O HORLA - Conto Clássico de Terror - Guy de Maupassant

O HORLA

Guy de Maupassant

(1850 – 1893)

Tradução de autor anônimo do séc. XX

 

8 de maio. — Que dia admirável!

Passei toda a manhã estendido na erva em frente da minha casa, debaixo do enorme plátano que a cobre e a abriga com a sua sombra.

Gosto desta terra e gosto de aqui viver, porque é aqui que tenho as minhas raízes, que ligam um homem à terra onde nasceram e morreram os seus antepassados, que o ligam ao que aí se pensa e ao que aí se come, aos usos como aos alimentos, às locuções locais, às entoações dos camponeses, aos perfumes do solo, das aldeias e do próprio ar.

Gosto da casa onde nasci. Das janelas, vejo o Sena que corre, ao longo do meu jardim, por trás da estrada, quase até minha casa — o grande e largo Sena, que vai de Ruão ao Havre, coberto de barcos que passam à esquerda; ao fundo, Ruão, a grande cidade de tetos azuis, sob o conjunto dos campanários góticos. São inumeráveis, pequenos ou grandes, dominados pela flecha de ferro coado da catedral e cheios de sinos que soam no ar azul das belas manhãs, mandando até nós o seu doce e longínquo zumbido de ferro, o seu canto de bronze, que a brisa me traz, ora mais fraco, ora mais forte, conforme ela cai ou se levanta.

Como estava linda a manhã!

Pelas onze horas, um longo comboio de navios arrastados por um rebocador, do tamanho de uma mosca, e que arquejava de cansaço, vomitando um fumo espesso, desfilou diante da grade.

Atrás de dois palhabotes ingleses, cujo pavilhão vermelho ondulava no céu, vinha um soberbo três mastros brasileiro, todo branco, admiravelmente limpo e brilhante. Saudei-o não sei por quê, tal foi o prazer que tive em o ver.

12 de maio. — Há alguns dias que tenho um bocadinho de febre; sinto-me doente ou, antes, sinto-me triste.

Donde vêm estas influências misteriosas, que mudam em desânimo a nossa felicidade e a nossa confiança em aflição? Dir-se-ia que o ar, o ar invisível, está cheio de Poderes desconhecidos, de que sofremos a misteriosa vizinhança. Acordo cheio de alegria, com vontade de cantar. Por quê? Desço ao longo do rio e, de repente, depois de um curto passeio, regresso desolado, como se me esperasse em casa alguma desgraça. Por quê? É um arrepio de frio que, ao roçar-me a pele me, abalou os nervos, e assombrou a alma? É a forma das nuvens ou a cor do dia, cor das coisas, tão variável, que, passando pelos olhos, me perturbou o pensamento? Sabe-se lá? Tudo o que roçamos sem conhecer, tudo o que tocamos sem apalpar, tudo o que encontramos sem distinguir tem sobre nós, sobre os nossos órgãos e por intermédio deles sobre as nossas ideias, sobre o próprio coração, efeitos rápidos, surpreendentes e inexplicáveis.

Como é profundo este mistério do Invisível! Não podemos sondá-lo com os nossos sentidos miseráveis, com os nossos olhos que não sabem ver o muito pequeno, nem o muito grande, o muito perto, nem o muito longe, os habitantes de uma estrela, ou os habitantes de uma gota de água... com os nossos ouvidos, que nos enganam porque nos transmitem as vibrações do ar em notas sonoras. São fadas que fazem esse milagre de mudar o movimento em ruído e que por esta metamorfose dão origem à música, que torna cantante a agitação muda da natureza, com o nosso olfato mais fraco do que o do cão... com o nosso gosto que mal pode distinguir a idade do vinho! Ah, se tivéssemos outros órgãos que realizassem, em nosso favor, outros milagres, que coisas poderíamos ainda descobrir à nossa volta!

16 de maio. — Decididamente estou doente! Andava tão bem no mês passado! Tenho febre, uma febre atroz ou, antes, um enervamento febril, que torna a minha alma tão doente como o corpo. Tenho, sem cessar, esta sensação terrível de um perigo que ameaça, esta apreensão de uma desgraça que chega ou da morte que se aproxima, esse pressentimento que é, decerto, o ataque de um mal ainda desconhecido, que germina no sangue e na carne.

18 de maio: — Acabo de consultar o médico porque não podia dormir. Achou-me o pulso rápido, a pupila dilatada, os nervos vibrantes, mas sem nenhum sintoma alarmante. Tenho de me submeter às duchas e beber brometo de potássio.

25 de maio. — Nenhuma mudança! Na verdade, o meu estado é bizarro. À medida que a noite se aproxima, invade-me uma inquietação incompreensível, como se a noite escondesse uma ameaça terrível para mim. Janto depressa e experimento ler depois; mas não compreendo as palavras; apenas distingo as letras. Caminho, então, no salão, de um lado para o outro, sob a opressão de um temor confuso e irresistível, o medo do sono e o medo da cama.

Pelas duas horas, subo para o quarto. Mal entro, dou duas voltas à chave e cerro os fechos; tenho medo... Não receava nada, até agora... Abro os armários e espreito debaixo da cama; escuto... escuto... o quê?... Não é estranho que um simples mal-estar, uma perturbação circulatória, talvez a irritação de um filete nervoso, um pouco de congestão, uma pequeníssima perturbação no funcionamento tão imperfeito e tão delicado da nossa máquina viva possa tornar o mais alegre e o mais valente dos homens num melancólico e num poltrão!

Deito-me em seguida e espero o sono como quem espera o carrasco. Espero com o horror da sua vinda e o coração bate, e as pernas tremem; e todo o meu corpo estremece no calor dos lençóis, até ao momento em que caio de repente no sono, como se caísse para me afogar num abismo de água estagnada. Não o sinto chegar como outrora, esse sono pérfido, escondido perto de mim, que me espreita, que me vai agarrar pela cabeça, fechar-me os olhos, aniquilar-me.

Durmo — muito tempo — duas ou três horas —, depois um sonho — não — um pesadelo que me oprime. Sinto bem que estou deitado e que durmo... Sinto-o e vejo-o... e sinto também que alguém se aproxima de mim, que me contempla e me apalpa, sobe para a cama, ajoelha-se sobre o meu peito, agarra-me o pescoço entre as mãos e aperta... aperta... com toda a força para me estrangular.  Debato-me, manietado por esta atroz impossibilidade que nos paralisa, nos sonhos; quero gritar, não posso; quero mexer-me — não posso; experimento, arquejando em esforços terríveis, voltar e expulsar este ser que me esmaga e que me abafa — não posso. E acordo de repente, aterrado, coberto de suor. Acendo a vela. Estou só. Depois desta crise, que se renova todas as noites, adormeço, enfim, sossegado, até de manhã.

