O MACHADO DE PRATA - Conto Clássico de Terror - Arthur Conan Doyle

O MACHADO DE PRATA

Arthur Conan Doyle

(1859 – 1930)

Tradução de autor anônimo do séc. XX

 

No dia 3 de dezembro de 1861, o doutor Otto von Hopstein, catedrático de Anatomia Comparada em Budapeste, e conservador do Museu Acadêmico, foi brutalmente assassinado a alguns metros da entrada do seu colégio.

Afora a eminente posição da vítima, e sua popularidade entre os estudantes e entre a sociedade local, outras circunstâncias excitaram a curiosidade pública, e atraíram sobre o crime a atenção da Áustria e da Hungria. Pode-se consultar, a tal respeito, o artigo que o “Pesther Abendblatt” publicou na tarde seguinte à do homicídio, e desse jornal é que extraio as passagens que dão sucinto panorama das circunstâncias em que foi cometido o evento, bem como os fatos particulares que despistaram e intrigaram a polícia húngara

“Parece — disse esse excelente jornal — que o professor Von Hopstein deixou a Universidade por volta das 4 e meia da tarde, com a intenção de assistir à chegada do trem de Viena às 5 horas e 3 minutos. Era acompanhado por seu velho e excelente amigo Guilherme Schlessinger, vice-conservador do Museu e professor docente de Química. O desejo desses dois senhores, ao dirigir-se à estação, era receber a doação feita à Universidade de Budapest pelo conde Schulling, legado que chegava em trem especial.

É do conhecimento público que esse infortunado fidalgo, de quem ninguém ainda se olvidou do trágico fim, deixara ao Museu, já célebre, de sua cidade natal, sua soberba — e, em seu gênero, única — coleção de armas medievais, bem como vários livros em caracteres góticos, de valor incalculável. O digno professor Von Hopstein era por demais zeloso e apaixonado para deixar a um simples subordinado a incumbência de receber e cuidar de um espólio tão precioso, e, com o auxílio de Herr Schlessinger, descarregou do trem toda a notável coleção, colocando-a sobre uma carruagem especialmente enviada ao local pelas autoridades universitárias. A maior parte dos livros e dos objetos frágeis estava embalada em caixas de madeira clara, porém as armas estavam quase todas simplesmente envoltas em palha, de modo que seu transporte exigiu um trabalho considerável. Mas o professor, excitado por sua missão delicada, temia de tal modo um acidente qualquer aos objetos que recusou o auxílio dos empregados da estrada de ferro. Cada objeto foi levado pelo professor Schlessinger da estação à carruagem, onde o doutor Hopstein o recebia e acomodava.

Quando tudo havia sido embalado, os dois homens, sempre fiéis à sua missão, conduziram à Universidade seu precioso depósito, e o professor, muito alegre e feliz, vangloriava-se da força muscular de que tinha dado provas havia pouco. Fez mesmo, sobre o caso, uma alusão divertida ao porteiro, Reinmaul, que, com seu amigo Schiffer, o judeu boêmio[1], recebeu a carruagem e a descarregou. Após ter depositado as curiosidades em uma sala vazia, cuja porta fechou a chave, o professor entregou a chave ao subconservador, desejou boa tarde aos presentes e retirou-se em direção à sua casa. Schlessinger lançou ainda um olhar ao redor de si, a fim de certificar-se de que tudo corria bem, e foi-se igualmente, deixando Reinmaul e seu amigo Schiffer fumando no compartimento do porteiro.

Por volta das 11 horas, uma hora e meia após a partida de Von Hopstein, um soldado do 14º Regimento de Caçadores, passando diante da Universidade para voltar a seu quartel, percebeu o corpo do professor tombado, sem sentidos, a poucos passos do caminho. Estava caído com a face por terra, as duas mãos acobertando o rosto. Sua cabeça havia sido literalmente fendida ao meio por um golpe formidável, sem dúvida alguma dado por detrás, e o rosto ainda sorridente do velho atestava a alegria que ele experimentava por sua aquisição arqueológica no momento em que a morte o colheu. Nada havia, sobre seu corpo, que denunciasse qualquer outra violência, além de uma ligeira contusão na altura da rótula esquerda, causada provavelmente pela queda. O mais estranho de tudo era que a carteira do professor, contendo quarenta e três gulden[2], e seu belo cronômetro, não tinham desaparecido. Não era, pois, o roubo o motivo do crime, a menos que os assassinos tivessem fugido antes de acabar seu lúgubre intento.

Essa ideia foi refutada, porque o corpo da vítima deve ter permanecido tombado pelo menos uma hora antes de ser descoberto. Todo o caso está envolto em mistério. O doutor Langemann, eminente médico legista, declara que a ferida deve ter sido produzida por um golpe de baioneta violentamente assentado por braço vigoroso. A polícia mostrava-se reticente a respeito, o que nos leva a acreditar que ela possua já alguma chave que há de produzir resultados importantes”.

