O HOMEM QUE VIU O DIABO - Conto Clássico de Terror - Gaston Leroux

O HOMEM QUE VIU O DIABO

Gaston Leroux

(1868 – 1927)

Tradução de Reynaldo de Freitas

(Séc. XX)

 

O estalar do raio fora tão violento que pensamos todos ter sido fulminado o trecho de floresta acima das nossas cabeças. Imaginamos que a abóbada da caverna ia ser fendida como por um golpe de machado pelo gigante da tempestade. Procuramos as mãos uns dos outros e apertamo-las naquela escuridão pré-histórica, em que se ouvia o gemer dos porcos monteses por nós aprisionados. A porta iluminada, que até então assinalara a entrada da gruta natural, a que nos abrigáramos como animais, apagou-se aos nossos olhos. Não que estivéssemos no crepúsculo; mas o céu descarregava um tão pesado fardo de chuvas que parecia ter extinto para sempre o sol sob o seu peso liquido.

Havia, agora, no fundo do antro, um silencio tão profundo como aquela noite súbita. Os porcos monteses tinham calado sob a bota de Makoko. Makoko era um dos camaradas assim por nós chamado por causa duma feiura sublime e ideal, que, com a fronte de Verlaine e a queixada de Tropmann, o levava ao primitivo esplendor do Homem das Florestas.

Foi ele quem se decidiu a traduzir alto o pensamento de nós quatro. Porque éramos quatro refugiados sob a terra por causa da tempestade: Mathis, Allan, Makoko e eu.

— Se o fidalgo não nos der hospitalidade esta noite, teremos de dormir aqui...

Nesse momento, o vento recrudesceu com tal furor que parecia abalar a própria base da montanha e todo o Jura[1] tremia sob os nossos pés. Pareceu-nos, ao mesmo tempo, que uma invisível mão erguia a cortina opaca de chuva que cobria a entrada da caverna e uma figura estranha surgiu diante de nós, num raio de luz verde.

 Makoko apertou-me o braço.

 — Ali está ele! — disse-me.

Olhei o recém-vindo.

Com que, então, era aquele o homem a quem chamavam o fidalgo? Era grande, magro, ossudo e triste. A penumbra fantástica — o cenário excepcional em que nos aparecia — contribuía mesmo para torná-lo fúnebre. Não se preocupava conosco, ignorando certamente a nossa presença. Ficara de pé, apoiado ao fuzil, à entrada da gruta, no raio de luz verde. Nós o víamos de perfil: nariz forte, aquilino, de ave de rapina, bigode ralo, boca amarga, olhar mortiço. Tinha a cabeça descoberta: o crânio era pobre de cabelos e algumas mechas grisalhas calam-lhe por trás das orelhas. Não se poderia dizer ao certo a idade daquele homem: teria entre quarenta e sessenta anos. Devia ter sido notavelmente belo ao tempo em que ainda havia luz naquele olhar gelado, ao tempo em que os seus lábios de mármore sorriam ainda.

 Uma beleza dominadora e funesta.

Não sei que sorte de energia terrível se ocultava ainda sob as linhas apagadas daquela espécie de espectro: a expressão devia ser-nos dada pelo perfil agudo e a arcada superciliar profunda; e, sobretudo, por aquela fronte descoberta, de rugas ardentes, acusadoras de paixões ferozes.

Estava vestido com um velho terno de veludo castanho, muito usado. Calçava grandes botas, que lhe vinham à meia coxa.

Descendo ao longo daquelas botas, meu olhar encontrou uma coisa que, a princípio, não havia percebido e que tinha entrado na caverna junto com o homem: era uma espécie de cão pelado, de anca lustrosa, curto de patas, e que ladrava, voltado para nós. E nós não o ouvíamos! O cão era evidentemente mudo e ladrava para nós, em silêncio.

De repente, o homem voltou-se para o fundo da caverna e disse-nos, num tom da mais delicada polidez:

— Senhores! Não lhes será possível voltar esta noite a La Chaux-de-Fonds; permitam-me que lhes ofereça hospitalidade.

Depois, dirigindo-se ao cão:

— Cala a boca, Mistério!

 O cão fechou a boca.

*

Makoko rosnou. Aquele convite era de molde a estupidificá-lo e a surpreender-nos. Na nossa angustia, havíamos pensado na hospitalidade do fidalgo, em acreditar nela... e sem a esperar. Durante as cinco horas em que caçávamos naquela crista de montanha, de que se podia perceber o planalto inculto em que se erguia a mansão do fidalgo, Mathis e Makoko haviam-nos contado, a Allan e a mim, que não éramos da região, as histórias mais inverosímeis sobre o morador daquelas florestas. Algumas, inventadas pelas velhas da montanha, representavam-no como um sujeito que tinha comércio com o Espirito Maligno. Todos chegavam a esta conclusão: que o homem era inacessível e nunca se aproximava de alguém. Ali vivia, encerrado na sua mansão de fidalgo, com uma velha criada e um intendente tão selvagem quanto ele — e isso desde tempos imemoriais. Ninguém, no vale, poderia dizer em que época aquela criatura misteriosa, que nunca descia do seu ninho de águia, se havia instalado na montanha.

Urgia decidir, tomar um partido. Ajudados dos elementos, Allan e eu conseguimos logo vencer a repugnância de Makoko e de Mathis e acompanhamos o nosso extravagante hospedeiro logo que uma estiada nos permitiu deixar o refúgio.

Quando chegámos à antiga mansão, uma boa velhinha, curvada sobre um cajado, parecia esperar-nos, ou, pelo menos, ao seu patrão, no limiar de uma grande sala desolada e triste, como as salas de guarda de outrora, de que a lareira imensa, devoradora de florestas, parecia ser o único mobiliário e o único ornamento.

Declarou-nos chamar-se “a tia Appenzel, para nos servir”. Fez-nos sinal para que a seguíssemos e conduziu-nos, por uma escada apodrecida, ao primeiro andar, em que se achavam os nossos quartos.

*

Ainda parece-me estar a ver o nosso hospedeiro — e cem anos que eu vivesse não me fariam esquecer aquela imagem — tal como me apareceu, enquadrado pela lareira, quando voltei à sala em que a tia Appenzel havia servido a nossa ceia.

Meus amigos achavam-se já em volta do fogo, com as botas no braseiro. O dono da casa estava diante deles, de pá a um canto, sobre a pedra daquela lareira, vasta como um aposento. Vestia casaca. E que casaca! De uma suprema elegância, mas extraordinariamente defunta! De modo que, para nos receber, tinha vestido a sua casaca... A sua? A de seu avô ou do seu tetravô? Pareceu-me que a elegância de Brummel[2] não seria maior! A gola alta, o colete de veludo, o calção e as meias de seda, a gravata, tudo tinha um ar antigo, de que eu não poderia dizer a idade. Nosso hospedeiro tinha as mais nobres maneiras, isto é, as mais simples. Pediu-me para que me aproximasse do fogo. E eis-nos a falar de caçadas. Apesar do seu constrangimento, Makoko não resiste à tentação de contar algumas proezas. O dono da casa, amavelmente, o aprova.

