psicológico, isso sim.

—Pelo amor de Deus! — disse o policial, rindo-se. — Não comecemos com este jogo difícil...

—Não sabe o que vem a ser psicologia? — perguntou Flambeau, com amável surpresa. — Quer dizer maluquice.

—Não compreendo — insistiu o oficial.

—Bem — disse Flambeau, resoluto  —, o que quero dizer é que só sabemos uma coisa a respeito de lorde Glengyle: era um maníaco.

 A negra silhueta de Gow, com sua cartola e a enxada ao ombro, passou pela janela, confusamente destacada sobre o céu nublado. O padre Brown contemplou-a mecanicamente e disse:

—Acredito que qualquer coisa estranha tenha acontecido, já que de tal modo ficou enterrado em vida, e tanta pressa deram em enterrá-lo ao morrer. Mas, que razões especiais há para declará-lo louco?

—Bem — respondeu Flambeau. — Veja a lista de objetos que o Sr. Craven encontrou.

—Precisamos acender uma vela — disse Craven.  — Vai cair uma grande chuvarada e já está muito escuro para ler.

—Encontrou alguma vela entre as curiosidades? — perguntou Brown, sorrindo.

 Flambeau ergueu o rosto e fixou os olhos negros no amigo.

—É curioso — disse. — Vinte e cinco velas e nem sinal de candeeiros!

Na crescente escuridão da sala, em meio ao rumor do vento tempestuoso, Brown procurou na mesa, entre os demais despojos, o montão de velas de cera. Ao fazê-lo, inclinou-se casualmente sobre o monte de pó vermelho e não pôde conter um espirro.

—Rapé — disse.

 Tomou uma vela, acendeu-a com cuidado e, depois, meteu-a na boca de uma garrafa de vinho vazia. O pesado vento noturno, que anunciava uma tempestade iminente, penetrava na sala e batia na chama como fosse uma bandeira. E, em volta do castelo, escutava-se o rumor dos pinhais verdes, fervendo como negro mar em torno do rochedo.

—Vou ler o inventário — anunciou Crven, apanhando gravemente um papel.  — O inventário de todas as coisas desconexas e inexplicáveis que encontramos no castelo. Antes, porém, convém saber que isto está desmantelado e abandonado, mas que um ou dois quartos foram, evidentemente, habitados por alguém que não é o criado Gow; por alguém que levava, sem dúvida, uma vida simples, ainda que não miserável. Eis a lista:

“1 — Um verdadeiro tesouro em pedras preciosas, diamantes quase todas, soltas todas, sem nenhum engaste. Desde logo, é natural que os Ogilvie possuíssem joias de família, mas nas joias de famílias as pedras sempre estão montadas em arquivos de adorno, e os Ogilvie, ao que parece, levavam suas pedras soltas nos bolsos como moedas de cobre.

“2 — Montões e montões de rapé, que não estão guardados em caixas especiais, tabaqueiras ou bolsas, mas por aí, em cima da lareira e do piano, em qualquer parte, como se o cavalheiro não se quisesse dar ao trabalho de abrir uma caixa ou qualquer espécie de objeto apropriado para o rapé.

“3 — Aqui e ali, por toda a casa, pequenos montes de metais, molas e rodas microscópicas, como se tivessem destripado algum brinquedo mecânico.

“4 — As velas, que temos de colocar em bocas de garrafas, pois não há um só candeeiro... Veja como isso é bem mais extravagância do que se pensa. Já encontramos o enigma central: à primeira vista, compreendemos que algo estranho se passou com o finado conde. Desejamos averiguar se realmente morou aqui, se realmente morreu aqui, se esse espantalho que o inumou teve alguma coisa a ver com sua morte. Pois bem: Suponha o pior, imagine a explicação mais estranha e melodramática. Suponha que o criado matou o patrão, ou que este não tenha morrido, ou que o amo se tenha disfarçado de criado e que o criado tenha sido enterrado, ao invés do patrão. Invente a tragédia que mais lhe agrade, ao estilo de Wilkie Collins. Ainda assim, lhe será impossível explicar esta ausência de candeeiro ou o fato de ter um velho cavalheiro de boa família derramado rapé sobre o piano. O coração, o centro do enigma, é claro. Mas, não os contornos e margens. Não há fio de imaginação que possa ligar o rapé, os diamantes, as velas e os mecanismos triturados de relógios.”

