UMA HISTÓRIA HORRIPILANTE - Conto Clássico de Horror - Gaston Leroux
UMA HISTÓRIA
HORRIPILANTE
(ou O Jantar dos
Bustos)
Gaston Leroux
(1868 – 1927)
Tradução de
Manuel R. da Silva
(Séc. XX)
Do
chinês, do malgaxe e do sudanês — explicou Dorée confidencialmente —, não sei
seus verdadeiros nomes, nem suas idades, nem nada; e ninguém o sabe em Toulon.
É estranho vê-los aqui... São de Mourillon, do mesmo Mourillon. São capitães
das colônias. Em cada quatro anos, passam três nesses países da China, em
Madagascar e no Sudão, e durante o quarto refazem o fígado à beira do mar,
tomando sol no jardinzinho duma vila... De todos eles dizem: “Vivem aqui como
em terras de selvagens... Comem o mesmo que selvagens, enfim, tudo!...”
Claude
Farrère.
(Os
Pequenos Aliados)
O
capitão Michel tinha apenas um braço, que lhe servia para movimentar seu
cachimbo. Era um velho lobo do mar, a quem conheci em Toulon, ao mesmo tempo
que a outros velhos lobos do mar, numa tarde, ao tomar o aperitivo, no terraço
dum café do Dique Velho. E adquirimos o costume de reunir-nos, junto das copas,
a dois passos das alvoroçadas águas e das lanchas dançarinas, à hora em que o
sol mergulha na baía de Tamaris.
Os
outros quatro velhos lobos do mar se chamavam Zinzin, Dorat (o capitão Dorat),
Bagatela e Chaulieu (aquele malandro do Chaulieu). Não é preciso dizer que
tinham navegado por todos os mares e que lhe haviam ocorrido mil aventuras; e
agora, já aposentados, matavam o tempo contando histórias horripilantes uns aos
outros.
O
capitão Michel era o único que nunca contava coisa alguma. E, como o que ouvia
não parecia causar-lhe o menor assombro, esta atitude acabou por exasperar os
outros, que lhe disseram:
—
Capitão Michel, pelo visto nunca lhe ocorreu nenhuma aventura horripilante!
— Sim — respondeu-me o capitão, tirando pela
primeira vez, diante de mim, seu cachimbo da boca. — Sim, aconteceu-me uma, só
uma!
—
Então conte-a.
—Não.
—
Por quê?
—
Porque é demasiado horrorosa. Vocês não poderiam escutar-me; já por várias
vezes procurei contá-la, mas todos se afastaram antes de chegar o fim.
Os
quatro velhos riram a mais não poder, e declararam que, indubitavelmente, o
capitão Michel procurava dar muita importância ao fato, mas que era mero
pretexto para não lhes contar coisa alguma, porque, no fundo, “talvez nada lhe
tivesse acontecido!”
O
capitão fitou-os um instante; depois, resolvendo-se instantaneamente, pousou
seu cachimbo na mesa, com um movimento nervoso. Aquele gesto insólito era já,
por si só, aterrador.
—
Senhores — anunciou solenemente o capitão Michel —, vou contar-lhes como perdi
meu braço.
“Naquela
época, isto há uns vinte e cinco anos, eu possuía, em Mourillon, uma casinha
herdada de minha família, pois esta vivera muito tempo neste povoado, e eu
mesmo nele nasci. Gostava de descansar, entre as longas viagens, naquele
cantinho. Além disso, eu me tinha afeiçoado àquele bairro, onde vivia em paz
com a pouco molesta vizinhança, formada de marinheiros e empregados das
colônias, que se deixavam ver uma ou outra tarde, ocupados como estavam, em
geral, em fumar tranquilamente ópio com suas amigas, ou outros misteres que não
me interessavam, pois cada um tem lá seus hábitos, não é mesmo? E, contanto que
não me obrigassem a alterar os meus...
Precisamente
uma noite tive de alterar o hábito de dormir que eu tinha. Um tumulto
esquisito, de cuja natureza não me era possível certificar-me, fez-me despertar
sobressaltado. Minha janela ficava aberta, como sempre. Eu escutava, assombrado,
um ruído estranho, que tinha um pouco do matraqueio do trovão e do rufar dum
tambor... Mas que tambor! Dir-se-ia que duzentas baquetas martelavam,
desesperadamente, não o emplastro de pele de burro, mas um tambor de madeira...
E
este estrépito saía da casa em frente, que estava desabitada havia cinco anos,
e onde, há pouco, tinha eu visto uma placa: ‘Vende-se’.
Da
janela de meu quarto, minha vista, passando por cima da cerca do jardim que
rodeava aquela casa, lobrigava toda as portas e janelas, mesmo as do pavimento
térreo. Ainda estavam fechadas, como as tinha visto eu naquele dia. Contudo,
pelos interstícios da madeira do pavimento de baixo, vi luz. Quem, que espécie
de gente se teria introduzido naquela casa isolada, nos arredores de Mourillon?
Que pandilha penetrara naquela fazendola abandonada, e que malévola reunião se
celebrava nela?