Quanto a mim, não tiro os olhos daquele rosto pensativo que surgia, ora na luz ora na sombra, um rosto doloroso na sua singular expressão de energia e de tristeza, uma face tão estranhamente atormentada que, na sua calma atual, nos conta, ruga a ruga, todos os estados da mocidade, como um vulcão conta ao viajante, com toda a profundidade das suas fendas, os prodigiosos impulsos do seu coração extinto.

A seu lado, olhando com os olhos semicerrados as brasas da lenha, Mistério está estendido, de focinho sobre as patas. A certo momento, abre uma larga boca e boceja, como havia ladrado, em silêncio.

Indago:

— Há muito tempo que o seu cão é mudo? Que acidente singular lhe aconteceu?

— É mudo de nascença — responde-me o dono, depois de breve hesitação, como se o assunto não o agradasse.

Insisto, porém:

— O pai era mudo? A mãe, talvez?

 — A mãe... e a mãe da mãe dele! — declara rudemente o homem... — E mãe da mãe da mãe dele!

—O senhor foi dono da bisavó de Mistério?

—Sim, senhor. E era um animal fiel, que gostava muito de mim. Um surpreendente animal de guarda... — acrescentou ele, denunciando uma súbita emoção, que me surpreendeu.

—E era também muda de nascença?

—Não, senhor. Não era muda, mas tornou-se assim, numa noite em que havia ladrado muito! Tia Appenzel, a ceia está pronta?

A velha criada entrava com uma sopeira fumegante, que a embaraçava muito, pois ela não andava sem o apoio de um cajado. Allan correu em seu auxilio.

 —Senhores, espero que me deem a honra de se assentar à minha mesa...

 A ceia era excelente. Tínhamos todos uma fome de lobos. Allan e eu devorámos imediatamente tudo o que generosamente caiu em nossos pratos. Makoko e Mathis, que, desde as primeiras colheradas de uma sopa famosa, pareciam temer um envenenamento, resolveram deixar de receios e comer à larga. A tia Appenzel, para molharmos uma coxa de cabrito, que fazia as nossas delícias, trouxe-nos duas velhas garrafas de Neufchatel[3].

*

O anfitrião esforça-se para que a conversação não esmoreça, apesar dos nossos apetites soltos. Pergunta-nos se estamos satisfeitos com os nossos quartos.

—Senhor, desejo fazer-lhe um pedido.

Sou eu quem fala. Todas as faces se voltam para mim.

—Eu desejava dormir no “quarto maldito”!

Mal pronuncio essas palavras, vejo que o rosto do nosso anfitrião, já naturalmente tão pálido, se torna ainda mais lívido.

—Quem lhe disse que havia aqui um “quarto maldito”? — pergunta-me ele, reprimindo a custo uma certa irritação.

A tia Appenzel, que trazia um magnifico pedaço de emmenthal[4], pôs-se a tremer tão forte que se ouviu o prato tamborilar na mesa.

— Foi você, tia Appenzel?

 —Não censure essa boa mulher, a culpada foi a minha indiscrição. Pretendi entrar num quarto cuja porta estava fechada, e a sua criada não consentiu: “Não entre, disse-me ela, esse quarto é maldito!”

 —E o senhor entrou nele?

—Entrei.

—Deus meu! — suspirou a tia Appenzel, deixando cair um copo, que se estilhaçou com um singular fracasso.

—Vai-te! — gritou-lhe o homem, brutalmente.

 E, depois que ela saiu:

— O senhor não poderá dormir naquele quarto. Ninguém mais dorme nele, de cinquenta anos para cá...

—E quem dormiu ali pela última vez?

—Eu! E não aconselharia ninguém a dormir nele depois de mim!

Declarou isso num tom de cólera mesclada a medo, que aguçou o meu desejo e a minha curiosidade.

—Há cinquenta anos! O senhor era uma criança nessa época; estava na idade em que se tem medo à noite!

—Há cinquenta anos tinha eu nada menos de vinte e oito...

Vinte e oito anos! Aquele homem tinha, pois, setenta e oito anos! Quem o suporia? Era tão ereto, tão alto, tão voluntarioso!  

Ah! Era um belo espectro de ancião bem vivo!

—Mas, enfim, será indiscreto perguntar-lhe o que lhe aconteceu naquele quarto? Acabo de visitá-lo e nada me aconteceu de estranho. Pareceu-me o mais natural de todos os quartos... Tentei endireitar um armário...

—O senhor tocou no armário! — gritou o homem, lançando de si o guardanapo e caminhando para mim com os olhos em fogo. — O senhor tocou no armário!

—Sim — disse eu tranquilamente. — O armário estava a cair...

 —Mas não cai! Não cairá nunca! E nunca ninguém o porá de pé. É seu modo ficar assim, para sempre, oscilante, impendente, periclitante pelo peso que conteve, vacilante para toda a eternidade!

Erguemo-nos todos. A voz do homem era rouca e o suor escorria da sua fronte em abundância. Aqueles olhos, que supúnhamos extintos, lançavam chispas. Era realmente aterrador o seu aspecto. Agarrou-me pelo pulso e apertou-o com uma energia de que eu o supunha incapaz; e, desta vez, quase num murmúrio, perguntou-me:

—Não abriu o armário?

—Não!

—Tanto melhor para o senhor! Não sabe o que há dentro dele? Não? Pois bem! É melhor assim! É melhor para o senhor! Ah, meu amigo, realmente, tanto melhor para o senhor!

*

Enxugou a fronte, nervoso, suspirou profundamente e deu alguns passos trôpegos.  E, ao passar perto do fogo, vendo o cão que o olhava com curiosidade, assaltou-o toda a cólera que ele visivelmente procurava reprimir:

 —E você? E você? Não está cansado de me olhar assim, em silêncio? Vá deitar-se, já! Quando é que você falará, afinal, Mistério? Será hoje? Amanhã? Ou morrerás como os outros... como os outros... em silêncio?

Abrira a porta que conduzia à torre e partiu, perseguindo a pontapés, furioso, o cão que, a cada golpe, abria a boca de dor.

Estávamos impressionados com a cena insólita. O homem havia-se metido nas sombras da torre, sempre a perseguir o cão.

Makoko disse-nos a meia voz:

—Que dizia eu? Façam o que bem entenderem, mas eu não pregarei olho esta noite... Ficarei aqui, nesta sala, até que rompa o dia!

—Eu, também! — declarou Mathis.

Allan opinou:

—Palavra que vale a pena ficar acordado! Talvez haja aqui, hoje, coisas interessantes!

 —Cale-se! — interrompeu rudemente Makoko. — Não blasfeme!

E ajuntou:

 —Que lhes dizia eu? Que lhes dizia?

Allan voltou-se, irritado:

—Mas, afinal de contas, que é que você dizia?

E Makoko, inclinado para nós, de olhos fora das orbitas:

—Pois não veem que é um possesso?

—É um doente! — declarou Allan.

 —Isso! — aprovei.  — É um monômano. Normal nas demais ocasiões, sente o seu frenesi sempre que está atacado da mania. É um infeliz que, com certeza, tem a mania da perseguição do além. O seu cérebro é presa do Diabo!

—Não pronuncie esse nome, principalmente aqui! — disse apressadamente Makoko.

Allan e eu pusemo-nos a rir.

—Não riam! — suplicou Mathis.