— Acredito ter encontrado a ligação — disse o sacerdote. — Glengyle tinha a mania de odiar a Revolução Francesa. Era um entusiasta do ancien régime e procurava reproduzir ao pé da letra a vida familiar dos últimos Bourbons. Tinha rapé, por que era um luxo do século XVIII, velas de cera, por que era uso também desse século. Os pedaços metálicos representavam a fechadura do serralheiro de Luiz XVI; os diamantes e o colar de diamantes de Maria Antonieta.

 Os dois amigos o fitaram com olhos atônitos.

—Que suposição mais extraordinária e perfeita! — exclamou Flambeau. — E você acredita, realmente, que seja verdadeira?

 —Estou perfeitamente certo de que não o é — respondeu o padre Brown. — Somente vocês afirmam que não há meio de ligar o rapé, os diamantes, as velas e os mecanismos de relógios. Proponho-lhes, pois, a primeira ideia que me ocorre, para demonstrar o contrário. Mas estou certo de que a verdade é mais profunda, está mais longe.

Calou-se por um instante e escutou o uivar do vento nas torres. Voltou a falar:

—O finado conde de Glengyle era um ladrão. Vivia uma segunda vida obscura, era um condenado violador de fechaduras e portas. Não tinha necessidade de nenhum candeeiro, porque usava estas velas cortando-as na lanterna que sempre trazia em seu poder. Usava o rapé como os piores criminosos franceses usam pimenta — para jogá-la aos olhos de seus perseguidores. Mas, a prova mais concludente é a curiosa coincidência dos diamantes e das rodinhas de ferro. Suponho que vocês também já pensarão como eu. Só se pode cortar vidraças com rodinhas de ferro ou diamantes.

Um ramo de pinheiro açoitou pesadamente a vidraça, para a qual os homens davam as costas. Nenhum deles voltou a cabeça. Os policiais estavam atentos, presos às palavras do padre.

—Diamantes e pequenas rodas de ferro — murmurou Craven. — E você se apoia apenas nisto, para considerar sua exposição verdadeira?

—Eu não a julgo verdadeira — replicou o sacerdote. — Mas vocês afirmavam ser impossível estabelecer relação destes quatro objetos... A verdade tem de ser mais prosaica. Glengyle descobrira, ou acreditava ter descoberto, um tesouro de pedras preciosas em sua propriedade. Alguém o enganara com estes diamantes soltos, assegurando tê-los encontrado nas cavernas do centeio. As pequenas rodas de ferro eram algo concernentes ao corte dos diamantes. Tinha-se de fazer o corte muito pequeno, com ajuda de uns quantos pastores ou gente rude do vale. O rapé é o maior luxo dos pastores escoceses. Somente com isso podem ser subornados. Esta gente não usava candeeiros porque não precisava deles: quando iam explorar os sótãos, levavam as velas.

—É só? — perguntou Flambeau, após longa pausa. — Enfim, alcançou a verdade?

 —Oh, não! — disse o padre Brown.

O vento corria pelos telhados, gemendo como uma criatura ferida. Nenhum dos homens parecia dar atenção a isso. O padre continuou, impassível:

—Procurei expor esta suposição porque vocês disseram não haver meio de relacionar o rapé, as minúsculas peças de mecanismos, as velas e os brilhantes. É fácil construir dez falsas filosofias sobre as datas do Universo, dez falsas teorias sobre as datas do castelo Glengyle. Mas, do que necessitamos é da explicação verdadeira do castelo e do Universo. Não há outros documentos?

Craven riu de boa vontade e Flambeau levantou-se, sorrindo. Percorreu toda a mesa o assinalou:

—Documentos número cinco, seis, sete e todos mais variados que instrutíveis, certamente. Aqui há curiosa coleção, não de lápis, mas de minas de lápis; acolá, insignificante cana de bambu, com o cunho estilhado: bem pode ser o instrumento do crime. Mas não sabemos se há crime. E o resto: velhos missais e quadrinhos de temas católicos, que os Ogilvie conservavam talvez desde a Idade Média, pois seu orgulho familiar era maior que seu puritanismo. Só os incluímos em nosso museu porque parece que foram cortados e mutilados de modo bem singular.

