UMA MORTAL AVENTURA - Conto Clássico Trágico - Autor anônimo do séc. XIX
UMA
MORTAL AVENTURA
Autor
anônimo do séc. XIX
Oh,
como brilha a casa inglesa! Que linda iluminação! Que belas carruagens esperam
diante da porta! Aqui celebra-se, sem dúvida, algum casamento.
Uma
estrondosa orquestra faz retumbar a sala. A valsa move a multidão agitada; é a
dança da despedida. No vestíbulo, a multidão multicolor dos lacaios se
impacienta, fixando os olhos fatigados sobre a escada por onde devem descer
seus amos.
Enquanto
que na sala dava-se uma livre carreira à comum alegria, estava na rua um jovem
coberto com um capote, e que ia e vinha com inquietação, tendo a gola do seu
capote levantada bem alta, e seu chapéu profundamente enterrado até os olhos.
Sua agitação se acalmava por intervalos: parava, escutava, lançava uma vista de
olhos sobre as brilhantes janelas, e murmurava continuamente palavras que não
se podiam entender. Era Júlio Franz.
Falando
a verdade, e sem saber por que razão, este jovem interessava minha
sensibilidade mais do que minha curiosidade. De repente, outro jovem chega precipitadamente
diante da porta. Apesar da atmosfera quente de que saía, e apesar da
simplicidade de seu vestuário de baile, ele se expôs temerariamente ao ar
fresco da noite, e se pôs a gritar:
—
A carruagem da noiva! Onde está ela, onde?
Uma soberba carruagem sai do meio das outras
que estavam defronte da casa. O lacaio corre, abre a portinhola, desce os
degraus, e o jovem imediatamente vai apresentar a mão a uma senhora coberta de
um ligeiro chale, e que, com o encantador vestuário de uma noiva, esperava na
escada. Esta moça recompensou com um sorriso o desvelo do jovem e pediu-lhe,
com instância, para cobrir-se com o seu casaco, mas que, sem escutá-la, a
conduziu até a carruagem. Quando ambos atravessavam o grupo dos lacaios, eu
ouvi em inglês:
—
Por todos os diabos, eis aqui uma coisa que é mortalmente cruel.
O
homem do capote se tinha também dirigido para a carruagem. Parecia estar
violentamente agitado: seu olhar estava invariavelmente fixado sobre a noiva. Pôs-se
de novo a murmurar, e desta vez pensei ouvir estas palavras:
—
Miserável perjúrio!
Neste
momento, um sussurro se fez ouvir; alguns moços com roupas de baile descem as
escadas e saem precipitadamente para a rua.
—
Para onde correis tão cedo? Eu não vos perderei de vista! Amanhã serás
escarnecido por tua vez, eu te prometo. Senhores, senhores, tornemos a subir, é
a resolução mais prudente, e vamos renovar o nosso ponche!
Entretanto,
a carruagem se apartava, levando os dois esposos. O homem do capote começou a
persegui-la com uma velocidade que parecia prodígio. O caminho, por felicidade
sua, não foi longo, e, no momento em que os noivos entram em casa, um agudo
grito de dor retumbou no meio do sepulcral silêncio da rua deserta:
—
Adeus, Carolina! Adeus para sempre!
A
moça voltou-se assustada. O ruído da portinhola e das rodas não deixaram ouvir
mais nada, mas eu notei que os noivos apressaram-se em desaparecer, e a
carruagem em voltar.
—
Boa noite, par encantador!
Eu
estava quase a voltar para minha casa quando vi aparecer Júlio Franz. Ele
voltava e, depois de ter lançado uma vista d’olhos sobre as janelas apenas iluminadas
da casa dos noivos, foi-se pôr defronte, ao pé de uma fonte, e imóvel como uma estátua.
As
luzes da casa apagaram-se sucessivamente... Não restava mais que a claridade
opaca e lânguida de uma lâmpada de alabastro, que estava no quarto nupcial, da
qual percebia-se a fraca luz através de uma cortina de seda amarela. De quando em
quando, passava uma sombra obscura.... Enfim, a lâmpada apagou-se; e, no mesmo
instante, ouvi um tiro a meu lado!...
Eu
vejo Júlio cair e rolar sobre a calçada. Seu crânio estava feito em pedaços, e
sua mão direita apertava convulsivamente uma pistola.
Os
pedaços ensanguentados de sua cabeça saltaram até junto de mim!
Este
desgraçado não pôde suportar, com coragem, a vista da felicidade de seu
rival!... Em pé, na rua, no meio da obscuridade da noite, olhando para a casa daquela
a quem amava, e que ia ser em poucos momentos possuída por outro! Como não
deveriam ser terríveis e pungentes os pensamentos deste infeliz! A dor foi mais
forte que ele: suicidou-se!... No entanto, talvez os noivos, no êxtase de sua
alegria, nem ouvissem o tiro que tinha decidido de uma existência! Em cima,
dois entes felizes em uma rica e perfumada cama; embaixo, um cadáver ensanguentado
sobre as úmidas lajes!
Eu
voltei para casa triste e melancólico.
Fonte:
“Correio das Modas”/RJ, edição de 18 de maio de 1839.
Fizeram-se
breves adaptações textuais.
Ilustração:
PS/Nano Banana.

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