A ESCADA FATÍDICA - Conto Clássico de Terror - Katharine Gerould

A ESCADA FATÍDICA

Katharine Gerould

(1879 – 1944)

Tradução de autor anônimo do séc. XX


Confesso que nunca havia pensado em fantasmas quando Harry Lithway me falou, pela primeira vez, nesse assunto. Ele era um de meus antigos companheiros de colégio e poucos homens tenho conhecido dotados de tão sutil e irresistível encanto. Terminados nossos estudos, mantivemos a melhor camaradagem durante dois ou três anos. Depois, seu casamento, coincidindo com a minha nomeação para uma legação no Oriente, nos separou longo tempo. Cinco anos depois, exatamente quando, tenho herdado a fortuna de meu tio, eu abandonava a carreira diplomática, recebi a notícia de que Lithway havia enviuvado. Eu não vira sua esposa senão no dia do casamento; mas, sabendo que meu amigo tinha por ela verdadeira adoração, imaginei logo que seu pesar devia ter sido profundo.

Não me enganava. A perda de sua esposa causou-lhe tal depressão que ele abandonou por completo a profissão de advogado, que exercia por vaidade — de resto bem justificada pelo êxito —, e retirou-se para uma casa de campo, que adquiriu no momento em que acabavam de construí-la, passando a viver ali, em isolamento quase total, lendo e fumando dia e noite.

Pensei em ir logo procurá-lo, mas o inventário dos bens de meu tio foi tão laborioso que somente dois anos depois pude pôr em prática essa decisão.

Encontrei Lithway muito aborrecido porque um de seus primos, residente na Alemanha, havia falecido, deixando-lhe a tutela de uma filha de seis a oito anos e, muito escrupuloso, meu amigo perguntava a si mesmo se não era seu dever ir a Berlim verificar se a fortuna da criança estava sendo bem administrada por uma tia, única pessoa, que podia velar por ela ali.

Mas, embora com essa preocupação, Lithway nada resolvia, porque a morte da mulher amada o deixara incapaz de qualquer iniciativa. De súbito, cessando bruscamente de falar nos cuidados de sua tutela, disse-me ele:

— Queres saber de uma coisa curiosa? Esta casa é nova. Foi construída há três anos e eu sou seu primeiro habitante… Pois esta casa é mal-assombrada.

Fitei-o, atônito. Ele, porém, mantinha-se muito calmo e calou-se. Não parecia assustado nem desejoso de entrar em detalhes sobre essa estranha revelação.

Calei-me também. Como já disse, nunca pensara em “coisas do outro mundo” e achava tão singular e inoportuna a frase de Lithway que julguei melhor não insistir. Refletindo depois e observando que os empregados andavam por toda a casa sem sentir ou manifestar o menor temor, fiquei ainda mais intrigado, porque, em geral os assalariados se apressam em abandonar uma casa onde ocorre qualquer coisa de sobrenatural.

No dia seguinte, parti para uma excursão no Tucatan. Quando voltei, encontrei Lithwav mais do que nunca mergulhado numa espécie de preguiça em que a viuvez o deixara. Notei, porém, que mandara transportar seu leito e seus livros do quarto do primeiro andar, em que eu o encontrara na primeira vez, para um quarto do pavimento térreo. Como pretendia, agora, passar uma quinzena em sua companhia, instalei-me no quarto que ele deixara, mas não o fiz sem perguntar a mim mesmo se aquela mudança de Lithway não teria alguma relação com sua afirmativa de que a casa era mal-assombrada.

Na noite seguinte, logo após o jantar, saindo da sala de jantar para ir buscar um livro na biblioteca, cuja porta ficava junto ao começo da escada, ergui maquinalmente a cabeça e vi o rosto de um homem escuro, que parecia espiar por cima da grade do patamar, no primeiro pavimento. Como os dois criados da casa eram brancos, minha primeira impressão foi de surpresa. E, sem refletir, subi alguns degraus a fim de verificar mais de perto quem assim me observava. Imediatamente o homem ergueu-se e, estupefato, verifiquei que se tratava de um indígena, um homem seminu, ornado com penas e que, com gesto brusco, brandia sobre minha cabeça um longo punhal de lâmina dentada.

Recuei e, no mesmo instante, vi o patamar vazio. Não havia ali mais nem sombra de uma criatura humana. E como não havia nas proximidades nem portas nem janelas por onde pudesse ter fugido, senti um baque no coração e, voltando precipitadamente à sala de juntar, disse a Lithway:

—Você tem razão. Esta casa é… Pelo menos, eu acabo de ver um fantasma, decerto o mesmo que já lhe apareceu.