21 de junho. — O meu estado continua a agravar-se. Mas que tenho eu? O brometo não fez nada; as duchas não fizeram nada. Há pouco, para fatigar o corpo já de si tão cansado, fui dar uma volta pela floresta de Roumare. Pensei primeiro, que o ar fresco, leve e doce, o cheiro das ervas e das folhas me verteria nas veias um sangue novo, e no coração uma nova energia. Tomei por uma grande avenida de caça, depois voltei para La Bouille, por uma álea estreita, entre duas fileiras de árvores desmesuradamente altas, que punham entre mim e o céu um teto verde, espesso, quase negro. De repente, senti um arrepio, não um arrepio de frio, mas um estranho arrepio de angústia. Apressei o passo, inquieto por me ver sozinho no bosque, amedrontado sem razão, estupidamente, por aquela solidão profunda. De repente, pareceu-me que era seguido, que me caminhavam nos calcanhares, muito perto, quase a tocarem-me. Voltei-me bruscamente. Estava só. Atrás de mim apenas vi a álea direita e larga, deserta, alta, temivelmente deserta; e, à minha frente, continuava também a perder-se de vista, absolutamente semelhante, aterradora. Fechei os olhos. Por quê? E pus-me a rodar sobre um calcanhar, muito depressa, como um pião. Quase caí. Reabri os olhos; as árvores dançavam? A terra flutuava? Tive que me sentar. Depois — ah! —, depois esqueci-me por onde tinha vindo. Ideia bizarra. Bizarra. Ideia bizarra. Não sabia absolutamente nada. Parti pelo caminho da direita e achei-me, de novo, na avenida que me tinha conduzido ao meio da floresta.

3 de julho. — A noite foi horrível. Vou ausentar-me durante algumas semanas. Uma pequena viagem deve restabelecer-me, decerto.

2 de julho. — Regresso. Estou curado. De resto, fiz uma excursão encantadora.  Visitei o monte Saint-Michel, que não conhecia.

Que visão, quando, como eu, se chega a Abranches ao fim do dia. A cidade está sobre uma colina; e conduziram-me ao jardim público que fica no extremo. Soltei um grito de admiração. Uma enorme baía estendia-se diante de mim a perder de vista, entre duas costas afastadas que se perdiam ao longe na bruma; e, no meio desta imensa baía amarela, sob um céu dourado e claro, elevava-se, no meio das areias, sombrio e pontiagudo, um monte estranho. O sol acabava de desaparecer e no horizonte ainda flamejante, desenhava-se o perfil deste fantástico rochedo que ostentava no cimo um fantástico monumento.

Logo que amanheceu, fui visitá-lo. O mar estava baixo como na tarde da véspera e eu via erguer-se diante de mim, à medida que me aproximava, a surpreendente abadia. Depois de algumas horas de caminho, cheguei ao enorme bloco de pedras que sustenta a pequena cidade dominada pela grande igreja. Tendo subido a rua estreita e rápida, entrei na mais admirável habitação gótica construída para Deus na Terra, vasta como uma cidade, cheia de casas baixas, esmagadas sob as abóbadas e altas galerias, que frágeis colunas sustentavam.

Entrei nesta gigantesca joia de granito, leve como uma renda, coberta de torres, de campanários esbeltos com escadas torcidas e que lançam, no céu azul dos dias e no céu negro das noites, as suas cabeças bizarras, eriçadas de quimeras, de diabos, de animais fantásticos, de flores monstruosas e ligadas umas às outras por delicados arcos trabalhados. Quando cheguei ao cimo, disse ao monge que nos acompanhava:

— Como se deve sentir bem aqui, meu padre!

 Ele respondeu:

— Há muito vento, senhor.

E pusemo-nos a conversar, vendo subir o mar que corria sobre a areia e a cobria de uma couraça de aço.

E o monge contou-me histórias, todas as histórias do lugar, lendas, sempre lendas.

 Uma delas impressionou-me bastante. As pessoas da terra, que vivem no monte, pretendem que, de noite, se ouve falar nas areias, e que se ouvem balir duas cabras, uma com voz forte, outra com voz fraca. Os incrédulos afirmam que são os gritos das aves marinhas, que ora se assemelham a balidos, ora a gemidos humanos; mas os pescadores retardatários juram ter encontrado, vagueando sobre as dunas, entre duas marés, à volta da pequena vila tão afastada, um velho pastor, cuja cabeça, sempre coberta pelo manto, nunca ninguém viu, e que conduz, caminhando adiante dele, um bode com figura de mulher, ambos com compridos cabelos brancos, falando sem cessar, questionando numa língua desconhecida, parando de rebente do gritar para balir com toda a força.

Disse ao monge:

—Acredita nisso?

Ele murmurou:

— Não sei.

Repliquei:

—Se existissem na terra outros seres diferentes de nós, como seria possível que nunca os tenha visto, nem eu?

 Respondeu:

— E vemos nós a centésima milésima parte do que existe? Olhe o vento, por exemplo, que é a maior forca da na terra, que derruba os homens, abate os edifícios, desmorona as árvores, levanta o mar em montanhas de água, destrói as falésias e atira os grandes navios para os rochedos, o vento que mata, que assobia, que geme, que ruge. E, no entanto, existe.

Calei-me diante deste simples raciocínio. Este homem era talvez um sábio ou um tolo. Não poderia afirma-lo com certeza. Calei-me. O que ele dizia, eu já havia pensado muitas vezes.

3 de julho — Dormi mal: com certeza existe aqui uma influência febril, porque o meu cocheiro sofre do mesmo mal. Ontem, ao regressar, notei a sua singular palidez.

— Que tem, Jean?

— É que eu não posso descansar, senhor. As minhas noites devoram os meus dias. Desde que o senhor partiu que isto me deu como um mau olhado. Os outros criados passam bem, mas eu ando com medo que isto me torne a dar.

 4 de julho. — Decididamente, o mal voltou. Recomeçam os meus antigos pesadelos. Esta noite senti alguém acocorado sobre mim e que, com a boca na minha, bebia a minha vida nos meus lábios. Sim, extraía-a da minha garganta como faria uma sanguessuga. Depois, saciado, levantou-se e acordei de tal modo pisado, quebrado, acabrunhado que não podia mexer-me. Se isto assim continuar ainda alguns dias, é quase certo que terei de partir novamente.

 

 


  

5 de julho. - Terei perdido o juízo? O que se passou na noite de ontem é de tal modo estranho que a minha razão perde-se quando penso nisso.

Fechei a porta a chave como costumo agora fazer todas as noites; depois, como tinha sede, bebi meio copo de água e reparei por acaso que a garrafa estava cheia até a rolha de cristal.