O vento, que anunciava a grande tormenta, tangia para o castelo dos Ogilvies ninhadas de nuvens carregadas. De súbito, a ampla sala foi dominada pela escuridão. O padre ia examinar as páginas dos missais. Antes que aquela onda de trevas se dissipasse, o padre Brown voltou a falar, mas com voz diferente:

— Mr. Craven — a voz veio como a de um homem dez anos mais moço —, o senhor tem autorização para examinar a sepultura, não é mesmo? Quanto antes, melhor. Assim entraremos de cheio neste horrível mistério. Em seu lugar, eu o faria já.

—Já? — perguntou, espantado, o policiai. E por que já?

—Isto está ficando muito sério — respondeu Brown. — Não se trata exclusivamente de rapé derramado ou pedras desmontadas por qualquer motivo. Só pode haver uma razão para isso e essa vai dar nas raízes do mundo. Estas estampas religiosas não estão simplesmente sujas, nem foram rasgadas por um impulso infantil ou por zelo protestante. Foram rasgadas com cuidado e de maneira suspeita. Onde quer que apareça nas antigas miniaturas, o grande nome ornamental de Deus foi cuidadosamente raspado. Outra coisa foi raspada: o halo em torno da cabeça de Menino Jesus. De maneira que, havendo permissão, venha a enxada ou outro instrumento qualquer e vamos abrir este ataúde agora mesmo.

—Que quer dizer com isso? — perguntou o oficial londrino.

—Quero dizer — respondeu o cura, e sua voz como que dominou o barulho da tempestade —, quero dizer que o diabo pode estar na torre deste castelo, neste mesmo instante, o grande Diabo do Universo, maior que cem elefantes e uivando como a besta do Apocalipse. Há, em tudo isto, um pouco de magia negra.

—Magia negra? — repetiu Flambeau, em voz alta, porque era homem bastante ilustrado para não entender disso. — Que significam, pois, estes últimos documentos?

—Qualquer coisa terrível, acho — disse o padre com impaciência.  — Como hei de saber ao certo? Como vou adivinhar tudo quanto existe neste labirinto? Talvez o rapé e o bambu sejam instrumentos de tortura. Talvez a cera e as limas de ação representem aqui apenas as preferências de um louco. Talvez com as minas de lápis faça uma bebida de enlouquecer. Há apenas um meio para mergulhar de uma vez no seio destes enigmas, e este é ir ao cemitério da colina.

 Seus companheiros apenas se deram conta de que o tinham obedecido e seguido quando, no jardim, um golpe de vento lhes bateu contra o rosto. Entretanto, haviam-no obedecido como autômatos, e, quando Craven apareceu, foi com um instrumento qualquer na mão e, no bolso, a autorização para abrir o caixão. Flambeau trazia a enxada de jardineiro e o próprio padre Brow o livrinho dourado do qual arrancaram o nome de Deus.

O caminho que conduzia ao cemitério, sobre a colina, era tortuoso, mas breve. Com a fúria do vento, transformava-se numa comprida e difícil subida. Até onde a vista alcançava, e cada vez mais longe, conforme subiam a colina, estendia-se um mar interminável de pinheiros, dobrados todos pelo vento. E todo aquele orbe parecia tão inútil que dava a impressão de o vento estar silvando sobre um planeta deserto. Naquele infinito de bosques, cantava, estridente, a antiga e velha dor que há em todas as coisas pagãs. Era como, se nas vozes íntimas daquela insondável folhagem, gritassem os errantes deuses gentios extraviados por aquela selva, incapazes de, outra vez, encontrar a trilha dos céus.

 —Já verão — disse o padre Brown em voz baixa, mas não sufocada. — O povo escocês, antes de existir a Escócia, era o mais curioso do mundo. Ainda continua assim, por mais estranho que pareça. Acredito que tenha adorado o demônio em tempos pré-históricos. E, por isso — ajuntou com bom humor —, por isso caíram na teologia puritana.

—Mas, meu amigo — disse Flambeau, de mau humor —, que significa todo esse rapé?

—Meu amigo — explicou Brown, com igual seriedade e continuando seu tema —, uma das provas de toda religião verdadeira é o materialismo. Pois bem, a adoração dos demônios é uma verdadeira religião.

 Chegaram ao fim da colina. Uma pequena cerca de arame vibrava com o vento, indicando o limite do cemitério. O inspetor Craven chegou ao local da sepultura, e Flambeau fincou a enxada e nela se apoiou, tentando fazer saltar a lousa. Diante da tempestade, ambos se sentiam como a pequena cerca. Junto ao túmulo cresciam cardos enormes, cinzentos e prateados. Uma ou duas vezes, o vento os arrancou, lançando-os como flechas contra Craven, que se atirava para trás, assustado. Flambeau arrancava a erva e cavava a terra úmida. Deteve-se de súbito, apoiando-se na enxada.