Tal era o despacho do “Pesther Abendblatt”. No entanto, as pesquisas da polícia em nada esclareceram o mistério. Ela não descobriu qualquer traço do assassino, nem razão alguma que motivasse semelhante crime. O professor defunto estava sempre tão absorto em seus estudos, e em suas pesquisas científicas, que vivia afastado do mundo, e não podia ter criado, certamente, nenhuma inimizade. É preciso, pois, admitir que o homicida o golpeou como um selvagem, levado unicamente pelo amor ao sangue. Embora a lei não se tenha apegado a qualquer conclusão, o público logo exigiu um bode expiatório. Os primeiros detalhes sobre o acontecido mencionavam um certo Schiffer como um dos companheiros do porteiro no momento em que o professor foi morto. Esse homem era judeu, e os judeus nunca desfrutaram de popularidade na Hungria. O povo pediu, pois, em gritos e em ameaças, a prisão de Schiffer; mas, como contra ele não havia prova alguma, recusaram-se as autoridades a efetuar prisão tão arbitrária. Reinmaul, velho cidadão da mais alta honorabilidade, declarou solenemente que Schiffer quedara-se com ele até o momento em que o grito de alarme, dado pelo soldado, os fez acorrer ao local do crime. Ninguém tinha a ideia de incriminar Reinmaul, mas murmurou-se, baixinho, que sua velha e notória amizade por Schiffer bem poderia tê-lo induzido a mentir para salvá-lo. Tal maneira de ver rapidamente se espalhou, e Schiffer correu, em dado instante, o risco de ser linchado pela multidão em plena rua, quando aconteceu algo que lançou sobre o caso um jato de luz totalmente diverso.

No dia 12 de dezembro, pela manhã, nove dias após o misterioso assassinato do professor, Schiffer, o judeu boêmio, foi encontrado morto no canto nordeste da Grande Praça, e tão horrivelmente mutilado que quase não era reconhecido; sua cabeça fora aberta em dois pedaços, quase da mesma maneira com o que acontecera ao professor Von Hopstein. Seu corpo levara fundos e inúmeros golpes, como se o matador se houvesse furiosamente atirado sobre a vítima, golpeando-o ainda depois de ela ter tombado. A neve, que caíra abundantemente sobre a cidade, recobrira o solo de uma camada de cerca de dez centímetros de espessura; durante a noite, nevara igualmente, tal como o testemunhava a crosta leve que encobria o cadáver como uma mortalha; e, por um momento, se pensou que essa circunstância favoreceria as pesquisas da justiça, permitindo-lhe identificar as pegadas do assassino. Infelizmente, o crime fora cometido num local tão frequentado durante o dia que era totalmente impossível de tirar, pelas marcas impressas na neve, qualquer conclusão. De resto, a neve, que caía em flocos ultimamente, havia em certos locais de tal modo apagado a marca dos pés, que nenhuma prova digna de fé poderia ser ali obtida.

Ainda dessa feita, estava-se em presença de um mistério tão impenetrável e tão sem motivos como o fora o que envolvia o assassinato ao professor Hopstein. Nos bolsos intactos da vítima número dois, descobriu-se uma carteira, contendo considerável quantia em notas e em moedas de ouro, que nem mesmo fora tocada. Admitindo que ele tivesse emprestado dinheiro (tal como ocorreu, inicialmente, à polícia) a alguém que não lhe desejava pagar, era muito pouco provável que esse indivíduo tivesse desdenhado apossar-se da soma que a ele se oferecia. Schiffer habitava a casa de uma viúva, chamada Gruga, situada à rua Maria Teresa, 49, e, segundo o testemunho dessa senhora e de seus filhos, passara todo o dia anterior encerrado em seus aposentos, abismado no desencorajamento profundo que as suspeitas ao seu redor lhe causavam. Ela ouvira quando saiu, por volta das 11 horas, e, como Schiffer possuía uma chave, foi deitar-se sem esperar pelo seu regresso — regresso de um passeio que lhe seria de tal modo adverso, que nele encontraria a própria morte. Escolhendo uma hora tão tardia para tomar ar, Schiffer esperava poder circular nas ruas sem correr o risco de ser reconhecido e perseguido, ou (quem sabe) linchado.

