A CORDA DE FOGO - Conto Clássico de Suspense - Wilkie Collins

A CORDA DE FOGO

Wilkie Collins

(1824 – 1889)

Tradução de autor anônimo do início do séc. XX



 Vou-lhe contar simplesmente como ia perdendo a vida por causa de um pavio e uma vela.

Tinha, então, vinte e cinco anos e acabava de ser promovido a imediato. Era no ano 1818 ou 1819, não me lembro mais ao certo; nunca tive memória para datas, mas, quanto ao mais, recordo-me perfeitamente. Lembro-me, por exemplo, que, nesse tempo havia guerra por todos os cantos da América do Sul. Quase todas as possessões espanholas desse continente tinham-se declarado independentes e havia lutas entre os partidários dos antigos governos e dos novos; mas, por então os novos levavam a melhor, graças a um general chamado Bolívar. Acontecia, porém — como sempre que há guerras por este vasto mundo — que muitos ingleses e irlandeses, sempre prontos a brigar, tinham ido se alistar no exército de Bolívar como voluntários, e alguns de nossos negociantes achavam vantajoso mandar, através do oceano, aprovisionamento para seu exército.

Nesse ano, eu parti como imediato de um brigue pertencente a uma casa de Londres que fazia especialidade em comerciar com lugares distantes e extraordinários.

Partimos, levando um carregamento de pólvora para o general Bolívar e seus voluntários. O brigue chama-se “Boa Intenção” — curioso nome para um barco carregado de pólvora!

Esse “Boa Intenção” era o casco mais velho e arruinado que eu jamais vira. De 250 a 280 toneladas, tinha uma equipagem de oito homens, o que era evidentemente pouco para seu serviço; além disso, por causa da natureza de nossa carga, fomos sujeitos a um regulamento terrível. Fumar ou acender uma lanterna a bordo eram operações cercadas por complicado cerimonial; e era-nos absolutamente proibido ter conosco um coto de vela.

Começamos por tomar o rumo das ilhas Virgens, nas índias Ocidentais; depois, aproamos para as Antilhas e, tendo-as avistado, seguimos rumo sul, até que o vigia bradou:

—Terra!

Tínhamos diante de nós o litoral da América do Sul. Era noite quando o abordamos. Atiramos a sonda que acusou quatro ou cinco palmos de fundo; não mais. Esperamos uma hora inteira e vimos afinal surgir um barco, que se adiantava para nós, com dous remadores apenas.

Gritamos:

—Olá!

Responderam:

—Amigos!

E vieram a bordo.

Eram um irlandês e um piloto indígena cor de café, mas que falava um pouco de inglês. O irlandês entregou a nosso capitão uma carta que ele me mostrou: informava-nos que essa parte da costa não era segura para o desembarque de nossa carga; espiões do inimigo tinham sido aprisionados e fuzilados na véspera pelas vizinhanças. Podíamos, porém, confiar o barco ao piloto indígena, que tinha instruções para nos conduzir a outro ancoradouro. Essa carta tinha assinatura igual à da encomenda que trazíamos; por isso, deixamos o irlandês voltar no bote e entregamos o comando da manobra ao piloto cor de café.

Ele, imediatamente, faz-nos navegar para o norte, até perder a terra de vista, e só voltou a se aproximar depois que caiu a noite.

A equipagem obedecia-lhe de mau humor, porque o maldito piloto era o sujeito mais grosseiro e truculento que se pode imaginar, dando as vozes de comando com pragas e insultos.

Deu-me um trabalho insano conseguir que fizessem a manobra sob a direção desse bruto e, depois de tanto me ter esforçado para acalmar o pessoal, não pude evitar um incidente dos mais violentos comigo mesmo.

O piloto desceu do castelo de proa para o convés de cachimbo na boca Detive-o, porque isso era contra o regulamento. Ele, sem responder, tentou afastar-me de seu caminho: isso obrigou-me a deitar-lhe a mão, imobilizando-o. Juro que não tinha a intenção de lançá-lo por terra, mas não sei como isso aconteceu — ele caiu e, furioso com o riso da marinhagem, ergueu-se e atirou-se a mim de faca em punho.

Arranquei-lhe a arma, que atirei por cima da amurada, e, como ele ainda pretendesse agarrar-me pelo pescoço, entonteci-o com uma bofetada! Ele afastou-se, lançando-me um olhar mau, que apenas me fez sorrir.

Aproximamo-nos de novo do litoral entre onze horas e meia-noite, lançando âncora no lugar que nos foi indicado pelo piloto.

