O LOBISOMEM DE GUALEGUAYCHÚ - Conto Clássico Sobrenatural - J. V. Mansilla

O LOBISOMEM DE GUALEGUAYCHÚ

J. V. Mansilla

(Séc. XX)

Tradução de H. C.

(Séc. XX)


No salão, um grupo de cavalheiros e damas palestravam animadamente. Lucia, a mais moça das Chávez, executava no piano O Cisne de Saint-Saëns, enquanto o Sr. Chávez e eu, recostados em cômodas poltronas de vime, no vestíbulo, nos deleitávamos na contemplação da paisagem enluarada. A perspectiva que nos apresentava a cidade de Gualeguaychú era, na realidade, surpreendente.

Acima da formosa quinta e dos jardins que circundavam o chalé, avistava-se uma parte do pequeno porto do rio que tem o mesmo nome da cidade, com modestas lanchas e barquinhas que pareciam mais de brinquedos… E, além, aparecia um trecho da cidade prateada, de contornos irregulares, e o serpenteio esbranquiçado do rio na linha do horizonte, os salgueiros das ilhas escuras…

De cultura muito escassa, porém com uma imaginação tropicalmente privilegiada, o senhor Chávez era, no mundo agropecuário, um astro de primeira grandeza e, nas reuniões sociais do povoado, uma figura indispensável pelas suas pilhérias e, especialmente, pelos casos extraordinários que a ele aconteceram sempre era época longínqua…

Sua especialidade eram os fatos milagrosos e as histórias macabras. Era o que se poderia chamar um Poe inédito… Um Poe ultravisionário e espiritualista. O relógio do campanário badalava doze horas; o senhor Chávez terminava a narração da história funambulesca do “homem sem cabeça”, reafirmando, ao terminar, que tudo que havia dito era verídico, pois que “aquilo” acontecera numa estância sua, próxima da alucinante campina de Montiel.

Depois de acender outro “puro”, perguntou subitamente:

—Hoje é sexta-feira?

Como eu lhe respondesse afirmativamente, com ares de mistério e de muita importância, prosseguiu:

—Dentro de alguns minutos, terei o grato prazer de mostrar-te um caso de estupenda “aberração” ou de imaginária “metempsicose”, segundo a definição pedantesca de um doutorzinho que eu conheço.

—De que se trata, pois? — perguntei, com certa ironia.

—Do lobisomem… Nem mais nem menos. Nunca ouviste em suas viagens pelo interior falar desta besta fabulosa e terrível?

—Alguma coisa já ouvi, porém não posso recordar nada concreto… Tenho apenas uma ideia confusa e vaga!

—Bem, já o vais ver…

E — com voz medrosa e de agouro, apontava para um grupo de palmeiras por entre as quais havia um trilho, que vinha até o portão de ferro que se abre para uma avenida paralela ao rio — murmurou:

— Olha fixamente no lugar que te indico e não se impaciente… Daqui a pouco verás… Oh, é um caso prodigioso!…

Obedeci. Meu pensamento neste momento estava longe de supor em fantásticas aparições ou efeitos teatrais de um diabólico ilusionista… Pensei a princípio que o senhor Chávez, naquela noite, poderia ter abusado um pouco mais do vinho e queria fazer “blague”.

Debaixo dos dedos maravilhosos de Lucia, “O Cisne” agonizava e da sala partia, agora, um rumor de vozes apagadas. De repente, uivou Fido, o belo ovelheiro, que até aquele momento simulava dormir estendido ao comprido embaixo da escadaria.

—É ele que vem!… — observou o senhor Chávez com tom de triunfo. — Presta atenção e verás!

Fido redobrou seus uivos arrepiantes e, com o rabo entre as pernas, como se um perigo infernal o ameaçasse, foi esconder-se debaixo de uma mesinha que estava num canto do vestíbulo.

No lugar onde o senhor Chávez me indicava, entre a sombra das duas pequenas palmeiras, vi surgir dois pontos luminosos, alguma coisa parecida com duas grandes pupilas que brilhavam com o esverdeado fulgor dos fogos-fátuos.

—Aí está… Agora o vê?…

—Não vejo mais que duas luzinhas. Dois olhos de gato, talvez.

Voltei-me e fui até o lugar onde estava Fido, que uivava aterradoramente: “ih, ih!…”

—Olha agora! Olha, olha… É ele, o lobisomem! Que dizes agora?