Em seguida, deitei-me e caí num dos meus sonhos horríveis, ao qual fui arrançado, cerca de duas horas depois, por uma comoção mais terrível ainda.

Imaginem um homem que dorme, a quem assassinam e que acorda com uma faca num pulmão, e que agoniza, coberto de sangue, sem poder respirar, e que vai morrer, e que não compreende nada e eis o meu estado. Tendo enfim recuperado o juízo, tive de novo sede; acendi a vela e dirigi-me à mesa onde tinha colocado a garrafa. Peguei nela e inclinei-a sobre o copo; não saiu nada.

Estava vazia. Estava completamente vazia.

Primeiro, não compreendi nada; depois, de repente, senti um abalo tão terrível, que tive de me sentar, ou, antes, caí numa cadeira. Depois levantei-me de um salto para olhar à minha volta. E voltei de novo a sentar-me, enlouquecido de espanto e de modo, diante do cristal transparente. Contemplava-o com os olhos fixos, procurando adivinhar. Tremiam-me as mãos. Tinham então bebido a água? Quem? Eu? Eu, decerto. Só poderia ter sido eu. Era então sonâmbulo, vivia sem o saber esta dupla vida misteriosa que nos faz pensar se existem em nós dois seres diferentes, ou se um ser estranho desconhecido e, invisível, anima, por momentos, quando a nossa alma está entorpecida, o nosso corpo cativo, que lhe obedece como a nós próprios, talvez mais do que ao nosso próprio ser?

Ah! Quem compreenderá a emoção de um homem, são de espírito, bem acordado, de razão clara, e que olha aterrado, através do vidro de uma garrafa, um pouco de água desaparecida, enquanto que dormia? E fiquei ali até de manhã, sem ousar voltar para a cama.

6 de julho. — Endoideço. Também beberam a água esta noite, ou antes bebi-a. Mas fui eu? Quem seria? Quem? Oh! Meu Deus! Endoideço. Quem me salvará?

10 de julho. — Acabo de verificar fatos surpreendentes.

Decididamente, estou doido! No dia 6, antes de me deitar, pousei sobre a mesinha vinho, leite, água, pão e morangos. 

No dia 7, renovei a experiência, que deu o mesmo resultado.

No dia 8, suprimi a água e o leite. Não tocaram em nada.

No dia 9, enfim, voltei a pôr sobre a mesa a água e o leite, somente, tendo o cuidado de envolver as garrafas em panos de musselina e de atar as rolhas. Depois, esfreguei os lábios, o queixo, e as mãos, com plumbagina.

Atacou-me um sono invencível, seguido de atroz despertar. Não me tinha mexido: nem sequer os lençóis estavam manchados. Corri para a mesa. Os panos que envolviam as garrafas estavam imaculados. Desatei os fios que prendiam as rolhas, palpitando de terror. Tinham bebido a água toda. Tinham bebido o leite todo. Ah, meu Deus!... Vou partir já para Paris.

12 de julho. — Paris. Tinha então perdido a cabeça nos últimos dias! Deve ser joguete da minha imaginação enervada, a não ser que seja sonâmbulo de verdade, ou que tenha sofrido uma dessas influências verificadas, mas inexplicáveis até agora, a que chamam sugestões.

Em qualquer dos casos, o meu terror raiava pela demência, e vinte e quatro horas de Paris foram suficientes para recuperar o meu equilíbrio.

Ontem, depois das compras e das visitas que me fizeram passar na alma corrente de ar novo e vivificante, acabei à noite no “Théâtre- Français”. Representou-se uma peça de Alexandre Dumas, filho, e este espírito vivo e poderoso acabou de curar-me. Na verdade, a solidão é poderosa para as inteligências que trabalham. É preciso termos, a nossa volta, homens que pensem e que falem. Quando ficamos sós, durante multo tempo, povoamos a vida de fantasmas.

Muito alegre, regressei ao hotel pelos bulevares.  Ao acotovelar a multidão, pensava, não sem ironia, nos meus terrores, nas minhas suposições da outra semana, porque acreditei — sim, acreditei — que um ser invisível habitava debaixo do meu teto. Como a nossa cabeça é fraca, e se perturba e desorienta depressa, logo que um pequeno fato incompreensível nos impressiona!

E em lugar de concluirmos por estas simples palavras: “não compreendo porque a causa me escapa”, imaginamos logo mistérios aterradores e poderes sobrenaturais.

14 de julho. — Festa da República. Passeei pelas ruas. Os petardos e as bandeiras divertiam-me como a uma criança. É, no entanto, bastante estúpido estar alegre em data fixa, por decreto do governo. O povo é um rebanho imbecil, ora estupidamente paciente, ora ferozmente revoltado. Diz-se-lhe: “Diverte-te”. Ele diverte-se. Diz-se-lhe: “Vai combater com o vizinho”. Ele vai combater. Diz-se-lhe: “Vota pelo imperador”. E ele vota pelo imperador. Depois diz-se-lhe ainda: “Vota pela república”. Ele vota pela república.

Os que o dirigem são tão tolos como ele; mas em vez de obedecerem a homens, obedecem a princípios, que apenas podem ser ingênuos, estéreis, falsos, pelo próprio fato de serem princípios, quer dizer, ideias consideradas exatas e imutáveis, neste mundo onde não há certeza de nada, já que a luz e o som não passam de ilusão.

15 de julho.  — Vi ontem algumas coisas que me perturbaram muito. Jantei na casa da minha prima, a Sra. De Sable, cujo marido comanda o regimento de caçadores 76, em Limoges. Encontrei-me lá com duas senhoras, novas, das quais uma delas era casada com o doutor Parent, que se ocupa muito de doenças nervosas e das manifestações extraordinárias, e que dão lugar, nesta ocasião, às experiências sobre hipnotismo e sugestão.

Falou-nos, durante muito tempo, dos resultados prodigiosos obtidos por alguns sábios ingleses e pelos médicos da escola de Naney.

Os fatos que ele apresentou pareceram-me de tal modo esquisitos que me declarei completamente incrédulo.

— Estamos — afirmava ele — prestes a descobrir um dos mais importantes segredos deste planeta; porque, decerto, haverá outros igualmente importantes em estrelas. Desde que o homem pensa, desde que sabe dizer e escrever o seu pensamento, que ele se sente rodeado por um mistério impenetrável para os seus sentidos grosseiros e imperfeitos, e experimenta suprir, pelo esforço da sua inteligência, a impossibilidade dos seus órgãos. Quando esta inteligência estava ainda no estado rudimentar, esta obsessão dos fenômenos invisíveis tomou as formas banalmente aterradoras. Daqui nasceram as crenças populares no sobrenatural, das lendas dos espíritos errantes, das fadas, dos gnomos, dos fantasmas, direi mesmo a lenda de Deus, porque as nossas concepções acerca do Criador, seja qual for a religião de que provenham, são as invenções mais medíocres, mais estúpidas e as mais inacreditáveis que saíram rio cérebro amedrontado das criaturas. Nada mais verdadeiro que estas palavras de Voltaire: “Deus fez o homem à sua imagem, mas o homem pagou-lhe na mesma moeda”. Mas, há pouco mais de um século, parece-me pressentir alguma coisa nova. Mesmer e outros puseram-nos sobre um caminho inesperado, e há quatro ou cinco anos, sobretudo, que chegamos a resultados surpreendentes.

