OS QUATRO LADRÕES - Conto Clássico Cruel - Frei Hermenegildo de Tancos
OS QUATRO LADRÕES
Frei Hermenegildo de Tancos
(Séc. XIV)
Contam as histórias antigas que em Roma havia quatro ladrões. E andando uma noite a furtar, sentiram a justiça e fugiram e esconderam-se em uma cova. E quando a luz veio, acharam-se em uma casa de abóboda mui formosa. E acharam nela um mausoléu de mármore mui formoso. E disseram entre si:
— Este mausoléu foi de algum homem nobre e rico. Abramo-lo e vejamos se acharemos algum bem, que em outros tempos acostumavam soterrar os grandes homens com bens e cousas de grande preço.
Então abriram o mausoléu e acharam o mausoléu cheio d’ouro e prata e de pedras preciosas e de vasos de copas d’ouro mui formoso. E entre eles estava uma copa mui formosa, e maior que todas as outras. Quando isto acharam, disseram entre si:
— Ora, somos nós ricos e de boa ventura, e seremos ricos pera sempre nós e nossos filhos, mas será bem que algum de nós fosse à vila por vianda.
E cada um se escusava, dizendo que era conhecido em a cidade e se temia de o enforcarem. Finalmente, disse um deles:
— Se vós me derdes aquela maior e melhor copa, eu irei pelo mantimento.
E os outros outorgaram, e ele foi e trouxe de comer. E indo pelo caminho levando a vianda, cuidou como meteria nela peçonha, de maneira que, comendo-a, seus companheiros morreriam e ficaria dele tudo o que acharam no mausoléu. E os três ladrões que ficaram; enquanto ele foi, falaram-se entre si e disseram:
— Aquele era nosso companheiro não quis ir pelo mantimento, senão que lhe déssemos a copa melhor. Matemo-lo e ficará para nós todo o haver.
E disse um deles:
— Como o mataremos sem perigo, se ele é mais forte que nós?
Respondeu o outro e disse:
— Quando ele vier, digamos-lhe que entre dentro e tome a copa, e quando se abaixar dentro, tiremos o madeiro que sustém as pedras e cairão as pedras sobre ele, e morrerá.
E quando veio o outro, fizeram-no assim e ele ficou logo morto. E eles disseram:
— Comamos e bebamos e depois partiremos o haver entre nós.
E começaram a comer a vianda que o outro trouxera e morreram com a peçonha que em ela estava.
Atualização/adaptação textual de Paulo Soriano.
Fonte: “Contos Tradicionais do Povo Português”, de Teófilo Braga.
Texto medievo (com ortografia atualizada):
Contam as histórias antigas que em Roma eram quatro ladrões. E andando uma noite a furtar, sentiram a justiça e fugiram e esconderam-se em uma cova. E quando a luz veio, acharam-se em uma casa de abóboda mui fremosa1. E acharam em ela um moimento2 de mármore mui fremoso. E disseram antre3 si:
— Este moimento foi de algum homem nobre e rico. Abramo-lo e vejamos se acharemos algum bem, que em outros tempos acostumavam soterrar os grandes homens com doas4 e cousas de grande preço.
Então abriram o moimento e acharam o moimento cheio d’ouro e prata e de pedras preciosas e de vasos de copas d’ouro mui fremosos. E antre eles era uma copa mui fremosa e maior que tôdalas5 outras. Quando isto acharam, disseram antre si:
— Ora, somos nós ricos e de boa ventura, e seremos ricos pera sempre nós e nossos filhos, mas será bem que algum de nós fosse à vila per vianda6.
E cada um se escusava, dizendo que era conhecido em a cidade e se temia de o enforcarem. Em cabo7, disse um deles:
— Se me vós derdes aquela maior e melhor copa, eu irei pelo mantimento.
E os outros outorgaram, e ele foi e trouxe de comer. E indo pelo caminho levando a vianda, cuidou como meteria em ela peçonha, em guisa8 que, comendo-a, seus companheiros morreriam e ficaria dele tudo o que acharam em o moimento. E os três ladrões que ficaram, enquanto ele foi, falaram-se antre si e disseram:
— Aquele era nosso companheiro, não quis ir polo mantimento, senão que lhe déssemos a copa melhor. Matemo-lo e ficará a nós todo o haver.
E disse um deles:
— Como o mataremos sem perigo, se ele é mais esforçado9 que nós?
Respondeu o outro e disse:
— Quando ele vier, digamos-lhe que entre dentro e tome a copa, e quando se abaixar dentro, tiremos o madeiro que sustém as pedras e cairão as pedras sobre ele, e morrerá.
— E quando veio o outro, fizeram-no assim e ficou logo morto. E eles disseram:
— Comamos e bebamos e depois partiremos o haver entre nós.
E começaram a comer a vianda que o outro trouxera e morreram com a peçonha que em ela estava.
Ilustração: PS/Perchance.
Notas:
1Formosa.
2Monumento fúnebre.
3Entre.
4Bens.
5Aglomeração antiga e popular de todas+las: todas as (masc. tôdolos). A aglomeração é ainda presente no português falado na Galiza.
6Qualquer espécie de alimento, em especial a carne.
7Finalmente.
8De maneira.
9Forte.

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