A escuridão era completa, a calmaria absoluta. Nem a menor brisa. O capitão estava de quarto com dois de nossos melhores marinheiros; os outros tinham-se deitado na câmara inferior; apenas o piloto mantinha-se à proa, imóvel, encostado ao mastro. Eu só devia entrar em serviço às 4 horas da madrugada, mas, não gostando do aspecto da noite e, ainda menos, do aspecto do piloto, recostei-me sobre um maço de cordas no tombadilho, resolvido a cochilar ali mesmo para o que desse e viesse.

A última coisa de que me lembro foi que o capitão me veio dizer que também não gostava do rumo que estavam tomando os acontecimentos e, por isso, ia ao porão passar uma revista nas escotilhas. Sim, essa foi a única coisa que me ficou na memória antes que eu me deixasse adormecer, embalado pelo ritmo calmo e regular das ondas.


*


Fui despertado por um ruído que vinha da proa, ruído de luta. Ao mesmo tempo, senti-me amordaçado; um homem pesava sobre meu peito, outro sobre minhas pernas; em menos de um minuto fui amarrado de pés e mãos. O brigue estava em poder dos espanhóis, que o invadiam por todos os lados. Ouvi por seis vezes o ruído de corpos caindo na água; vi meu capitão — ferido em pleno peito, quando subia a escada do castelo de proa — ser atirado, como um fardo, por cima da amurada. Só eu restava com vida de toda a equipagem do “Boa Intenção”. Por que me teriam poupado? Não lograva compreendê-lo, quando vi o piloto vir, de lanterna em punho, contemplar-me com um sorriso diabólico.

Eu não podia mover-me nem falar. Em torno de mim, os espanhóis trabalhavam ativamente na faina de passar nosso carregamento para seu navio. Mas o piloto indígena nada fazia. Andava de um lado para outro e, de instante a instante, vinha observar-me com sua lanterna e seu sorriso infernal.

Sou hoje bastante idoso para não me envergonhar com a verdade e confessar que sua atitude causou-me um terror imenso. Que estaria aquele miserável tramando para vingar a afronta, que eu lhe infligira?

O medo, as cordas — que me imobilizavam — e a mordaça — que me sufocava — tinham esgotado quase por completo minhas forças quando os espanhóis deram por finda sua tarefa. A alvorada começava e, embora não tivessem feito o transporte de todo o carregamento, eram forçados a fugir antes que de terra os surpreendessem. Parece inútil dizer que a carta apresentada a meu capitão, era falsa; que o piloto era um espião dos espanhóis… Tudo isso saltava aos olhos… Mas que pretenderia o miserável piloto fazer de mim?

Nesse momento, só ele restava a bordo. Segurou-me, manietado como estava, arrastou-me brutalmente para o porão e prendeu-me solidamente às argolas de ferro do soalho.

Assim fiquei alguns minutos, sem poder fazer um movimento, com o coração batendo a ponto de me doer dentro do peito. Mas o piloto não tardou a voltar: trazia numa das mãos um castiçal com uma vela acesa, na outra uma verruma e uma longa e fina corda de algodão bem untada com azeite.

Pousou o castiçal sobre o soalho alcatroado do porão, quase junto ao costado. A claridade da vela era fraca, mas permitia-me ver uns doze ou quinze barris de pólvora ali deixados. Comecei então a compreender o projeto de meu inimigo e um arrepio de horror fez correr pela testa grossas bagas de suor. O miserável dirigiu-se a um dos barris, que estava mais ou menos a um metro do castiçal, fez-lhe um furo com a verruma e colheu na palma da mão a pólvora, que começou a escorrer docemente. Quando teve a mão cheia, esfregou-a na corda em todo o comprimento para transformá-la num rastilho eficaz e rápido. Depois tapou o furo do barril com uma extremidade da corda e enrolou a outra metade na vela, tendo o cuidado de não ultrapassar o terço inferior.

Fez isso com calma, com cuidado. Quando acabou, veio a mim, verificou se eu estava bem amarrado e, com o mesmo sorriso hediondo, gritou-me ao ouvido:

— Agora fica aí e arrebenta com o brigue.

Subiu a escada, fechou o alçapão e, pouco depois, ouvi o ruído de seis remos no bote que se afastava.

Esse ruído foi decrescendo, sumiu-se afinal, e eu fiquei só, fitando a luz da vela como um hipnotizado.

Era uma vela nova… Quanto poderia durar? Seis ou sete horas… Mas a um terço do coto estava enrolada à corda-rastilho… E eu estava ali, amarrado, obrigado a olhar, a avaliar o tempo que me restava de vida, condenado a um suplício atroz e inevitável, que via aproximar-se mais e mais, a cada segundo. Não sei dizer exatamente por quanto tempo conservei o uso dos sentidos depois que cessei de ouvir o ruído dos remos do piloto. Lembro-me do que pensei até certo ponto; mas, passado esse ponto, tudo se confunde em minhas recordações.

