O POETA - Conto Cruel - Ângelo Brea

O POETA

Ângelo Brea


Já levava vários meses internado no campo de prisioneiros da ilha de São Simão, em plena ria de Vigo. É triste que converteram esta ilha mítica para nossa cultura, no marco incomparável onde se desenvolveram os poemas de Martim Códax ou de Meendinho, num campo de sofrimento e de repressão. Desde que começara a guerra tinha visto como chegavam e saíam de aqui centos de pessoas. Conhecia alguns prisioneiros de vista. Mesmo passou por aqui um amigo da infância, do qual me despedi como se nunca fôssemos voltar a ver-nos. Quase todos eram desta zona, de Vigo, de Moanha, de Cangas, de Ponte-vedra, de Redondela… Nos primeiros meses tinham trazido muitas pessoas ao campo de prisioneiros da ilha, mas agora apenas ficamos aqui umas dúzias. Supus que os evacuados seriam transladados a outras prisões ou, talvez, assassinados.

Ao princípio não sabia a razão por que me mantinham com vida neste terrível lugar e não me transladavam (ou porquê ainda não me mataram). Mas depois adivinhei a causa: O ano em que começara a guerra coincidira com o remate de meus estudos de medicina. Infelizmente, nunca pude exercer. Estava aqui por ter pertencido a uma pequena associação de defesa da língua. Acho que todos meus companheiros foram fuzilados, mas não sei ao certo. Talvez nunca chegue a conhecer a sorte que correram.

Às vezes os guardas me chamavam para cuidar de algum deles. Tinha de vencer o nojo da melhor maneira e fazer aquilo para o que estudei, mas na maioria das ocasiões devia atender outros réus. Os guardas-civis tinham pavor a que por aqui estourasse uma epidemia de tifo ou de qualquer outra enfermidade contagiosa. A tuberculose causava estragos entre os prisioneiros. Não há nenhum remédio eficaz contra ela e nestas condições de sobrelotação em que vivemos é sumamente fácil o contágio. O meu sonho como médico é que algum especialista descubra um medicamento para esta terrível enfermidade no futuro próximo. Quantas vidas se poderiam salvar!

Um dia como outro qualquer, a fins de novembro do 36, chegou à ilha uma pequena remessa de novos prisioneiros. Seriam uns dez. Nada fora do comum. Os rostos cadavéricos pareciam réplicas de tantos centos como tinha visto nestes meses. Ao dia seguinte, um companheiro comentou-me que um daqueles prisioneiros era poeta. Disse-me que tinha estado num recital dele havia um par de anos.

Você leu algum livro dele? — perguntei, inesperadamente interessado por aquela notícia. Antes da guerra tinha estado bem informado dos escritores que apareciam no nosso panorama editorial. Claro que o sermos um país pequeno ajudava bastante a conhecer quase tudo o que se ia publicando…

Não — respondeu. — Acho que ainda não publicou nenhum. E agora vai ser um milagre que o chegue a fazer. Falei ontem com ele e me confessou que tinham assaltado seu andar e que queimaram seus livros e todos os manuscritos. Só falta que o matem a ele. Então será como se nunca tivesse escrito nada.

Fiquei muito triste durante todo o dia. Para um escritor, que lhe queimem todo o que leva escrito é como se lhe roubassem a existência. A ele iam matá-lo ao menos duas vezes, não era como o resto de nós, que só temos uma vida. E o pior dos crimes é o que se comete com nossa língua, que morre um pouco mais com cada escritor que assassinam. São estas agressões as que me fazem adjurar deste país. E o pior de tudo é que na Europa atual quase não há para onde fugir. Cada vez há menos democracias e o totalitarismo parece que se vai estender imparável por todo o continente.

O poeta — meu amigo esquecera dizer-me como se chamava — estava noutro dos pavilhões e não consegui coincidir com ele, apesar das tentativas que fiz. Tinha muitas ganas de falar um bocadinho com ele antes que fosse demasiado tarde.

Infelizmente, consegui vê-lo numa ocasião em que não gostaria nunca de ter-me visto envolvido. Foi ao começo de dezembro. Um dos guardas-civis chamou-me para atender uns prisioneiros. Devia ir à sala de interrogatórios. Revolveu-se-me o estômago antes de entrar ali. Sabia o que me ia encontrar. Às vezes matavam a golpes a algum, outras vezes batiam tanto nalgum réu que ficava à beira da morte. Era tão duro ver as consequências das pancadas que lhes davam que quase sempre acabo vomitando.

Ao chegar ali, disseram-me que devia atender quatro prisioneiros. Por sorte nenhum deles tinha morrido. A um deles romperam-lhe um par de costelas. Outro ficara sem três dentes. O terceiro deu-me pena, porque lhe tinham saltado um olho, que pendurava fora da órbita e aquele jovem o tinha na palma da mão, com um fio de carne. O quarto tinha golpes por todo o peito e a espalda.

