A CORDA - Conto Clássico Cruel - Charles Baudelaire
A CORDA
Charles
Baudelaire
(1821 – 1867)
Tradução de
autor anônimo do séc. XX
A
Édouard Manet.
—
As ilusões — dizia-me um amigo — são talvez tão inumeráveis quanto as relações
dos homens entre si, ou dos homens com as coisas. E quando a ilusão desaparece,
isto é, quando vemos o ser ou o fato tal como ele existe fora de nós,
experimentamos um estranho sentimento, misto de saudade do fantasma
desaparecido e de agradável surpresa ante a novidade, ante o fato real. Se
existe um fenômeno evidente, trivial, sempre semelhante, e sobre cuja natureza
seja impossível a gente enganar-se, é o amor materno. Mãe sem amor materno é
coisa tão difícil de imaginar, como luz sem calor; não é, portanto,
inteiramente legítimo atribuir ao amor materno todas as ações e as palavras de
uma mãe, relativas a seu filho?
Entretanto,
escutem esta pequena história, em que fui singularmente mistificado pela ilusão
mais natural.
Minha
profissão de pintor leva-me a fitar atentamente os rostos, as fisionomias que
se apresentam no meu caminho, e você sabe quanta alegria nos dá essa faculdade
que representa a vida, aos nossos olhos, mais viva e mais significativa que aos
olhos dos outros homens. No bairro distante em que moro, e onde vastos espaços
cobertos de relva ainda separam as construções, observei muitas vezes uma
criança cuja fisionomia ardente e vivaz, mais que todas as outras, me seduziu
desde o primeiro instante. Ele posou para mim mais de uma vez, e eu o transformei
ora em pequeno boêmio, ora em anjo, ora em Amor mitológico.
Fi-lo
trazer o violino do vagabundo, a Coroa de Espinhos e os Cravos da Paixão, e o
Facho de Eros. Afinal, tão vivamente encantado me senti como o ar estranho
desse garoto, que um dia pedi a seus pais, gente pobre, que o deixassem ficar
em minha companhia, comprometendo-me a vesti-lo bem, dar-lhe algum dinheiro e
não lhe impor outra tarefa senão a de limpar-me os pincéis e fazer-me as
compras. O menino, bem lavado, tornou-se encantador, e a vida que levava em
minha casa parecia-lhe um paraíso, comparada à que teria suportado no casebre
paterna. Apenas, devo dizer que o pequeno me espantou algumas vezes com umas
crises singulares de tristeza precoce, e logo manifestou um gosto imoderado
pelo açúcar e os licores; a tal ponto que um dia, tendo eu verificado que,
apesar das minhas numerosas advertências, ele ainda havia cometido um novo
furto desse gênero, ameacei-o de fazê-lo voltar para casa dos pais. Depois saí,
e os negócios me retiveram por muito tempo fora de casa.
Qual
não foi o meu horror e espanto quando, ao entrar em casa, o primeiro objeto que
me feriu os olhos foi o meu rapazinho, o gracioso companheiro de minha vida,
pendurado na almofada deste armário! Seus pés quase tocavam o soalho; ao lado dele
via-se, virada, uma cadeira, que ele, sem dúvida, empurrara com o pé; tinha a
cabeça pendida convulsivamente sobre um dos ombros; o rosto, intumescido, e os
olhos, desmedidamente abertos, com uma fixidez medonha, deram-me, ao primeiro
instante, a ilusão da vida.
Despendurá-lo
não era tarefa tão fácil como você talvez imagine. Ele já estava muito rígido,
e eu sentia inexplicável repugnância à ideia de fazê-lo subitamente cair ao
solo. Era preciso sustentar-lhe todo o corpo com um braço e, com a mão do outro
braço, cortar a corda. Mas, isso não bastava; o pequeno servira-se de um cordel
muito fino, que lhe entrara profundamente nas carnes, e fazia-se necessário
procurar a corda, com finas tesouras, entre as duas saliências da inchação,
para lhe desembaraçar o pescoço.
Esqueci-me
de lhe dizer que eu, ansiosamente, pedira socorro: mas, todos os meus vizinhos
se haviam recusado a prestar-me auxílio, fiéis aos costumes do homem
civilizado, que foge sempre, não sei porque, de meter-se em casos de enforcamento.