—Vamos — disse o sacerdote. — Estamos a caminho da verdade. De que tem medo?

—Da verdade — disse Flambeau.

O detetive londrino começou a falar alto, procurando mostrar-se animado:

—Por que diabo este homem se escondia tanto? Seria repugnante? Seria um leproso?

—Ou coisa pior — respondeu Fiambeau.

—O que, por exemplo? — indagou o outro. — O que que há pior do que um leproso?

—Não sei — disse Flambeau.

Continuou a cavar em silêncio, e, depois de alguns minutos, disse com voz de surpresa:

—Receio que seja um homem disforme.

—Como aquele pedaço de papel de que você se recordará — disse o padre Brown. — Contudo, conseguimos triunfar.

Flambeau continuou cavando com energia. Enquanto isto, a tempestade arrastava as nuvens pouco a pouco, deixando aparecer nesgas de um céu estrelado. Afinal, Fiambeau descobrir um grande ataúde e levantou-o um pouco. Craven se adiantou. O vento arrojou-lhe um cardo ao rosto, fazendo-o recuar. Depois, deu um passo resoluto. Com energia igual à de Flambeau, procurou abrir a tampa.

 —Ossos — disse Craven. —  E são de homem!

Flambeau exclamou, com espanto:

—E não têm... nada de extraordinário?

—Creio que não — respondeu o oficial, com voz rouca, curvando-se sobre o esqueleto. — Espera um pouco.

Flambeau sentiu como que uma onda pesada passando por todo o corpo.

—E, agora, eu me pergunto: por que tinha de ser disforme? O homem que vive nestas malditas montanhas, como conseguirá se libertar desta obsessão enlouquecedora, desta incessante sucessão de coisas negras, bosques e bosques e, sobretudo, este horror profundo e inconsciente? Isto parece mais o pesadelo de um ateu! Pinheiros, pinheiros e mais pinheiros, milhões de...

—Deus! — gritou o homem junto ao ataúde. — Não tinha cabeça?

E, enquanto os outros ficavam estupefatos, e sacerdote deixou transparecer assombro pela primeira vez.

—Não tinha cabeça?  — perguntou. — Falta a cabeça? — o padre estava esperando outra coisa.

 Insensatas visões cruzaram pela mente dos três homens, visões de um menino acéfalo nascido nessa de Glengyle. De um jovem acéfalo ocultando-se no castelo, de um acéfalo cruzando aqueles velhos salões ou belos jardins e pinheiros... Mas, apesar do nervosismo que os dominava, aquelas funestas imagens se dissiparam num instante, sem deixar raízes em sua alma. E os três ficaram escutando os bosques no seu ruído ensurdecedor e os gritos que pareciam descer dos céus como bestas fatigadas. O pensamento parecia algo pesado que, de repente, lhes escapara das mãos.

—Em volta desta sepultura — disse o padre Brown — é que há três homens sem cabeça.

O pálido detetive londrino abriu a boca para dizer algo e assim ficou. Um comprido assobio determinado pelo vento rasgou o espaço. O policial contemplou por alguns instantes a enxada que tinha entre as mãos, como se nunca a tivesse visto, e depois deixou-a cair.

—Padre... — disse Flambeau, com aquela voz grave e infantil que tão raras vezes se lhe ouvi.  — Que devemos fazer, padre?

A resposta do amigo foi tão rápida como um tiro:

—Dormir — disse o padre Brown. — Dormir. Chegamos ao fim do caminho. Você sabe o que é o sono? Sabia também que tudo quanto dorme acredita em Deus? Sono é sacramento, por que é ato de fé e é um ato de nutrição. E nós necessitamos de um sacramento, ainda que seja de ordem natural. Caiu sobre nós algo que bem poucas vezes cai sobre os homens e que, por acaso, é a pior que pode cair sobre os cristãos.

—Que quer dizer? — perguntou Craven.

O sacerdote se voltou para o castelo e respondeu:

—Descobrimos a verdade, e a verdade não tem sentido.

 E começou a andar com um passo inquieto e precipitado, muito raro nele. Quando todos chegaram ao castelo, deitou-se para dormir com a simplicidade de um cão.

