HORROR MARÍTIMO - Narrativa Clássica de Horror - Autor anônimo do séc. XX
HORROR MARÍTIMO
Autor anônimo do
séc. XX
Tradução de
autor anônimo do séc. XX
Viajávamos
então a bordo de um barco francês que fazia o trajeto entre o Havre e a Nova
Caledônia. Até aquele dia, o diário de bordo não havia consignado acidente
algum digno de menção, a não ser uma pequena avaria no leme, verificada à
entrada do estreito de Málaga, em consequência de forte borrasca. Mas isso era
coisa de pouca importância.
No
trigésimo quinto dia de viagem, um fato horrível veio perturbar a calma de
bordo. Eram duas horas da tarde e o barco navegava a todo o vapor em mar
tranquilo e sob lindo céu. À direita, bem ao longe, divisava-se, como uma
espécie de torre florida, a ponta da península de York, que dormia no meio do
glauco elemento. Os marinheiros de serviço faziam as manobras e os passageiros
entretinham-se cantando, quando o vigia deu um grito:
—
Homem ao mar!
O
criado Laurent Nancy, natural de Saint-Malo, que há três anos prestava serviços
a bordo, falseara o pé e havia caído ao mar.
“Homem
ao mar!” — Só quem viajou no oceano
muito tempo pode dizer que angústia provoca entre os marinheiros esse brado,
presságio tantas vezes de amarga desventura.
O
capitão, oportunamente avisado, deu as ordens necessárias. O navio virou um
pouco, enquanto o homem, subindo à superfície, tratava de nadar para atingir o
cabo lançado ao mar. Mas, a uns quatro metros de distância do intrépido jovem,
apareceu, à flor das ondas, alguma coisa indecisa, de cor verde-escuro, cuja
vista fez toda a tripulação dar um grito de horror.
— Um tubarão!
Falai
a um marinheiro dos tubarões e ele vos dirá da força, da ferocidade e da
voracidade nunca satisfeita desses temíveis animais. Um homem que cai de um
vapor, seguido por um tubarão, está irremediavelmente perdido.
Ao
ouvir o grito, o intrépido Nancy deu meia volta sobre si mesmo e boiou,
mobilizando-se. Sabe-se que o tubarão não ataca a presa que julga morta.
—
Bravo! Bravo, Nancy! — gritou o capitão. —
Finge-te de morto, porque vamos salvar-te a vida!
A emoção do capitão era visível como visível
era o ardente desejo de salvar a todo o custo o pobre rapaz.
Nancy
tinha à esquerda o barco a poucos metros; à direita, o monstro que esperava em
ameaçadora atitude que o homem fizesse qualquer movimento. Laurent lançava mão
de toda serenidade de espirito e de todas as forças para não desfalecer.
Parecia um morto que boiava à mercê das ondas. Só os olhos, voltados com
angustia para o barco, imploravam salvação. Quantas coisas diziam aqueles
olhos! Em que estava pensando o infeliz? Em Deus, na velha mãe que havia
deixado em Saint Maio, impaciente pelo seu regresso e sem saber do perigo
imenso que o cercava naquele momento?
Meio
minuto mais, uma corda com um nó corrediço foi jogada do barco e caiu sobre o
corpo do rapaz. Este, com movimentos quase imperceptíveis dos braços, enfiou o
laço da corda pela cabeça até as axilas. Outra corda foi jogada e prendeu-lhe
os pés.
—
Está tudo pronto! — gritou o capitão, cuja voz foi a primeira a quebrar o
agonizante silencio.
—
Pronto! — responderam os marinheiros que sustinham as cordas. O momento era
agonizante e todos os corações oprimiam-se por violenta angustia.
—Içar!
— gritou com voz vibrante o capitão.
As
cordas, puxadas rapidamente, levantaram Laurent a um metro e meio de altura.
Mas, nesse instante, o tubarão deu um salto e apertou nas mandíbulas a cabeça
do infeliz, separando-a do corpo.
Um
alarido de horror se ouviu a bordo enquanto os marinheiros içavam um corpo sem
cabeça gotejando sangue.
Fonte:
“Leitura para Todos”/RJ, edição de junho de 1926.

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