A minha prima, muito incrédula também sorria. O doutor Parent disse-lhe:

— Quer ou experimente adormecê-la, minha senhora?

— Pois sim, doutor, com prazer.

Sentou-se numa cadeira e ele começou a olhá-la fixamente, fascinando-a. Quanto a mim, senti-me, de repente, um pouco perturbado, o coração a bater, a garganta apertada. Via as pálpebras da Sra. De Sablé tornarem-se pesadas, a boca crispar-se, o peito ofegar.

— Ponha-se por trás dela — disse o médico.

Coloquei-me atrás dela. Ele pôs-lhe entre as mãos um cartão de visita, dizendo-lhe:

— Isto é um espelho; que vê lá dentro?

Ela respondeu:

— Vejo o meu primo;

— Que está ele a fazer?

— Está a torcer o bigode.

— E agora?

— Tira uma fotografia do bolso.

— Qual fotografia?

—A dele.

Era verdade. E esta fotografia acabava de me ser entregue, nessa mesma tarde, no hotel.

 —Como é que ele está no retrato?

—Está de pé, com o chapéu na mão.

Via neste cartão, neste cartão branco, como se visse num espelho.

As outras senhoras aterradas diziam:

 —Chega! Chega! Chega!

Mas o doutor ordenou:

— Amanhã, há de levantar-se às oito horas; depois irá ter com o seu primo ao hotel e há de pedir-lhe que lhe empreste cinco mil francos, que o seu marido lhe pede, e a quem terá de os entregar na sua próxima viagem.

Depois acordou-a.

 Quando entrei no hotel, pensava nesta curiosa sessão e assaltavam-me dúvidas, não da absoluta, da insuspeitável boa-fé da minha prima, a quem conhecia como uma irmã, desde a infância, mas de uma possível fraude da parte do doutor. Não teria ele dissimulado na mão um espelho, que mostrasse ao mesmo tempo que o cartão? Os prestidigitadores de ofício, fazem coisas tão singulares!

Entrei, pois, e deitei-me.

E, nessa manhã, pelas oito horas e meia, fui acordado pelo meu criado de quarto, que me disse:

— É a Sra. Sablé que pede para ser recebida pelo senhor, imediatamente.

Vesti-me à pressa e recebi-a.

Ela sentou-se muito perturbada, os olhos baixos; e, sem levantar o véu, disse-me:

—Meu querido primo, tenho um grande favor a pedir-lhe.

— De que se trata, prima?

—Embaraça-me muito dizê-lo e, contudo, é preciso. Preciso, preciso, absolutamente, de cinco mil francos.

—Como? Precisa...?

—Sim, ou antes é meu marido que me encarrega de os obter.

Estava de tal modo estupefato que balbuciava as respostas, perguntava-me se, na verdade, ela não zombaria de mim de acordo com o doutor Parent, se não se trataria de uma farsa preparada de antemão e muito bem desempenhada.

Mas, olhando-a com atenção, todas as minhas dúvidas se dissiparam. Tremia angustiada, de tal modo lhe era penosa esta diligência, e percebi que tinha a garganta cheia de soluços. Como sabia que ela era muito rica, repliquei:

—Como? O seu marido não tem cinco mil francos à sua disposição? Reflita. Está bem certa que ele a encarregou de pedi-los a mim?

Hesitou alguns segundos, como se fizesse um esforço para procurar na memória e respondeu depois:

 —Sim... sim... Tenho a certeza.

 —Ele escreveu-lhe?

Hesitou de novo, refletindo. Adivinhei o trabalho torturante do seu pensamento. Ela não sabia. Sabia apenas que devia pedir-me cinco mil francos emprestados para o marido. Assim, ousou mentir.

—Sim, escreveu-me.

 —Mas quando? Não me falou em nada ontem.

—Recebi a carta esta manhã.

—Pode mostrar-me?

—Não... não... não... Continha coisas íntimas... muito pessoais... Eu... eu queimei-a.

—Então o seu marido tem dívidas?

 Hesitou ainda, depois murmurou:

 —Não sei.

Declarei bruscamente:

— É que não posso dispor agora de cinco mil francos, minha querida prima.

Ela então pediu, num grito de sofrimento:

—Oh! Arranje-os! Peço-lhe!

Exaltava-se, apertava as mãos como se orasse. Ouvia a sua voz mudar de tom; chorava, gaguejava, perseguida, dominada pela ordem irresistível que tinha recebido.

—Oh, suplico-lhe!... Se soubesse como sofro... Preciso deles hoje mesmo.

Tive pena dela.

—Tê-los-á daqui a pouco, descanse.

Ela gritou:

—Oh! Obrigada, obrigada. Como é bom!

Continuei:

— Lembra-se do que se passou ontem, em sua casa?

 —Sim.

—Lembra-se que o doutor Parent a adormeceu?

—Sim. Lembro-me.

—Pois bem, ele ordenou-lhe que viesse pedir-me esta manhã cinco mil francos emprestados e é a essa sugestão que obedece neste momento.

Ela refletiu alguns segundos e respondeu:

—Mas se é meu marido que os pede...

Durante uma hora experimentei convencê-la, mas não consegui.

 Quando ela partiu, corri a casa do doutor.

Ele ia a sair, escutou-me a sorrir. Depois disse:

—Está convencido, agora?

— Sim, não tenho outro remédio.

—Vamos a casa da sua parenta.

Encontramo-la a dormitar, estendida num sofá, prostrada pela fadiga. O médico tomou-lhe o pulso, olhou-a durante algum tempo, uma mão estendida na direção dos olhos que ela fechou pouco a pouco, sob o esforço insustentável deste poder magnético. Assim que adormeceu, disse o médico:

 —O seu marido não tem necessidade de cinco mil francos. Vai esquecer que os pediu emprestados ao seu primo, e se ele lhe falar nisso, não o compreenderá.

Depois acordou-a. Tirei da algibeira uma carteira.

—Aqui tem, minha prima, o que pediu esta manhã.