 —Ora! — exclamou Allan. — Vocês, com essas caras de defunto, não hão de impedir que nos divirtamos um pouco... Não são ainda onze horas. Procurem recobrar o sorriso. Temos ainda seis horas diante de nós. Vamos jogar o pôquer? Convidaremos o dono da casa... Isso o fará mudar de ideias!

E Allan, jogador inveterado, tirou do bolso um baralho de cartas, o baralho com o qual havíamos jogado intermináveis partidas de “écarté”[5] durante a nossa viagem de Paris a La Chaux-de-Fonds.

 Havia já colocado um baralho de cinquenta e duas cartas a um canto da mesa e retirava dele as que não utilizaria no jogo.

—Fico com os seis, hein? E se jogamos os cinco?

Mal havia terminado a operação, o dono da casa entrou na sala. Estava relativamente calmo e via-se que havia ocupado aqueles poucos minutos em desanuviar o espírito. Mas, por um fenômeno de que não podíamos no momento compreender a razão, logo que viu sobre a mesa o baralho de cartas, o seu rosto transformou-se de repente e tomou uma tal expressão de espanto e de furor que eu próprio fiquei alarmado.

—Cartas!  — exclamou ele. — Os senhores trazem cartas?

Essas palavras mal saem da sua garganta, tal se o estrangulasse uma invisível mão.

—Quem os mandou vir aqui com... cartas? Quem os enviou para cá com cartas? Quem são os senhores? De onde vêm? Que querem ainda de mim? Queimem essas cartas! Queimem essas cartas!

Com um movimento rápido, apanhou o baralho de sobre a mesa e ia atirá-lo ao braseiro... Mas o seu gesto se deteve a meio caminho. Os seus dedos trêmulos abandonaram as cartas e ele se deixou cair sobre uma poltrona, com um grito rouco!

—Falta-me o ar!... O ar!...

Precipitamo-nos em seu socorro. Com um esforço violento dos seus dedos magros, ele havia já arrancado o colarinho, a gravata... E agora, imóvel, de cabeça erguida, apoiado ao espaldar da enorme poltrona, chorava. Suas orbitas, profundas como crateras, deixavam correr as lagrimas ardentes...

*

E, enfim, em voz dolente, falou:

—Os senhores são gente boa... Devem saber... Não irão daqui assim, tomando-me por um louco, por um pobre e infeliz demente...

Makoko e Alathis escutavam o velho com atenção profunda. Allan e eu o examinávamos como bons alunos da Faculdade de Paris devem considerar “um caso interessante”.

—Vão saber tudo... Isso talvez lhes sirva no futuro...

E o “caso interessante” ergueu-se e andou de um lado para outro; deteve-se diante de nós, olhou-nos com o seu olhar de novo extinto, o seu olhar que voltava, depois da brusca saída de momento antes, a refugiar-se ao fundo das duas cavidades, asilo daquela alma atormentada...

—Meu nome? Por que lhes dizer o meu nome?  É inútil, e não faz parte de tudo o que desejo que saibam, para lhes servir no futuro. Há sessenta anos passados, tinha eu dezoito — era eu mais audacioso e cético que os senhores, moços de Paris. Tinha os exageros da mocidade. Não duvidava de nada, pelo prazer de negar tudo. E, principalmente, não duvidava de mim! A natureza me fizera belo e forte e o destino pusera em minhas mãos uma enorme fortuna. Fui o mais célebre elegante da minha época, meus senhores! Com todas as suas alegrias, seus furores e suas orgias, Paris pertenceu-me durante dez anos! Quando cheguei aos vinte e oito, estava mais ou menos arruinado. Restavam-me duzentos ou trezentos mil francos e esta casa, com as terras que a circundam, herdadas pela minha família, que nunca se ocupou delas.

“Por essa época, apaixonei-me loucamente por um verdadeiro anjo, meus senhores, uma criatura mais bela e mais pura do que tudo o que possam imaginar. Aquela a quem eu amava desconhecia essa paixão louca e ignorou-a sempre. Pertencia a uma das famílias mais ricas da Europa. Por coisa alguma deste mundo eu queria que ela suspeitasse que desejava a sua mão para encher com o seu dote a minha burra vazia. Tomei o caminho da tavolagem e joguei tudo o que me restava, com a louca esperança de recuperar os meus milhões. Perdi, e uma noite deixei Paris, para vir enterrar-me aqui, nesta velha mansão, meu último refúgio. Achei, nesse retiro um ancião, o tio Appenzel, a sua neta, de que mais tarde fiz minha criada, e seu neto, uma criança de colo, que cresceu nestas terras e é hoje o meu intendente.

Aqui achei, também, desde a primeira noite, o tédio e o desespero. Foi nessa primeira noite que tudo sucedeu.”

Aqui, o ancião suspendeu por um instante a sua narrativa e pareceu escutar ansiosamente o vento que zumbia por todas as brechas do casarão. Depois, sem nos olhar, como se falasse a si próprio, prosseguiu:

 — Foi na primeira noite que tudo sucedeu! Chegado ao meu quarto — ao quarto em que hoje me pedem permissão para passar a noite —, abri a janela. A lua iluminava com sua luz mortiça a solidão selvagem das planícies. Contemplei o deserto horrendo onde, de então por diante, teria de viver, e escutei o coração que batia de modo tão lamentável... tão lamentável, senhores, que tive uma grande piedade de mim mesmo; e, ao fechar a janela, estava resolvido a matar-me. Minha pistola achava-se sobre a cômoda. Bastava-me estender o braço... Ah! Esqueci-me de lhes dizer que eu tinha levado de Paris o meu último amigo... o meu cão fiel... uma cadela, uma simples cadela por mim encontrada uma noite, na rua, diante da minha porta, ao sair de uma tavolagem, a amaldiçoar os céus. Chamei-lhe Mistério, por não saber de onde vinha nem a quem havia pertencido. No momento justo em que apanhava a pistola, ela se pôs a uivar no pátio, a ulular, mas num aulido como nunca ouvi, nem o do vento — exceto hoje...

— Bem! — disse eu.  — Lá está Mistério a uivar em agouro. Sabe, sem dúvida, que vou matar-me esta noite.

Brincava com a pistola, a pensar no que havia sido minha vida e meditando pela primeira vez no que seria a minha morte. Meu olhar indiferente encontrou, acima da cômoda, numa prateleira de livros, presa à parede, alguns velhos volumes e os seus títulos. Fiquei surpreso ao verificar que todos eles tratavam de bruxarias e de coisas do diabo. Tomei um: ‘Os feiticeiros do Jura’ e, com o sorriso cético do homem que se colocou sobranceiro ao destino, abri-o. As duas primeiras linhas, escritas a tinta vermelha, saltaram-me aos olhos: ‘Quando se quer deveras ver o Diabo, deve-se chamá-lo com todo o coração’. Seguia-se a história de um homem que, desesperado de amor, como eu, como eu arruinado, tinha sinceramente chamado em seu socorro o príncipe das trevas e havia sido havia sido por ele atendido, porquanto, alguns meses mais tarde, incrivelmente enriquecido, casava-se com aquela a quem amava. Li essa história até o fim.

— Aí está um que teve sorte! — exclamei. — E atirei o livro sobre a cômoda.

