UMA PÁGINA DA BÍBLIA - Conto Clássico de Mistério - Auguste Dorchain
UMA PÁGINA DA
BÍBLIA
Auguste Dorchain
(1857 – 1930)
Tradução de
autor anônimo do séc. XX
—
Sim, senhor! — disse o magistrado. —
Você acaba de dar uma eloquente prova de sagacidade e de talento da maneira
pela qual descobriu o autor do delito. E, já que falamos nisso, podia citar-lhe
uma história ainda mais curiosa do que a que acaba de contar-me, e onde
desempenhei importantíssimo papel. Eu também descobri um criminoso em condições
tão especiais que o caso tem, no fundo, algo de milagroso.
—Esse preâmbulo excita minha curiosidade e
espero que me conte como se passou essa história.
—Com
muito gosto. Mas levantemos da mesa e passemos à biblioteca, onde tenho livros
interessantíssimos, um dos quais se refere ao assunto que lhe vou narrar.
Os
dois amigos passaram à biblioteca e o magistrado tirou da estante dois volumes
de aspecto simples e moderno.
—
Esta é uma das joias do meu tesouro! — exclamou.
—
Um tesouro... Essa bíblia do século passado!?
—Sim,
senhor. Em primeiro lugar, essa obra foi oferecida ao meu pai pelo grande
Frederico, que se dignou adorná-la com comentários nas margens e que bem podiam
ser atribuídos a Voltaire. Além disso, um dos volumes está marcado com este
pedacinho de papel amarelado, insignificante à primeira vista, mas que, por
nada no mundo, eu mudaria de lugar, porque me proporcionou a chave do
misterioso acontecimento de que, há pouco, lhe falei.
—Mas que venha essa história — disse o amigo.
—Casei-me
na primavera de 179... —começou o magistrado — e minha falecida esposa trouxe como dote esta
casa onde passamos a residir, por distar igualmente da capital e da residência
do grão-duque. Você viu o nosso jardim à francesa; não quis mostrar-lhe o horto
porque é bem provável, juro eu, que o amigo até hoje não tenha visto uma coisa
encantada, que, segundo dizem, está sempre cheia de duendes e de almas penadas.
“Ao
chegarmos aqui, encontramos o jardineiro e sua mulher que viviam na tal casa.
Ele chamava-se Josias e era um antigo couraceiro da Pomerânia que esteve a
serviço de meu cunhado e que conservamos ao nosso.
“Segundo
informações que obtive, procurava sempre sair do estado de dependência em que
se achava; porém, suas empresas falhavam sempre, coisa de que constantemente se
lamentava.
“—
Não sei como — costumava dizer —, mas, cedo ou tarde, serei rico.
“Josias
casara-se aos quarenta e tantos anos com uma mulher bem mais nova, que tremia
diante do marido como um passarinho fascinado por serpente.
“Um
sábado, dia em que Josias limpava o soalho da biblioteca, entrei-o
inesperadamente e surpreendi-o lendo um dos volumes da Bíblia. Ao ruído que
fiz, fechou precipitadamente o livro; mas, como, sem dúvida, lhe interessava a
passagem que lia, marcou a página com esse pedaço de papel que trazia este
apontamento: ‘Conta da despesa da primeira semana do mês de julho de 179...’
“Nada
lhe disse e Josias colocou o volume no seu lugar.
“Aqui
começa o mistério. No dia seguinte, que era domingo — preste bem atenção nos
detalhes —, a cozinheira foi à casinha do horto procurar a mulher de Josias e
encontrou a desgraçada rígida em seu leito, como morta.
“—É
um ataque de letargia — disse-lhe o jardineiro.
“—Quer
que vá chamar um médico?
“—Não,
não; não tenho dinheiro, e creio que não demorará a recuperar os sentidos.
“Dois
dias depois, começaram a manifestar-se os sintomas de decomposição, e o doutor,
chamado a toda a pressa, confirmou a morte da jardineira.
“Será
conveniente dizer que, um mês antes, a mulher de Josias herdou uma importante
soma e que imediatamente fez testamento em favor de seu marido.
“E
o amigo naturalmente vai perguntar-me que relação existe entre esses fatos e a
página da Bíblia que está marcada. Pois daqui a pouco verá. Depois da morte de
sua mulher, Josias, possuidor de mil e tantos táleres[1],
despediu-se de nós e foi estabelecer-se por conta própria no distrito de F...
“Soubemos mais tarde que a fortuna continuava
sorrindo-lhe e que fora nomeado burgomestre de sua aldeia.
“O
cemitério onde jaziam os restos de sua esposa estava prestes a desaparecer por
causa dos novos edifícios que deviam ser construídos.
“Iniciaram
as obras e ficou determinado que uma nova estrada devia passar por ele.
“Por
esse motivo, foram desenterrados vários esqueletos.
“Uma
tarde, um operário começou a examinar uma caveira que jazia por terra, e notou
que aquele resto humano tinha um diminuto buraco na região occipital, como
produzido por agulha ou outro qualquer instrumento idêntico, e que havia
atravessado todo o cérebro.
“—
O assassino devia ter sido muito hábil! — exclamou o operário. — Morte instantânea,
sem hemorragia e, graças ao cabelo, nenhum traço aparente.
“Deu
parte à justiça e tive que intervir no assunto.
“Examinando
as sepulturas, encontraram três inscrições, numa das quais lia-se: ‘Aqui jaz
Cornélia Josias’.
“Suspeitei
do jardineiro; porém, precisava de provas para consolidar minha opinião.
“Corri
a esta biblioteca e abri um dos volumes da Bíblia.
“Ali
estava a prova do crime.
“No
dia seguinte, os emissários da autoridade apresentaram-se em casa de Josias,
encontrando-o à mesa, jantando sozinho.
“O
chefe de polícia pôs-lhe a mão sobre a cabeça, dizendo-lhe:
“—Josias,
foste o assassino de tua mulher!
“O
miserável começou a tremer, cerrou os dentes e exclamou:
“—Sim
é verdade! Deus vingou-se! O livro!... Estou sufocando!
“E
caiu morto, vítima de um ataque de apoplexia fulminante.
“E
agora, meu amigo, abra a Bíblia no mesmo lugar onde abri ao voltar do
cemitério, na página que Josias marcou, justamente na véspera do crime: livro
dos Juízes, capitulo IV, versículo 21. Leia.”
O amigo leu a passagem que se refere a Jael,
esposa de Héber que, depois de ter plantado um prego com um martelo na cabeça
de Sisera, matou-o, passando este do sono à morte.[2]
Fonte:”
Vamos Lêr”/RJ, edição de 19 de maio de 1938.
Fizeram-se
brevíssimas adaptações textuais.
Notas:
[1]
Antiga
moeda europeia de prata.
[2]
Eis a
passagem, na versão de Almeida: “Então Jael, mulher de Héber, tomou uma estaca
da tenda, e lançou mão de um martelo, e chegou-se mansamente a ele, e lhe
cravou a estaca na fonte, de sorte que penetrou na terra, estando ele, porém,
num profundo sono, e já muito cansado; e assim morreu.”

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