Ela ficou de tal modo surpreendida que não ousei insistir. Experimentei, entretanto, avivar-lhe a memória, mas ela negou sempre com firmeza, pensou que troçava dela e esteve quase a zangar-se. Acabo de chegar a casa: mas não pude almoçar, de tal modo me perturbou esta experiência.

10 de julho. — Muitas pessoas a quem contei esta aventura fizeram troça de mim. Já não sei o que pensar! O homem ponderado diz: Talvez?

21 do julho. — Fui jantar a Bougival e passei toda a noite no baile dos barqueiros. Na verdade, tudo depende dos lugares e do ambiente. Acreditar no sobrenatural na Ilha da Grenouillière seria o cúmulo da loucura... Mas no cimo do monte Saint-Michel?... Mas nas Índias?

Sofremos, terrivelmente, a influência do que nos rodeia. Voltarei para casa na próxima semana.

30 de julho. — Estou em casa desde ontem. Tudo vai bem.

2 de agosto. — Nada de novo. Está um tempo soberbo. Passo os dias a ver correr o Sena.

4 de agosto. — Há discussões entre os criados. Pretendem que partem os corpos, de noite, nos armários. O criado de quarto acusa a cozinheira, que acusa a roupeira, que por sua vez os acusa a ambos.

Quem é o culpado? Será bem esperto quem o disser.

6 de agosto. — Desta vez, não estou doido; vi... vi... vi..., já não posso duvidar...; vi. Ainda sinto o frio que me penetrou até as unhas. Ainda sinto o medo que me penetrou até a medula...; vi.

Passeava ao sol, às duas horas, no meu canteiro de roseiras... na álea das roseiras de outono que começam a florir.

Como parava para olhar um “gigante das batalhas”, que ostentava três magníficas flores, vi, vi distintamente, mesmo ao pé de mim, a haste de uma destas rosas dobrar-se, como se mão invisível a tivesse torcido, depois quebrar-se, como se a mesma mão a colhesse.

Depois a flor elevou-se, seguindo a curva que descrevia um braço que a quisesse chegar a uma boca, e ficou suspensa no ar transparente, sozinha, imóvel, assustadora mancha vermelha, a três passos dos meus olhos. Meio louco, lancei-me sobre ela para a apanhar. Não encontrei nada; tinha desaparecido. Então possuiu-me uma cólera furiosa contra mim próprio, porque não é permitido a um homem razoável e sério ter semelhantes alucinações. Mas, seria na realidade uma alucinação? Voltei-me, para procurar a haste e encontrei-a, cortada de fresco, entre as outras duas rosas que tinham ficado no ramo.

Então, entrei em casa com a alma transtornada, porque estou certo, agora, tão certo como da alternância dos dias e das noites, que existe perto de mim um ser invisível, que se alimenta de leite e de água, que pode tocar nos objetos, segurá-los e mudá-los de lugar, dotado consequentemente de uma natureza material ainda que imperceptível para os nossos sentidos, e que habita, como eu, sob o meu teto...

 7 de agosto. — Dormi tranquilo. Ele bebeu a água da garrafa, mas não me perturbou o sono.

Pergunto a mim próprio se não estarei louco. Enquanto passeava ao sol, ainda agora, ao largo do rio, surgiram-me dúvidas sobre a minha razão, não dúvidas vagas como tenho tido até aqui, mas dúvidas precisas, absolutas. Já tenho visto malucos; conheci alguns que ficaram inteligentes, lúcidos, clarividentes mesmo relativamente a todas as coisas da vida, exceto a uma só. Falavam de tudo com precisão, com facilidade, com profundeza, e, de repente, os seus pensamentos, tocando o escolho da loucura, rasgavam-se em pedaços, espalhavam-se e soçobravam no oceano aterrador e furioso, cheio de vagas saltitantes, de nevoeiros e de tempestades a que se dá o nome de “demência”. Julgar-me-ia doido, decerto, absolutamente doido, se não estivesse consciente, se não conhecesse perfeitamente o meu estado, se não o sondasse, analisando-o com uma perfeita lucidez. Em suma, não passarei, então de um alucinado que raciocina? Uma perturbação desconhecida deve ter-se produzido no meu cérebro, uma dessas perturbações que os fisiologistas, hoje, experimentam notar e precisar, e esta perturbação terá determinado no meu espírito, na ordem e na lógica das minhas ideias, uma falha profunda.

Acontecem fenômenos semelhantes com o sonho, que nos leva através das mais inverossímeis fantasmagorias, sem que nos surpreendamos com isso, pois o aparelho verificador, o sentido de fiscalização está adormecido, enquanto que a faculdade imaginativa vela e trabalha. Não poderá acontecer que uma das imperceptíveis teclas do meu teclado cerebral se tenha paralisado? Em consequência de certos acidentes, há homens que perdem a memória dos nomes próprios ou dos verbos, ou dos números, ou somente das datas. As localizações de todas as parcelas do pensamento estão hoje verificadas. Ora, o que haveria de extraordinário no fato da minha faculdade de verificar a realidade de certas alucinações estar entorpecida neste momento?

Pensava em tudo isto enquanto caminhava à beira da água. O sol enchia o rio de claridade, tornava a terra deliciosa, enchia o meu olhar do amor pela vida, pelas andorinhas, cuja agilidade é uma alegria dos meus olhos, pelas ervas da margem, cujo frêmito é uma faculdade dos meus ouvidos. Mas, pouco a pouco, penetrava-me um mal-estar inexplicável. Parecia-me que uma força oculta me entorpecia, me paralisava, me impedia de ir mais além, me puxava para trás.

Experimentava essa necessidade dolorosa de regressar, que nos oprime quando deixamos em casa um doente amado e se é tomado de um pressentimento da agravação do seu mal. Então, contra a minha própria vontade, voltei, certo de que iria encontrar em casa uma má notícia, uma carta ou um telegrama. Não havia lá nada; e fiquei mais surpreendido e mais inquieto do que se tivesse tido de novo qualquer visão fantástica.

8 de agosto. — Passei, ontem, uma noite terrível. Ele já não se manifesta, mas sinto-o próximo de mim, espiando-me, olhando-me, penetrando-me, dominando-me, muito mais temível, assim escondido, do que se assinalasse, por fenômenos sobrenaturais, a sua presença invisível e constante. Apesar de tudo, dormi.

9 de agosto. — Nada, mas tenho medo.

10 de agosto. — Nada; que acontecerá amanhã?

11 de agosto. — Sempre nada; não posso mais estar em casa com este terror e este pensamento escondidos na alma; vou partir.

12 de agosto. — 10 horas da noite — Quis-me ir embora durante todo o dia; não pude. Quis realizar este ato de liberdade fácil, tão simples — partir —, sair no meu carro para Ruão —, mas não pude. Por quê?