Fora, Mistério continuava a uivar. Ergui a cortina da janela e não pude reter um frêmito em face da sombra movediça do animal aos raios da lua. Dir-se-ia que a cadela estava possessa, tão desordenados e inexplicáveis eram os seus pulos. Parecia abocanhar uma forma para mim invisível.

— Está, sem dúvida, impedindo que o Diabo entre! — disse alto. — E, no entanto, ainda o não chamei!

Tentei gracejar, mas o meu estado de espírito, a leitura que acabava de fazer, o uivo da cadela, os seus saltos insólitos, aquele lugar sinistro, o velho quarto, a pistola carregada para mim, tudo contribuíra para impressionar-me muito mais do que eu tinha a sinceridade do confessar.”

*

—Deixei a janela e dei uns passos pelo quarto. De repente, mirei-me no espelho do armário. Era tal a minha palidez que pensei estar morto! Infelizmente, não! O homem que se achava diante daquele armário não estava morto! Mas era um vivo que evocava o rei dos mortos! Sim! Escutem-me... Acreditem em mim...Eu o fiz... Eu o fiz... de todo o coração... Chamei-o em meu socorro... porque eu era jovem demais para morrer! Queria ainda gozar a vida! Ser rico ainda! Para ela! Para ela! Para ela, que era um anjo. Chamei o Diabo e, então, no espelho, ao lado da minha face, uma coisa apareceu... Uma coisa sobre-humana... Uma palidez, uma névoa, uma pequenina nuvem branca e opaca, que logo tomou olhos, uns olhos de uma terrível beleza... Um outro rosto, de súbito resplandecente, ao lado da minha face de danado... Uma boca, uma boca que me disse: “Abre!’.  Sim, ela me disse ‘Abre’. Então, eu recuei, mas a boca dizia ainda: ‘Abre! Abre, se és capaz!’.  E como eu não ousava, três golpes soaram na porta do armário...  E a porta abriu-se sozinha... sozinha...”

Nesse momento, a narrativa do ancião foi interrompida por três pancadas à porta da casa. No instante mesmo em que o fidalgo se erguia, de braços abertos, diante da visão, surgida do fundo da sua lembrança e da sua angustia atroz, do armário que se abria sozinho, três pancadas soaram tão fortemente à porta da sala, e tão dolorosamente em nosso peito que se diriam percutidas em nossos corações. Saltamos dos nossos escabelos. Quanto ao nosso hospedeiro, olhou a porta, não disse mais palavra e apoiou-se à parede para não cair. Então, diante de nós, a porta da sala, que dava para o terraço deserto, abriu-se lentamente, sozinha...

O vento entrou primeiro, ladrando com as suas cem vozes, como uma enorme matilha, depois, surgiu um homem. Fechou porta e ficou imóvel. Não se via o seu rosto, oculto sob as largas abas do chapéu de feltro mole, que ele havia enfiado até as orelhas. Um manto o cobria da cabeça aos pés. Tanto como nós, não ousava dizer palavra. Tirou, afinal, o chapéu, e vimos uma rude face de montanhês, indiferente e fleumático.

—Foi você quem bateu assim, Guilherme? — perguntou o fidalgo, que tentava voltar a si da sua emoção.

—Fui eu, sim, meu senhor.

—Não o esperava esta noite... Os ferrolhos não estavam corridos, então? Feche-os! Esteve com o tabelião?

—Estive, e não desejava conservar comigo, até amanhã, uma soma tão grande...

Compreendemos que Guilherme era o intendente do fidalgo. Ele encaminhou-se para a mesa, tirou um pequeno saco de sob o manto e começou a retirar papeis, que depunha sobre a mesa. Depois, ficou a olhar o patrão.

—Que espera você? — perguntou-lhe este.

 O recém-chegado indicou-nos.

—Estes senhores? São meus amigos!

O homem deixou transparecer uma certa surpresa. Não sabia, evidentemente, que seu senhor pudesse ter amigos. Contudo, tirou ainda do saco um envelope e esvaziou-o sobre a mesa. Eram notas de banco. Contou doze de mil francos cada uma.

—Eis o preço do Bois de Misére — declarou.

 —Está bem, Guilherme — disse o nosso amigo, tomando as cédulas e colocando-as de novo no envelope. — Você deve ter fome. Vai dormir aqui, hoje?

—Impossível, meu senhor. Tenho trabalho amanhã cedo. Mas aceito o jantar.

 —Vá procurar a tia Appenzel, meu filho, ela tratará de você!

E, como o intendente se dirigisse à cozinha, disse:

—Leve daqui esta papelada.

—É verdade! — exclamou o homem.

E apanhou a papelada, enquanto que o fidalgo tirava do bolso uma carteira e nela guardava o envelope, contendo as doze notas de mil francos.

*

Logo que o intendente desapareceu pela porta interior, Makoko, que o intermezzo prosaico dessa vulgar história de dinheiro não fizera esquecer a história do anfitrião, perguntou-lhe, impaciente e inquieto:

—E então?...

—Então? — repetiu o fidalgo, de supercílios logo carregados.

—Sim... O armário?

—O armário?

—Sim. Que havia nele?

— Que havia no armário? Quer saber o que era? Pois vou dizer-lhes, meus senhores... Vou dizer-lhes o que havia dentro do armário... Havia uma coisa... uma coisa que eu vi, com estes olhos... Uma coisa que me queimou a vista... Havia, senhores, letras de fogo no fundo do armário... Letras que me davam uma nova... Uma grande nova, em duas palavras: TU GANHARÁS!

— Sim! — acrescentou o fidalgo, em voz sombria. — O Diabo, em duas palavras, havia escrito o meu destino em letras de fogo, no fundo do armário! Havia deixado ali a sua assinatura! A prova superior do abominável pacto que eu firmara com ele, naquela noite trágica! TU GANHARÁS! Não o havia eu chamado, com todo o coração? Sinceramente, desesperadamente, com todas as forças do meu ser, que não queria morrer, não o havia eu chamado? Pois bem! Ele viera! Senhores! Quando chamado, o Diabo não se faz esperar! E é um senhor que não regateia com o preço com que paga os seus servos. Compra as almas e não regateia! TU GANHARÁS! Jogador rebentado, quis tornar-me rico; ele me disse apenas: TU GANHARÁS! Em duas palavras, deu-me toda a fortuna do mundo: TU GANHARÁS!

Essa frase do inferno me fulminou, meus senhores! Na manhã seguinte, o tio Appenzel achou-me caído ao pé do armário. Quando me fizeram tornar a mim, eu nada havia esquecido. E nunca mais o esqueceria!

Senhores! Aonde quer que eu vá, por onde quer que eu passe, de dia ou de noite, na cortina das trevas ou no disco cintilante do Sol, na Terra ou nos Céus, em mim mesmo, quando cerro os olhos ou na fronte dos outros, quando os olho, leio a frase flamejante do inferno: — TU GANHARÁS!”

Calou-se o ancião, exausto, e deixou-se cair, a gemer, sobre uma poltrona. Makoko e Mathis haviam-se afastada dele. Allan e eu o considerávamos com imensa piedade.

— Aí está — pensávamos — aonde leva a loucura do jogo! Conduz simplesmente à loucura!

Allan afastou o mal-estar que nos afligia:

 — Senhor... — disse ele com voz hesitante.  — O senhor foi sem dúvida vítima de uma alucinação!

