AS ARARAS DENUNCIADORAS - Conto Clássico de Mistério - Caius Martius

AS ARARAS DENUNCIADORAS

Caius Martius1


Padre mestre Militão, à maneira da escola peripatética, dava-nos, para resolvermos, questões de filosofia, enquanto, nos passeios costumeiros, percorríamos o umbroso parque que circundava o vetusto edifício que nos servia de seminário.

De uma feita, com a clareza e inteligencia que o tornaram notável, destruía uma objeção que se lhe fizera, quando, de súbito, vemo-lo interromper o seu erudito discurso.

Seguimos a direção do seu olhar: longe, no alto, quase a tocar o horizonte, distinguimos um bando de aves que, em intervalo quase regular, faziam ouvir os seus gritos estridentes e desarmoniosos: eram araras que iam em demanda da pousada.

Recolheu-se o padre mestre em um silêncio que religiosamente respeitamos; dirigindo-se, depois, a nós, de quem, momentaneamente, parecia haver-se esquecido:

— Aquelas araras despertaram-me na mente a recordação de um acontecimento que houve lugar na minha terra; era eu, então, criança: trata-se de um processo, que se tornou célebre, pelas circunstâncias que presidiam à descoberta dos autores de um crime abominável.

Eis o fato, em resumo:

O ouvidor Mourão, celibatário inveterado, costumava, depois do jantar, dar o seu passeio.

Depois de percorridos vários bairros, ia ter à Ponte da Cambariba, sobre o rio que corta a capital do meu estado; aí se deixava ficar até o pôr do sol.

O magistrado em questão era um desses personagens de costumes simples, que procuram ocultar a sua importância aos olhos da notoriedade.

Moço ainda, considerado o cargo que ocupava, pois não ultrapassava dos 35 anos, granjeara a fama pela inteligência que houvera demonstrado na solução de diversos casos intrincados.

Na sua presença, o réu, qualquer que fosse a sua natureza, sentia-se dominado pelas maneiras que empregava nos interrogatórios a que procedia. Sagaz e comedido, observador consumado, psicólogo profundo, aliados tantos predicados, era certa a vitória quando empreendia qualquer trabalho.

Certa vez, achava-se debruçado sobre o corrimão da ponte, contemplando, distraído, o deslizar das águas que corriam mansamente. Como sói acontecer às pessoas habituadas a investigar, as quais tudo observam e nada perdem do que se passa ao seu derredor, não lhe passou desapercebida a presença de dois indivíduos, não muito distantes, os quais conversavam em voz baixa.

O assunto parecia interessar-lhes, pois, da vez em quando, o mais moço deles alterava o diapasão; o outro lhe respondia, ora irônico, ora arrebatadoramente.

A vizinhança de um terceiro preocupava-os mediocremente.

O ouvidor, sem nada perder dos gestos que ambos faziam (que o assunto da conversação lhe escapava aos ouvidos), de um relance d’olhos fez um exame das fisionomias e trajes dos indivíduos.

Convenceu-se de que se tratava de estranhos à localidade; de viajantes, talvez: denotavam-nos os vestuários e a cor tostada dos seus rostos.

Estavam, agora, silenciosos e mergulhados em profunda meditação. De repente, um deles, o mais jovem, estremece; ergue a cabeça o exclama bastante alto para ser ouvido:

— Lá vão elas!…

O outro sobressalta-se. O ouvidor observa, então, passando sobre eles, um bando considerável de araras a gritarem, a gritarem… até desaparecerem por trás do morro.

Os estrangeiros quedam melancólicos.

O magistrado afasta-se sem afetação; dirige-se ao posto da guarda mais próximo e ordena ao seu comandante prenda e faça pôr em custódia e em separado os dois indivíduos, que continuavam, ainda, no mesmo lugar. Empreende, então, o sagaz magistrado um trabalho monumental. Interroga um, inquire o outro, compara as peças do processo... Os prisioneiros, levados de vencida ao ultimo reduto, pela formidável penetração do ouvidor, capitulam. Concordam em confessar...

*

Eram ambos empregados de uma casa importante. O mais moço desempenhava as funções do caixa; o mais idoso exercia o cargo do gerente. Atraído a uma espelunca, perdera o caixa todo o dinheiro que possuía. Na ânsia do reaver o perdido, jogou os valores sob sua garantia: tornara-se ladrão.

Disto teve conhecimento o gerente, que lhe propôs arranjar importância subtraída em troca de um documento contendo a confissão do delito.

Aceitou a proposta.

Repôs o dinheiro, regulou a sua escrita, mas estava despedido.

