VENDEDORES DE CADÁVERES - Narrativa Verídica de Horror - Autor romeno desconhecido do séc. XX

VENDEDORES DE CADÁVERES

Autor romeno desconhecido do séc. XX

Tradução de autor anônimo do séc. XX

 

Em Londres, no caminho que leva a Suffolk Lane, entre as pontes de Southward e Soho, em Uper Thames Streel pode-se ainda hoje observar tuna pequena casa com uma tabuleta pregada no muro. O letreiro está quase apagado pela ação constante da ferrugem ou da chuva:

“Esta casa foi construída em 1557, como posto de vigilância, com o fim de evitar as visitas dos ladrões de cadáveres ao cemitério de Al-Halowstheless”.

 Uma pequena brecha no muro abrigara outrora o sino de alarme. Naquela época, os ladrões de cadáveres, apelidados “ressuscitadores”, contavam-se às centenas, nos bairros marginais de Londres. Até as mulheres se associavam sem medo a esse exercício macabro. Elas próprias despiam os cadáveres carregando-lhes as roupas e os vários objetos encontrados na cova, e os homens vendiam os corpos aos cirurgiões. Esse ofício foi praticado durante muitos e muitos anos por indivíduos da mais baixa camada social. E. apesar de todos os esforços empregados pelas autoridades para extirpar os tais “ressuscitadores”, eis que não há muito tempo, em Londres mesmo, descobriu-se um outro caso da mesma espécie. Partindo para uma longa viagem a Escócia, o Sr. Mathis e senhora foram obrigados a parar naquela grande cidade. A senhora Mathis, que se encontrava cansada, quis passar um ou dois dias em Flower Street, no bairro de Bloomsburg. Encontrando um modesto hotel, lá se instalaram marido e mulher.

Às duas da madrugada, aproximadamente, um barulho seguido de gemidos veio despertar o casal Mathis que, petrificado, a respiração presa, escutou tudo aquilo. O sr. Mathis resolveu então descer, a fim de pedir esclarecimentos ao porteiro. Madame acompanhou-o, um pouco à distância. O porteiro, um tal Holmes, não estava dormindo. Conversava em voz baixa com a esposa e um seu amigo chamado Wiliam.

— Há tanta algazarra lá em cima — queixou-se o Sr. Mathis — que não podemos dormir...

— Não há nada, não há nada — respondeu Holmes, arrogantemente. — Podem ir-se deitar.

E quase sem terminar o que estava dizendo, desapareceu pela porta fios fundos, seguido de perto pelas duas outras pessoas que se encontravam com ele no quarto.

Este fato intrigou o sr. Mathis que, tomando um pouco mais de coragem, penetrou no compartimento dos fundos. O compartimento estava mal iluminado. Entretanto, o hóspede pôde ver sobre uma mesa uma porção de garrafas vazias e copos, alguns dos quais quebrados.

 

O CADAVER DE UMA MULHER NUA

 

O sr. Mathis acabara de subir as escadas para o seu quarto, quando sua esposa, que o tinha alcançado, viu no chão, perto de um monte de palha, algumas manchas suspeitas. Com o pé, o marido afastou um pouco a palha, e viram (ele e a senhora) o corpo despido de uma mulher. Estava rígido, quente ainda, mas sem vida.

 — É preciso avisar a polícia...  — murmurou o sr. Mathis.

E, com a esposa, abandonou o hotel. Ficaram por alguns instantes parados, indecisos. Não conheciam Londres...

Para que lado se dirigir?

Naquele momento, ouviu-se o rodar de uma carroça, na curva da rua. O Sr. Mathis e a mulher encolheram-se no escuro. Três vultos passaram por eles, puxando a carroça. Madame reconheceu um dos vultos. Era Holmes. Não pôde conter-se gritou. O grito assustou os três vultos, que fugiram deixando o veículo no meio da rua, virado com todo o carregamento. Aproximando-se, Mathis e a sua mulher puderam distinguir o cadáver...

 

 

 

 

O AMANTE DO CADÁVER

 

E partiram mais que depressa. As ruas estavam desertas, escuras, e. finalmente, deram com uma delegacia de polícia, onde explicaram os pavorosos fatos passados durante sua curta permanência naquele hotel. Dois agentes foram acompanha-los até lá, a fim de que os referidos fatos fossem averiguados. Acontece, porém, que os dois hospedes não se lembravam do caminho pelo qual tinham chegado à delegacia, nem muito menos do nome do hotel e da rua.

