AGNUS DEI - Conto de Horror - Danilo Seraphim
AGNUS DEI
Danilo Seraphim
Um Chevrolet Opala 2.5 Especial azul roncando forte cruzava
a Avenida XV de março em Caveiras ao Norte do Paraná.
O carro de
lataria amassada, com bancos rasgados e de aparência horrível saíra da Colina
dos Monges em direção à cidade.
Era mais uma
noite sem nada de novo na rotina de pequena “Província”.
Alguns jovens
estudantes, após as aulas ou até mesmo dando uma escapada no meio delas,
observavam atentamente a movimentação, sentados nas cadeiras das pequenas mesas
do trailer de lanches “Monaum”.
Ali, era o
ponto de encontro e era pra lá que alguns deles iam à época, para conversar um
pouco, sempre na esperança de pintar algum “lance” de paquera ou namoro.
Naquela noite,
o opala azul, chamou a atenção, porque ia e voltava constantemente rumo a uma
estrada de chão batido que sumia em direção à Colina dos Monges.
Eles
estranharam um pouco, trocaram olhares, mas voltaram a falar dos assuntos que
rolavam na época.
Zélia Barros
era uma moça bonita, filha do fazendeiro Pedro Joé de Barros e os meninos da
escola colegial tinham uma queda pela esnobe estudante, que não estava nem aí e
“seguia o fluxo”, com a sua turma, que mais era uma “panelinha”.
Apesar disso,
Zélia sempre se juntava aos outros amigos da escola, para se reunirem no trailer
de lanches e “jogar conversa fora”.
Mas naquela
noite de sexta-feira, ela não apareceu. Nem na aula e muito menos no trailer
de lanches “Monaum”.
Seus pais
juravam que ela havia saído para ir à escola. Levara o material e iria passar
na casa de Juliane.
Juliane era
uma das poucas amigas que não desgrudava de Zélia. Também pudera, essa outra
bela estudante era filha de um empresário poderoso, dono de uma rede de lojas
que existia no Brasil inteiro.
E por fim, Brígida,
essa era a mais linda de todas, mas era ainda mais esnobe e não queria nada com
os caras da época. Pra tirar um “oi” da belíssima estudante, era uma tarefa
hercúlea e com relação aos garotos isso era quase impossível.
Entre os
rapazes da época, Alex, Rogério e Breno sempre estavam juntos.
Breno era
apaixonada por Brígida, mas como era um pobretão e sem qualquer tipo de coisa
que a atraísse, ela o esnobava e humilhava na frente de todos, até que um dia
ele foi embora, jurando a todos que se ela não fosse dele, não seria de mais
ninguém.
O Rogério e o
Alex ficavam na deles, sabiam que aquelas meninas não eram para eles e então se
contentavam com os namoricos e paqueras com as outras garotas.
Naquela
sexta-feira, Zélia não passou na casa de Juliane, e Brígida também afirmara não
ter visto a amiga naquele dia.
Segunda-feira,
a “Folha da Cidade” noticiava um crime com requintes de crueldade:
“Jovem de 17
anos, filha de fazendeiro é morta com diversas perfurações pelo corpo e a
língua totalmente decepada”. O assassino, frívolo e calculista, “colou” a
língua da jovem ao seu órgão genital. Partes do corpo, como dedos das mãos e
dos pés também foram cortados. O fato é horrendo, inédito e assombroso. A
população da nossa pequena Caveiras está em choque”.
Foram tempos
difíceis em Caveiras, os pais de Zélia Barros perderam a razão de viver.
O fazendeiro
colocou todas as suas forças e gastou um bom dinheiro pela busca do assassino e
a polícia não descansava, nem de dia e nem de noite.
Mas, nada
adiantou, o assassino jamais fora localizado e o caso acabou esfriando um
pouco.
Um ano
depois, Brígida Macedo, a lindíssima estudante amiga de Zélia e filha do médico
Orlando Macedo, tristemente, também virou manchete no jornal da cidade e nos
periódicos da região, por ter o mesmo infortúnio de Zélia.
