A TAÇA MACABRA - Conto Clássico Cruel - Margarida de Navarra
A TAÇA MACABRA
Margarida de Navarra
(1492 – 1594)
O rei Carlos VIII enviou à Alemanha um fidalgo chamado Bernage, senhor de Sivray, perto de Amboise. Para chegar rapidamente ao seu destino, viajou dia e noite. Chegou, assim, bem tarde da noite, ao castelo de um cavalheiro, onde pediu alojamento. Esta esta solicitação, contudo, não foi facilmente acolhida pelos criados.
Sabendo o cavalheiro que o fidalgo visitante era vassalo de um rei tão importante, a ele encaminhou-se e implorou que não levasse a mal a aspereza de seus criados, visto que era obrigado a manter a sua casa fechada, porquanto certos parentes de sua esposa queriam fazer-lhe mal.
Bernage explicou-lhe a natureza da missão à qual se ofereceu para atender aos interesses, na medida do possível, do seu rei. Prontamente, foi conduzido ao interior da casa, onde o gentil-homem o recebeu com honras e o hospedou.
Era hora do jantar. O cavalheiro conduziu o visitante a um elegante salão, decorado com belas tapeçarias. Assim que as carnes foram servidas, ele viu surgir, por trás das tapeçarias, a mulher mais bela que se poderia contemplar, conquanto tivesse a cabeça raspada e estivesse vestida com roupas pretas ao estilo alemão.
Tendo o cavalheiro lavado as mãos com Bernage, água foi levada à dama, que também lavou as suas e sentou-se no extremo da mesa, sem dirigir palavra ao cavaleiro, nem ele a ela. O senhor de Bernage olhou-a atentamente e considerou-a uma das mulheres mais belas que já vira, exceto pelo fato de ter um rosto deveras pálido, no qual se desenhava uma expressão de profunda tristeza.
Após comer um pouco, a dama pediu algo para beber, que lhe foi trazido por um criado num recipiente extraordinário, pois era uma caveira cujos orifícios dos olhos eram fechados com prata. E dela ela bebeu duas ou três vezes. Quando terminou de jantar, a dama lavou as mãos, fez uma reverência ao senhor da casa e retirou-se para trás da tapeçaria sem falar com ninguém. Bernage ficou extremamente admirado com aquela estranha cena e fez-se muito melancólico e pensativo.
O cavalheiro, percebendo isso, disse-lhe, então:
— Noto que o senhor está surpreso com o que viu nesta mesa. Todavia, mercê da excelência que encontro no senhor, explicarei o que se passa, para que não pense que eu poderia demonstrar tamanha crueldade sem razões de grande relevância. A dama que o senhor viu é minha esposa. E a amei mais do que qualquer homem jamais amou uma mulher. E o fiz a ponto de, para casar-me com ela, olvidar todo temor em trazê-la para cá, desafiando seus parentes. Por sua vez, ela me demonstrou tanto amor que eu teria arriscado dez mil vidas para trazê-la para cá, para a alegria dela e a minha. E aqui vivemos, por um bom tempo, em tanta paz e felicidade, que me considerei o homem mais feliz da cristandade.
“Mas aconteceu que, ao empreender uma viagem que minha honra me obrigava a fazer, ela se esqueceu de sua honra, consciência e amor por mim, a ponto de apaixonar-se por um jovem cavalheiro que eu havia criado nesta casa. Seria certo que eu perceberia tudo isso quando retornasse, mas o amor que eu sentia por ela era tão grande que não lhe lancei quaisquer suspeitas, até que, finalmente, a experiência me abriu os olhos e me fez ver o que eu temia mais do que a morte. Então, o amor que eu sentia por ela transformou-se em frenesi e desespero, a ponto de eu vigiá-la atentamente. E, um dia, fingindo sair a um passeio, eu me escondi no mesmo quarto em que ela há pouco se recolheu.
“Logo após minha partida, ela se retirou para o quarto e mandou chamar o jovem cavalheiro, a quem vi entrar com uma intimidade que deveria ser apenas a mim reservada. Mas, quando o vi prestes a deitar-se ao lado dela, saltei, agarrei-o pelos braços e o matei. E como o crime de minha esposa me pareceu tão grave que a morte não seria suficiente para puni-lo, impus-lhe uma pena que, creio eu, ela consideraria mais amarga que a própria morte. E essa pena consistia em trancá-la no quarto para onde costumava se retirar para desfrutar de seus maiores prazeres na companhia daquele por quem nutria mais amor do que por mim; além disso, ali coloquei, num armário, todos os ossos de seu amante, que jaziam pendurados como se penduram os objetos preciosos.