Finalmente, após inúmeras voltas, o grupo parou numa esquina, defronte de uma carroça. Um estranho espetáculo os aguardava ali: chorando amargamente, um homem apertava nos braços o corpo inerte duma mulher. Os agentes fizeram-lhe uma observação. Não era decente aquilo. Mas viram logo que o pobre homem estava tungado. Apesar disso, ele conseguiu declarar a sua Identidade: James Sainsbury, manufatureiro no bairro de Tottenham. Sua mulher tinha morrido e fora enterrada na manhã daquele mesmo dia. E ele, no paroxismo da dor, encharcara-se de álcool!

— Passando por aqui — gaguejou ele —, encontrei o corpo de minha mulher... O enigma complicava-se mais, tomando proporções fantásticas. A polícia mandou agentes à procura de amigos de Sainsbury. Os amigos apressaram-se em vir e reconheceram que aquele cadáver era realmente de Jane Sainsbury.

 

UM TÚMULO PROFANADO — UM ATAÚDE VAZIO

 

Dirigiram-se todos ao cemitério, onde o túmulo de Jane foi facilmente identificado. Via-se de longe que tinha sido profanado. Retirado o ataúde, constatou-se que se achava vazio. Desta vez, todas as dúvidas desapareceram. A pesquisa policial trouxe a público a seguinte revelação: além de seu ofício de porteiro, Holmes ocupava-se da exumação de cadáveres, e nisto era auxiliado pelo seu amigo Wiliam.

Holmes foi preso e condenado a seis meses de cárcere. Teve que percorrer as ruas de Londres com as costas nuas para ser vergastado.

Será que os Mathis foram vítimas de alguma alucinação? E os gritos que ouviram? E o corpo encontrado? Tudo, tudo é esquecido na voragem da vida...

 

UM ASSASSÍNIO

 

 Holmes foi posto em liberdade. Esthera, a sua mulher, foi ao seu encontro. Havia um segredo qualquer que os ligava. Não podiam afastar-se um do outro e eram hostis um ao outro. Alugaram um quarto numa casa de cômodos, em Greenwich, e os vizinhos foram então testemunhas do que ali se passava. Eram cenas brutais entre os dois, diariamente.

A mulher tinha um passado cheio de manchas. Casara-se a primeira vez com um barqueiro, a quem abandonou quando do nascimento do terceiro filhinho. Casara-se mais uma vez, matando o marido a facadas. Continuando assim, acabaria dando fim a Holmes. Uma noite, a vizinha, que morava no porão, debaixo do seu quarto, ouviu gritos e uma voz feminina: “Eu te mato!”

Toda a casa alvoroçou-se. Os vizinhos subiram para ver o que era. Alguns mesmo chegaram a bater à porta, mas já as coisas estavam calmas... E Esthera abriu a porta.

— Holmes suicidou-se cravando a faca no coração... — disse ela. — Olhe aí o cadáver!

E, imperturbável, sentou-se à beira da cama, acendendo o cachimbo. Foi presa e condenada à morte. Durante o processo, não pronunciou sequer uma palavra. Mas ao ouvir a sentença, enraiveceu-se e fez esta horrível declaração.

—Não! Os Mathis não tiveram alucinações. Ouviram gritos e estertores na noite trágica de Flower Street. Holmes, Wiliam e eu tínhamos desenterrado o cadáver de Jane Sainsbury, e trouxemo-lo para o quarto do porteiro com a intenção de vende-lo naquela mesma noite a um cirurgião. Eu própria despi a morta. Mas quando o corpo ficou inteiramente despido, a pobre mulher acordou inesperadamente. Era natural que fizéssemos aquele barulho. Estávamos todos ébrios e começamos a brigar. Enquanto, isso a mulher nos implorava que não a matássemos. Só então vi que não se tratava de milagre e que Jane Sainsbury tinha sido enterrada viva. Precipitaram-se sobre ela, estrangulando-a... Desde então, Holmes e eu vivíamos possuídos de um grande remorso... E foi para livrar-me daquela obsessão que o matei!

A desgraçada chorava e pedia que a perdoassem. Mas, inútil... Pouco depois dirigia-se à forca, afrontando, com toda a arrogância, os olhares da multidão.

 

Fonte: PAN/RJ, edição de 30 de maio de 1937.

 

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