Dias depois, trouxeram-lhe um animal selado e uma carta em que se lhe marcava ponto de encontro. Assinava-a o gerente. Lá chegando, encontrou o seu credor, que lhe declarara precisar dos seus serviços, em paga do que lhe entregaria o documento de divida.

Do que se tratava, diria em ocasião oportuna. E, sem mais, lá foram caminho afora.

Chegados a uma encruzilhada, sofreou o gerente a montaria, no que foi imitado pelo companheiro.

Pouco tempo lá se achavam, eis que, na curva da estrada, surge, cavalgando um burrico castanho, o velho cobrador da casa e deles muito conhecido. Voltava de uma longa viagem de cobrança.

Compreendeu o ex-caixa qual o serviço dele exigido.

Indignou-se, censurou acremente o gerente; este, cinicamente, respondeu-lhe que o improvisado catão não valia mais do que ele: a prova tinha nos bolsos; ladrão tanto era um como o outro.

Calou-se; tinha-se dado ao diabo: estava perdido. Já não podia recuar.

Aproximaram-se do viajante, que obrigou a parar o burrico. Intimaram-no a apear, o que fez um tanto desconfiado.

Ao lhe ser exigido entregasse o produto dos recebimentos, relutou, mas teve que ceder ao direito do mais forte. Desarreou o animal e, com um canivete, rompeu o acolchoado da sela, donde extraiu, uns após outros, os maços de notas que ali havia ocultado.

Este estratagema que usava, caso fosse incomodado pelos ladrões de estrada, não era desconhecido dos assaltantes. Passado para um alforje todo o dinheiro, desenrolou o gerente um laço de couro que trazia na garupa e ordenou ao cúmplice passasse a laçada ao pescoço do espoliado.

O ex-caixa revoltou-se à vista de tanta perversidade; quis reagir, mas o gerente, retirando da cinta o revólver, declarou-lhe:

—Quando se deve, é necessário pagar; quando coloca um pé no degrau do crime, é mister pôr o outro, a fim de se evitar o desequilíbrio que poderá causar uma queda fatal. Cometido o primeiro crime, aparece a necessidade de um segundo para ocultar o primeiro e assim sucessivamente. Que faças ou não o que eu mando, pouco me importa. No segundo caso, matar-te-ei, suprimirei o velhote e irei entregar aos meus patrões todo o dinheiro: fá-los-ei acreditar que ambos, disputando a posse do bolo, haviam dado cabo da pele um do outro; uma troca de balas explicaria tudo. Bem vês que sou o mais forte. De quo serviria a sua relutância?

O momento não admitia contemporização.

Chegou-se para o velho que, de joelhos, suplicava lhe poupassem a vida. Passou-lhe o laço ao redor do pescoço, enquanto o gerente atirava à outra extremidade dele ao galho de uma árvore.

—Homens sem Deus e sem lei! — exclamou a vítima indefesa. — O vosso nefando crime não ficará impune!

—Ora, velhote — retrucou-lhe o mais idoso dos criminosos, — fica descansado; a coisa far-se-á depressa e não dará tempo a que choramingues. Quanto ao castigo, permita que discordemos de ti. Ninguém jamais poderá suspeitar de nós; estamos sós: nem uma viva’alma.

— Vedes aquelas araras que voam lá no céu? Pois bem: elas, as testemunhas únicas neste deserto, serão as denunciadoras da vossa perversidade.

E mais não pôde articular. Um puxão forte e o pobre velho balançava no ar.

As últimas palavras da infeliz vítima produziram naquele cético e pervertido homem uma comoção que jamais experimentara.

O ex-caixa ficara como que aniquilado.

Chegara a noite e cobrira, com o seu sudário, o horrível quadro.

Tomaram os criminosos as alimárias e, depois de um cavalgar de três dias, deram entrada na cidade. Haviam chegado naquele dia.

Acomodaram, apenas, os animais e tinham ido dar uma volta pelas ruas da localidade. Pararam na ponte; a tarde tristonha trouxera-lhes a lembrança o delito cometido.

Tinham discutido sobre o caso quando um bando de araras por ali passara. O mais jovem dos criminosos soltara a exclamação que despertara no espírito do ouvidor a desconfiança da perpetrarão de um crime.

Cumpriu-se, assim, a profecia do assassinado.

A justiça andou célere e condenou os culpados à pena última.

Na manhã marcada para a execução, um deles, somente, subira à forca.

O caixa fora encontrado morto na prisão.


Foi esta a narração do padre mestre.


Fonte: “Vida Policial”/RJ, edição de 2 de maio de 1924.


Nota:

1Pseudônimo de Cláudio de Mendonça (1888 – 1954).

 

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