O assassino
demoníaco voltara a atacar e o corpo da bela moça fora encontrado (após seu
sumiço na noite anterior, também no caminho da escola) próximo à estrada de
chão batido que levava até à Colina dos Monges.
A estudante
de 18 anos estava ansiosa por sua formatura naquele último ano do curso, mas
suas alegrias, emoções e expectativas foram interrompidas pelo misterioso
assassino, cruel, frio e desumano.
Do mesmo
modo, a exemplo da execução de Zélia, o corpo de Brígida estava dilacerado e
sua língua amputada, “colada” em uma de suas axilas, sendo que parte dos dedos
dos pés e das mãos também foram amputados.
Era algo
bizarro, chocante e pavoroso.
Rogério,
amigo de infância e da escola, fora o primeiro a encontrar o corpo de Brígida,
ele presenciou os horrores que foram feitos no corpo da menina.
Agora, o fato
era uma questão de honra para as autoridades locais e a polícia da capital e
diversos comandos foram chamados em Caveiras.
Invadiram a
Colina do Monge, onde suspeitavam que o assassino se escondesse e despovoaram o
local, desmatando todos os arredores, mas nem sinal de um possível “serial
killer”, nem uma marca ou qualquer tipo de pista que pudesse levar ao
misterioso matador.
O padre Asir,
de descendência síria e fala bastante enrolada, frequentava a residência dos
pais de Zélia, morta há um ano, e agora consolava os pais de Brígida e todos os
domingos na missa, ele pedia que as autoridades tomassem providências imediatas
para localizarem o sanguinolento homem, que segundo o padre era a própria
reencarnação do demônio.
O delegado
João Eduardo traçou uma estratégia e jurou que iria até o fim na captura do
misterioso assassino. Ele fez buscas na cidade, na região e no Estado, mas nada
levava ao cruel e insano matador.
O tempo
passou novamente e mais uma vez os fatos esfriaram, apesar de não ficarem
esquecidos.
Juliane,
amiga de Zélia e Brígida, mostrava-se arrasada, apesar de, por diversas vezes,
travar um tipo de “disputa” com as duas amigas, para ver quem era “a mais
poderosa”, ela dizia a todos que as duas eram suas melhores amigas.
Mas, naquela
mesma noite do crime, Alex jurava ter visto Juliane, na estrada do monge em um
carro azul, descendo completamente embriagada, emitindo risos estridentes e
agudos com uma garrafa de “White Horse” nas mãos.
O delegado
João Eduardo até chegara a intimar Juliane para prestar depoimento, mas, no dia
em que ela chegou até a delegacia local, ela fora dispensada.
O delegado
teria recebido uma ligação do poderoso empresário pai de Juliane, que inclusive
falava em transferência do doutor, para bem longe.
Exatamente um
ano, da morte de Brígida, se completara e mais uma vez o impassível assassino
voltou a atacar.
Dessa vez os
corpos de Sabrina e Hellen, duas meninas da escola, mas que não eram da mesma
turma de Zélia, Brígida e Juliane, foram encontrados.
Novamente na
estrada dos monges, novamente com as línguas decepadas e “coladas” ao corpo e
partes das mãos e dos pés cortados.
A língua de
Sabrina estava “pregada” em suas nádegas e a língua de Hellen enfiada em uma de
suas orelhas.
Era algo
bizarro, sádico, perverso, excêntrico e assustador.
Contra todos
e contra ninguém, o delegado João Eduardo, agora, mesmo custando sua
transferência, resolvera ouvir todos os moradores da Cidade de Caveiras, bom,
todos aqueles que o delegado achava que deveria ouvir.
Nem mesmo o
padre Asir, que era um homem bondoso e cristão, só sabia falar de Deus e ajudar
o próximo, escapou. Para alguns, um certo absurdo, sujeitar até o pobre reverendo
a isso, era de fato uma certa humilhação, diziam alguns dos fiéis.
E o delegado João Eduardo teve então dois
indícios que não o deixaram dormir naquela noite:
Pedro Augusto
Sampaio, era o empresário famoso e pai de Juliane e havia uma contradição muito
grande em seu depoimento.