O
singular ruído, semelhante ao ribombo do trovão, ao rufar dum tambor de
madeira, não cessava. Durou cerca de uma hora e, depois, pela madrugada,
abriu-se a porta da vila e, de pé no dintel, sem nada na cabeça, apareceu a
criatura mais linda que já vi na minha vida. Estava em traje de baile e, com
infinita graça, sustinha uma lanterna cujo resplendor iluminava uns ombros de
deusa. Sorria, doce e placidamente, enquanto pronunciava estas palavras, que
ouvi perfeitamente, no silêncio da noite:
—Adeus,
querido; até o ano que vem...
Mas a quem dizia isso? Foi-me impossível
sabê-lo, porque não vi ninguém perto dela. Permaneceu no umbral, com a lanterna
na mão, até o momento em que a porta do jardim se abriu por si só, e tornou a
se fechar, também sozinha. Depois a porta da vila se fechou por sua vez, e não
vi mais nada.
Julguei
ter enlouquecido, ou estar sonhando, porque me dava perfeitamente conta de que
era impossível uma pessoa atravessar o jardim sem que eu a visse.
Ainda continuava no mesmo
lugar, assomando à minha janela, incapaz de mover-me ou de pensar, quando a
porta da casa se abriu pela segunda vez, e apareceu a belíssima criatura de
momentos antes, sempre com a lanterna na mão, e sempre só!
—Psiu!
— disse — fiquem calados!... Não é preciso acordar o vizinho da frente... Eu os
acompanharei.
E,
silenciosa e sozinha, atravessou o jardim, detendo-se à porta, onde batia em
cheio a luz da lanterna, tanto que vi perfeitamente o trinco daquela porta
girar sobre si mesmo, sem que mão alguma a tocasse. Por fim, abriu-se a porta,
completamente só, ante aquela mulher, que não manifestou, aliás, o menor
assombro. Preciso advertir que eu estava colocado de tal maneira que via, ao
mesmo tempo, quanto se passava diante e atrás daquela porta, isto é, que a via
de través.
A
‘celestial aparição’ fez uma deliciosa senha com a cabeça, dirigida à noite,
que a luz deslumbrante da lanterna iluminava; depois, sorriu e disse:
—
Vá! Adeus! Até o ano que vem!... Meu marido está muito satisfeito. Nem um só
faltou à reunião... Adeus, senhores!...
No
mesmo instante, ouvi diversas vozes que repetiam:
—Adeus,
senhoras!... Adeus, senhora!... Até o ano que vem!...
E,
como a misteriosa dama se dispunha a fechar a porta, ouvi:
—
Por favor, não se incomode!...
E
a porta se fechou sozinha.
O
espaço encheu-se, por um instante, de pios dum bando de passarinhos... — cuí...
cuí... cuí... —, e foi com se aquela formosa mulher tivesse aberto a gaiola a
uma ninhada de desesperados pardais.
Regressou
tranquilamente à sua casa. As luzes do pavimento térreo estavam apagadas, mas
as janelas do principal apareciam iluminadas.
Ao
chegar à vila, disse a dama:
—Já
subiste, Gérard?
Não
ouvi a resposta, mas a porta da casa fechou-se de novo e, poucos instantes
depois, se apagaram as luzes do pavimento superior.
Às
oito da manhã, permanecia eu ainda em minha janela, contemplando, como um bobo,
aquele jardim, aquela casa, na qual tinha visto coisas tão singulares durante a
noite, e que, naquele momento, à deslumbrante luz do sol, me aparecia sob seu
aspecto habitual. O jardim estava deserto, e a casa parecia tão abandonada como
no dia anterior.
Tanto
que, quando falei à minha antiga empregada, que acabava de entrar, das
estranhas cenas que tinha presenciado, ela me tocou a testa com seu dedo sujo e
declarou que eu havia fumado uma cachimbada de mais. Pois bem: eu nunca fumo
ópio e esta resposta foi a razão definitiva por que pus à rua aquela faxineira,
da qual há muito queria me desembaraçar, e que vinha sujar minha casa durante
duas horas diárias. Além disso, já não precisava de ninguém, de vez que, no dia
seguinte, deveria tornar ao mar.
Não
tinha tempo senão para arrumar minha equipagem, fazer algumas compras, despedir-me
dos meus amigos e tomar o trem para Havre, onde um novo contrato com a
Transatlântica ia me ter ausente de Toulon pelo espaço de onze ou doze meses.
Quando
regressei a Mourillon, não tinha falado a ninguém de minha aventura; porém, nem
um só instante, havia deixado de pensar nela. A imagem da mulher de lanterna me
perseguia por todas as partes, e as últimas palavras que dirigira a seus amigos
ressoavam incessantemente em meus ouvidos: ‘Vá! Adeus! Até o ano que vem!’
Eu não pensava senão naquele encontro. Tinha
resolvido, por minha vez, acudir a ela, e descobrir, custasse o que custasse, a
chave dum mistério que devia intrigar, até a loucura, um homem sensato como eu,
que não acreditava em aparições nem em histórias de barcos fantasmas.
Ah!
Depressa havia de me convencer de que nem o céu nem o inferno tinham qualquer
coisa a ver com aquela espantosa aventura...
Às
seis da tarde, penetrei em minha vila de Mourillon. Era a antevéspera do
aniversário da famosa noite.
A
primeira coisa que fiz, ao entrar em minha casa, foi correr à janela do andar
superior e abri-la. Quando me assomei vi (porque estávamos no verão, e ainda
era completamente de dia), uma mulher de estonteante beleza, que passeava tranquilamente
pelo jardim em frente, colhendo flores. Ao ruído que fiz, levantou a cabeça.