Tal homicídio, em tudo semelhante ao primeiro, colocou não apenas Budapeste, mas toda a Hungria, em uma atmosfera de superexcitação e de terror indizíveis. Vagos perigos pareciam pairar no espaço, sobre a cabeça de cada um, e não se pode comparar a intensidade de tais sentimentos senão à angústia que agitou a Inglaterra por ocasião do assassinato de Williams, tão fielmente pintados por De Quincey.[3]  A semelhança entre a morte do professor Von Hopstein e a de Schiffer era tanta que nem um instante se duvidou de que havia relações ente ambas. A ausência de motivos, de vez que não houvera roubo, a falta absoluta de dados sobre um homicida qualquer e, ainda por cima de tudo, a natureza atroz dos ferimentos, causados certamente pela mesma arma, ou por armas semelhantes, tudo se ordenava no sentido de apontar um só indivíduo como o autor dos dois crimes. Estavam as coisas nesse pé, quando se produziram os acontecimentos que passarei a descrever, não sem antes reportar-me a um outro fato, indispensável para a compreensão dos eventos.

Otto von Schlegel era o filho mais moço da velha família silesiana[4]. Desde a infância, destinado à carreira militar, mais tarde se encaminhara para a carreira médica, aconselhado por seus professores, que lhe descobriram grandes aptidões cientificas. Trabalhava na Universidade de Budapeste.

Ali tudo ia de vento em popa para o jovem Schlegel, que prometia tornar-se o mais brilhante estudante que a Universidade jamais produzira em muitos anos. Embora apaixonado pela leitura, não era um rato de biblioteca; era um jovem cheio de vida e de atividade, que gostava do ar livre e dos esportes, sendo muito popular entre seus camaradas.

Estando próximos os exames de fim de ano, Schlegel estudava com paixão — tanto que os estranhos crimes cometidos na cidade, e o nervosismo geral que eles andavam causando, não o demoviam de seus intentos. Na véspera de Natal, enquanto as demais casas estavam alegremente iluminadas e alegres canções báquicas subiam das cervejarias nos bairros boêmios, Schlegel recusou todos os convites para as ceias que sobre ele choviam, e foi-se, de livro debaixo do braço, para a casa de Leopold Sstrauss, a fim de estudar com o colega até que a madrugada do dia seguinte raiasse. Strauss e Schlegel eram amigos inseparáveis; ambos silesianos, conheciam-se desde a infância, e sua amizade tornara-se proverbial na faculdade. Strauss era estudante quase tão distinto quanto Schlegel, e entre eles existia certa rivalidade quanto aos lauréis acadêmicos, o que contribuía para lhes fortificar ainda mais a amizade, aumentando-lhe mais e mais a afeição mútua. Schlegel admirava a coragem resoluta e o inalterável bom humor de seu amigo, ao passo que esse achava Schlegel — tão inteligente e brilhante — o mais distinto dos mortais.

Os dois estudavam ainda — um lendo um tomo de anatomia, outro um crânio em seus mínimos detalhes — quando o relógio da igreja de São Gregório tocou as doze badaladas da meia-noite.

— Ouça! — exclamou Schlegel, fechando o livro e estendendo as longas pernas para a lareira, que crepitava alegremente.  — É Natal, meu caro! Façamos votos de que possamos passar ainda muitos dias iguais em meio à alegria!

— Façamos um ao outro o voto de que, para o próximo Natal, já possamos estar livres desses malditos exames. Mas, enquanto esperamos até lá, Otto, uma garrafa de vinho não seria mal. Separei uma especialmente para a ocasião.

E, com seu bom sorriso espalhado de alemão sulino, tirou de detrás da pilha de livros e de esqueletos uma garrafa alongada de vinho do Reno.

 — Como é agradável estar confortavelmente à beira do fogo — disse Otto, olhando pela janela a neve que caía lá fora, onde faz um frio gélido e cortante. — À tua saúde, caro Leopold!

Lebe hoch![5]— retrucou seu companheiro. — É bom, com efeito, esquecer, em tais momentos, pelo menos, os ossos esfenoides e etmoides. E quais são as novas de esgrima? Graube venceu os suábios?[6]

— Eles se baterão amanhã. Mas temo que nosso homem perca ali sua elegância, pois tem braços curtos; no entanto, seu preparo e sua agilidade são dois bons predicados que certamente lhe serão úteis, e dizem que sua defesa em terça é excelente.

— E alguma outra novidade entre os estudantes?

—Os estudantes só falam dos últimos crimes. Mas tenho estudado tanto, nos últimos tempos, que não estou a par das últimas notícias a respeito, tu o sabes.

 — E já viste, por acaso, os livros e as armas que tanta satisfação deram ao nosso velho professor no próprio dia de sua morte? Dizem que bem merecem uma visita.

— Pois hoje, justamente, eu os examinei — disse Schlegel, enquanto acendia o cachimbo. — Reinmaul, o porteiro, conduziu-me até a sala onde estão depositados, e eu o auxiliei a catalogar vários, segundo o catálogo original, do Museu Schulling. E, pelo que averiguamos até ao momento, com exceção de uma única, não estão faltando peças.