13 de agosto. — Quando se é atingido por certas doenças, todos os impulsos do ser físico parecem quebrados, todas as energias aniquiladas, todos os músculos relaxados, os ossos moles como a carne e a carne líquida como a água. Experimento isto, no meu ser moral, de uma maneira estranha e desoladora. Já não tenho força, nem coragem, nenhum domínio sobre mim, nem sequer o poder de fazer agir a minha vontade. Já não posso querer. Mas alguém quer por mim; e obedeço.

14 de agosto. — Estou perdido. Alguém possui e governa a minha alma! Alguém comanda todos os meus atos, todos os meus movimentos, todos os meus pensamentos! Já não sou mais nada em mim do que um espectador escravo e aterrado de todas as coisas que realizo. Desejo sair, não posso. Não quero; e fico, desnorteado, tremente, na cadeira onde ele me fez sentar. Desejo levantar-me, soerguer-me apenas para me crer ainda senhor de mim. Não posso. Estou cravado na minha cadeira; e a minha cadeira adere ao solo, de tal modo que não há nenhuma força capaz de nos levantar. Depois, de repente, é preciso, é preciso, é preciso que vá ao fundo do jardim, colher morangos e comê-los. E vou. Colho morangos e como os... Oh, meu Deus, meu Deus, meu Deus! Haverá um Deus? Se houver um, que me livre. Salvai-me! Socorrei-me! Perdão! Piedade! Graça! Salvai-me! Oh! Que sofrimento! Que tortura, que horror!

15 de agosto. — Ah! Era assim que estava a minha prima, possessa e dominada quando me veio pedir cinco mil francos. Sofria um querer estranho, que entrara nela como uma outra alma, como uma outra alma parasita e dominadora. Irá acabar o mundo?

Mas aquele que me governa, quem é ele, este invisível, este desconhecido, este vagabundo de uma raça sobrenatural?

Então os invisíveis existem? Mas porque não se manifestam desde a origem do inundo, de uma maneira precisa, como fazem agora comigo? Nunca li nada que se assemelhasse ao que se passa em minha casa. Oh! Se pudesse deixá-la, se pudesse partir, fugir e não voltar, estaria salvo. Mas não posso.

16 de agosto — Hoje, como um prisioneiro que encontra aberta a porta da prisão, pude escapar-me durante duas horas. De repente, senti que estava livre e que Ele estava longe. Mandei atrelar depressa e cheguei a Ruão. Oh! Que alegria poder dizer a um homem que obedece: “Para Ruão”. Mandei parar diante da biblioteca e pedi que me emprestassem o grande tratado do Doutor Hermann Herestauss sobre os habitantes desconhecidos do mundo antigo e moderno.

Depois, no momento de tornar a subir para o carro quis dizer: “Para a estação” e gritei — não disse, gritei — com uma voz tão forte que os passantes se voltaram: “para casa” e caí, cheio de angústia, sobre a almofada do carro. Ele tinha-se encontrado e retomado.

17 de agosto. — Ah! Que noite, que noite! E, contudo, parece-me que me deveria alegrar. Li até a uma hora da manhã. Hermann Herestauss, doutor em filosofia e em teogonia, escreveu a história e as manifestações de todos os seres invisíveis que erram em torno do homem ou foram imaginados por ele. Descreveu as suas origens, o seu domínio, o seu poder. Mas nenhum deles se assemelha ao que me persegue. Dir-se-ia que o homem, mal começou a pensar, pressentiu e receou um novo ser, mais forte do que ele, seu sucessor neste mundo e que, sentindo-o próximo e não podendo prever a natureza deste senhor, criou, no seu terror, todo o povo fantástico dos seres ocultos, nevoentos, fantasmas nascidos do medo. Então, tendo lido até a uma hora, fui sentar-me perto da minha janela aberta, para refrescar a fronte e o pensamento no vento calmo da obscuridade. Estava uma noite linda e tépida. Como apreciaria esta noite, outrora! Não havia lua. As estrelas tinham, no fundo do céu negro, cintilações trêmulas. Quem habita aqueles mundos? Que formas, que viventes, que animais, que plantas se encontrarão lá? Os que pensam nesses universos longínquos, que saberão mais do que nós?

Que mais poderão do que o que podemos?

Que verão eles que nós ainda não conhecemos?

Um deles, atravessando o espaço, não virá à Terra, um dia ou outro, para a conquistar, como os normandos outrora atravessaram o rio para sujeitar os povos mais fracos?

 Somos tão enfermos, tão desarmados, tão ignorantes, tão pequenos, nós que vivemos sobre este grão de lama que roda diluída numa gota de água! Passei pelo sono, enquanto sonhava assim ao vento fresco da noite.

Ora, tendo dormido cerca de quarenta minutos, reabri os olhos sem fazer um movimento, acordado não sei por que emoção confusa e bizarra. Primeiro, não vi nada; depois, de repente, pareceu-me que uma página do livro, que tinha ficado aberto na secretária, se tinha voltado sozinha. Nenhuma aragem entrava pela janela. Fiquei surpreendido e esperei; ao fim de cerca de quatro minutos, vi — vi, sim —, vi com os meus olhos, levantar-se uma outra página e cair sobre a precedente, como se um dedo a tivesse folheado. A minha cadeira estava vazia, parecia vazia, mas compreendi que ele estava lá, sentado no meu lugar, e que lia. Com um pulo furioso, um pulo de animal revoltado que vai estripar o domador, atravessei o quarto para o agarrar, para o apertar, para o matar...

Mas a cadeira, antes que eu lá pudesse chegar voltou-se, como se tivesse fugido ao meu ataque... A mesa oscilou, o candeeiro caiu e apagou-se, e a janela fechou-se como se um malfeitor surpreendido se tivesse lançado na noite, empurrando com todas as forças os batentes.

Então ele tinha fugido? Tinha tido medo, medo de mim!

Então... então... amanhã... ou depois... ou num dia qualquer... poderei agarrá-lo com as minhas mãos e esmagá-lo contra o chão.

 Não é verdade que, às vezes, os cães também mordem e estrangulam os donos?

18 de agosto. — Pensei todo o dia. Oh, sim! Vou obedecer-lhe, seguir os seus impulsos, realizar todas as suas vontades, fazer-me humilde, submisso, covarde. É ele o mais forte. Mas há de chegar uma hora...

19 de agosto. — Sei... sei... sei tudo. Acabo de ler o seguinte na Revista do Mundo Científico:

“Do Rio de Janeiro chega-nos uma notícia bastante curiosa. Uma loucura, uma epidemia de loucura comparável às demências contagiosas que atacaram os povos da Europa na Idade Média, grassa neste momento na província de São Paulo. Os habitantes desvairados deixam as suas casas, desertam das aldeias, abandonam as culturas dizendo-se perseguidos, possessos, governados, como um rebanho humano, por seres invisíveis, mas palpáveis, espécie de vampiros que se alimentam das suas vidas durante o sono, e que bebem, além disso, água e leite, sem parecer tocar em nenhum outro alimento.