Afinal veio um médico, e declarou que o garoto morrera já muitas horas antes.
Quando, mais tarde, tivemos de o despir, para o enterro, a rigidez cadavérica
era tal que, desanimados de conseguir dobrar-lhe os membros, fomos obrigados a
rasgar e cortar as vestes para poder tirá-las.
O
comissário a quem tive, naturalmente, de comunicar o fato, olhou-me de esguelha
c disse-me: “Olhe que essa história está mal contada”, movido, sem dúvida, por
um desejo inveterado e um hábito de ofício de fazer medo, a todo transe, aos
inocentes como aos culpados.
Faltava-me
realizar uma tarefa suprema; só de pensar nela eu sentia uma terrível angústia:
devia avisar os pais. Meus pés se
recusavam a levar-me. Enfim, criei coragem. Mas, com grande espanto de minha
parte, a mãe ficou impassível, nem uma lágrima lhe pingou do canto do olho.
Atribuí essa singularidade ao próprio horror que ela devia experimentar, e lembrei-me
da conhecida sentença: “As dores mais terríveis são as dores mudas!”. O pai, esse,
limitou-se a dizer, com ar meio atoleimado, meio distraído:
— Afinal de contas, talvez seja melhor assim: ele,
de qualquer modo, acabaria mal!
Entretanto,
o corpo achava-se estendido no meu divã e, assistido por uma criada, cuidava eu
dos últimos preparativos, quando a mãe entrou no meu estúdio. Queria ver o
cadáver do filho. Não me era possível, na verdade, impedi-la de se embriagar
com a sua desgraça, recusar-lhe essa suprema e sombria consolação. Depois, ela
me pediu que lhe mostrasse o lugar onde o seu filhinho se enforcara.
—Oh,
não, senhora! — respondi-lhe. — Isso lhe
faria mal.
E
como involuntariamente os meus olhos se voltassem para o fúnebre armário,
notei, com um desgosto mesclado de horror e cólera, que o prego ficara preso à
parede, com uma longa porta de corda que se arrastava ainda. Precipitei-me
vivamente para arrancar esses últimos vestígios da desgraça, e ia atirá-los
fora pela janela aberta, quando a pobre mulher me segurou pelo braço e disse-me
com uma voz irresistível:
—Oh,
senhor, deixe isto para mim! Eu lhe peço! Eu lhe suplico!
Certamente — pensei —, o desespero a tinha
enlouquecido a tal ponto que ela agora se enchia de ternura pelo que servira de
instrumento à morte do filho e queria guardá-lo como horrível e cara
relíquia. E apoderou-se do prego e do
cordel.
Enfim!
Enfim, tudo terminara. Não me restava senão voltar ao trabalho mais intensamente
ainda que de costume, para afugentar pouco a pouco esse pequeno cadáver, que
vivia continuamente no recesso do meu cérebro, e cujo fantasma me importunava
com os seus grandes olhos fixos. No dia seguinte, porém, recebi um maço de
cartas: umas, dos locatários da minha casa; outras, das casas vizinhas; uma do
primeiro andar; outra do segundo, outra do terceiro, e assim por diante; umas
em estilo meio jocoso, como que procurando disfarçar sob um aparente gracejo e
sinceridade do pedido; outras, grosseiramente francas e sem ortografia; todas,
porém, tendentes ao mesmo fim: obter de mim um pedaço da corda funesta e beatífica.
Entre os signatários havia, devo dizê-lo, mais mulheres do que homens; mas,
acredite, nenhum deles pertencia à classe ínfima e vulgar.
Guardei
aquelas cartas.
E,
então, de repente, fez-se um clarão no meu cérebro, e compreendi por que a mãe
tinha tanto empenho em me arrancar a corda e por que meio procurava consolar-se[1].
Fonte:
“Policial em Revista”/RJ, edição de dezembro de 1944.
Fizeram-se
brevíssimas adaptações textuais.
Nota:
[1] Segundo a
crendice popular, a corda de um enforcado possuiria mágicos poderes, proporcionando
a atração de sorte em jogos e loterias; serviria, ademais, de amuleto para curar
doença, afastar o azar e repelir feitiços.

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