Era a dama da lanterna! Reconheci-a; estava tão linda de dia como de noite.
Tinha a pele tão branca como os dentes de um congolês, os olhos tão azuis como
a baía de Tamaria e uma cabeleira loura, tão suave como a mais fina espiga. Por
que não hei de confessá-lo? Ao ver aquela mulher, na qual não tinha cessado de
pensar durante um ano, o coração me deu uma viravolta. Ah, não era uma ilusão
de minha mente enferma! Estava de fato diante de mim, em carne e osso! À sua
retaguarda, todas das janelas da casa apareciam abertas, cheias de flores,
pelos seus cuidados. Aquilo nada tinha de fantástico.
Viu-me
e imediatamente manifestou viva contrariedade. Continuou andando pela rua
principal de seu jardinzinho, e depois, dando de ombros, como contrariada,
disse:
—
Vamos para casa, Gérard!... O tempo está refrescando...
Olhei
para todos os lados. Ninguém!... Com quem falava?... com ninguém!...
Estaria
louca?... Não o parecia. Via-a dirigir-se à casa. Flanqueou o umbral, cerrou a
porta e, imediatamente, todas as janelas.
Aquela
noite, não observei nem ouvi nada de particular. No dia seguinte, lá pelas dez
horas, vi minha vizinha que, em traje de passeio, atravessava seu jardim.
Fechou a porta à chave e afastou-se pelo caminho de Toulon. Desci também. Ao
primeiro caixeiro que encontrei, apontei-lhe a elegante silhueta e perguntei se
sabia o nome daquela mulher. Respondeu-me:
—
Creio que sim! É vizinha do senhor; mora com o marido na vila Makoko.
Instalaram-se nela há um ano, quando o senhor foi embora. São muito esquisitos;
nunca dirigem a palavra a ninguém; não falam senão ‘o necessário’, mas o senhor
bem sabe que, em Mourillon, cada qual vive à sua maneira, e ninguém admira
nada. De modo que o capitão...
—
Que capitão?
—
O capitão Gérard... Sim, segundo me parece, o marido é um capitão aposentado da
infantaria da marinha... Bem, pois nunca o veem... Às vezes, quando temos que
levar alguma compra à sua casa e não está a senhora, ouvimo-lo gritar, lá de
dentro, que deixemos tudo na porta e, para vir buscá-lo, espera que nos
tenhamos afastado.
Como
vocês compreenderão, minha curiosidade ia aumentando. Fui a Toulon para
interrogar o engenheiro-chefe, que alugara a casa ao casal. Tampouco ele tinha
visto o marido, porém me disse que se chamava Gérard Beauvisage. Ao ouvir este
nome, soltei um grito. Gérard Beauvisage! Mas se o conhecia muito! Eu tinha um
velho amigo, oficial de infantaria da marinha, que se chamava assim, e a quem
não via fazia vinte e cinco anos, data em que tinha saído de Toulon para
Tonquim! Como duvidar que fosse ele? Em todo o caso, tinha um excelente
pretexto para me apresentar em sua casa, e resolvi ir apertar-lhe a mão naquela
noite mesmo, aniversário da noite memorável, que era quando ele esperava seus
amigos.
Ao
regressar a Mourillon vi, diante de mim, no caminho que levava à vila Mokoko, a
silhueta da minha vizinha. Não vacilei: apertei o passo e cumprimentei.
—
Senhora — disse-lhe —, tenho a honra de falar à esposa do capitão Gérard
Beauvisage?
Ruborizou-se
e quis continuar seu caminho sem responder.
—Senhora
— insisti — sou seu vizinho, o capitão Michel Alban...
—
Ah! — exclamou imediatamente. — Desculpe-me, cavalheiro... O capitão Michel Alban?...
Meu marido falou-me muitas vezes do senhor.
Parecia
horrivelmente perturbada e, em seu sobressalto, estava mais bonita ainda, se é
possível. Eu continuei, a despeito da vontade que ela manifestava de escapar:
—
Senhora, como é que o capitão Beauvisage regressou à França, a Toulon, sem
participá-lo a seu velho amigo? Senhora, agradecer-lhe-ia imensamente se
dissesse ao capitão Gérard que irei abraçá-lo esta mesma noite.
E,
vendo que acelerava o passo, saudei-a; porém, ao ouvir minhas últimas palavras,
mostrou uma agitação cada vez mais inexplicável.
—Impossível!
— exclamou. — Impossível! Esta noite... Eu... eu prometo ao senhor dizer a Gérard
que o vi... É o único que posso fazer... Gérard não quer ver ninguém... Ninguém!
Vivemos isolados... Alugamos esta casa porque nos disseram que a de frente só
se ocupava uma ou duas vezes ao ano, durante poucos dias, por uma pessoa a quem
nunca se via...
E ajuntou, em tom de súbita tristeza:
—
É mister perdoar Gérard... Vão vemos ninguém... Adeus, cavalheiro!
—
Senhora — disse muito contrariado —, o capitão Gérard e sua esposa costumam
receber alguns amigos... E esta noite esperam os que no ano passado
convidaram...
Soltou
um grito.