O fidalgo reergueu a cabeça:

 — Que ideia, meu caro! Palavra que dá prazer ouvir ideias que tais! Uma alucinação! É uma ideia surpreendente, que não ocorreria ao primeiro imbecil. Também tive essa ideia, meus senhores, e no dia que se seguiu à noite fatal, em que tudo aquilo sucedeu, quando reconquistei a serenidade de espírito, quando, com a luz do Sol, vi nitidamente o contorno das coisas e pude seguir o círculo preciso do meu pensamento, eu exclamei, bem alto, para ouvir com meus dois ouvidos, o som claro do meu pensamento de homem, do meu pensamento sensato de homem que raciocina: ‘Tiveste apenas uma alucinação! Para a borda do abismo... Não vás enlouquecer por causa de um sonho! Aquela face, ao lado da tua, aqueles olhos, aquela boca, aquele desconhecido esplendor, a forma do Diabo surgida naquele espelho, que somente refletia as formas criadas pelo teu cérebro enfermo, pura alucinação! Como pudeste crer que havias visto o Diabo? E aquelas letras de fogo, ao fundo do armário... aquela promessa do inferno: TU GANHARAS! Alucinação, apenas! Tu ganhares! Mas é de estourar de riso! E é de se ir imediatamente pedir uma explicação, na sua própria mansão infernal, ao Diabo que zombou de ti!’

E pus-me a rir, com efeito... E estava eu a rir, quando o tio Appenzel entrou no quarto. É preciso que saibam que a minha alucinação, como os senhores dizem, me tinha causado tal emoção que eu me achava de cama. O tio Appenzel trazia-me uma tisana qualquer. Declarou-me:

— Meu senhor, aconteceu uma coisa incrível: a cachorra emudeceu! Ladra em silêncio.

—Eu sei! Eu sei! E só recobrará a voz quando ele voltar.

Quem havia pronunciado essas palavras? Eu? Realmente, era eu. O tio Appenzel olhou-me, estupefato, porque parece que, naquele instante, os cabelos se me eriçaram na cabeça. Bem contra a minha vontade, os meus olhos não se desviavam do armário. Tão inquieto e agitado quanto eu, o tio Appenzel disse-me ainda:

—Quando eu o achei esta manhã, caído ao chão, o armário estava inclinado, como agora, e tinha a porta aberta. Fechei-a, mas não pude endireitar o armário. Ele se inclina de novo...

Pedi ao tio Appenzel que me deixasse só. Desci então do meu leito, dirigi-me ao armário e abri-o. Ah! A minha emoção, ao abrir-lhe a porta! A frase, meus senhores, a frase escrita em caracteres de fogo lá estava ainda! Gravada nas tábuas do fundo, havia queimado a madeira, imprimindo-se nela! E li de dia, como havia lido à noite, as mesmas palavras: TU GANHARÁS!

De um salto, achei-me fora do quarto! Gritei! Berrei! O tio Appenzel voltou. Disse-lhe:

—Olhe para dentro daquele armário e diga-me o que vê.

Meu servidor olhou e disse-me:

— TU GANHARAS!”

*

“Vesti-me e fugi, como um louco, daquela casa maldita. O ar da montanha me fez bem. Quando voltei, à noite, estava inteiramente calmo. Havia refletido: a cadela bem podia ter-se tornada muda por um fenômeno fisiológico bem natural. Quanto à frase do armário, não teria aparecido por si e, como eu não conhecera esse móvel antes, era possível que as duas palavras fatídicas se achassem lá desde anos sem conta, inscrita por algum fetichista, em seguida a uma história de jogo com que eu nada tinha a ver.

 Jantei, deitei-me no mesmo quarto, e a noite passou sem incidentes. No dia seguinte, fui a La Chaux-de-Fonds, ao meu notário. Toda aquela aventura alucinante só conseguira dar-me o desejo de tentar uma última vez a sorte ao jogo, antes de pôr em execução o meu projeto de suicídio e eu estava de todo curado da recordação do Diabo... Consegui emprestadas algumas notas de mil francos sobre as minhas terras e tomei o trem de Paris. Ao subir as escadarias do clube, lembrei-me do meu pesadelo e, porque não cria absolutamente no sucesso daquela suprema tentativa, disse comigo, ironicamente: ‘Vamos ver se desta vez, com o auxílio do Diabo...’ Não acabei a frase. Oferecia-se a banca quando entrei no salão. Tomei-a por duzentos luíses[6]. E, mal chegara ao meio da rodada, havia ganho duzentos e cinquenta mil francos! Mas já não apostavam contra mim... Sim, eu alarmara a todos, porque ganhava todas as paradas... Estava radiante! Nunca sonhara com a possibilidade de uma sorte assim. Dei uma “suíte”, isto é, abandonei o final da banca. Ninguém quis a “suíte”. Diverti-me a fazer paradas por coisa alguma, para ver, por prazer. Perdi todas elas! Foram exclamações sem fim. Achavam-me com uma sorte do diabo. E, realmente, eu abandonara a banca a tempo. Recolhi o meu lucro e saí. No bulevar, refleti e comecei a inquietar- me. A coincidência da cena do armário com aquela banca fantástica me perturbava. E, de repente, surpreendi-me a voltar ao clube. Desejava ficar de coração tranquilo! A minha efêmera alegria era turbada pelo fato de que eu não havia perdido uma única parada! Uma única, deveras, valendo dinheiro!

Mas eu queria perder uma parada! Não era para outra coisa que eu voltava ao clube! E, desta vez, senhores, ao sair do clube, às seis horas da manhã, eu havia ganho, em dinheiro ou sob palavra, dois milhões de francos!  Mas eu não havia perdido uma só vez, uma só! E sentia-me louco varrido! Quando disse que não havia perdido uma única parada, referia-me a paradas a dinheiro, porque as que eu fazia em branco, para ver, por nada, por prazer apenas, essas, eu as perdia, infalivelmente! Desde, porém, que um ponto punha contra mim qualquer dinheiro sobre uma carta, eu ganhava! Eu não podia mais perder! TU GANHARÁS!  Ah, maldição! Maldição! Oito dias! Durante oito dias, fiz tentativas, fui a espeluncas ignóbeis e ganhei de todos!  Eu só podia ganhar!

Vejo que os senhores já não riem, meus amigos! Não riem mais de mim, do Diabo. Olhem lá! Não devemos rir de nada nesta vida! Eu lhes disse que havia visto o diabo. Acreditam-me, agora? Eu possuía a certeza, a prova palpável, evidente para todos, a prova natural e terrestre do meu abominável pacto com o Diabo! Não havia mais, para mim, a lei das probabilidades! Só havia a certeza sobre-humana do eterno ganhar, eterno, até a morte! A morte. Nem nesta eu podia pensar, para desejá-la. Pela primeira vez, sentia medo da morte! Tinha o terror da morte por causa do que me esperava no além-túmulo! Ah! Resgatar minha alma, minha pobre alma de danado! Fui às igrejas, falei a sacerdotes, ajoelhei-me, prosternei-me, batendo nas lajes sagradas com a minha fronte em delírio... Pedi a Deus que me fizesse perder, como pedira ao Diabo para ganhar. Ao sair do lugar santo, dirigia-me às pressas ao lugar infame e punha alguns luíses sobre uma carta... E é preciso crer, meus senhores, que o Diabo é, ao menos, tão poderoso quanto Deus, porque eu continuei a ganhar, a ganhar sempre! TU GANHARÁS!”