“Senhor professor D. Pedro Henriques, acompanhado de muitos sábios da medicina, partiu para a província de São Paulo para estudar no local, as origens e as manifestações desta surpreendente loucura, de propor ao imperador as medidas que lhes pareçam mais próprias à razão, estas populações em delírio”.

Ah! Ah! Lembro-me do belo barco de três mastros brasileiro que passou sob as minhas janelas, subindo o Sena em 8 de maio último. Acheio-o tão lindo, tão branco, tão alegre. O Ser estava lá, vindo dessas terras onde a sua raça tinha nascido. E viu-me. E viu a minha casinha branca, também, e saltou do navio para a margem. Oh, meu Deus!

Agora sei, adivinho. Acabou-se o reinado do homem. Ele veio. Aquele que imaginava os primeiros terrores dos povos ingênuos. Aquele que os padres inquietos exorcizavam, que os feiticeiros evocavam nas noites sombrias sem o verem aparecer ainda. Aquele a quem os passageiros, senhores do mundo, emprestavam todas as formas monstruosas eu graciosas dos gnomos, dos espíritos, dos gênios, das fadas, dos duendes.

Depois das grosseiras concepções do terror primitivo, os homens mais perspicazes pressentiram-no mais claramente. Mesmer tinha-o adivinhado, e os médicos, há três anos já, que descobriram, de uma maneira precisa, a natureza do seu poder antes mesmo que ele próprio a exercesse.

Jogaram, com esta arma do novo Senhor, o domínio de um querer misterioso sobre a alma humana, tornada escrava. Chamaram a isso magnetismo, hipnotismo, sugestão... Que sei eu?

Vi-os divertirem-se, como crianças imprudentes, com este horrível poder. Desgraça para nós. Desgraça para o homem. Ele veio, o... o... como se chama... o... Parece-me que ele grita o seu nome, e eu não o ouço... o... o... Horla... Ouvi... O Horla. É ele... O Horla... veio...

Oh! O abutre comeu a pomba, o lobo comeu o cordeiro, o leão devorou o búfalo de cornos agudos; o homem matou o leão com a flecha, com a espada, com a pólvora; mas o Horla vai fazer do homem o que nós fizemos do cavalo e do boi; a sua coisa, o seu servidor, e o seu alimento pelo único poder da sua vontade. Desgraça para todos.

Contudo, algumas vezes, o animal revolta-se e mata aquele que o domou... Eu também quero... Eu poderei... Mas preciso conhecê-lo, tocá-lo, vê-lo. Os sábios dizem que o olho do animal, diferente do nosso, não vê como o nosso. E meu olho não pode distinguir o novo ser que me oprime. Por quê? Oh! Lembro-me, agora, das palavras do monge do monte Saint-Michel: “E vemos nós a centésima-milésima parte do que existe? Olhe o vento, por exemplo, que é a maior força da natureza, que derruba os homens, que abate os edifícios, desenraíza as árvores, levanta o mar em montanhas de água, destrói as falésias e atira os grandes navios contra os rochedos, o vento que mata, que assobia, que geme, que muge, já o viu e porventura poderá vê-lo? E, no entanto, existe”.

E pensava ainda: o meu olho é tão fraco, tão imperfeito que nem distingue os corpos duros, se forem transparentes como o vidro...

Se um vidro não espelhado me barrar o caminho, ele atira-me para cima, como a ave que entra num quarto, bate com a cabeça contra os vidros. Além destas, mil outras coisas o enganam e extraviam.

 Que há, pois, de espantar no fato de ele não poder distinguir um corpo novo que a luz atravessa?

Um ser novo. Por que não? Ele tinha que vir, com certeza; por que havíamos nós de ser os últimos? Não o distinguimos como não distinguimos todos os outros criados antes de nós? É porque a sua natureza é mais perfeita, o seu corpo mais fino e mais acabado do que o nosso, que o nosso tão fraco, tão desajeitadamente concebido, atravancado de órgãos sempre fadigados, sempre forçados como molas muito complexas, corpo que vive como uma planta e como um animal, alimentando-se principalmente de ar, de erva e de carne, máquina animal exposta às doenças, às deformações, às putrefações, ofegantes, mal regulada, ingênua e bizarra, engenhosamente malfeita, obra grosseira e delicada, esboço de ser que poderia tornar-se inteligente e soberbo.

Quase todos nós, desde a ostra ao homem, somos tão pouco neste mundo! Por que não parecerá mais um, uma vez terminando o período que separa as aparições sucessivas de todas as espécies diversas?

Por que não mais um? Por que não outras árvores, também, árvores de flores imensas, resplandecentes, perfumando regiões inteiras? Porque não outros elementos como o fogo, o ar, a terra e a água? São quatro, apenas quatro, estes pais — amas dos seres. Que mágoa! Por que não haverá quarenta, quatrocentos, quatro mil? Como tudo é pobre, mesquinho, miserável, avaramente dado, secamente inventado, pesadamente feito. Onde estará a graça do elefante, do hipopótamo? A elegância do camelo?

Mas, direis vós: a borboleta? Uma flor que voa. Sonho com uma, que será grande como cem universos, com asas, das quais nem sequer posso imaginar a forma, a beleza, a cor e o movimento. Mas vejo-a... Vai de estrela em estrela, refrescando-as, embalsamando-as com o sopro harmonioso e vivo da corrida... E os povos, de lá do alto, viam-na passear extasiados e encantados.

*

Que tenho, pois?  É ele, ele, o Horla, que me persegue, que me faz pensar estas loucuras. Vive em mim, transforma-se na minha alma; matá-lo-ei.

19 de agosto. — Matá-lo-ei. Vi-o. Sentei-me, ontem, à minha secretária e fingi escrever com uma grande atenção. Eu bem sabia que ele viria rondar à minha volta, muito perto, tão perto que talvez pudesse tocá-lo, agarrá-lo. E então... então, como um desesperado, servir-me-ei das minhas mãos, dos meus joelhos, do meu peito, da minha fronte, dos meus dentes, para o estrangular, esmagá-lo, mordê-lo, despedaçá-lo.

E espreitava-o com todos os meus sentidos sobre-excitados. Tinha acendido os meus dois candeeiros e as oito velas da chaminé como se pudesse descobri-lo com esta claridade.

Na minha frente, o meu leito, um velho leito de carvalho, com colunas; à direita, a chaminé: à esquerda, a porta, fechada com cuidado, depois de a ter deixado muito tempo aberta com o fim de o atrair; atrás de mim, um alto armário de espelho, em frente do qual, todos os dias, me barbeava, me vestia e onde tinha o costume de me ver, dos pés à cabeça sempre que lhe passava na frente.