 — Com exceção de uma única? — perguntou Strauss. — Isso deve estar impedindo espírito do velho Hopstein de dormir sossegado. É acaso um objeto de valor?

— Nós vimos sua descrição como um machado antigo, cuja lâmina é de aço, e o cabo em prata cinzelada. Nós já fizemos a reclamação à companhia férrea, que certamente a encontrará.

— Assim o espero — retrucou Strauss.

Logo abordaram outros assuntos. O fogo baixava na lareira e a garrafa de vinho do Reno estava vazia quando os dois amigos se levantaram, e Otto von Schlegel se preparou para partir.

— Puxa! Que noite glacial!  — disse ele, ao botar o pé do lado de fora, enquanto ajeitava a gola de seu casaco. — Como, Lepold, trazes teu chapéu? Tu não sairás agora, não?

— Vou acompanhar-te — disse Strauss, fechando a porta atrás de si. — Estou muito gordo — continuou, pegando o amigo pelo braço — e acho que uma boa caminhada até a tua porta, sob esse frio picante, só há de fazer-me bem.

Os dois estudantes contornaram a Rua Stephen, atravessaram a Praça Julien, conversando um pouco sobre tudo. Quando chegaram na esquina da Grande Praça, onde o professor havia sido assassinado, naturalmente que a conversa tomou o caminho do crime.

— Naquele lugar eles o encontraram — observou von Schlegel, indicando o lugar fatídico. — Talvez o assassino não esteja longe de nós. Apressemo-nos.

Ambos dobraram o ângulo da praça, quando Otto von Schlegel subitamente soltou um grito de dor e abaixou-se:

— Alguma coisa cortou o meu sapato — observou, enquanto, com a mão tateando pela neve, dela retirava uma pequenina machadinha, que brilhava bastante, e que parecia inteiramente de aço. Levemente enterrada, o fio da lâmina virado para cima, ferira destarte o pé do estudante, que a pisara inadvertidamente.

 — A arma assassina!

 — O machado de prata do museu! — gritou Strauss, com emoção.

Não havia engano possível. Uma era igual à descrição da outra. E não poderiam existir duas armas idênticas, tão estranhas, e produzindo feridas tão semelhantes. O homicida, evidentemente, a atirara longe, após ter cometido seu horrível intento, e ela, desde então, quedara semienterrada na neve, a pouco mais de vinte metros do local do crime. Era estranho que, entre tantas pessoas que passavam e repassavam pelo local, nenhuma a tivesse descoberto, embora a neve fosse espessa, e o cabo da arma apenas sobressaísse um pouco acima do seu nível.

— Que iremos fazer? — perguntou Otto, com a sua arma nas mãos; e estremeceu, ao reparar, sob o luar, que a lâmina estava pontilhada de pequeninas manchas escuras.

— Leva-a ao comissário de polícia — sugeriu Strauss. — Mas, a essa hora, certamente que já se deitou. No entanto, tens razão. Já são quase quatro horas. Esperarei o dia e levá-la-ei antes do café. Por enquanto, ficarei com ela.

 — Acho que é o que podes fazer de melhor — disse o outro.

E todos dois retomaram seu caminho, falando da sensacional descoberta que tinham acabado de fazer.

Chegados à porta de casa de Schlegel, Strauss deu-lhe adeus, recusando-se entrar, e retomou, no sentido inverso, o caminho que haviam palmilhado, assim voltando para casa.

Schlegel se encurvou, procurando o orifício da fechadura com a chave na mão, quando brusca mudança se produziu em seu íntimo. Um violento tremor dele se apossou, e seus dedos, crispados, deixaram tombar a chave. Com a mão direita, segurou fortemente o cabo do machado de prata e seus olhos seguiram com um esgar de ódio o vulto de seu amigo que se afastava na noite. A despeito do frio glacial, o suor lhe enchia de pérolas o rosto, e, por um momento, pareceu estar a lutar contra o seu próprio ser, estreitando-se a garganta com a mão esquerda, como que para estrangular-se. Depois, esgueirando-se, rápido e sem nenhum ruído, pôs-se a perseguir seu camarada.

Strauss caminhava dificilmente, porém com regularidade, sobre a neve, tartamudeando canções de estudantes, e mal desconfiando que seu amigo o seguia tão estranhamente. Schlegel, porém, chegado à Grande Praça, estava a somente 50 metros atrás dele; na Praça Julien, a apenas 20; ao chegar à Rua Stephen, dez metros os separavam, e Schlegel se esgueirava sempre, com a agilidade de uma pantera. Já não se encontrava senão à distância de um estirar de braços, e o gume do machado brilhava sinistramente ao luar, quando Strauss, certamente advertido por um barulho qualquer, virou-se subitamente. Estremeceu, e soltou um grito de surpresa, ao vislumbrar o rosto pálido e fixo de seu colega, o olhar brilhante e os dentes serrados dessa fera que parecia prestes a sobre ele lançar-se.

