CARNIFICINA EM PARIS - Narrativa Clássica Verídica de Horror - Michel Félibien e Guy-Alexis Lobineau

CARNIFICINA EM PARIS

Michel Félibien (1665 - 1719) e Guy-Alexis Lobineau (1666 - 1727)

Tradução de Paulo Soriano

 

Tudo o que, até então, acontecera em Paris, não fora senão o prelúdio da sangrenta tragédia que ali se desenrolou em 12 de junho [de 1418].

Os carniceiros e outros malfeitores, tendo retornado à cidade com o coração repleto de fúria, incitaram o povo à sedição. Entre os líderes do levante havia um homem chamado Lambert, um oleiro daquela cidade.

 Espalhou-se o boato de que, a Saint-Macel e a ouros locais ao redor de Paris, tropas haviam chegado para libertar o Conde de Armagnac e os demais prisioneiros, e, também, para executar os homens do grão-duque da Borgonha que ali se encontravam.

 Imediatamente, os borgonheses e seus aliados pegaram em armas, foram guardar o portão de Bourdelles e outros, e incitaram toda a população.

Durante toda essa movimentação, Lambert e seus acompanhantes dirigiram-se tumultuosamente à portaria do palácio, onde, após retirarem à força o conde de Armagnac, condestável da França, Henri le Corgne, conhecido como de Marle, chanceler, e o bispo de Coutances, seu filho, massacraram-nos impiedosamente no pátio do palácio; depois, despiram-nos e abandonaram seus corpos nus à mercê da mais vil ralé.

Depois, correram à prisão de Saint-Eloi, onde retalharam todos os prisioneiros a machadadas, salvo o abade de Saint-Denis, Philippe de Vilette, a quem não deixaram de golpear violentamente, mesmo estando ele trajando vestes sacerdotais e segurando a eucaristia aos pés do altar. Mas L’Isle Adam chegou, salvou-o e levou-o para o seu castelo em L’Isle Adam, onde o bom abade morreu no dia 27 do mesmo mês, vítima de uma doença generalizada que rapidamente matou trinta e sete monges da abadia.

 De Saint-Eloi esses loucos dirigiram-se ao Pequeno Castelo, onde várias pessoas ilustres tinham sido aprisionadas, incluindo Benoist Gentien, monge de Saint-Denis e doutor em Teologia pela Faculdade de Paris.

Lá, a turba foi impedida de entrar, mas os prisioneiros foram conduzidos para fora, um após o outro. Obrigados a baixar a cabeça ao transpor o portão, alguns foram transpassados por espadas, outros golpeados com machados, e seus corpos arrastados pela lama, para que os que estavam dentro da prisão, ao presenciarem a carnificina, não se recusassem a sair.

Essas crueldades duraram tanto tempo que o sangue correu livremente por toda parte, de modo que, nas proximidades do Pequeno Castelo, chegava até os tornozelos.

Após essa tragédia execrável, esses homens enfurecidos dirigiram-se ao Grande Castelo, cujas prisões invadiram após duas horas de luta. Foi lá que redobraram sua crueldade, investindo contra os prisioneiros, que foram atirados pelas janelas, sem poupar nem mesmo aqueles que estavam presos apenas por dívidas.

Depois, correram rumo às prisões de Saint-Martin-des-Champs, de Saint-Magloire e do Templo, e as sitiaram sem encontrar a menor resistência. Passaram a noite inteira nessa cruel carnificina. Ao amanhecer, invadiram as masmorras mais profundas, onde, arrastando os que ali se refugiavam, a todos retalharam, sem distinção de idade ou sexo.

O bispo de Senlis, Raimonnet de Guerre, o conde de Grand-Pré e outros, mais de oitocentos, pereceram miseravelmente. E como a fúria dos borgonheses ainda não estava saciada, arrastaram os corpos dessas infelizes vítimas de sua crueldade pelas ruas, infligindo-lhes mil indignidades, chegando a fazer tiras de sua própria carne em forma de lenços, como era costume na facção de Orléans. Depois de zombarem deles, atiraram-nos na sarjeta para serem devorados por cães e pássaros.

Nessa horrível confusão, alguns levaram adiante suas vinganças pessoais contra aqueles que apoiavam o partido do duque da Borgonha. Qualquer um que aspirasse a um cargo ou benefício só precisava dizer publicamente sobre a pessoa que o ocupava: “um Armagnac!”. O infeliz era imediatamente executado, sem mais delongas. Muitas casas foram saqueadas sob o mesmo pretexto. A barbárie era tanta que não só os enterros cristãos foram negados às pessoas mais respeitáveis — como o conde de Armagnac, o chanceler e Raymond de Guerre, que foram encerrados numa sepultura profana no santuário de Martin des Champs —, como também não permitiram o batismo dos filhos das mulheres que estavam sendo massacradas. Depois que uma delas foi morta, houve pessoas desumanas o suficiente para dizer, vendo que o filhinho ainda se mexia em seu ventre:

— Olha só esse cãozinho chafurdando!

Em suma, nunca se viu crueldades mais terríveis. Até mesmo aqueles que presidiram à carnificina ficaram horrorizados com ela; mas não ousaram se opor à multidão enfurecida.

Tal carnificina durou das quatro da tarde até as dez da manhã do dia seguinte.

 

Fonte: “Histoire de la Ville de Paris”, vol. II; edição de Guillaume Desprez e Jean Desassartz, Paris, 1725.

 

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