—
Ah! — exclamou. — Isso é excepcional! São amigos
excepcionais!
Após
estas palavras, fugiu, mas se deteve repentinamente em sua fuga e voltou-se
para mim, mais pálida que um defunto.
—
Pelo amor de Deus — suplicou —, pelo amor de Deus não venha esta noite!
E
desapareceu atrás da cerca. Entrei em minha casa. Tive o cuidado de não assomar
à janela que dava para o jardim. Todavia, apesar disso, vigiei meus vizinhos.
Não saíram em todo o dia e, muito antes do anoitecer, vi as janelas cerradas e,
pelas frestas, a mesma claridade, os mesmos resplendores que tinha vislumbrado
um ano antes, naquela noite singular. Só que ainda não ouvia o estranho ruído
de trovões, de tambor de madeira...
Às
oito horas vesti-me, recordando o traje de reunião da dama da lanterna. As
últimas palavras da senhora Beauvisage só reforçaram a minha determinação.
Receberia aquela noite seus amigos, e não se atreveria a pôr-me na rua. Depois
de meter um fraque, desci. Vacilei um instante, pensando se deveria tomar meu
revólver e, por fim, deixei-o no seu lugar, achando tolice levá-lo.
A
tolice foi não o ter levado.
No
umbral da vila Makoko, fiz girar resolutamente a aldrava que, no ano anterior,
tinha visto girar por si só. E, com grande assombro meu, a porta se abriu. De
modo que esperavam alguém.
Atravessei
o jardim por entre dois canteiros de verbenas em flor. Ao chegar à porta, bati.
—
Entre! – gritou uma voz.
Reconheci-a; era a de Gérard. Entrei
alegremente na casa. Encontrei-me primeiro no vestíbulo e, depois, como encontrei
aberta a porta dum salão, e este se achava iluminado e vazio, penetrei nele,
gritando:
—
Gérard! Sou eu!... Michel Alban, teu velho camarada!...
—
Ah, ah, ah!... Então decidiste vir, caro Michel!... Há precisamente um instante
que estava dizendo a minha mulher... A este terei muito gosto em vê-lo... Mas
só a ele e a nossos amigos excepcionais... Sabes que não mudaste muito, Michel?
Ser-me-ia
impossível descrever-lhes meu estupor. Ouvi Gérard, mas não o via! Sua voz
ressoava ao meu lado, e junto de mim não havia ninguém! Não vi pessoa alguma no
salão!...
A
voz continuou:
—
Senta-te! Agora virá minha mulher, porque recordará que me deixou esquecido em
cima da lareira...
Levantei
a cabeça... E então vi... lá em cima... no topo da altíssima lareira, um
busto...
Aquele
busto era quem falava. Parecia-se com Gérard. Era o busto dele. Estava colocado
ali, na lareira, como se costuma colocar os bustos... Era um busto idêntico ao
que fazem os escultores, isto é, sem braços...
Disse-me:
—
Não posso estreitar-te entre meus braços, querido Michel, porque, como vês, não
os tenho; porém tu, empinando-te um pouco, podes tomar-me nos teus e pôr-me em
cima da mesa. Minha mulher deixou-me aqui, num momento de mau humor, porque eu a
estorvava para limpar o salão, segundo dizia... Minha mulher é deliciosa!...
E
o busto desatou a rir.
Acreditei
ser vítima de uma ilusão de ótica, como acontece nas feiras, onde, graças a uma
combinação de espelhos, se veem bustos de homem, cheios de vida, que não estão
ligados a coisa alguma; porém, depois de ter colocado meu amigo sobre a mesa,
tive de me convencer de que aquela cabeça e aquele tronco sem braços nem pernas
era o único que restava do arrogante oficial que em outros tempos conhecera. O
tronco descansava diretamente num desses carrinhos que usam os aleijados, mas
meu amigo nem sequer tinha o princípio das pernas, que é costume ver-se mesmo
nos aleijados. Digo-lhes que não era senão um busto.
Os
braços tinham sido substituídos por ganchos, e não lhes posso explicar como se
arranjava, ora apoiando-se num, ora noutro, para saltar, brincar, retroceder, e
executar cem movimentos rápidos, que o precipitavam da mesa para uma cadeira e
da cadeira para o chão, para fazê-lo reaparecer, instantaneamente, em cima da
mesa, onde desatava a rir nas minhas barbas. Parecia muito alegre.
Eu, por minha parte, estava consternado; não
pronunciara uma palavra e fitava aquele fenômeno, que seguia fazendo piruetas e
me dizia com seu sorriso inquietante:
—
Mudei muito, não é verdade?... Confessa que não me reconheces, caro Michel!...
Fizeste bem em vir esta noite. Vamos nos divertir... Recebemos nossos amigos
excepcionais, porque, além de amigos, não quero ver mais ninguém... Não,
ninguém!... Questão de amor-próprio... Nem sequer temos criada!... Espera-me
aqui... Vou botar um smoking.