— O que se passa, Otto?  — gritou Strauss, reconhecendo o amigo. — Estás doente? Estás estranho... Vem até minha casa... Cuidado, seu louco! Abaixa esse machado! Abaixa, senão... Senão eu te estrangulo, eu te...

 

 


 

Otto von Schlegel precipitara-se sobre o amigo, com um grito selvagem, a machadinha prestes a abater-se. Porém Strauss, mais forte e dotado de maior inteligência, aparou-lhe o golpe que lhe teria fendido ao meio o crânio, e agarrou pela cintura seu agressor. Rolaram todos dois, durante alguns momentos, em terrível corpo a corpo, Schlegel buscando utilizar sua arma, e Strauss tentando desesperadamente desarmá-lo. Enquanto lutavam ferozmente, rolando de cá para lá sobre a neve, Strauss gritava por socorro em altos brados, e em boa hora, pois Schlegel estava a ponto de esgotar-lhe as forças, e certamente terminaria dominado, se dois policiais, a seus gritos de terror, não tivessem acorrido, contendo o agressor. A força de três homens, conjugada, foi a muito custo suficiente para acabar com a louca resistência de Schlegel, porém, não conseguiu tirar-lhe o machado da mão. Um dos guardas, com o auxílio de uma corda, conseguiu, a grandes penas, atar os braços de Otto de encontro a seu tronco, tornando-os, assim, imóveis. Dessa maneira, meio empurrado, meio puxado, soltando gritos furiosos e sacudindo em solavancos frenéticos os seus captores, Schlegel foi conduzido à chefatura de polícia.

Strauss auxiliou os guardas a reprimir o ódio de seu amigo até a chefatura, protestando, de quando em quando, contra as violências inúteis dos policiais, de vez que, no seu entender, seria mais indicada, para Otto, a casa de saúde que a prisão. Os acontecimentos da última meia hora tinham sido tão rápidos e inexplicáveis que Strauss — ele mesmo — continuava sem compreender. Que se teria passado? Era um fato indiscutível que seu amigo de infância tinha tentado assassiná-lo, quase que com sucesso! Seria, pois, Otto von Schlegel o assassino do professor? Também do judeu boêmio? Essa hipótese, para ele, era absurda, de vez que Schlegel nem conhecia o judeu, e o professor era o objeto de um verdadeiro culto de sua parte. Strauss o seguiu, pois, maquinalmente, envolto em sua melancolia e preocupação, até o posto policial.

Estava de serviço, no lugar do comissário, que se ausentara, o inspetor Baumgarten, um dos mais enérgicos e conhecidos detetives de Budapeste. Era um homenzinho nervoso, ativo e reservado, dotado, porém, de grande sagacidade e de uma dedicação ao serviço imperturbável. Embora já estivesse trabalhando havia mais de seis horas, mantinha-se sentado em sua mesa, mais rijo e empertigado de que nunca, a pena atrás da orelha, enquanto seu amigo, o subinspetor Winkel, a poucos passos dali, roncava tranquilamente. A fisionomia impassível do inspetor denotou, no entanto, certa surpresa, quando, a porta, abrindo-se com violência, deu passagem a Schlegel, que penetrou na sala com o rosto convulso, as vestes em desordem, os dedos sempre crispados, raivosamente, em torno ao cabo de machado de prata. Maior ainda foi seu espanto quando Strauss e os policiais lhe fizeram o relato do atentado, o qual foi registrado, devidamente, no pesado livro de ocorrências.

— Jovem, meu jovem! —  disse o inspetor Baumgarten, tirando a pena de detrás da orelha, e olhando severamente o prisioneiro. — Eis aí, em verdade, uma bela surpresa para uma noite de Natal. Mas o que o levou a agir assim?

 — Deus o sabe! — exclamou Otto von Schlegel, largando enfim o machado, e escondendo o rosto entre as mãos.

Uma mudança se produzia, subitamente, em seu íntimo:  com seu furor e excitação diminuídos, parecia consternado e fundamente infeliz.

— Você se expôs a ser severamente acusado como o responsável pelos crimes que tanto desonraram nossa cidade!

— Não, não! — gritou, lamentosamente, o jovem estudante.  — Deus é testemunha de minha inocência!

— Pelo menos, você é culpado de haver atentado contra a vida de Strauss.

— Meu mais caro amigo no mundo! — gemeu o rapaz.  — Oh! Como pude fazer isso? Como pude fazer isso?