Como sua
empresa ficava na rodovia das indústrias, que era localizada atrás da Colina do
Monge, só que o caminho era pelo asfalto, então, naturalmente, todos os dias
ele deveria sair da cidade e pegar a rodovia (de asfalto) que dava acesso até
sua empresa e lá se achegar.
Mas não,
todos os dias (testemunhas informaram), o riquíssimo empresário (que gostava de
sua filha como se ela fosse um objeto de alto valor, que só precisava ser
protegido) cortava caminho pela estrada de chão batido na Colina dos Monges,
para chegar até a empresa.
Isso causara
certa estranheza no delegado João Eduardo, mas o empresário afirmava, apenas,
que cortava caminho em razão de seu tempo ser curto demais.
Outro fato,
chamou a atenção do “xerife” de Caveiras e o levou a minuciar as investigações:
Breno, o
rapaz apaixonado por Brígida, voltara em uma tarde de domingo e fora visto por
testemunhas dentro de um carro azul na noite anterior à morte da estudante.
Também havia
rumores de que, no dia da morte de Brígida, quando Juliane saíra do carro azul
com a garrafa de whisky nas mãos, o motorista do veículo era Breno.
Antes do dia
marcado para a oitiva de Breno e Juliane na delegacia de polícia de Caveiras, o
delegado João Eduardo pediu licença para tratamento de saúde e se fastara por
mais de seis meses, e nesse tempo, Caveiras não tinha mais um chefe de polícia.
O maníaco
voltou a fazer mais três vítimas, todas com as mesmas características: jovens,
entre dezessete e dezoito anos, moças bonitas e com padrões corporais
atraentes.
Os corpos
foram novamente encontrados na Colina do Monge e com as mesmas característica
das mortes anteriores, mas ninguém jamais conseguira localizar o misterioso serial
killer.
Todos
estranhavam aqueles fatos e se perguntavam: por que os corpos eram encontrados
na estrada de terra da Colina dos Monges, se não havia mais nenhuma residência
por lá?
Ou será que o
assassino matava suas vítimas em outro local e as deixava na estrada da Colina
do Monges apenas para despistar?
Era estranho,
pois a única coisa que existia na colina era uma igreja bem no alto da serra
onde, em alguns domingos passados o padre Asir rezara algumas missas.
Com a nova
equipe policial agora, novas investigações em outra linhagem se iniciaram.
Mas o tempo
passou e as conclusões das investigações não deram em nada. Mesmo com a ajuda de uma equipe
especializada de apoio da capital, nada foi encontrado.
Mais um
domingo daqueles e na estrada de chão da Colina dos Monges, uma camionete Ford
F100 voltava da cidade, quando avistou uma moça de vestes rasgadas e toda
ensanguentada.
Ela gritava
por socorro, mas, quando os dois homens se aproximaram, ela não falou mais nada,
a não ser baixar a cabeça e chorar baixinho. Eles perguntaram diversas vezes o
que teria ocorrido, mas ela não abria a boca.
Os dois
homens, então, colocaram a moça na cabine para levá-la até o hospital, mas foi
quando um dos integrantes lembrou que aquela moça era Juliane, a filha do rico
empresário, e que aquele sangue em seu corpo poderia se um indicativo de que,
se ela não era a assassina, poderia saber algo sobre isso.
Mas, ao
chegarem na delegacia, eles tiveram uma surpresa:
A língua de
Juliane estava cortada e quando ela abrira a boca, uma poça de sangue se formou
na sala da delegacia.
Ela disse
algo, pouco inteligível, mas deu para perceber que relatara ter conseguido
escapar do assassino.
Juliane
estava em estado de choque, fora levada para o hospital e já fazia três dias
que ela não falava com ninguém.
O jovem
Rogério, que teria sido a primeira pessoa a encontrar o corpo de Brígida, havia
encontrado um anel de ouro com uma cruz e uma gravura “agnus dei” enroscado
sobre as vestes da garota.