Uma expressão de evidente alívio distendeu a fisionomia de meu amigo.

—Ah!… Você também a viu… Não lhe pareceu uma mulher de tipo inconfundível?

—Uma mulher? — exclamei. — Não… O que eu vi foi um homem, um homem escuro enorme, um indígena, armado com uma faca, cujo contato cheguei a sentir aqui.

—Aqui! —repetiu Lithway, tocando com um dedo determinado ponto de minha fronte, um pouco à direita.

—Sim. Mas como o sabe?

—Veja você mesmo — disse-me ele, indicando-me o largo espelho do bufê.

Fui observar-me no cristal luzente e vi que minha fronte estava riscada por uma marca esbranquiçada. A pele não estava ferida, mas a marca era bem visível, embora fosse pouco a pouco desaparecendo.

—Que coisa singular! — disse Lithway com voz grave. — Eu nunca a vi com arma alguma.

—Mas eu lhe afirmo que era um homem!

—Um homem? Então era um ente verdadeiro que se introduziu nesta casa. O fantasma, que já me apareceu várias vezes, é uma mulher.

E, tirando um revólver de uma gaveta próxima, meu amigo se dispunha a revistar todos os aposentos.

Detive-o com esta observação:

—Vamos perder nosso tempo. Como poderia um aborígene africano introduzir-se aqui? Foi um ente ilusório que eu vi. Tenho bem a certeza de que ele se dissipou no ar quando o toquei.

—Surgem então vários fantasmas nesta casa! Eu nunca vi senão uma mulher, que me aparece sempre na escada, fitando-me intensamente e apresentando-me um papel dobrado. É moça, bonita, vestida de branco, com um cinto azul. Vejo-a sempre por volta de oito e meia da noite…

Nesse momento, o relógio bateu nove horas.

—Ah! — exclamei. — Moça e bonita ou indígena assustador, ao que parece, é esta a hora sempre escolhida.

—Mas você está bem certo de que era um fantasma? Sim.., sim, deve ser. E, nesse caso, o que Denny viu…

—Quem é Denny?

—Um vizinho, um proprietário dos arredores.

—Também viu alguém?

—Não… Alguém, não. Viu uma serpente.

— Mas não há serpentes nesta região.

—Pois claro. E como ele a viu também na escada e às oito e meia da noite, eu concluo que se tratava igualmente de uma visão.

—E a serpente picou-o?

—Ele ficou tão assustado que não o soube dizer. Teve a impressão de que a serpente saltava sobre ele. Soltou um grito e nada mais viu. Porém, nunca mais quis voltar aqui.

Refleti um instante e, talvez por um reflexo nervoso, desatei a rir

—Um fantasma de serpente! Essa é mesmo boa…

—Pelo amor de Deus, Edward, não ria de coisas destas! Afirmo-lhe que procuramos a serpente pela casa toda sem encontrá-la, como não encontraríamos agora o aborígene que você viu.

—Ora… A serpente podia ter entrado e… saído.

—Vinda de onde? Do mesmo bosque onde o seu aborígene nasceu?

Não soube o que lhe responder. Ele também guardou silêncio durante um minuto; depois, disse-me com voz grave, sem olhar nara mim:

—Edward, sabe por que não abandono esta casa, a despeito de tais singularidades? Porque me apaixonei por essa mulher.

—Como?

—Sim. Já a vi cinco ou seis vezes e seus olhos me causaram uma impressão inesquecível.

— Lithway — disse-lhe eu, alarmado —, isso está tomando um aspecto muito sério. Nesse caminho, acabarás por enlouquecer. Apaixonar-se por um fantasma!… Meu amigo, trata de reagir enquanto é tempo contra semelhante assombramento. Sabes o que deves fazer? Partir sem demora, fazer uma viagem para desvanecer essas ideias mórbidas.

Ele, porém, se limitou a sacudir a cabeça com desânimo. Não voltou a me falar nesse assunto e, dias depois, convencido de que não lograria resolvê-lo a deixar aquela casa, empreendi uma viagem ao Japão. Não tornara a ver fantasma algum, nem homem, nem mulher, nem serpente. De Yeddo, ainda lhe telegrafei, convidando-o a acompanhar-me até a Índia, mas recebi a seguinte resposta:

“Impossível, Não posso separar-me dela!”

Mas, dias depois, chegando a Melbourne, recebi outro telegrama dele, comunicando-me que partira para a Europa em viagem de recreio.