— A circunstância de Strauss ser seu amigo apenas contribui para tornar o crime ainda mais odioso — redarguiu secamente o inspetor. — Que seja, pois, imediatamente conduzido a... Mas esperem! O que se passa?

A porta se abrira e deixara entrar um homem tão envelhecido, tão acabrunhado, que mais se parecia com um fantasma que com um ser humano. Cambaleava a cada passo, e amparava-se a cada móvel, enquanto se encaminhava na direção do inspetor. Era difícil, verdadeiramente, reconhecer nesse miserável trapo humano o subdiretor do Museu, o professor de Química Wilhelm Schlessinger, outrora tão alegre e jovial. Todavia, o olhar experimentado do inspetor Baumgarten não se deixou iludir por essa metamorfose.

— Bom dia, senhor professor — disse ele.  — Despertou cedo, hoje. Naturalmente, foi por causa do atentado de que foi vítima um de seus alunos, Strauss, por parte de outro, Otto von Schlegel, não?

— Não, não! Vim por minha própria causa — respondeu Schlessinger em voz rouca, levando a mão à garganta. — Vim aliviar minha alma de um crime que lhe pesa tragicamente, embora — Deus o sabe — eu nada tenho premeditado. Fui eu quem... Mas, meu Deus! O que é isso? Aquela coisa terrível, ali... Oh! Por que fui encontrá-la em minha vida?

Recuou, no paroxismo do terror, os olhos cravados sobre o machado, que jazia por terra, apontando-o com os dedos:

—Ei-lo, ei-lo! Vejam-no! Veio para me condenar! Veem essas manchas escuras sobre sua afiada lâmina? Sabem o que é? É o sangue de meu maior amigo, o professor von Hopstein! Vi-o tombar sobre a calçada, enquanto eu atravessava seu crânio com o machado! Meu Deus! Como me parece estar a ver tudo isso de novo!

— Subinspetor Winkel — disse Baumgarten, buscando conservar a dignidade de seu cargo —, detenha esse homem, acusado, por sua própria voz, de ter matado o professor Von Hopstein. Encaminho-lhe também Schlegel, aqui presente, acusado de tentativa de homicídio contra seu amigo Strauss. Conservará o senhor esse machado (e soergueu-o, nesse ínterim, do solo) que, aparentemente, foi o instrumento de ambos os crimes.

Wilhelm Schlessinger apoiara-se contra a mesa, o rosto congestionado. Quando o inspetor terminou de falar, levantou a cabeça e parecia superexcitado quando falou:

— Que diz o senhor? Otto von Schlegel teria atacado Strauss? Os dois melhores amigos da Universidade! Eu assassinei meu velho e caro mestre? Só pode ser magia, asseguro-lhe! É um encantamento, não é possível! Ah! Eis a arma maldita! Maldita, três vezes maldita seja ela!

O inspetor sorriu com superioridade.

 — Acalme-se, por favor. O senhor está apenas agravando o caso, multiplicando suas lamentações e remorsos para o crime terrível que praticou. Magia, sortilégio, são palavras desconhecidas no vocabulário legal, como pode atestar meu amigo Winkel.

— Não sei, não sei — retrucou o subinspetor com um sacudir de ombros. —Há tantas coisas estranhas por esse mundo afora, que...

— O quê? — gritou furioso o inspetor Baumgarten. — Ousas contradizer-me? Tens coragem de arriscar tua opinião a respeito? Queres ser o defensor desses malditos assassinos? Imbecil, miserável, imbecil! Arrepender-te-ás disso!

E, precipitando-se sobre Winkel, alucinado, tencionava dar-lhe uma machadada, que certamente terminaria com a vida do outro, se, em sua cólera, não tivesse reparado na pouca altura do aposento. Ao erguer a arma, a lâmina penetrou profundamente numa das vigas do teto, e ali ficou, a vibrar, enquanto, com a violência do impacto, o cabo se espatifava em mil pedaços.

 — O que foi que eu fiz? — gemeu Baumgarten, voltando à calma, e tombando inerte sobre a cadeira. — Que foi que eu fiz?

— O senhor acaba de dar razão ao senhor Schlessinger, acaba de provar a veracidade de suas palavras — respondeu Otto von Schlegel, dando alguns passos para a frente, de vez que os policiais, estupefatos, o haviam deixado solto. — Eis o que o senhor fez: contradizendo a razão, a ciência e tudo aquilo que passa por ser normal, estamos diante de um poder mágico; é um fato indiscutível. Strauss, meu caro, bem sabes que, na posse de meu senso normal, eu seria incapaz de fazer mal a um fio de teu cabelo. E o senhor, inspetor Baumgarten, voluntariamente teria ameaçado a vida de seu amigo, o subinspetor Winkel?

 — De modo algum, no mundo! — confirmou o inspetor, enfiando o rosto entre as mãos.