Efetivamente, no “trilho acinzentado”, até o portão que dava para o rio, marchava um monstruoso cão negro, um monstruosíssimo cão como nunca vi nem talvez tornarei a ver… Tudo nele era descomunal, alucinante, grotesco… Mais que tudo surpreenderam-me suas orelhas: eram como leques chineses, e como o monstro andava com o focinho quase a rastejar pelo chão, as orelhas tornavam-se espantosas. Nenhum ruído produziam suas patas sobre as folhas secas e parecia deslizar como uma sombra, tendo como tal atravessado fortes barras de ferro do portão. Depois, seguiu pela avenida afora, indo fundir nas águas quietas do rio onde se volatilizava…

Um calafrio, uma dupla sensação psicológica e espiritual de terror supersticioso me abalou. Era a crença atávica de meus antepassados atuando em mim.

— Papai, papai, faz o favor de fazer calar este cão! — pediu da porta da sala Lucia.

— Fido! Psiu! Silencio!... — este obedeceu à voz do amo.

—Que apocalíptico animal é este?

Sorriu levemente o senhor Chávez e disse:

—Não se assuste… É o Romano… Romanito Correa, o filho da viúva Corrêa… Mas por que me encaras com estes olhos tão grandes, tão cheios de espanto? Vá, vá… creio que não é coisa para se espantar assim… Era verdade que não conhecias lobisomem? Certamente, não é uma novidade… Agora já o viste e dizem que ele salta os muros dos cemitérios e vai ao túmulo mais recente, cava com as unhas até encontrar o ataúde, morde com ferocidade as tábuas do caixão até romper completamente e… com o luar, tem lugar o horrível festim…

“Meu amigo, esta é a vida do lobisomem, que é sempre o sétimo filho, sendo todos varões e, do mesmo modo, se todas são mulheres, a sétima é mula sem cabeça… Uns dizem ser uma aberração; outros, mistério… Quem sabe!… O homem que é lobisomem se conhece: é magro, pálido e está sempre triste… Invariavelmente, todas as sextas-feiras à meia-noite em ponto, esteja onde estiver, haja o que houver, desaparece, perde sua forma humana para tomar a de um cão enorme, negro, espantoso.. Os outros cães não se aproximam nunca deles e somente às vezes o seguem de longe, uivando aterradoramente. Nem a mula sem cabeça, nem o lobisomem atacam os vivos, mas quem lhe toca na cauda enlouquece imediatamente…

“Eu conheço várias pessoas que ficaram loucas assim… Como te arranjarias para afastar de casa estes perigosos visitantes noturnos? Simplíssimo: põe-se um sapatinho debaixo da cama ou duas facas em cruz debaixo dos travesseiros…”

Depois de todos estes comentários exclamei:

—Coitada da mãe do lobisomem!…

—Pobre mulher! — repetiu o senhor Chávez.

E acrescentou:

—Vive aí nos fundos de minha quinta, em um barracão que está para cair de um momento para outro... Faz pena ver o sacrifício que esta pobre mãe faz para não faltar o alimento aos seus sete filhos... O mais novo, Romano, tem vinte anos, poderia trabalhar, é inteligente, dizem que aprendeu a ler e a fazer versos; porém, como é lobisomem, ninguém lhe quer dar trabalho e está feito uma desgraça, amarelo, magro... Os meninos lhe atiram pedras e as mulheres lhe fogem como de uma peste...

Fez uma breve pausa e, acendendo de novo o “puro”, que se havia apagado, e como no vasto e misterioso silêncio da noite ainda uivavam uns cães, sentenciou:

—Deve ser Romano que está chegando no cemitério.

E acrescentou:

—Se o lobisomem prefere antes atravessar quintas e despovoados que ir diretamente ao campo santo, é porque os instintos do homem sempre predominam nele…


*


—Sugestão, alucinação? Não sei. De qualquer modo, não posso crer no que vi esta noite…

Lucia, a distinta e espiritual criatura, baixou os olhos, e doce e vagarosamente suspirou:

—Creia-me, este rapaz é um herói; outro, em seu lugar, já se teria suicidado… Pobre Romano! Tem uma alma imaculada e um coração de ouro. Quantas vezes, ao vê-lo passar, abatido e só, tive vontade de detê-lo, oferecer-lhe minha amizade, meu…

E não terminou a frase, que, por isso mesmo, para mim, foi uma confissão: a menina ruiva e bela amava o moço triste que arrastava sobre os ombros o peso de uma terrível lenda; e guardei silêncio, compreendendo o drama destas duas almas, tão belas e tão imaculadas.


Fonte: “Fon-Fon”/RJ, edição de 13 de fevereiro de 1926.

 

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