Começara por fazer um esforço insensato para libertar minhas mãos das cordas, que a prendiam. Esses violentos empuxões fizeram com que as cordas me cortassem as carnes até tirar-lhes sangue, mas nem sequer as distenderam. E acabei por imobilizar-me de novo, semissufocado, porque a mordaça só me deixava respirar pelo nariz.

Fiquei, então, quieto para retomar a fôlego, com o olhar fito na chama da vela. Essa chama alongava-se ou decrescia alternativamente, fazendo escorrer a cera quente até a corda. Em dado momento, pus a calcular sua duração e cheguei à conclusão de que me restaria, no máximo, hora e meia de vida.

Hora e meia! Em tão pouco tempo haveria probabilidade de vir algum socorro de terra ou passar algum navio à vista do brigue? Seria possível que ninguém de terra tivesse a curiosidade de vir examinar aquele navio abandonado? Mas era ainda noite fechada… e o maldito piloto podia ter-nos feito ancorar diante de uma praia deserta….

Essa ideia levou-me a fazer novos e frenéticos sobressaltos para ver se libertava as mãos. Mais uma vez me convenci da inutilidade desse esforço e aquietei-me, sem poder desviar os olhos da vela em que o pavio, já muito longo, formara no alto uma brasa em forma de cogumelo. Essa brasa não tardaria a cair…. Se o balanço do brigue a impelisse para um lado, poderia lançá-la sobre a corda de pólvora… Nesse caso, minha morte poderia estar por minutos. Como seria a morte em tais condições? Tentei imaginá-lo… Um grande fragor em torno e dentro de mim, um deslumbramento, que talvez não fosse doloroso, e meu corpo seria dispersado em milhões de estrias… Seria assim?

De tanto pensar nisso, perdi a consciência por algum tempo.

Quando voltei a refletir conscientemente, o pavio da vela estava de um comprimento desmesurado e a chama enorme coroava-se com um penacho de fumaça… Esse pavio ia cair, com certeza…

Tentei fazer uma oração, tentei desviar os olhos… Com grande esforço de vontade, consegui fechá-lo, mas dir-se-ia que a luz da vela atravessava minhas pálpebras para queimar-me o cérebro. Preferi reabrir os olhos e fitar a chama, incapaz de pensar, com todas as faculdades reduzidas a isso… Ver, ver que a morte se aproximava.

Quando a brasa do pavio caiu afinal, tombou para um lado, e apagou-se no soalho, não pude deixar de conter uma risada. Desatei a rir com tanto gosto que, amordaçado como estava, ia perdendo a respiração. E só cessei de rir quando me veio a ideia de que essa hilaridade em momento tão trágico denunciava um desequilíbrio em meu cérebro.

Quis olhar para cima, para o alçapão, a fim de verificar se o dia já não teria nascido; não tive forças para tanto e meus olhos continuaram presos à vela.

O pavio recomeçava a se alongar e havia agora apenas uma polegada de vela antes de chegar à corda com pólvora. Uma polegada… Quantos minutos representaria? Não pude conter o riso, que me sacudiu de novo, irresistivelmente, até que senti o cérebro invadido por uma espécie de fulgor, deixando-me inconsciente. Depois, lembro-me que delirei, vendo a minha mãe e Lizzie, minha noiva, rindo e andado em torno de mim. Minha mãe fazia tricô com cordas de fogo e havia entre seus dedos chamas longas e fumacentas.


*


Depois, só me lembro quando despertei em um bom leito, tendo, em torno de mim, três homens, que me observavam atentamente. Era dia claro e eu estava entre compatriotas na ilha de Trinidad. Passara um mês inconsciente, delirando.

Contaram-me, então, que meu brigue fora avistado por um navio norte-americano, que mandou o imediato, com dois homens, em um bote para reconhecê-lo. A luz da vela, filtrando pelo alçapão, foi que denunciou a minha presença a bordo. Descendo ao porão de sabre em punho, com receio de alguma surpresa, o imediato teve a feliz ideia de começar por cortar a corda de pólvora.

Foi sua salvação e a minha, pois, apenas ele fez isso, a chama alcançou a corda, que crepitou com força, apagando a vela. Mas a comunicação com o barril de pólvora estava interrompida.

Então os ianques levaram o brigue para a ilha da Trinidad, onde me puseram no hospital militar.

Saí dali completamente curado, mas, ainda hoje, quando recordo esses fatos, sinto-me assim… não sei como dizer… assim, um pouco perturbado.


Fonte: “Eu Sei Tudo”/RJ, edição de setembro de 1923.



 

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