*

O homem calou-se. A fronte recaída sobre o peito, ele parecia ter partido para algum horrível sonho que o afastava inteiramente de nós. Não mais existíamos para ele. Alguns minutos se escoaram assim, num silencio de chumbo.

 —Que fez, então? — perguntou-lhe Makoko.

—Isso — fez Mathis. — Como é que, após essa horrível revelação, o senhor pôde viver? Como passou os seus dias?

O nosso amigo olhou-nos desesperadamente.

— Senhores — disse —, eu recebi uma educação cristã. Minha família era crente e minha mãe uma santa. Os anos de desordem da minha primeira mocidade não haviam sufocado em mim todo o sentimento religioso. Eu apenas tinha um pavor quando examinava a minha medonha situação: era o de haver perdido minha alma para sempre. E apenas uma esperança: a de resgatá-la. Para isso procurei saber por que sacrifício acima das forças humanas poderia consegui-lo. Já lhes disse que violento e puro amor enchia o meu coração. Os milhões recuperados, e os que poderiam ainda me pertencer, permitiam-me aspirar, enfim, à mão daquela a quem eu amava acima de tudo neste mundo. Nem por um momento me detive na ideia de que a minha felicidade dependesse daqueles malditos milhões. Ofereci, pois, o meu coração a Deus, em holocausto, e os meus milhões aos pobres, e vim refugiar-me aqui, senhores, a esperar pacientemente a morte que não vem... e de que eu tenho tanto medo!

—E nunca mais jogou? — indaguei.

—Nunca mais!

AIlan compreendera o meu pensamento. Também ele julgava que talvez fosse possível salvar da sua monomania esse homem a quem todos nós nos obstinávamos em considerar um louco.

— Estou certo — disse o nosso companheiro — que depois de tal sacrifício, o senhor foi perdoado. Seu desespero foi sincero e terrível a sua punição. Que poderia Deus exigir mais? Ah, senhor, em seu lugar, experimentaria...

—Experimentaria quê? — exclamou o fidalgo, erguendo-se, hirto.

—Tentaria saber... se ainda tinha a virtude de ganhar sempre...

O homem fitou Allan com uma indizível expressão de ódio.

—Na verdade, senhor! É isso o que me aconselha? Mas quem é afinal o senhor para me aconselhar semelhante coisa? De onde vem? Ainda uma vez: quem o mandou aqui? Pois não sabem os senhores que resisti a essa tentação durante cinquenta anos? E não sabem que, para vencê-la, tive de despender mais força e energia do que a necessária a um homem que não come há oito dias para recusar o pedaço de pão que lhe estende uma mão caridosa?

—Uma mão caridosa... — repeti.

O homem esmurrou a mesa com um punho terrível.

—O senhor chama a isso caridade? É caridade oferecer-me um jogo de cartas e dizer-me: vamos, jogue? E se eu perder?

—Ganhará a segunda partida.

— E si perder outra vez?

—Jogará de novo, e estou certo de que acabará ganhando!

Eu não imaginava que iria provocar uma cólera tão viva. O homem rugiu; uma espuma brancacenta apareceu nos seus lábios.

— Então, é tudo o que o senhor achou para o meu caso? É tudo o que lhe inspirou a narração dessa desgraça, que ultrapassa os limites da terra? Fazer jogar um velho doido, para demonstrar que ele não é doido! Sim, eu bem leio nos seus olhos o que pensam de mim. “É louco! É louco! É louco!”

 —Absolutamente, não!

—Cale-se, por Deus! O senhor mente! Não crê numa palavra do que eu disse! Só acredita na minha loucura! Olhe, rapaz...

Agarrara de novo o meu pulso e triturava-o. E, ao passo que me mantinha assim preso na terrível tenaz dos seus dedos, voltava toda a cólera para Allan.

—E o senhor também, o senhor me considera um louco! Um louco! Disse-lhes que vi o Diabo, que vi o Diabo. O velho doido viu o Diabo! E ele lhes provará que é verdade, com todos os diabos! Cartas! Quero cartas!

*

Viu-as a um extremo da mesa e avançou para elas.

—Os senhores é que o quiseram! Eu guardara a suprema esperança de morrer sem haver de novo tentado a infernal experiência. E assim poderia imaginar, na hora da morte, que havia sido perdoado. Os senhores não o quiseram! Que o Diabo os dane, por seu turno! Aqui estão as cartas. Não quero tocá-las... São suas... Baralhem-nas, distribuam as que quiserem. Afirmo-lhes que vou ganhar. Acreditam agora em mim?

Tranquilamente, Allan apanhara o baralho e separara um jogo de trinta e duas cartas. O homem pôs-lhe a mão no ombro.

—O senhor não acredita em mim.

 — Veremos — respondeu Allan.

 —Sim — apoiei eu — veremos...

Makoko ergueu-se e interpôs-se, porque teve medo de mais uma violência de nosso hospedeiro. Além disso, aquela história não lhe agradava nada.

—Não faça isso — disse-me ele, emocionado. — Suplico-lhe, não faça isso!

—Deixe o homem tranquilo! — acrescentou Mathis.  — Isso é imprudência. Não se deve nunca tentar o Diabo!

—Ora! Deixem-nos em paz com esse tal Diabo! — gritou Allan, impacientado.

— Aqui estão as cartas, meu amigo!

Durante essa rápida intervenção dos nossos amigos, o dono da casa parecia ter recuperado o sangue-frio. Aproximara-se da mesa e sentara-se. Allan e eu tomáramos lugar em face dele.

—Que vamos jogar? — indaguei.

—Não sei se são ricos, senhores, mas anuncio, desde já, aos senhores, que me vêm roubar a minha última esperança, que estão arruinados!

Tirou do bolso a carteira em que o havíamos visto guardar os doze mil francos, colocou-a sobre a mesa e declarou-nos:

—Jogo numa partida de cinco lances de “écarté” tudo o que há nesta carteira. Isto, para começar. Depois, jogarei quantas vezes os senhores quiserem... Até a hora de atirá-los à rua, nus, os senhores e seus amigos, arruinados para sempre... Inteiramente nus!

 —Inteiramente nus! — repetiu Allan, que era muito menos impressionável que eu. — Quer então o senhor até a nossas camisas?

 —Até as suas almas! — exclamou o homem. — Para dá-las ao Diabo, em troca da minha!

Allan voltou-se para mim:

—Aceito? — perguntou piscando ura olho. — Jogaremos como parceiros. Não convido nem Makoko nem Mathis.

Estes aproveitaram o momento para recomeçarem os seus protestos e súplicas:

 —Deixem isso! Não façam isso!

—Senhores! Agora reclamo silencio! — ordenou o velho, com voz rude e vibrante.

Makoko e Mathis calaram-se, mas ficaram junto de nós, como se um grande perigo nos ameaçasse.

Allan disse-me:

— Vamos! Você que é forte no “écarté”, fique com as cartas.

Tomei o lugar dele, com um vago sorriso nos lábios, mas, no fundo, bem comovido. No entanto, eu não duvidava da que, desde que podíamos jogar quantas partidas quiséssemos, eu acabaria ganhando uma vez que fosse, e essa vez única nos restituiria tudo o que houvéssemos perdido.