“Para que ela não se esqueça daquele vilão, faço com que lhe sirvam o crânio do amante falecido, em vez de uma taça, quando ela estiver comendo e bebendo à mesa, e isso sempre na minha presença, a fim de possa ver, vivo, aquele que a sua culpa tornou seu inimigo mortal, e, morto, por causa de seu amor, aquele cujo amor ela preferiu ao meu. E desta forma, no jantar e na ceia, ela vê as duas coisas que lhe devem ser as mais desagradáveis, a saber: seu inimigo vivo e seu amante morto. E tudo isso por causa de sua grande pecaminosidade.
“Nos outros assuntos, trato-a como a mim mesmo, exceto pelo fato de que ela raspa o cabelo; pois um penteado elaborado não convém à adúltera, nem um véu à impura.
“Por essa razão, seu cabelo foi raspado, mostrando que ela perdeu a honra da virgindade e da pureza. Se o senhor quiser se dar ao trabalho de vê-la, eu o conduzirei até ela.”
Bernage concordou de bom grado e, descendo as escadas, encontraram-na num aposento muito elegante, sentada, sozinha, em frente à lareira. O cavalheiro afastou uma cortina que escondia um grande armário, onde se via o esqueleto de um homem.
Bernage desejava muito falar com a senhora, mas não ousava fazê-lo por temor ao marido. O cavalheiro, percebendo isso, disse-lhe, então
— Se tiver o prazer de lhe dirigir alguma palavra, verá que graça e eloquência ela tem.
Então Bernage disse a ela:
—Senhora, a sua paciência é tão grande quanto seu tormento. Considero-a a mulher mais infeliz que existe.
Com lágrimas nos olhos e com a mais humilde graça, a senhora respondeu:
—Senhor, reconheço que minha ofensa foi imensa. Assim, é insignificante todo o malefício que o senhor desta casa — pois não sou digna de chamá-lo de marido — possa me infligir, se comparado à dor que sinto por tê-lo ofendido.
Dito isso, ela começou a chorar amargamente.
O cavalheiro tomou Bernage pelo braço e o levou embora.
Na manhã seguinte, Bernage despediu-se do cavaleiro para prosseguir na missão que o rei lhe confiara. Contudo, ao fazê-lo, não pôde deixar de dizer-lhe:
— Senhor, em razão da afeição que lhe dedico, aliada à honra e à amizade que me demonstrou em sua casa, vejo-me obrigado a dizer-lhe que, tendo em conta o profundo arrependimento de sua infeliz esposa, o senhor deveria, em minha opinião, compadecer-se dela. Além disso, o senhor é jovem e não tem filhos, e seria uma grande pena que uma linhagem tão nobre chegasse ao fim, e que aqueles que, talvez, não o amem, se tornassem seus herdeiros.
O cavalheiro, que havia decidido nunca mais falar com a sua esposa, refletiu longamente sobre o discurso que o senhor de Bernage lhe dirigira. Por fim, reconhecendo que ele lhe falara a verdade, prometeu-lhe que, se sua esposa persistisse em sua atual humildade, ter-lhe-ia piedade um dia.
Então, Bernage partiu em sua missão e, ao retornar ao seu suserano — o rei —, contou-lhe toda a história. O rei, após investigações, constatou ser verdadeiro o incidente. E como Bernage, entre outras coisas, havia mencionado a beleza da dama, o rei enviou o seu pintor, chamado Jean de Paris, para que este fizesse e lhe trouxesse um retrato da senhora. Com o consentimento do marido, o retrato foi feito. E quando a dama já havia cumprido penitência por um longo período, o cavalheiro, em seu desejo de ter filhos, e por conta da piedade que sentia por sua esposa, que se submetera a essa penitência com tanta humildade, a tomou de volta e, posteriormente, teve com ela muitos belos filhos.
Versão em português de Paulo Soriano, a partir da tradução inglesa de George Saintsbury (1845 – 1933) do Heptamerion, com lastro no texto de M. Le Roux de Lancy.

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