Trabalhei durante uma hora. Deram-me apenas umas vendas. Nada de medicinas. Fiz o que pude. Quando cheguei ao jovem ao que lhe saltaram o olho dei-me conta que aquele era o escritor com o que tinha querido falar todos aqueles dias.

Havia um guarda-civil ali, assim que não pude intercambiar nem uma palavra com ele. Tinha ordens precisas de não fazer perguntas pessoais, apenas averiguar onde lhe doía e coisas assim. Um dos guardas deveu bater-lhe com a porra ou com o fuzil, mas o jovem não se queixava. Mantinha a cabeça baixa e do olho caíam-lhe sobre a mão umas grossas pingas de sangue. Não pude fazer nada para salvar-lhe o olho. Apenas vendá-lo da melhor maneira possível.

Perguntei-lhe ao guarda-civil que estava no quarto se podia levá-los ao sanatório. Negou-se várias vezes, mas eu insisti e insisti até conseguir que o poeta e o homem com as costelas rotas pudessem passar a noite no sanatório e não nos pavilhões. Disse-lhe que iam morrer se não os atendia. O guarda não deixava de resmungar, mas ainda assim obtive sua permissão para transladar os dois em uma padiola. Ajudaram-me três companheiros que estavam no pátio.

Devemos transladá-los com muito cuidado — pedi-lhe aos outros três, antes de entrarmos naquele quarto. — É preciso caminhar a modo e não movê-los com brusquidão.

Os outros três assentiram. Quando entrei no quarto, pegamos primeiro no poeta. Dava pena vê-lo, com a cabeça vendada, uma mancha vermelha onde tinha estado o olho direito e com tantos golpes por todo o corpo. Perguntei-lhe como estava, mas, por sorte, tinha desmaiado.

Transladamo-lo ao pequeno sanatório do campo, onde eu trabalhava. Apenas seis camas, das que agora três estavam ocupadas (três enfermos graves de tuberculose aos que mantinha isolados). Coloquei aquele rapaz afastado dos enfermos e o tapei com um cobertor e com uma manta. Depois transladamos o homem com as costelas rotas. Essa tarde fiquei com eles todo o tempo, até à hora do toque de silêncio. A tunda que lhes tinham dado fora importante, assim que passaram quase todo o tempo adormecidos. Deixei-os descansar. Era o melhor. Apenas saí um bocadinho do sanatório. Fui pedir-lhe permissão ao sargento para passar a noite no sanatório (era algo inusual, já o sei) e, milagrosamente, aceitou.

Depois de dar-lhes o jantar aos tuberculosos (uma minúscula ração que quase não nos permite manter-nos vivos), aguardei a que os outros dois acordassem. Como continuavam num dorme-vela contínuo, eu também me deitei para descansar umas horas. Ao redor das três da manhã um deles começou a queixar-se. Era o homem com as costelas rotas. Pediu-me água para beber e um calmante para as dores.

Não tenho medicinas. Sinto-o — confessei. — A morfina está no quarto do sargento, que só me autoriza a utilizá-la com os guardas. Nestes meses nunca me deu nem uma pequena dose para os prisioneiros. Dói-lhe a cabeça? — perguntei.

Dói-me muito o peito… e quase não posso respirar — respondeu.

Você tem duas costelas rotas — disse-lhe. — Não pode fazer esforços durante um mês, enquanto não se recuperar.

Não creio que me deixem descansar aqui nem um par de dias — afirmou, tristemente.

Você de onde é?

Sou de Cangas — respondeu, num sussurro. — Mas não sou militante de nenhum partido… Suponho que foi por ter feito campanha a favor do Estatuto. Mas nestes tempos…, quem sabe a razão em concreto? Estive dois dias em Vigo e agora trouxeram-me para aqui.

Sabe algo deste rapaz? — perguntei, a assinalar para o poeta.

Quase nada. Sei que nos trouxeram juntos e estamos no mesmo pavilhão, mas não sei nada mais dele — olhou para ele e observou-o atentamente. — É bastante jovem… Que terá? Vinte anos?

Isso parece, ao sumo vinte e um ou vinte e dois — admiti. — Disseram-me que era escritor? Sabe algo?

A mim não me disse nada disso — afirmou. — A verdade é que falamos pouco. Mas os guardas têm-lhe uma especial animadversão. Estão sempre a bater-lhe e a fazer-lhe a vida impossível. Suponho que alguém importante o terá denunciado. Não apostaria por ele nem um real.

Um guarda saltou-lhe um olho de um golpe — confessei. — Creio que tem o nariz roto e talvez tenha outras lesões importantes, mas até que acorde não posso fazer mais nada. Dá-me pena vê-lo assim.

Não duraremos muito neste sítio — admitiu. — Sabe de alguém que conseguisse fugir?