 — Pois não está então tudo esclarecido? Mas agora, Deus seja louvado, este objeto maldito se partiu, e já não poderá causar nenhuma outra desgraça. Vejamos; o que é isso?

No exato meio do cabo, jazia por terra um fino rolo amarelecido de pergaminho. Um rápido olhar sobre o cabo do machado bastaria para demonstrar que ele tinha sido escavado. Pelas aparências, alguém devia ter colocado o pergaminho ali dentro, e, após, fechara o cabo hermeticamente. Otto von Schlegel desenrolou o papel, cuja escritura antiquíssima era quase ilegível. Mas, pelo que pôde entender e decifrar, eis o texto que leu, em alemão medieval:

 

“Diese Waffe benutzte Max von Erlichingen, um Joanna Bodeck zu ermorden; deshalb beschuldige ich, Johann Bodeck, mittelst der Macht, welche mir als Mitglied des Concils des rothen Kreuzes verliehen wurde, dieselbe mit dieser Unthat. Mag sie anderen denselben Schmerz verursachen, den sie mir verursacht hat. Mag jede Hand, die sie ergreift, mit dem Blut eines Freundes geröthet sein.

“‘Immer übel, niemals gut,

Geröthet mit des Freundes Blut.’”

 

O que se podia traduzir como segue, mais ou menos:

“Essa arma serviu a Max von Erlichingen para matar Joanna Bodeck, razão pela qual eu, Johann Bodeck, a amaldiçoo, pelo poder que me foi dado como membro do Conselho da Rosacruz. Que ela possa causar a outrem a dor que me causou! Que cada mão que a empunhe seja manchada no sangue de um amigo! Sempre cruel, nunca compassiva, rubra eternamente com o sangue de um amigo!”

Quando Schlegel terminou a leitura do estranho documento, um silêncio mortal caiu sobre a peça e Strauss pousou afetuosamente a mão sobre seu braço.

— Essa prova era-me de todo inútil, meu amigo. No mesmo instante em que me agredias, já eu te perdoara, de todo o coração. E tenho a certeza de que, se estivesse aqui nosso velho professor, Wilhelm Schlessinger ouviria de seus lábios essas mesmas palavras.

— Senhores — interrompeu o inspetor, levantando-se e retomando sua atitude e sua voz oficiais —, por mais estranho que seja o caso, deve ser interpretado à luz do Código Penal. Subinspetor Winkel, na qualidade de seu superior, ordeno-lhe que me prenda como culpado de uma tentativa de homicídio em sua pessoa. Ficarei preso hoje à noite, juntamente com Otto Von Schlegel e com Wilhelm Schlessinger. Na próxima sessão do tribunal, seremos todos julgados. Enquanto aguarda, tome conta, ciosamente, dessa peça de testemunho (designando o pergaminho), e empregue toda a sua energia em descobrir o assassino do judeu boêmio Schiffer.

O elo que faltava a essa estranha cadeia não tardou a ser logo descoberto. No dia 28 de dezembro, a mulher de Reinmaul, porteiro, ao entrar em seu quarto após um breve ausentar-se, encontrou seu marido enforcado em um laço erguido desde uma viga no teto. Havia amarrado o pescoço com uma fronha, e subira a uma cadeira para suicidar-se. Sobre a mesa, havia um breve bilhete, no qual ele se apontava como o matador de Schiffer, o judeu, acrescentando que a vítima era seu melhor amigo, e que havia matado sem qualquer premeditação, movido por um impulso irresistível. A dor e o remorso levavam-no (dizia) a destruir-se, e terminava essa confissão suplicando à misericórdia divina o repouso para a sua alma.

O processo que se seguiu foi dos mais estranhos jamais debatidos em toda a longa história da jurisprudência. Em vão, alegou o conselho a improbabilidade da explicação apresentada pelos indiciados, recusando-se a admitir, na discussão de um caso ocorrido em pleno século XX, um fator como a magia; em suma: por falta de maior clareza, os prisioneiros foram absolvidos por unanimidade, tão intrincados eram os fatos.