Ele não tinha,
até então, revelado nada a ninguém, mas silenciosamente e em segredo “investigava”
os fatos.
Ele, então,
levou o objeto reluzente até o delegado afastado, Dr. João Eduardo, que não
queria mais se envolver, mas Rogério insistiu e então o delegado ouviu seus
relatos.
Após ouvir
atentamente os relatos de Rogério, o delegado disse a ele que fosse até a
paróquia, a fim de perguntar ao padre Asir se poderia ajudar.
Rogerio
procurou pelo padre, mas Angelina, a criada que cuidava da paróquia, o informou
que o padre Asir estava limpando a igrejinha da Colina dos Monges onde voltaria
a rezar algumas missas, e que ela também em breve estaria indo para lá.
Rogério,
então, mais que depressa, imprimiu muita velocidade em sua bicicleta e chegou
até a igrejinha da Colina dos Monges.
A porta
estava encostada e ele empurrou. O padre Asir o recepcionou com todo carinho e
amor de sempre.
Abriu um
sorriso e antes que ele dissesse algo, Rogério olhou para a grossa corrente de
ouro que o padre trazia no pescoço e percebeu a inscrição no pingente grande:
“Agnus Dei”.
O menino exibiu
o anel e indagou ao padre se aquele objeto era dele e ele afirmou que sim, e
pegando “carinhosamente” nas mãos do menino ele disse:
“Obrigado,
meu filho, eu perdi esse objeto faz tanto tempo, acho que alguém deve ter
furtado de mim. Obrigado, Rogério, venha, vamos até aos fundos, quero lhe
mostrar algo”.
Rogerio saiu
correndo, montou em sua bicicleta e voltou em disparada para a cidade de
Caveiras, com o coração batendo a mil.
O delegado
João Eduardo voltou até a igrejinha da Colina do Monge e, após adentrar no
local com seus homens, ele conseguiu localizar uma espécie de passagem secreta
no subsolo, onde havia corpos, pedaços de membros e órgãos de corpos de
mulheres, outros objetos bizarros e um Chevrolet Opala 2.5 Especial azul, ano
1976.
O delegado
João Eduardo efetivou a prisão do reverendo Asir, que posteriormente fora
encaminhado ao manicômio judiciário de Farol, uma cidade maior e próxima à
Caveiras.
As
investigações revelaram que o padre Asir fora criado de modo severo por sua
mãe, uma viúva, religiosa fanática e doentia, que dizia ao menino que ele
jamais deveria tocar em mulher, que ele estava tomado pelo demônio e deveria se
libertar disso e não podia brincar com incrédulos, sua vida era, da casa para a
igreja e da igreja para a casa.
“As mulheres
são pecaminosas, meu filho; elas te fazem pecar; seus desejos, suas imaginações
são abomináveis ao senhor; se parte do teu corpo te faz pecar, arranque-a e
jogue fora. Se sua língua te faz pecar, corte-a e jogue fora. Asir, você não
pode ser desse mundo, pois você é o Agnus Dei, o cordeiro de Deus.
Certo dia,
quando a mãe de Asir chegara em casa, ele tinha bebido e estava despido, com
uma jovem no sofá; ela amarrou os dois, cortara a língua da mulher e depois a
matou e consumiu com o corpo, para que Asir lembrasse das preciosas lições
contidas no livro sagrado do senhor; ela também arrancara sua língua para que
não pecasse mais. Por essa razão, a fala do padre era muito enrolada, mas
ninguém jamais imaginara uma coisa dessas.
Vinte anos se
passaram....
Gazeta de
Farol:
“Homem
esquizofrênico e psicopata, que todos os domingos celebrava “missas” no campo
do manicômio judiciário de Farol, nas proximidades do lago, desapareceu do
manicômio nesta madrugada sem deixar pistas”.
O padre
jamais fora localizado e, alguns anos depois, em Curitiba, na capital paranaense,
um homem que assassinara duas mulheres em um cruzamento, próximo ao colégio dos
padres, fora preso e em seu braço havia uma tatuagem, que tinha a seguinte
inscrição:
“AGNUS DEI”.

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