O MONSTRO DE SÃO VICENTE - Narrativa Clássica Sobrenatural - Pero de Magalhães Gândavo
O MONSTRO DE SÃO VICENTE1
Pero de Magalhães Gândavo2
(c. 1540 – c. 1580)
Foi cousa tão nova e tão desusada aos olhos humanos a semelhança daquele fero espantoso monstro marinho que nesta província se matou no ano de 1564, que ainda que per muitas partes do mundo se tenha notícia já dele, não deixarei todavia de a dar aqui outra vez de novo, relatando por extenso tudo o que acerca disto passou: porque na verdade a maior parte dos retratos ou quase todos em que querem mostrar a semelhança de seu horrendo aspecto andam errados, e além disso, conta-se o sucesso de sua morte por diferentes maneiras, sendo a verdade uma só, a qual é a seguinte:
Na capitania de São Vicente sendo já alta noite a horas em que todos começavam se entregar ao sono, acertou de sair fora de casa uma índia escrava do capitão: a qual lançando os olhos a uma várzea que está pegada com o mar, e com povoação da mesma Capitania, viu andar nela este monstro movendo-se de uma parte a outra com passos e maneios desusados, e dando alguns urros de quando em quando tão feios, que como pasmada e quase fora de si veio ao filho do mesmo capitão, cujo nome era Baltezar Ferreira, e lhe deu conta do que vira, parecendo-lhe que era alguma visão diabólica; mas como ele fosse não menos sisudo que esforçado, e esta gente da terra seja digna de pouco crédito, não lhe deu muito crédito às suas palavras de deixando-se estar na cama, a tornou outra vez a mandar fora dizendo-lhe que se afirmasse bem no que era.
E obedecendo bem a índia no seu mandado, foi: e tornou mais espantada; afirmando-lhe e repetindo-lhe uma vez e outra que andava ali uma cousa tão feia, que não podia ser senão um demônio.
Então se levantou ele mui depressa e lançou mão de uma espada que tinha junto de si com a qual botou somente em camisa pela porta afora, tendo pera si (quanto muito) que seria algum tigre3 ou outro animal da terra conhecido, com a vista do qual se desenganasse do que a índia lhe queria persuadir, e pondo os olhos naquela parte que ela lhe assinalou viu confusamente o vulto do monstro ao longo da praia, sem poder divisar o que era, por causa da noite lho impedir, e o monstro se cousa não vista e fora do parecer de todos os outros animais.
E chegando-se um pouco mais a ele, para que pudesse melhor ajudar da vista, foi sentido do mesmo monstro: o qual em levantando a cabeça, tanto que o viu começou de caminhar pera o mar de onde viera. Nisto conheceu o mancebo que era aquilo coisa do mar e antes que nele se metesse, acudiu com muita presteza a tomar-lhe a dianteira, e vendo o monstro que ele lhe embargava o caminho, levantou-se direito pera cima como um homem ficando sobre as barbatanas do rabo, e estando assim a par com ele, deu-lhe uma estocada pela barriga, e dando-lha no mesmo instante se desviou pera uma parte com tanta velocidade, que não pôde o monstro levá-lo debaixo de si: porém não pouco afrontado, porque o grande torno de sangue que saiu da ferida lhe deu no rosto com tanta força que quase ficou sem nenhuma vista: e tanto que o monstro se lançou em terra deixa o caminho que levava e assim ferindo urrando com a boca aberta sem nenhum medo, remeteu a ele, e indo pera o tragar as unhas, e a dentes deu-lhe na cabeça uma cutilada mui grande, com a qual ficou já mui débil, e deixando sua vã porfia tornou então a caminha outra vez para o mar.
Neste tempo acudiram alguns escravos aos gritos da índia que estava em vê-la: e chegando a ele, tomaram já quase morto e dali o levaram dentro à povoação onde esteve o dia seguinte à vista de toda gente da terra. E com este mancebo a se haver mostrado neste caso tão animoso como se mostrou, e ter sido na terra por muito esforço saiu todavia desta batalha tão sem alento e com a visão deste medonho animal ficou tão perturbado e suspenso, que perguntando-lhe o pai, que era o que lhe havia sucedido não pôde responder, e assim como assombrado sem falar cousa alguma per um grande espaço.
O retrato deste monstro é este que no fim do presente capítulo se mostra, tirado pelo natural. Era quinze palmos de comprido, semeado de cabelos pelo corpo, e no focinho tinha umas sedas mui grandes como bigodes. Os índios da terra lhe chamam em sua língua ipupiara, que quer dizer demônio d’água. Alguns como estes já se viram nestas partes, mas acham-se raramente.
E assim deve haver outros muitos monstros de diversos pareceres, que no abismo desse largo mar se escondem, de não menos estranheza e admiração: e tudo se pode crer por difícil que pareça: porque os segredos da natureza não foram revelados todos aos homens, pera que com razão possa negar e ter por impossível as cousas que não viu nem que nunca teve notícia.
Notas:
1Fonte: “História da Província de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil”, Pero de Magalhães Gândavo, Capítulo IX, Lisboa, Typographia da Academia Real de Sciencias, 1885, p. 40-43; Lisboa, oficinas de Antônio Gonçalves, 1575, p. 30-v-32-v. Título original do capítulo: “Do monstro marinho que se matou na Capitania de São Vicente no ano de 1564”. A ilustração consta da 1ª. edição, possivelmente realizada pelo gravador Jerônimo Luís. Atualizamos a ortografia, mantendo a pontuação original, exceto a disposição em parágrafos.
2Historiador, gramático e cronista português, nascido em Braga. Teria sido amigo de Camões. Filho de pais flamengos, foi pioneiro na gramática de língua portuguesa (“Regras que ensinam a maneira de escrever a ortografia da língua portuguesa”, 1574) e da historiografia brasileira (“História da Província de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil”, 1575).
3Gândavo chamava de tigres as onças (vide História…, cap. VIII).

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