Apesar de seu místico elogio do sono, o padre Brown se levantou mais cedo que as demais, à exceção do calado jardineiro. E os outros o encontrara fumando seu cachimbo, observando o mudo trabalho do esperto jardineiro, junto à cozinha. Depois das chuvas torrenciais da noite, o dia estava ameno o agradável. Parecia que o jardineiro estivera um momento com Brown, mas, ao ver os detetives, cravou a enxada no solo, disse coisa sobre o almoço, distanciou- se entrou na cozinha.

—Este homem vale muito — disse o Padre Brown. — Faz bem a comida. Mas tem suas falhas, seus erros. Quem não os tem? Por exemplo, não traçou direito esta cova — e deu com o pé na margem cavada. — Tenho minhas dúvidas sobre o êxito da planta que vai nascer daqui.

—Por quê? — perguntou Craven, divertido com a nova loucura de homenzinho.

—Tenho minhas dúvidas, porque também as têm o velho Gow. Meta sistematicamente a enxada por toda a parte, menos aqui.

 Flambeau fincou a enxada, impetuosamente, no lugar que tanto lhe parecia estranho. Ao revolver a terra, encontrou uma seta monstruosa e hipertrofiada. A enxada, ao bater sobre ela, chiou. O estranho objeto rodou, deixando ver o sorriso de uma caveira.

 —O conde de Glengyle — disse Brown, melancolicamente.

 Arrebatou, depois, a enxada de Fiambeau.

—Convém ocultá-lo outra vez — disse.

E tomou a enterrar o crânio. Reclinando-se sobre a enxada, olhou para a frente e disse:

—Que pode significar este horror?

E, sempre apoiado na enxada, mergulhou o rosto entre as mãos, como fazem os homens na igreja.

O céu brilhava, azul e prata. Os pássaros cantavam e eram como se as próprias árvores estivessem cantando. Enquanto isso, os três homens pensavam.

—Bem, desisto! — exclamou Flambeau. Isto não me entra na cabeça e acabei com tudo. Rapé, livros de orações mutilados, mecanismos de caixas de música... Que sei mais?

Brown falou, descobrindo a cabeça e jogando a enxada para um lado...

—Ora, tudo isto é mais claro que o dia... Esta manhã, ao abrir os olhos, compreendi tudo isso do rapé e das pequenas rodas de aço. Pus-me, depois, a examinar um pouco o velho Gow, que não é tão surdo, nem tão estúpido, como aparenta. Nada há demais em todos estes objetos encontrados. Também me enganei com relação aos missais mutilados. Não há nisso nenhum mal. Mas isso bem inquieta. Profanar sepulcros e roubar cabeças de mortos, pode não ser mal? A magia negra não terá sua parte nisto? Isto não concorda com a simplíssima história da vela e do rapé — e começou a passear, fumando filosoficamente.

—Meu amigo — disse Flambeau —, tenha cuidado comigo, lembre-se de que fui um criminoso. A imensa vantagem deste estado consiste em que eu mesmo forçava o enredo e desenvolvia-o no mesmo instante. Mas esta função policial de esperar e esperar sem fim é demasiado para minha impaciência francesa. Toda minha vida, para o bem ou para o mal, tenho feito tudo num instante. Todo duelo que se me oferecia tinha de ser para a manhã do dia seguinte. Toda conta, paga e bem paga. Nem sequer esperava para uma visita ao dentista.

O padre Brown deixou cair o cachimbo, que se quebrou em três pedaços no chão. Escancarou uns olhos de idiotia:

—Meu Deus, que estúpido que sou! Mas que estúpido, Senhor!

 E soltou uma risada.

—O dentista! — repetiu. — Seis horas no mais completo abismo espiritual e tudo por não ter pensado no dentista. Uma ideia tão simples, tão bela, tão pacífica! Amigos, passamos uma noite no inferno. Mas, agora, o sol se levantou, os pássaros cantam e há essa radiante evocação ao dentista.

—Hei de decifrar este mistério, ainda que me veja forçado a recorrer aos tormentos da inquisição! — disse Flambeau, encaminhando-se para o castelo.

O Padre Brown teve de conter o ímpeto de cantar e dançar no meio do canteiro.

—Por favor, deixem-me ser maluco por um instante! — gritou. — Venho sofrendo tanto com este mistério! Vejo agora que tudo é muito inocente. Apenas um pouco extravagante. E isso, que importa?

