FATAIS APARIÇÕES - Conto Clássico de Horror - Gaston Vassy

FATAIS APARIÇÕES

Gaston Vassy

(1847 – 1885)

Tradução de autor anônimo do séc. XX

 

Em uma pequena cidade da França, viveu, há poucos anos, Anne de Roy, órfã de dezoito anos de idade, e que tinha sido educada por um velho e respeitável sacerdote, morto alguns meses antes do acontecimento que ora contamos.

Além de sua formosura, a jovem possuía um dote de cinquenta mil trancos, o que, por si, constituía um poderoso estímulo para captar-se as simpatias do empregado de uma casa comercial chamado Marius Crampin.

Efetivamente, sem demora, o pedido de casamento que este fizera foi aceito por Anne, e o enlace teve lugar na igreja da paróquia.

Não obstante, desde que saíram do templo, Marius se tornou taciturno e nada satisfeito. Alguns de seus amigos, ao ter notícia de seu próximo enlace, se tornaram frios com ele e tratavam-no com ironia.  Crampin estava atormentado por várias suspeitas que havia repelido antes de reunir se a Anne, e, para dissipar essas suspeitas, que tornavam a cruzar sua mente, bebeu com tal excesso que, na noite de seu noivado, se achava completamente ébrio.

Chegou, por fim, a hora de retirarem-se os esposos para sua habitação. A noiva entrou primeiro no seu quarto e apagou as luzes. Cinco minutos depois, apresentou-se Marius.

— Diabos!  — exclamou. — Minha mulher se quer fazer já dormida. Vou acender de novo as velas.

Ia pôr mãos à obra, quando um ligeiro ruído se fez ouvir atrás das cortinas do leito e um homem apareceu. Era um homem de estatura colossal, sem cabeça e coberto com uma túnica ensanguentada. Trazia na mão uma lanterna que lançava uma luz vermelha. Marius deu um grito e a noiva se ergueu apressadamente, permanecendo ambos aterrados perante essa misteriosa e singular aparição.

Dos cantos do aposento saíram igualmente três formas humanas com túnicas ensanguentadas e trazendo em uma das mãos uma lanterna encarnada e na outra suas respectivas cabeças. Colocaram-se em frente dos noivos, aos quais saudaram de um modo cerimonioso.

Então — coisa estranha! — falaram; e Anne, em seu terror, não sabia donde saíam aquelas vozes.

— Boas noites, Crampin — disse um dos fantasmas. — Chamo-me Joseph Grigois, cliente do avô de tua noiva.

— Dá-me tua mão, Anne — disse outra.  — A senhora me conhece. Perdi minha cabeça em 1838 nas mãos de seu avô.

 A este tempo, já Crampin havia caído de joelhos e sua esposa gemia cheia de pavor. Achavam-se ambos sós naquela casa, situada extramuros da cidade, e sem que ninguém pudesse correr em seu socorro.

—Menina — exclamou o terceiro fantasma —, tu podes vangloriar-te de ter tido um avô que viveu de seu trabalho admiravelmente. Fui também degolado por ele!

— Deus santo! — gritou Marius com desespero.  —Este homem sem cabeça fala pelos narizes.

— Saí, meus filhos! — interrompeu outro fantasma. — O baile de bodas vai começar.

Dito isto, os quatro guilhotinados deram princípio a uma dança macabra, que mui bem se poderia chamar um desaforado cancã, e que conservou o sangue gelado nas veias dos dois esposos. Eles saltaram, caíram, fizeram espacates, desdobraram — como grandes asas brancas e melancólicas — as suas mortalhas e agitaram as cabeças...

Foi absolutamente aterrador! E mais ainda porque, de repente, entoaram um coro estrepitoso:

 

“Os atalhos[1] são para gente sortuda!

Antes de tudo, nunca mais terão dor de cabeça;

Os jornais falam de suas execuções,

E isso lhes dá fama.”

 

Concluído o coro, abriu-se a porta e por ela desapareceram no meio da escuridão, tendo antes depositado suas cabeças aos pés de Anne.

 —Deus de misericórdia! — exclamou esta, com horror. — Será possível que eles sejam clientes de minha família.

— De tua família?  — perguntou Marius, com raiva.

— Perdoai-me! — suplicou a noiva, lançando-se a seus pós.

O desgraçado Crampin deu um salto e caiu no solo sem sentidos. Tão depressa voltou a si, saiu precipitadamente da povoação e não tornou a ser visto em parte alguma

Sua pobre esposa morreu no dia seguinte, vítima de um ataque epilético.

Investigado o fato pela polícia, descobriu-se que os quatro fantasmas tinham sido dois amigos de Marius, que, imprudentemente, tinham querido fazer-lhe uma caçoada.

As quatro cabeças eram quatro melões.

 

Fonte: “O Exmpelo”/RS, edição de 22 de julho de 1917.

Fizeram-se adaptações textuais.

Nota:

[1] No original: “Les raccoucis”. Trata-se de um trocadilho humorístico e macabro com pessoas “encurtadas”, ou seja, guilhotinadas, 

 

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