Fiquei muito satisfeito, pois isso parecia indicar que o fantasma não tornara a aparecer ou então deixará de encantá-lo. Soube, depois, que ele fora a Berlim e ali verificara que houvera engano nos primeiros documentos enviados pela legação sobre sua prima. Essa órfã tinha não oito, mas dezoito anos. Por isso, não tive grande surpresa quando, após seis ou sete meses, recebi comunicação de que Lithway desposara a prima e pupila.

Haviam decorrido dois anos quando, para repousar um pouco de minha mania de viagens, voltei a casa de meu amigo. Foi sua nova esposa a primeira pessoa que me apareceu e regozijei-me sinceramente ao ver que era não só bonita como finamente educada. Entretanto, em vez de apresentar o aspecto tranquilo e feliz que eu imaginava, Lithway pareceu-me sombrio e triste. À noite, quando ficamos a sós na biblioteca, após o jantar, ele me perguntou, de repente:

—Lembra-se de meu fantasma?

E, antes que eu voltasse a mim da surpresa, continuou:

— E, a propósito, diga-me: encontrou na vida real algum aborígene que o ferisse, como a visão daquela noite?

— Não —respondi, cada vez mais surpreendido.

—Pois previna-se, porque há de encontrá-lo —disse Lithway, erguendo-se e passeando pela sala.

—Por que me diz isso? —perguntei afinal. — Será possível que você tenha…

Lithway passou as mãos sobre o rosto e murmurou:

— Não sei… Há momentos em que não ouso acreditá-lo. Entretanto.. É verdade — disse, voltando-se bruscamente. — Tem tido notícias da Denny?

— Na última vez em que soube dele, achava-se em não sei que Universidade, fazendo pesquisas arqueológicas.

Lithway respondeu-me apenas “Ah!” e passou a tratar de outros assuntos. Mas, nesse momento, como nos dias que se seguiram, notei que sua nervosidade se acentuava cada vez mais, exceto quando sua esposa estava presente. Isso ainda mais impressionou. Por mais agitado que meu amigo estivesse, era bastante que Margaret entrasse no aposento para que ele, instantaneamente, tomasse a aparência do homem mais calmo e sereno deste mundo.

Certa manhã, Lithway não desceu para o almoço e sua senhora explicou-me que ele se sentira incomodado durante a noite; tanto que ia chamar um médico. Este veio horas depois e, julgando necessária uma intervenção cirúrgica, escreveu a um especialista de Nova York.

Na noite desse dia, saindo da biblioteca, ergui a cabeça e vi Margaret. Inclinava-se sobre grade da escada com um papel na mão e fitava-me com um olhar tão estranho — digamos o termo — tão diabólico, que quase desfaleci de emoção. Ela recuou, logo parecendo contrariada por ter sido vista por mim.

Voltei-lhe as costas e, quase no mesmo instante, vi Margaret sair da sala de juntar. Compreendi, então, que era o fantasma de Lithway que eu acabava de ver na escada. O fantasma estava vestido de branco com um cinto. Mrs. Margaret estava com um vestido cinzento; mas também trazia na mão um papel e disse-me:

— Podes fazer-me o favor de mandar o empregado à aldeia repetir este remédio?


*


Lithway morreu no dia seguinte, durante a operação. O médico, surpreendido por esse desenlace, e pesquisando sobre o tratamento, afirmou que ele perecera devido à ação do remédio, que não devia ter sido repetido e, ao contrário, suspenso doze horas antes da intervenção cirúrgica.

Ainda assim, eu não compreendi nesse dia a significação dos fantasmas daquela casa. Hoje, sim. Hoje, quase cinco anos depois, compreendo por que estou num hospital, cego e talvez condenado. Um louco, fugindo de um hospício, vestiu-se como um aborígene, pintou-se de preto, armou-se com um punhal e saiu nelas ruas de Nova York. Eu ia passando no momento e ele me feriu na fronte, de tal modo que os médicos, ainda não se atrevem a assegurar minha salvação.

No mesmo dia, recebi do reitor da Universidade de Yale uma carta, que me foi lida por uma enfermeira. Comunica-me que Denny, andando em exploração científica pelo Arizona, falecera picado por uma serpente. Será possível? Será o fantasma daquela casa a previsão do que deve ser o fim de cada criatura por ele surpreendida?

Soube que Mrs. Margaret mandou demolir o edifício e alugou o terreno para campo de golfe. Não sei quantos dias, quantas horas, talvez, me restarão de vida: mas gostaria de saber o que foi que ela viu naquela escada…


Fonte: “Eu Sei Tudo”, edição de agosto de 1928.

Fizeram-se breves adaptações textuais.


 

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