Afastou-se
e imediatamente apareceu a dama da lanterna. Tinha posto o mesmo traje de gala
do ano anterior. Quando me viu, empalideceu, como tinha empalidecido, poucas
horas antes, no meio do caminho, e me disse, com voz abafada:
—
Ah, o senhor veio! Fez muito mal, capitão Michel... Transmiti a meu marido o
recado que me encomendou... Contudo, proibi-o de vir esta noite... Se eu lhe
dissesse que, quando meu marido soube que o senhor morava em frente, me mandou
convidá-lo para esta noite... Mas não
fiz, porque — ajuntou muito confusa — tinha minhas razões para isso... Esta
noite recebemos nossos amigos excepcionais que, às vezes, são incômodos. Sim...
gostam de armar barulho, alvoroçar... Naturalmente os ouviu ano passado... — ajuntou,
observando-me com dissimulação. —Pois bem: prometa-me que irá embora bem
cedo...
—
Prometo, minha senhora — disse, enquanto uma estranha inquietação começava a se
apoderar de mim ao ouvir aquelas palavras cujo sentido não alcançava
compreender. — Prometo-o à senhora;
contudo, poderia informar-me por que encontro meu amigo em semelhante estado?
Que espantoso acidente lhe ocorreu?
—
Nenhum, cavalheiro, nenhum...
—
Como nenhum? Ignora que espécie de acidente o deixou sem braços nem pernas? Sem
dúvida, esta catástrofe teria ocorrido depois de seu casamento.
—
Não, cavalheiro, não... Casei-me com o capitão tal como está! Mas queira
desculpar, nossos convidados não demoram e preciso ajudar meu marido a se
vestir.
Deixou-me
sozinho, aniquilado por este único e embrutecedor pensamento: ‘O capitão havia
se casado tal como estava!’. E, quase em seguida, ouvi um ruído no vestíbulo,
aquele curioso rumor de cuí... cuí... que não tinha conseguido explicar no ano
anterior, e que havia acompanhado a dama da lanterna até a porta do jardim...
Aquele ruído foi seguido pela aparição de quatro carrinhos, ocupados por quatro
homens sem braços e sem pernas, que me olhavam estupefatos. Todos vestiam traje
de etiqueta, muito corretos, com peitilhos luzidios. Um deles usava lentes de
ouro, o outro — um velho — óculos, o terceiro monóculo e o quarto contentava-se
com seus olhos, de olhar sagaz e inteligente, para me contemplar com expressão
de contrariedade. Contudo, os quatro me saudaram, com seus ganchos, e
perguntaram-me pelo capitão Gérard. Respondi-lhes que Gérard tinha ido vestir
seu smoking e que a Sra. Beauvisage estava bem. Quando me permiti falar,
com tanta intimidade, da Sra. Beauvisage, surpreendi alguns olhares que se
cruzavam e que me pareciam um tanto escarninhos.
—
Hum! Hum! – disse o homem sem pernas de
monóculo. — Pelo visto, cavalheiro, o senhor é muito amigo do capitão?
E
os outros começaram a sorrir, com uma expressão pertinente ao extremo. Depois
falaram os quatro, quase ao mesmo tempo.
—
Queira desculpar — disseram — queira desculpar! Oh! É natural que nos choque
vê-lo em casa deste bizarro capitão que, no dia do seu casamento, jurou
retirar-se com sua mulher para o campo e não ver ninguém... Ninguém, a não ser
seus amigos excepcionais... Compreende?... Quando um homem está tão estropiado
como o capitão quis ficar, e se casa com uma pequena tão linda, é muito
natural! Muito natural!... Mas, enfim, se ele encontrou no mundo um homem
decente que não seja aleijado, tanto melhor, tanto melhor...
E
repetiram:
—Tanto
melhor!... Oh! Tanto melhor!... Parabéns!
Céus,
que estranhos eram aqueles gnomos! Eu os fitava sem dizer uma palavra...
Chegaram outros, de dois em dois... de três em três... e, por fim, um só... e
todos me encaravam com surpresa, inquietação ou ironia...
Senti-me
enlouquecer diante de tanto aleijão. Porque, em realidade, se começava a
compreender a maior parte dos fenômenos que tanto me haviam impressionado, e,
se os aleijados explicavam, com sua presença, muita coisa, em compensação, a
presença dos aleijados não se explicava, como tampouco se explicava a
monstruosa união daquela formosa criatura com aquele horrível farrapo humano.
Claro
está que, naquele momento, compreendia eu que os diminutos troncos ambulantes
deviam passar, necessariamente, inadvertidos para mim, ao atravessar a rua do
jardinzinho marginada de plantas de verbena, e ao percorrer o caminho encaixado
entre duas cercas; porém, francamente, quando, no ano anterior, dizia a mim
mesmo que era impossível uma pessoa atravessar aqueles caminhos sem que eu a
visse, não podia pensar senão numa pessoa que os atravessasse sobre suas duas
pernas...
Até
o trinco da porta não tinha mais mistério para mim, e, com os olhos do
espírito, via naquele instante o invisível gancho que o fazia girar...
Aquele
ruído — cuí... cuí... — não era outro senão o das rodinhas, mal lubrificadas,
dos carrinhos daqueles fenômenos. E, por último, aquele estranho ribombo de
trovão, aquele rufar de tambor de madeira não era senão o estrépito que armavam
todos aqueles carrinhos e todos aqueles ganchos ao bater no chão, à hora em
que, depois de excelente repasto, os senhores aleijados dançavam...
Sim,
sim, tudo se explicava. Mas demasiado compreendia eu, ao contemplar os
estranhos olhos ardentes, ao escutar aquele singular ruído dos ganchos, que
ainda restava por explicar algo terrível, e que o que até então havia visto, e
que tanto me tinha chocado, era o de menos...