Deu uma volta, num pé só. Pôs-se, a seguir, diante dos amigos, dizendo:

—Esta não é a história de um crime, mas de singular honradez. Trata-se, precisamente, do único homem na terra que tomou exatamente o que lhe devem. É um caso extremo dessa lógica vital e terrível que constitui a religião desta raça. A velha canção sobre a casa dos Glengyie — “O ouro é para os Ogilvie como a seiva verde é para as árvores ” — é, ao mesmo tempo, metafórica e literal. Não somente significa o desejo de bem-estar dos Glengyle. Significa também, literalmente, que colecionavam ouro, que tinham uma grande quantidade de ornamentos e utensílios deste metal. Que eram, em suma, avarentos com a mania de ouro. E, à luz desta suposição, recorramos, agora, todos os objetos encontrados no castelo — mais ainda, mesmo que pareça loucura, ao halo do menino Jesus e ao nome de Deus dos velhos missais. Só foram raspados porque eram de ouro maciço.

 Flambeau acendeu um cigarro, enquanto o amigo continuava:

—Todo esse ouro foi subtraído, mas não roubado. Um ladrão nunca deixaria semelhante pista. Levaria as tabaqueiras com o rapé, etc. Tratamos com um homem que tem uma consciência singular, mas que tem consciência. Este estranho moralista esteve falando comigo esta manhã no jardim da cozinha e de seus lábios escutei a seguinte história:

“O finado Arquibaldo Olgivie era a mais próxima criatura do tipo do homem bom que já nasceu em Glengyle. Mas sua amarga virtude se transformou em misantropia. As faltas de seus antepassados o deixavam mal e delas imaginava a maldade geral da raça humana. Desconfiava da misantropia ou liberalidade. E prometeu a si mesmo que, se encontrasse um homem capaz de receber somente o que estritamente lhe correspondia, este seria o dono de todo o ouro de Glengyle. Lançando este repto à humanidade, encerrou-se em seu castelo, sem a menor esperança de que o repto lhe fosse respondido. Entretanto, uma noite, um rapaz surdo, que parecia idiota, veio de uma aldeia distante trazer-lhe um telegrama. Com amargo humorismo, deu-lhe um quarto de pence[1] novo. Ou melhor, acreditou ter dado, porque quando, ou instante depois, examinou as moedas, viu que ainda conservava aquele quarto de pence, mas faltava-lhe uma libra esterlina. Este acidente foi para ele um tema de amargas meditações. De qualquer modo, o rapaz demonstrara a cobiça que era de esperar na raça humana. Desaparecera. Era um ladrão roubando uma moeda. Voltaria, atrás de uma recompensa. Lorde Glengyle teve de se levantar à meia-noite para abrir a porta — porque morava sozinho — e encontrou o surdo idiota. Vinha devolver, não a libra esterlina, mas a soma exata de dezenove xelins, onze pence e três quartos de pence. O rapaz tirava para si o que lhe era devido. A extravagante exatidão deste ato impressionou vivamente o cavalheiro. Disse a si mesmo que encontrara o homem honrado que desejava. Fez, então, novo testamento, que vi esta manhã. Convidou o rapaz para seu enorme e abandonado casarão, educou-o, fez dele seu e, à sua maneira, instituiu-o herdeiro de seus bens. Este curioso mutilado, ainda que entenda pouco, entendeu muito bem as duas ideias fixas do patrão: primeiro, que neste mundo o essencial é o direito, e, segundo, que ele havia de ser, por direito, o dono de todo o ouro de Giengyle. É só, e é bem simples. O homem tirou todo o ouro da casa, mas nem uma partícula que não fosse de ouro. Nem sequer uma pitada de rapé. E, assim levantou todo o ouro das velhas miniaturas, convicto de que deixava intacto todo o restante das coisas. Tudo isso me era compreensível, mas não podia entender o fato de encontrar o crânio escondido nos canteiros. Fiquei em desespero até... até que Flambeau disse a palavra feliz. Tudo é muito claro e tudo vai muito bem. Há de tornar a colocar o crânio na sepultura, logo que tenha extraído os dentes de ouro.

E, com efeito, ao passar aquela manhã pela colina onde estava o cemitério, Fiambeau viu aquela estranha criatura, aquele justo avarento cavando na sepultura profanada, tendo à cabeça a elegante cartola.


Nota:

[1] Antiga moeda divisionária britânica, equivalente à duodécima parte do xelim. Já o xelim correspondia a um vigésimo de libra esterlina. 

 

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