Fingia escrever para o enganar, porque ele também me espiava, e, de repente, senti, tive a certeza, que ele lia por cima do meu ombro, que estava lá, roçando a minha orelha. Levantei-me, as mãos estendidas, voltando-me tão depressa, que estive quase a cair. Pois bem!... Via-se como em pleno dia e não me vi no meu espelho... Estava vazio, claro, profundo, cheio de luz. E a minha imagem não estava lá... e eu estava na sua frente. Via o grande vidro límpido de alto a baixo. E via tudo isto com os meus olhos aterrados; e não ousava avançar, não ousava fazer um movimento, sentindo, no entanto, que ele estava lá, mas que me escaparia do novo ele, cujo corpo imperceptível tinha devorado o meu reflexo.

Como tinha medo! Mas eis que, de repente comecei a avistar-me numa espécie de bruma, do fundo do espelho, como que no meio de uma toalha de água; e parecia-me que esta água deslizava da esquerda para a direita, lentamente, tornando a minha imagem mais nítida, de segundo em segundo. Era como que o fim de um eclipse. O que me escondia não parecia possuir contornos nitidamente fixados, mas uma espécie de transparência opaca, que se aclarava pouco a pouco.

Pude enfim distinguir-me completamente, tal qual como nos outros dias, quando me olho. Vi-o. Mas o medo ficou comigo e ainda me faz arrepiar.

29 de agosto. — Matá-lo como, uma vez que o não posso atingir? Veneno? Mas ele veria misturá-lo com a água; e, do resto, os nossos venenos terão efeito imperceptível sobre o seu corpo? Não... Não, decerto... Então... Então?...

 21 de agosto. — Mandei chamar a Ruão um serralheiro e encomendei-lhe para o quarto persianas de ferro, como têm, em Paris, certas habitações particulares do rés-do-chão, por causa dos ladrões.

E, além disto, far-me-á também uma porta semelhante. Vão considerar-me um poltrão, mas rio-me disso...

10 de setembro. — Ruão. Hotel Continental. Acabou-se... Acabou-se... Mas estará morto? Tenho a alma transtornada pelo que vi.

Ontem, depois de o serralheiro ter colocado a persiana e a porta de ferro, deixei tudo aberto até a meia noite, se bem que começava a esfriar.

De repente, senti que ele estava lá e fui tomado de alegria, de uma alegria doida. Levantei-me devagar e andei da esquerda para direita, muito tempo, para que ele não desconfiasse; depois, tirei as botas e, negligentemente, calcei os chinelos; em seguida, fechei a persiana de ferro e, voltando tranquilamente até a porta, fechei-a também com duas voltas. Tornando então à janela, fixei-a com um cadeado, cuja chave guardei no bolso.

De repente, compreendi que ele só agitava à minha volta, que tinha medo por sua vez, que me ordenava que lhe abrisse a porta. Estive quase a ceder; mas não cedi; e, encostando-me à porta, entreabri apenas o preciso para poder passar de costas; e, como sou muito alto, a cabeça tocava no portal. Tinha a certeza de que ele não tinha podido escapar-se e fechei-o sozinho.

Que alegria! Agarrara-o! Então desci a correr, peguei os meus dois candeeiros do salão, que ficavam por baixo do quarto, e entornei o óleo todo por cima dos tapetes, dos móveis, por toda a parte; lancei-lhe o fogo em seguida, e pus-me a salvo, depois de ter fechado bem, com duas voltas, a grande porta da entrada. Fui esconder-me no fundo do jardim, num maciço de loureiros. Como demorava! Como demorava! Estava tudo negro, mudo, imóvel, nem uma aragem, nem uma estrela, montanhas de nuvens que não se viam, mas que esmagavam a minha alma, tão pesadas... tão pesadas!

Olhava a casa e esperava. Como demorou! Já pensava que o fogo se tinha apagado por si, ou que ele o tinha extinguido, quando uma das janelas de baixo rebentou sob o impulso do incêndio e uma chama vermelha e amarela, comprida, mole, acariciadora, subiu ao longo do muro branco e beijou-o até o telhado. Um clarão correu nas árvores, nos ramos, nas folhas, e um arrepio de medo também. Os pássaros acordaram; um cão pôs-se a uivar. Pareceu-me que o dia despontava. Rebentaram mais duas janelas logo a seguir, e vi que todos os baixos da casa não eram mais do que um braseiro aterrador. Mas um grito, um grito horrível, agudíssimo, dilacerante, um grito de mulher passou na noite, e abriram-se duas mansardas. Tinha esquecido os criados. Vi as suas faces aterradas e os braços que se agitavam.

Então, enlouquecido de horror, pus-me a correr para a aldeia, gritando: “Socorro! Socorro! Fogo! Fogo!”. Encontrei pessoas que já se encaminhavam para lá e voltei com elas para ver...

A casa, agora, não era mais uma fogueira horrível e magnífica, uma fogueira monstruosa, que iluminava a terra toda, uma fogueira onde se queimavam homens e onde ele ardia também. Ele, Ele, o meu prisioneiro, o Ser novo, o novo Senhor, o Horla!

De repente, o telhado inteiro sumiu-se entre as paredes, e um vulcão de chamas jorrou até o céu.

Através das janelas abertas sobre a fornalha, via a cuba de fogo, e pensava que ele lá estava, naquele forno, morto...  Morto? Quem sabe?... O seu corpo...

O seu corpo, que o dia atravessava, não seria indestrutível pelos meios que matam os nossos? Se não estivesse morto?... Talvez só o tempo pudesse ter ação sobre o Ser invisível e temível. Por que teria, então, aquele corpo transparente, aquele corpo irreconhecível, aquele corpo de espírito, se deveria temer, ele também, os males, os ferimentos, as enfermidades, a destruição prematura? A destruição prematura? Todo o terror humano vem dela. Depois do homem, o Horla. Depois daquele que pode morrer todos os dias, a todas as horas, a todos os minutos, por todos os acidentes, veio aquele que não deve morrer senão no seu dia, na sua hora, no seu minuto, porque atingiu o limite da sua existência.

Não... não... sem dúvida, sem dúvida nenhuma... Ele não morreu. Então... então... que eu me mate, eu...[1]

 

Fonte: “Revista da Semana”/RJ, edição de 20 de dezembro de 1947.

Ilustração do miolo: William Julian-Damazy (1865 – 1925)

Fizeram-se breves adaptações textuais.


Nota:

[1] Esta é a segunda versão de “O Horla”, publicada em 1887. A primeira, de 1886, pode ser lida aqui . Vide, também, aqui, a “Carta de um Louco de 1885.

 

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