Nisto,
chegou a Sra. Beauvisage, seguida por seu marido. O casal foi recebido com
gritos de alegria. Os ganchos obsequiaram-no com um rufar infernal. Eu estava
aturdido... Depois me apresentaram. Havia aleijados por todos os cantos: em
cima da mesa, nas cadeiras, nas banquetas, no lugar que costumavam ocupar os
vasos desalojados, num consolo... Um deles permanecia, como um buda em seu
nicho, encarapitado no mármore duma prateleira... E todos me estenderam seus
ganchos, muito cortesmente. A maior parte deles pareciam pessoas distintas, com
títulos e prefixos, mas, depois, soube que me tinham dado nomes falsos, por
motivos fáceis de compreender. Lorde Wilmore era indubitavelmente o que melhor
aspecto mostrava, com sua linda barba dourada e seu belo bigode, que acariciava
incessantemente com seu gancho. Não saltava de móvel em móvel como os demais, e
não parecia revolutear como um morcego gigantesco.
—
Só esperamos o doutor — disse a dona da casa que, de quando em quando, me
olhava com manifesta tristeza, tornando imediatamente a sorrir para seus
convidados.
Chegou
o doutor.
Também
era aleijado, mas conservava seus dois braços!
Ofereceu
um à Sra. Beauvisage para ir até a sala de jantar. Quero dizer que a dona da
casa lhe tomou a ponta dos dedos.
A
comida estava servida naquela sala, cujas janelas se mantinham hermeticamente
fechadas. Grandes candelabros iluminavam uma mesa cheia de flores e enfeites.
Não havia uma única fruta. Os doze aleijados saltaram imediatamente para suas
cadeiras e começaram a ‘bicar’ glutonamente nas travessas com seus ganchos. Ah!
Não ofereciam um espetáculo agradável, e até me causou verdadeiro assombro ver
a voracidade com que comiam aqueles homens-troncos que, poucos momentos antes,
pareciam tão bem-educados.
Depois
se acalmaram repentinamente; ficaram imóveis os ganchos e adverti que, entre os
comensais, se estabelecia o que de ordinário se qualifica de ‘silêncio penoso’.
Todos
os olhos se voltaram para a Sra. Beauvisage, ao lado da qual me tinha colocado
o capitão, e vi que a dama inclinava a cabeça sobre seu prato, com expressão
perturbada. Então meu amigo Gérard disse, batendo com ostentação seus ganchos
um contra o outro:
—
Bem, meus pobres amigos, que quereis? Nem sempre havíamos de ter a sorte do ano
passado! Não vos aflijais! Com um pouco de imaginação conseguiremos
divertir-nos tanto como então...
E
voltando-se para mim, enquanto levantava pela asa o copo que tinha diante de
si, ajuntou:
—
À tua saúde, Michel! À saúde de
todos!...
E
todos levantaram seus copos tomando-os pelas asas com a extremidade de seus
ganchos. Aqueles copos balançavam sobre a mesa de maneira mais estranha. Meu
anfitrião continuou:
—
Não estás muito à vontade, querido Michel! Conheci-te mais alegre e mais
animado. Estás triste porque nos vês assim? Que queres? Cada um é como é, mas é
preciso rir. Reunimo-nos uns quantos amigos excepcionais para rir e celebrar
aqueles tempos ditosos em que todos ficamos ‘neste estado’. Não é verdade,
senhores tripulantes da Dafne?”
—
Então — prosseguiu o capitão Michel, soltando profundo suspiro —, então meu
antigo companheiro explicou-me que, noutro tempo, viajando na Dafne, um
vapor que navegava pelos mares do Extremo Oriente, haviam naufragado quantos
naquela sala se encontravam reunidos; que a tripulação se salvou nos botes e
que aqueles desgraçados se viram abandonados numa balsa. Uma pequena belíssima,
a Srta. Madge, que tinha perdido um parente na catástrofe, foi igualmente
recolhida na balsa. Em cima daquelas tábuas viram-se reunidas treze pessoas que,
ao cabo de três dias, tinham esgotado todas as provisões de boca, e aos oito
dias morriam de fome. Foi então que, como sucede na lenda da Nau Catarineta,
botaram sorte para ver ‘a quem havia de se comer’... Senhores — ajuntou o
capitão Michel muito sério — estas coisas talvez sucedam com mais frequência do
que se conta, porque o mar deve ter presenciado, mais de uma vez, estas ‘comezainas’...
Assim,
pois, iam botar sortes na balsa da Dafne, quando se ouviu uma voz, a do doutor:
—Senhora
e senhores — dizia o médico —, no naufrágio que lhes arrebatou quanto possuíam,
eu conservei meu estojo de cirurgia e minhas pinças hemostáticas. Vejam o que
vou propor. É inútil que um de nós se exponha a ser comido inteiro.
Sorteiem-se, primeiramente, os braços ou as pernas, à escolha... e amanhã
veremos como se apresenta o dia; talvez apareça uma vela no horizonte!...”
Ao
chegar o capitão Michel a este ponto de seu relato, os quatro velhos lobos do
mar, que até então não o tinham interrompido, exclamaram:
—Bravo!
Bravo!
