A CEIA DOS MORTOS - Conto Clássico Lendário Sobrenatural - Jean-François Bladé

A CEIA DOS MORTOS

Jean-François Bladé

(1827 – 1900)

Tradução de Paulo Soriano

 

Não se deve zombar dos mortos.  Segue, agora, a prova disto.

Um senhor, caminhando por um cemitério, tropeçou numa caveira. Irritado, deu um belo chute no crânio. Depois, rindo, disse:

— Caveira, eu te tratei mal.  Mas, se não guardas rancor, convido-te a jantar comigo, ainda hoje à noite, às oito horas.

A caveira nada respondeu e o cavalheiro regressou ao seu castelo.

Naquela noite, ao primeiro badalar das oito horas, o senhor já se preparava para sentar-se à mesa quando se ouviu uma forte batida na porta principal. Imediatamente, um valete desceu; mas voltou rapidamente, pálido como um fantasma e trêmulo como uma folha.

— Senhor, senhor! Aqui chegou um esqueleto envolto num grande sudário.

O criado ainda falava quando o morto entrou na sala.

— Vim jantar contigo.  Já vês que eu não me esqueço de nada.

— Morto, tu és um homem de palavra. Vamos, valete! Depressa, uma cadeira. Depressa, um lugar à mesa. Depressa, manda trazer o jantar e traz-nos um pouco de vinho velho.

Então o morto sentou-se em frente ao senhor, que se certificou de que nada lhe faltasse.

— Vamos lá, morto! Vamos tomar um copo!

— Obrigado. Os mortos não bebem.

— Come, então.

— Comerei tanto quanto quiseres.

Grande foi a dificuldade do senhor do castelo em manter o prato do seu convidado cheio. Mas o morto apenas fingia comer, atirando tudo o que parecia estar levando à boca para debaixo da mesa.

Tendo terminado o jantar, o morto disse ao seu companheiro:

— Teu jantar estava bom. Agora é a minha vez de convidá-lo. Esperar-te-ei amanhã, à meia-noite, numa igreja, que fica no centro de meu cemitério. Se não vieres, grandes infortúnios lhe sobrevirão.

— Morto, reserva meu lugar à tua mesa!

O morto retornou ao cemitério. Prontamente, o senhor do castelo foi contar tudo a um velho padre muito sábio.

— Meu amigo — disse o padre —, deves cumprir a tua palavra. Mas faz de conta que estás comendo e bebendo, e não engulas nada do que o morto colocar em teu copo ou em teu prato. Acompanhar-te-ei para te proteger de todo mal. Vem buscar-me amanhã, uma hora antes da meia-noite.

No dia seguinte, uma hora antes da meia-noite, o padre e seu companheiro partiram. A noite estava escura, as janelas da igreja brilhavam e sentia-se um cheiro delicioso vindo da cozinha.

— Deixa comigo — disse o padre.

À primeira badalada da meia-noite, o padre bateu à porta, mas esta não se abriu. Então, o próprio convidado o fez. Imediatamente, a porta abriu-se e fechou-se, deixando o padre do lado de fora, que se ajoelhou para rezar a Deus.

Todas as velas da igreja estavam acesas. A mesa estava posta no santuário, em frente ao altar-mor, e não sei quantos mortos, vestidos com mortalhas, davam os últimos retoques na cozinha.

— Vamos, meu amigo, és homem de palavra. Sentemo-nos e não deixemos a sopa esfriar.

Todos os mortos se sentaram à mesa, e o cavalheiro postou-se em frente àquele que o convidara. Mas ele se lembrou das instruções do padre. Fingia comer e beber, mas habilmente jogava debaixo da mesa tudo o que simulava levar à boca.

Terminado o jantar, o morto disse:

— Homem, foste bem aconselhado. Se não tivesses vindo esta noite, ter-te-iam acontecido grandes infortúnios. Se tivesses comido uma migalha de pão, se tivesses tomado uma gota de vinho, terias morrido na hora.  Pede ao padre, que te espera, que celebre cem missas por nós e... não insultes mais os mortos!

 

Fonte: “Contes Populaires de la Gascogne”, Maisonneuve frères et Ch. Leclerc, Paris, 1886.

 

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