— Esse machado de prata — observou o juiz em seu arrazoado — ficou cerca de duzentos anos na mansão dos condes Von Schulling, sem ter sido tocado. A morte súbita do último conde, atribuída ao seu mais devotado serviçal, é ainda recente, e deve estar presente em vossas recordações. Ficou posteriormente provado que, alguns dias antes do crime, esse serviçal examinara e limpara as velhas armas. Isso fazendo, deve ter segurado por algum tempo o machado, e, imediatamente após, assassinou o patrão, após haver servido, fielmente, à sua casa, por mais de vinte anos. A arma foi, segundo as vontades do conde Von Schulling, enviada a Budapeste, e foi na própria estação, no momento de sua chegada, que Wilhelm Schlessinger, tendo tomado o machado nas mãos, dele se serviu, nas duas horas que se seguiram, para matar o professor Hopstein. A pessoa que, a seguir, utilizou a arma foi o porteiro Reinmal, o qual ajudou a carregá-la da carruagem que a tinha trazido para a sala de depósito da Universidade. Na primeira oportunidade, enterrou-a no corpo de seu amigo Schiffer. Depois, assistimos ao atentado de Schlegel contra Strauss e à tentativa de homicídio do inspetor Baumgarten, na pessoa do subinspetor Winkel, todos transcorridos logo após que sobre o cabo do machado pousasse uma mão. Finalmente, aconteceu a descoberta providencial desse extraordinário documento, que acaba de ser lido pelo meirinho. Convido-vos, pois, senhores jurados, a considerar com cuidado todos esses fatos, certo de que encontrareis em vossas consciências um veredito imparcial, não ditado pelo medo do ridículo.

A mais interessante prova testemunhai para o leitor inglês, malgrado não tenha conhecido sucesso entre os húngaros, é certamente o laudo do doutor Langemann, eminente médico legista, que escreveu manuais sobre a metalurgia e a toxicologia. Eis o que rezava:

— Senhores, não estou seguro de que seja preciso voltar aos tempos da necromancia ou da magia negra para explicar os acontecimentos que acabam de se produzir. O que aqui vos exponho não passa de uma hipótese, sem nenhuma base experimental. Contudo, em caso tão extraordinário, toda inspiração deve possuir valor. Os rosacruzes, aos quais se faz alusão no documento, eram os mais peritos químicos da idade média, e entre eles é que podemos descobrir os maiores alquimistas, cujos nomes chegaram até nós. Malgrado os progressos da ciência, há certos pontos em que os antigos nos eram superiores, por exemplo: na fabricação de venenos sutis e mortais. Este homem, chamado Bodeck, possuía, sem dúvida, rosacruz que era, receitas de estranhas misturas, das quais algumas, como a aqua tofana[7], dos Medicis[8], tinham o dom de envenenar pela simples absorção dos tecidos da epiderme. É bem possível que o cabo da machadinha em questão tenha sido impregnado de uma poção que, ao diluir-se, torne-se perigosa, causando acessos súbitos e violentos de loucura homicida. Em crises de tal espécie, é notório que o ódio do alienado se volta contra os seres a quem mais estima, quando em perfeita lucidez. Repito-vos: não possuo nenhuma prova a dar-vos em apoio à minha teoria, e deixo-vos o repeli-la ou aceitá-la.

Podemos encerrar essa narrativa do afanoso processo com esse resumo do laudo do eminente e engenhoso legista.

Os pedaços do machado de prata foram lançados em uma fossa bastante funda, e um grande cão, de rara inteligência, foi incumbido de levá-los entre seus dentes, de vez que ninguém os queria tocar, de medo se ver possuído pela loucura assassina.

Quanto ao pergaminho, foi conservado no museu da Universidade. Strauss e Schlegel, Winkel e Baumgarten tornaram a ser, como outrora, os melhores amigos do mundo, e o são ainda hoje.

Schlessinger tornou-se cirurgião de um regimento de cavalaria e foi baleado na batalha de Sadowa cinco anos depois, enquanto socorria feridos sob fogo intenso. De acordo com as suas últimas disposições, seu modesto patrimônio deveria ser vendido para erguer um obelisco de mármore sobre o túmulo do professor Von Hopstein.

 

 

Fonte: “Revista da Semana”/RJ, edições de 17/12/1955 a 7/1/1956.

Fizeram-se adaptações textuais.

 

Notas:



[1] Natural da Boêmia, região histórica da Europa Central, atualmente inserida na República Tcheca.

[2] Moeda de ouro.

[3] Doyle refere-se aos ‘Assassinatos de Ratcliffe Highway’, uma série de crimes brutais ocorridos em Londres em dezembro de 1811, do qual figurou como suspeito um marinheiro chamado John Williams. Thomas de Quincey (1785 - 1859), escritor inglês, escreveu acerca de tais crimes no livro “On Murder Considered as One of the Fine Arts” (Do Assassinato Considerado como uma das Belas-Artes), publicado em 1827.

[4] Natural da Silésia, região histórica hoje dividida entre a Polônia, a República Tcheca e a Alemanha.

[5] Viva!

[6] Naturais da região histórica da Suábia, situada em partes da Baviera e Baden-Württemberg.

[7] Veneno inodoro e incolor, letal, à base de arsênico, criado no século XVII na Itália.

[8] Membros da poderosa dinastia de banqueiros e políticos italianos que governou Florença e a Toscana entre 1434 e 1737.

 

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