—
Como, bravo? — interrogou Michel, franzindo o cenho.
—
Sim, bravo! Bravo! É muito engraçada a tua história. Vão ser cortados, por
turno, braços e pernas... É muito engraçada, mas nada tem de horripilante.
—
Parece engraçada? — resmungou o capitão, cujos cabelos se eriçaram. — Pois bem:
juro que se tivessem ouvido este relato entre todos aqueles homens sem pernas,
cujos olhos brilhavam como carvões acesos, teriam-na achado menos graciosa! E
se tivessem visto como se agitavam em suas cadeiras! E como se entrechocavam,
nervosamente, seus ganchos, por cima da mesa, com uma alegria que eu não me
explicava e que, por esta mesma razão, resultava ainda mais espantosa!
—
Não! Não! – interrompeu de novo Chaulieu (aquele malandro Chaulieu). — Teu
relato nada tem de horripilante. É engraçado, simplesmente, porque é lógico.
Queres que te conte o fim da história? Tu me dirás se não é assim! Os da balsa
tiraram sortes. Caiu a sorte para a mais linda!... Sim, a uma perna da Srta. Madge!
Teu amigo, o capitão, que é um homem gentil, ofereceu a dele em lugar da
designada pela sorte, e mandou cortar os seus quatro membros, para que a Srta. Madge
permanecesse inteira!
—
Sim, meu amigo, sim! Acertaste! Assim foi! — exclamou o capitão Michel, que
sentia tentação de quebrar a cara àqueles quatro bárbaros que achavam ‘engraçado’
seu relato — Sim! E falta ajuntar que, quando a sorte designou, realmente, os
membros do capitão Gérard, e se pensou em cortar os da Srta. Madge, porque já
não restavam na balsa mais membros que os seus, e os dois braços, tão úteis, do
médico, o capitão Gérard teve a coragem de fazer-se cortar, rente ao tronco, os
cotos que lhe tinham ficado da primeira operação.
—
E a Srta. Madge não podia fazer nada melhor — declarou Zinzin — que oferecer ao
capitão aquela mão, que tão heroicamente lhe tinha conservado.
—
Realmente! — rugiu o capitão. – Realmente! E se isso vos parece engraçado...
—
E comeram tudo cru? – perguntou o imbecil do Bagatela.
O
capitão Michel deu um soco tão forte na mesa que os copos saltaram, como bolas
de borracha.
—
Basta! — gritou. — Calem-se! O que disse não é nada. Agora é que vem o
horrível!
E,
como os outros quatro se entreolharam sorrindo, o capitão Michel empalideceu,
ao ver que os outros, compreendendo que o caso se ia azedando, baixaram a
cabeça...
—
Sim, o horrível, senhores — continuou Michel com seu acento mais sombrio —, o
horrível é que aqueles homens, que foram salvos um mês depois por uma traineira
chinesa, que os deixou às margens do Yang-Tse-Kiang, onde se dispersaram, o
horripilante é que aqueles homens conservaram a afeição à carne humana,
e, ao voltar à Europa, decidiram reunir-se, uma vez por anos, para renovar, no
possível, o abominável festim! Ah, senhores, não demorei muito a
compreendê-lo! Antes de tudo, observei a acolhida pouco entusiasta feita a
certos pratos que a Sra. Beauvisage servia por si mesma. E como se atravesse a
assegurar, bastante timidamente, além disso, ‘que se pareciam muito àquilo’, os
convidados estiveram de acordo, para não a felicitar por seu trabalho. As
fatias de atum, assadas na grelha, foram o único manjar aceito sem demasiados
protestos, porque, segundo a expressão terrível do médico, ‘estavam bem
cortadas’ e ‘se o paladar não ficava totalmente satisfeito, a vista, pelo
menos, se enganava’. Porém, o aleijado de lentes obteve um verdadeiro êxito ao
declarar ‘que aquilo não se poderia comparar com o pedreiro’.
“Ao
ouvir isto, senti que todo o sangue me fugia do coração — murmurou surdamente o
capitão Michel —, porque recordei que, no ano anterior, por aquela mesma época,
um pedreiro tinha morrido ao cair dum telhado, no bairro do Arsenal, e que seu
corpo fora encontrado com um braço de menos!
Então...
Oh! Então não tive mais remédio senão pensar no papel que devia ter
representado minha bela vizinha naquele drama culinário horrível... Voltei os
olhos para a Sra. Beauvisage e observei que acabava de calçar luvas, umas luvas
que lhe cobriam todo o braço... E que, além disso, tinha colocado
apressadamente sobre os ombros uma capa, que os ocultava por completo. Meu
vizinho da direita, que era o médico, e o único entre todos aqueles homens-troncos
que possuía mãos, tinha calçado também suas luvas.
Em
vez de procurar explicar-me, embora sem o conseguir, a razão desta nova
extravagância, teria feito melhor seguindo o conselho de não permanecer muito
tempo naquela casa, conselho que me tinha dado a Sra. Beauvisage ao começar o
maldito sarau, conselho que, além disso, não se repetiu...