Nestes meses que levo aqui, ninguém — respondi. — Ao menos que eu saiba… Ao estarmos numa ilha é mais difícil fugir. E isso que com a maré baixa quase se pode ir caminhando até à costa. Mas ninguém conseguiria dar um passo antes de ser abatido. Esqueça-o!

Nesse momento senti um movimento na cama do lado. Vi como o poeta piscava várias vezes o seu único olho são. Depois ficou outra vez adormecido.

Tente descansar — murmurei. — Aguente como possa. De manhã tentarei conseguir algo para aliviar-lhe a dor.

Ele moveu a cabeça em sinal de assentimento. Fiquei a observá-lo uns minutos. Depois, reparei que o poeta descansava. Tinha um sono suave, apesar das circunstâncias. Aguardei ao pé dele quase meia hora, observando-o bem. Teria frio? Apanhei a última manta do estante e o cobri com ela, tentando não o acordar.

Quando ouvi o toque de revista, ergui-me rapidamente e preparei-me para passar lista. O poeta estava acordado. Olhou para mim e vi naquele olho um sinal de agradecimento, ainda que não falou nada.

Vou descer ao pátio para formar enquanto passam lista — comentei. — Depois trarei algo para a dor. Não se preocupe, já verá como tudo vai sair bem. — Esbocei um sorriso, que tentou ser o mais afetuoso possível, e desci ao pátio.

Era muito cedo e estava frio. Os prisioneiros tiritavam. Alguns sopravam nas mãos e as esfregavam para tentar encontrar um bocadinho de calor. Então, como cada dia, começou essa cerimónia idiota de passar lista. Crispa-me os nervos. Cada dia esta hora interminável, à chuva ou ao sol.

Então vi como ao pequeno cais da ilha chegava uma lancha da guarda-civil com mais prisioneiros. Levaram-nos ao quarto de interrogatório. Pareciam assustados e intimidados por este maldito lugar e não era para menos.

O sargento chamou por mim, ainda que não remataram de passar lista. Ordenou-me que fosse fazer-lhes um reconhecimento aos novos prisioneiros. E rápido!

Eram doze. Estavam de pé, arrimados à parede do fundo. Sentei-me na cadeira que havia no centro, enquanto uns guardas falavam e riam, sentados na mesa principal ou no corredor. Tinha o ouvido à escuta e senti como o cabo que tinha trazido o pequeno grupo perguntava se havia que “transladar” alguém. Parece que a lancha não vai regressar de vazio. Queria ouvir mais, mas o cabo saiu com um par de guardas-civis e eu tive que continuar com o reconhecimento. Um parecia ter difteria e havia outro que tinha os sintomas da tuberculose, mas para assegurar-me devia fazer-lhe umas provas, que me levariam algo de tempo. Pedi que o levassem ao sanatório. Quando por fim acabei com aquele tedioso trabalho, regressei ao pátio e reparei que a lancha da guarda-civil ia já a meio caminho. A quem levariam esta vez? E a quantos?

Um dos prisioneiros aproximou-se a mim.

Você conhece algum dos novos? — perguntou.

Não, a verdade é que não reconheci nenhum — respondi. — Quase não pude falar com eles, porque havia sempre guardas na sala. E por aqui, houve alguma novidade?

Os da lancha levaram quatro ou cinco — respondeu. — Pareceu-me que traziam uma listagem com vários nomes, porque não deixavam de olhar para uma folha de papel. Suponho que quando remataram, foram embora. Eu tentei passar desapercebido e não dar muito nas vistas.

Dissemo-nos um par de frases intranscendentes, relacionadas com o frio que ia e eu regressei, quase à corrida, ao sanatório. Quando cheguei, reparei que o doente que atendera havia uns minutos já estava ali. Disse-me uma frase de saúdo, mas eu não a ouvi. Reparei que o jovem poeta não estava. A cama estava vazia. As duas mantas foram arremessadas para um lado. Aquela cama vazia dava-me terror. Aproximei-me para falar com o que tinha as costelas rotas. Mas antes de falar, já sabia a verdade. Tinham transladado o poeta e eu não conseguira cruzar nem uma palavra com ele. Por que o mundo tinha de ser tão cruel? Olhei para o companheiro. Ele olhou para mim com uns olhos doentes e tristes.

Sinto-o muito. Tentei impedir que o levassem, mas deram um golpe com a porra que me deixou sem ar durante um minuto. Vi as estrelas.

Senti uma névoa que me toldava a visão. Retrocedi dois passos e consegui sentar-me na cama. Na mesma cama onde o jovem passara a noite. Uma onda de calor subiu-me do estómago à boca. De imediato senti uma dor intensa, como uma agulha que se me cravava no coração.


Ilustração: PS/Perchance.

Texto integrante da revista bilíngue (português e espanhol) “Relatos Fantásticos”, vol. V. Para acessá-la na íntegra, clique aqui.


 

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