Além disso, traria talvez a calma ao cérebro turbado do nosso amigo. Baralhei rapidamente as cartas e apresentei-as ao meu adversário.

*

Ele partiu o baralho. Deu as cartas. Descobri o valete de copas. O velho viu o seu jogo e jogou. Manifestamente, não deveria fazer o jogo que tinha em mão: três de paus, a dama de ouro e o sete de espadas. Ele fez a dama de ouros, eu os quatro ouros e marquei dois pontos. Não havia dúvida de que o nosso antagonista fazia tudo para perder. Chegou a sua vez de dar. Ele tirou e rei de espadas e não pôde reprimir um movimento convulsivo quando viu, sob os seus dedos, aquela figura negra que, a seu pesar, lhe dava um ponto.

Viu o seu jogo, ansiosamente. Eu pedi cartas. O velho me as recusou, crendo, evidentemente, ter mau jogo, mas eu também o tinha e, como ele estava com um dez de copas, que tomou imediatamente o nove que eu havia jogado para arriscar o golpe da cor longa (tinha eu o nove, o oito e o sete da mesma cor), ele teve de jogar ouros que eu não lhe pude fornecer e duas cartas de paus mais fortes que as minhas. Nem um de nós possuía trunfo. Ele marcou um ponto que, com o do rei, somava dois. Estávamos empatados. A vitória seria de quem marcasse três pontos.

Era a minha vez de dar. Tirei o oito de ouros. Desta vez, todos dois pedimos cartas. O velho pediu-me uma e mostrou-me a que jogava — era o sete de ouro. Não queria ter trunfo em mão. Conseguiu o que queria e logrou fazer-me marcar dois pontos mais, o que, para mim, resultava em quatro pontos. Maquinalmente, Allan e eu olhamos para a carteira. Pensávamos: ali está uma pequena fortuna que vai pertencer-nos e que, em consciência, não nos fará mal nenhum. Quando o velho deu de novo, e vi o jogo que me havia cabido, julguei o negócio decidido. Desta vez, o adversário não tirara um rei, mas o sete de paus. Eu tinha duas cartas de copas e três trunfos: o rei e o ás de copas, o ás, o dez e o nove de paus. Joguei o rei de copas, meu adversário lançou a dama, eu atirei sobre a mesa o ás de copas, ele foi forçado a tomar-me com o valete de copas que lhe restava, e jogou ouros, que eu cortei com trunfo. Tornei a jogar trunfo de ás, ele tomou-me com a dama de trunfo, mas eu esperava a sua última carta com o meu dez de paus. Ele possuía o valete de trunfo!

Marcou dois pontos e ficamos de novo empatados — quatro a quatro. O meu adversário reteve em seus lábios cerrados uma maldição prestes a explodir.

—Vamos lá! — exclamei.  — Não fique desolado! Nada está resolvido ainda.

 O velho rosnou como uma fera perturbada na sua cilada. Seus olhos não deixavam as cartas.

—Vamos demonstrar-lhe — disse Allan, no meio do silencio geral — que o senhor é capaz de perder como qualquer mortal.

O ancião arquejou!

—Eu não posso perder!

O interesse da partida atingiu o máximo de intensidade. Um ponto mais decidiria da vitória. Se eu tirasse o rei, a partida estaria terminada e eu ganharia os doze mil francos daquele homem que pretendia ter o dom de não perder nunca. Enquanto eu dava as cartas, uma ansiedade geral nos mantinha mudos. Só se ouvia o ruído do vento, fora, a abalar o edifício até os fundamentos. Acabei de dar e só me restava virar a carta que ia indicar o trunfo. Tirei o rei! O rei de copas! Tinha ganhado a partida!

*

O fidalgo deu um grito de alegria que nos dilacerou o coração — de tal forma parecia um grito de desespero. Inclinou-se sobre a carta, tomou-a, examinou-a, palpou-a. Aproximou-a dos olhos e quase acreditámos que a havia chegado aos lábios... Murmurou:

— É possível. Deus meu? Então... Então, eu perdi mesmo?

—Parece! — disse-lhe eu, tentando sorrir. Mas a alegria do ancião era tão penosa de ver que não tivemos a coragem de celebrar o nosso triunfo. Allan, porém, não conteve uma reflexão:

—Vê o senhor que não se deve crer em tudo o que o Diabo conta!

Makoko e Mathis enxugaram o suor da fronte. Imaginara-nos, a Allan e a mim, arruinados, malditos, danados. E o velho, numa emoção tal que lhe provocava novas lágrimas, desta vez de felicidade, apanhou a carteira e abriu-a.

—Ah, senhores! — gemeu. — Benditos sejam por me haverem ganhado tudo o que está aqui dentro! Oxalá fosse um milhão! Eu lhes teria entregue com prazer!

E, tremendo, meteu os dedos na carteira, tirou de dentro alguns papeis, surpreendeu-se de não encontrar logo os doze mil francos que ali pusera. Não os achou. Ali não estavam! A carteira, virada febrilmente pelo avesso, esquadrinhada nos mínimos recantos, estava vazia. O fidalgo havia perdido... o que havia na carteira. Mas, na carteira não havia nada, nada!

 O velho repelira para longe a sua poltrona. Estava de pé. Suas unhas lanhavam-lhe a carne das faces e nós nos admirávamos de que aquela carne apergaminhada ainda tivesse sangue.

E o sangue corria-lhe dos olhos como lágrimas vermelhas. Quanto a nós, estávamos menos alarmados do aspecto do pobre ancião do que desse fenômeno inexplicável: a carteira vazia! Porque todos viramos o intendente contar os doze mil francos, entregá-los ao velho e víramos, também, este colocá-los num envelope e pôr este envelope numa das divisões da carteira.

Sem dizer palavra, tomamos a carteira e tocamo-la com os nossos dedos. Estes foram-lhe até ao fundo e nada encontraram. O velho, de olhos fora das órbitas, excedido, examinava todos os seus bolsos e pedia-nos que os examinássemos. Fizemos uma pesquisa rigorosa, porque era impossível resistir, naquele momento, à sua vontade, em delírio, e nada encontramos, nada!

 —Oh! Oh! — fez ele. — Ouçam! Ouçam!

 —Que é?

—O vento?

—Que tem o vento?

—Pois não ouvem que o vento, esta noite, tem um ladrar de cadela?

Prestámos atenção e Makoko disse:

— É verdade! Dir-se-ia que o vento ladra ali, atrás da porta...

E, de repente, fizemos todos um movimento de recuo, porque a porta era estranhamente abalada, e ouvimos uma voz que dizia:

Abram!

O velho fazia-nos sinal de que não podia falar, mas o seu gesto enérgico nos proibia abrir a porta.

— Abram! — gritaram ainda do outro lado.

Então, decidi-me a gritar por minha vez:

—Quem está aí?

E todos, em coro:

—Quem está aí?

 Makoko tomou do fuzil que eu deixara ao canto do bufê e armou-o.

—Isso é ridículo! — exclamei com voz mal segura. E fui até à porta. Colei o ouvido.

 —Quem está aí?

—Não abra! — disseram, juntos, Mathis e Makoko.

