O VAMPIRO - Conto Clássico de Horror - Gaston Jourdanne


O VAMPIRO

Gaston Jourdanne

(1858 – 1905)

Tradução de Paulo Soriano

 

Lembro-me de que, aos doze anos, estava perdidamente apaixonado pela senhorita Clotilde Jarrier. Ela era uma belíssima morena, de olhos escuros, com a qual todos os garotos da minha idade sonhavam. Quando saíamos ao passeio, tínhamos a certeza de que a avistaríamos em seu jardim, cujo portão dava para a praça Montholon. Um dia, não a vimos. E isto deu origem a muitos comentários. Então, um aluno externo, que se dizia excepcionalmente bem informado, afirmou que ela havia enlouquecido. Os céticos alegavam que ela sempre fora um pouco excêntrica: uma aranha no teto, diziam. Eles não imaginavam que estivessem tão perto da terrível verdade. Mas estavam enganados, pois a excentricidade nem sempre residira no cérebro de Clotilde.

A terrível criatura — que entrara na cabeça da senhorita Jarrier de forma tão insólita — fora uma aranha-diademada, ou tarântula tetrapneumonídea. Ela é encontrada em jardins; preferencialmente, nas flores. Enfatizo esses detalhes científicos porque, caso a minha história caia nas mãos de um naturalista, eu ficaria curioso por saber sua opinião sobre o estranho evento que vou relatar.

Em seu jardim, Clotilde Jarrier tinha rosas amarelas de uma espécie bastante rara, que exalavam uma fragrância balsâmica muito pronunciada. Ela se adornava com essas flores e sempre fazia delas um pequeno buquê, colocado graciosamente sobre orelha, à moda espanhola.

Ela amava inalar aquele penetrante aroma. A aranha microscópica foi aspirada por ela e entrou em suas narinas. Alguns dias depois, a senhorita Jarrier foi repentinamente acometida por violentas enxaquecas, acompanhadas de sangramentos nasais.

Os médicos nada podiam entender, porque as dores de cabeça vinham do estômago e as funções digestivas não haviam sofrido qualquer perturbação.

Pouco a pouco, a dor tornou-se tão insuportável que a doente soltava gritos lancinantes e atirava-se de cabeça contra as paredes. Para não se separar dela, o pai acolchoou um quarto em sua casa.

O que havia de notável nessa doença singular era que a deterioração de suas faculdades mentais, quase imperceptível a princípio, agravava-se diariamente, e de forma progressiva e contínua; e, ao tempo de sua morte, a senhorita Jarrier usava uma camisa de força. Sua morte foi marcada por uma dor atroz, que fazia estremecer os médicos mais experientes.

Quando ela deu o último suspiro, o corpo docente, reunido, procedeu à autópsia. Removida a caixa craniana, os médicos viram um monstro, tão grande quanto um caranguejo, que se contorcia no meio dos meandros do cérebro, tentando escapar, assim que a sua prisão foi entreaberta.

Era a aranha imperceptível que, alimentando-se do fluxo de sangue, houvera experimentado um imenso crescimento. Era o súcubo hediondo que, a cada dia, havia sugado uma parcela da vida da jovem.

Como pôde o monstro chegar até ali e se acostumar a viver privado de ar, mas saciado de sangue?  Jamais consegui descobrir, pois nenhum médico soube me dizer. Mas, desde o dia em que tais detalhes foram conhecidos, a visão de uma rosa sempre me causou um estremecimento terrível, e o destino da bela Clotilde envenenou-me o próprio perfume das flores[1].


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