Após
me ter demonstrado, na primeira parte daquele estranho ágape, um interesse em
que advertia (não sabia por quê) um pouco de compaixão, a Sra. Beauvisage
evitava olhar-me, e tomava parte, o que muito me entristeceu, na conversa mais
espantosa que eu podia ter ouvido em minha vida. Aqueles homenzinhos,
exaltadíssimos, fazendo ressoar seus ganchos e batendo seus copos uns contra os
outros, dirigiam uns aos outros amargas recriminações, ou se felicitavam
vivamente pelo ‘prazer que tinham’. Horror! Lorde Wilmore, que tão corretamente
se conduzira até então, esteve a ponto de ir às vias de fato com o aleijado de
monóculo, porque este o havia achado intrometido, e a dona da casa teve
necessidade de acalmá-los, replicando ao de monóculo — que na época do
naufrágio devia ser um adolescente — que ‘tampouco era muito agradável
tropeçar com uma rês demasiado jovem’.”
—
Ora! — não pôde deixar de advertir Dorat, o velho lobo do mar. — Ora! Isso
também tem graça!
Pensei
que o capitão ia atirar-se em cima dele, tanto mais quanto os outros três
pareciam sentir uma alegria completamente íntima, e deixavam ouvir uns
imperceptíveis cacarejos demasiado estranhos.
A
custo pôde dominar-se o excelente capitão.
Depois
de soprar como uma foca, disse ao imprudente Dorat:
—
Meu caro, ainda tens teus dois braços, e não te desejo, para que aches horrível
este relato, que percas um deles, como eu perdi o meu naquela noite...
“Os aleijados tinham bebido muito. Alguns se haviam encarapitado na mesa, e me rodeavam fitando meus braços de tal maneira que, sobressaltado, acabei por escondê-los da melhor forma possível, metendo as mãos nos bolsos...
Então
compreendi — pensamento aterrador — por que os que ainda tinham braços e mãos
não os mostravam: compreendi-o, pela ferocidade repentina de certos olhares...
E naquele mesmo instante, como para minha desgraça, sentisse necessidade de
assoar-me, e fizesse um movimento instintivo que descobriu, sob os punhos de
minha camisa, a brancura de minha pele, três ganchos terríveis caíram
imediatamente sobre meu pulso, cravando-se-me na carne. Soltei um grito
lancinante...”
—
Basta, capitão, basta! – exclamei, interrompendo o relato do capitão Michel. —
O senhor tinha razão: vou indo... Não posso continuar escutando...
—
Fique — ordenou o capitão. — Fique,
porque vou terminar esta história horripilante que fez rir a quatro imbecis... Quando
se tem sangue de grego nas veias — declarou, com acento de indizível desprezo,
voltando-se para os quatro lobos do mar, que se asfixiavam, com os esforços que
faziam para conter o riso —, quando se tem sangue de grego nas veias, é para
toda a vida... E aquele que nasceu em Marselha está condenado a não acreditar
em coisa alguma! De modo que falo para você, unicamente para você, e não tenha
medo, contarei por alto os detalhes mais horrorosos, porque sei o que pode
suportar o coração de um cavalheiro. A cena de meu martírio desenrolou-se tão rapidamente
que só me recordo que todos soltavam gritos selvagens, que alguns protestavam,
e outros me atacavam, enquanto a Sra. Beauvisage abandonava seu assento,
gemendo:
“—Por
favor, não lhe causem dano!
Quis
levantar-me de um salto, mas estava rodeado de homens enlouquecidos, que me
fizeram vacilar e cair... E senti que seus horríveis ganchos se cravavam em
minha carne, que ficou presa neles, como pedaços de vaca num açougue... Sim,
sim, suprimirei detalhes! Assim prometi! Tanto mais quanto não poderia dá-los,
porque não assisti à operação... O médico aplicou-me à boca, em forma de
mordaça, um algodão cloroformizado. Quando voltei a mim, estava na cozinha e
com um braço de menos. Todos os aleijados estavam ali, a meu redor. Já não
brigavam; parecia reinar entre eles a mais comovente harmonia, em meio do
aturdimento causado por uma espécie de embriaguez que lhes fazia dar cabeçadas,
como crianças que precisam ir deitar-se depois de ter tomado a sopa; e não pude
duvidar — ah! — de que começavam a digerir-me... Eu estava estendido no
ladrilho da cozinha, amarrado, e sem poder fazer qualquer movimento; mas
ouvia-os, via-os... Meu antigo camarada, Gérard, chorava de alegria,
dizendo-me:
—
Ah, caro Michel, jamais teria pensado que consentirias em fazer-nos semelhante
favor!...
A
Sra. Beauvisage não estava ali... Mas também devia ter participado do festim,
porque ouvi um deles perguntar a Gérard:
—Que
tal pareceu a Madge a sua parte?...
—Muito
boa, muito boa! Ah, já acabei, já
acabei!
Aqueles
horríveis monstros compreenderam, sem dúvida, uma vez satisfeita a paixão, a
gravidade do delito... Fugiram e a Sra. Beauvisage com eles, como é natural...
Ao desaparecer, deixaram as portas abertas. Mas ninguém veio pôr-me em
liberdade antes de passados quatro dias, quando já estava semimorto de fome...
Porque
os miseráveis não me tinham deixado senão os ossos!”
Fonte:
Yampu. Fonte original: “Os mais belos contos terroríficos dos mais famosos
autores”, 1945.
Fizeram-se
adaptações textuais.
Ilustração
da portada: PS/ChatGPT.


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