 Corri o ferrolho e abri a porta. Uma forma humana entrou na sala.

 —É o intendente — anunciei.

Era, com efeito, o intendente. Chegou-se à luz. Parecia muito perturbado e disse:

—Meu senhor... Meu senhor...

—Que há? Que há? — perguntamos, todos juntos, anelantes, doidos por saber.

 —Meu senhor, eu pensei ter-lhe entregue... ter-lhe entregue... Estou certo de lhe ter entregue os seus doze mil francos. Esses senhores viram...

—Sim, sim!

— Pois bem, acabo de encontrá-los no meu saco! Não sei como foi isso! Aqui os trago de novo. Ei-los!

E retirou do mesmo envelope e contou de novo as doze notas de mil francos, acrescentando:

—Não sei o que a montanha tem esta noite. Sei que ela me faz medo e vou dormir aqui!

*

Os doze mil francos estão agora sobre a mesa. Olhamo-los, a esses doze mil francos que surgem e desaparecem de modo tão inquietante. E não sabemos que dizer, nem que pensar, nem que crer, nem que não crer!

Mas o velho exclamou:

 —Desta vez, estão aqui! diante de nós... Não os percam de vista! Não lhes toquem! Só deveremos tocá-lo depois havê-los ganho! Ao jogo! Ao jogo! Onde estão as cartas? Aqui estão elas. Vamos! Deem as cartas! Os doze mil francos, em cinco lances! Para ver! Para saber! Mas não compreendem, senhores? Sou eu quem agora pede! Por que esperam? Já lhes disse que quero saber... saber!

E ele me impele, senta-me à força num banco, põe-me o baralho na mão e coloca-se de novo em face a mim, na sua vasta poltrona, a rugir...

Dou as cartas. Meu adversário pede-as. Recuso. Ele tem cinco trunfos! Marca dois pontos. Dá cartas. Ele volta o rei. Jogo. Ele tem ainda cinco trunfos! Três e dois, cinco! Ele ganhou!

Então... Então ele urra, assim como o vento, que, nessa noite, tem uma voz de cão. O velho apodera-se das cartas... Lança-as ao fogo! Ao fogo, as cartas! Ao fogo, as cartas! São dois a ulular: ele, ali dentro, e o vento, lá fora... Mas eis que se dirige à porta, recurvado, o nariz avançando como um animal de presa que vai dar o salto, de pelo eriçado...

É que, lá fora, há um cão que ladra... Um cão cujo aulido feroz domina a voz do vento... Um cão que ladra à morte!

O homem chegou até a porta: reergueu-se e, ali, através da madeira, perguntou em voz baixa:

— É você, Mistério?

Por que estranho fenômeno o cão e o vento calaram, juntos, ao mesmo tempo?

Vagarosamente... vagarosamente... o homem corre os ferrolhos, entreabre a porta. Mal se abre a porta, o ladrido infernal recomeça, tão lúgubre que nós trememos até a medula. E o velho atirara-se com tal força à porta que parecia tê-la partido. Não contente de haver corrido os ferrolhos, ele a mantém por muito tempo ainda com os joelhos e os braços estendidos, sem uma palavra, só deixando-nos ouvir o ruido da sua respiração arquejante.

Depois, quando o fúnebre ladrido cessou de todo, e que, dentro e fora de casa, reinava o silêncio, ele voltou-se para nós, deu alguns passos de autômato e nos disse:

Ele voltou! Cuidado!

Meia-noite... Separamo-nos. O velho deixou-nos. Makoko e Mathis ficaram em baixo, perto do fogo moribundo; Allan em o seu quarto e eu, conduzido por não sei que força interior que me dominava, achei-me no quarto maldito... Comecei a fazer os mesmos gestos do outro; apanhei o mesmo livro, abri-o à mesma página, fui à janela; ergui o reposteiro, vi a mesma paisagem lunar, porque o vento afugentara desde muito todas as nuvens de tempestade e todas os nevoeiros. Só havia rochedos nus, luzentes como o aço aos raios do astro das noites e, sobre a campina deserta, uma sombra a dançar... incrivelmente, a dançar, a de Mistério, que abria uma boca formidável... uma goela que eu via ladrar... Mas, ouço-a eu? Sim, na verdade, parece-me que a ouço... Deixo cair a cortina.

Tomo a vela de sobre a cômoda, vou até ao armário e olho-me ao seu espelho... Penso naquele que escreveu as palavras que estão no fundo do móvel fatídico... Meu pensamento não pode deixar esse alguém. Que rosto é este no espelho? É o meu! Mas será possível que a face do velho fidalgo estivesse mais pálida, na noite fatal, do que esta, que é a minha? Oh! Sim! Tenho a face de um cadáver! E, ao lado, ali, essa nuvenzinha... essa névoa torva no espelho... ao lado do meu rosto... esses olhos terríveis... essa boca... Ah! Gritar! Gritar! Não posso gritar! Nem mesmo quando ouço bater três vezes! E minha mão... minha mão vai, por si mesma, à porta do armário... a minha curiosa... a minha mão maldita!

De súbito, minha mão é colhida num torno que eu bem conheço. Volto-me. Acho-me em frente do velho, que me diz, com voz de além-túmulo:

 — Não abra!

 

EPÍLOGO

No dia seguinte, não pedimos revanche ao nosso hospedeiro. Fugimos — é o termo — da sua casa, sem o rever. À noite, o pai de Makoko, a quem contaramos a aventura, encarregou-se de fazer chegar os doze mil francos às mãos do nosso singular amigo. Este no-los de volveu, com o seguinte bilhete:

“Estamos quites. Tanto na primeira partida, que o senhor ganhou, como na segunda, que perdeu, eu e o senhor acreditámos ter jogado doze mil francos. Isso deve bastar-nos. O Diabo possui a minha alma, porém não terá a minha honra.”

Não nos interessava em absoluto a posse daqueles doze mil francos. Doámo-los a um hospital da tal La Chaux-de-Fonds, que estava bem necessitado deles. Quando, graças à nossa generosidade, as reparações urgentes estavam terminadas, o hospital, numa noite de inverno, incendiou-se de tal forma que, ao meio-dia, dele só restavam cinzas. Felizmente, não houve nenhum acidente pessoal.

 

Fonte: “Vamos Lêr!”/RJ, edição de 19 de maio de 1938.

 

Notas:



[1] Cordilheira situada ao note dos Alpes, na Suíça, Alemanha e França.

[2] George Bryan Brummell “1778 -1840), “socialite” inglês, amigo próximo do futuro rei George IV, famoso dândi e arquétipo da moda masculina.

[3] Vinho espumante francês.

[4]  Modalidade de queijo, originário do cantão de Berna, Suíça.

[5] Clássico jogo de cartas francês, no qual participam dois jogadores. É jogado com um baralho reduzido de 32 cartas. Seu objetivo consiste em vencer pelo menos três das cinco vazas disputadas em cada rodada.

[6] Antigas moedas de ouro francesas.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O DEMÔNIO NA GARRAFA - Conto Clássico Sobrenatural - Robert Louis Stevenson

O GATO PRETO - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe

O BARBA AZUL - Conto Clássico de Terror - Charles Perrault

O MACHADO DE PRATA - Conto Clássico de Terror - Arthur Conan Doyle