O BAÚ E O FANTASMA - Conto Clássico Trágico-Fúnebre - Stendhal
O BAÚ E O
FANTASMA
(Aventura
Espanhola)
Stendhal
(1783 – 1842)
Numa
bela manhã de mês de maio de 182..., Dom Blas Bustos y Mosquera, seguido por
doze cavaleiros, entrava na aldeia de Alcalote, a uma légua de Granada. À sua
aproximação, os camponeses voltavam apressadamente para suas casas e fechavam
as portas. As mulheres olhavam aterrorizadas por um cantinho da janela aquele
temível chefe da polícia de Granada. O céu puniu sua crueldade imprimindo-lhe
no aspecto o estigma de sua alma. É um homem de seis pés de altura, moreno e
pavorosamente magro; é apena chefe de polícia, mas o próprio bispo de Granada e
o governador tremem em sua presença.
Durante
essa guerra sublime contra Napoleão que, aos olhos da posteridade, colocará os
espanhóis do século dezenove na frente de todos ou outros povos da Europa, e
lhes dará o segundo lugar, logo após os franceses, D. Blas foi um dos mais
famosos chefes de guerrilheiros. Quando seu bando não havia matado pelo menos
um francês durante o dia, ele não se deitava em sua cama: era uma promessa.
Quando
Fernando VII regressou, mandaram-no para as galés de Ceuta, onde passou oito
anos na mais terrível miséria. Acusavam-no de ter sido capuchinho em sua
mocidade e de haver apostatado. Depois foi perdoado, não se sabe como. D. Blas é
célebre agora por seu silêncio; nunca fala. Outrora, os sarcasmos, que ele dirigia
a seus prisioneiros de guerra antes de mandá-los enforcar, tinham-lhe valido
certa reputação de espirituoso; seus gracejos eram repetidos em todos os exércitos
espanhóis.
D.
Blas caminhava lentamente pela rua de Alcalote, fitando de um lado e de outro
as casas, com seus olhos de lince. Ao passar diante de uma igreja, os sinos
badalavam para a missa; ele antes se atirou do cavalo do que desceu e viram-no
ajoelhar-se junto ao altar. Quatro de seus oficiais ajoelharam-se em torno de
sua cadeira; fitaram-no: não havia mais devoção em seus olhos. Eles estavam sinistramente
fixados num rapaz de aspecto muito distinto que rezava fervorosamente a poucos
passos de distância.
—
Como — dizia consigo D. Blas — um homem que, segundo as aparências, pertence a
melhor classe social, não é meu conhecido? Ele não apareceu em Granada desde
que eu aí estou! Está-se escondendo.
D.
Blas inclinou-se para um de seus policiais e deu ordem para que prendesse o
rapaz mal ele se retirasse da igreja. Às últimas palavras da missa, ele próprio
se apressou a sair e foi-se instalar na principal sala da hospedaria de
Alcalote. Logo surgiu o rapaz admirado.
—Seu
nome?
—D.
Fernando de la Cueva.
O
humor sinistro de D. Blas aumentou ao reparar, vendo-o de perto, nas belas feições
de D. Fernando; era louro e, apesar da má situação em que se encontrava, a
expressão de sua fisionomia era muito meiga. D. Blas olhava o jovem,
meditativo:
—Qual era a sua situação na época de Cortèse?
— disse finalmente.
—Estava
no colégio de Sevilha, em 1823; tinha então quinze anos, porque agora tenho
apenas dezenove.
—Como
vive o senhor?
O rapaz pareceu irritado com a dureza da
pergunta; conformou-se e disse:
—Meu pai, brigadeiro dos exércitos de D.
Carlos IV (que Deus abençoe a memória desse bom rei), deixou-me uma pequena
propriedade perto desta aldeia; ela rende doze mil reais, e eu a cultivo com minhas
próprias mãos e mais três empregados.
—Que lhe são, sem dúvida multo delicados.
Excelente núcleo para um bando de guerrilheiros! — disse D. Blas com um sorriso
perverso. — Para a prisão e incomunicável! — acrescentou, retirando-se e
deixando o prisioneiro entregue a seus homens.
Alguns
instantes depois, D. Blas almoçava.
—
Seis meses de prisão — pensava — darão cabo dessas belas cores e desse ar de
mocidade e de insolente contentamento.
O
cavalheiro que estava de sentinela à porta da sala de jantar levantou
rapidamente sua carabina. Apoiou-a atravessada no peito de um velho que
procurava entrar na sala atrás de um moço de cozinha que levava um prato. D.
Blas correu à porta; atrás do velho, viu uma jovem que o fez esquecer D.
Fernando.
—
É cruel que não me deem tempo para fazer minhas refeições — disse ele ao velho.
— Entre, contudo; e explique-se.
D.
Blas não se cansava de fitar a jovem; deparava em sua fronte e em seus olhos
com aquela expressão de inocência e piedade celeste que resplandece nas belas
madonas da escola italiana. D. Blas não escutava o velho, nem prosseguia em seu
almoço. Por fim, saiu de seu devaneio; o velho repetia pela terceira ou quarta
vez os motivos que deviam fazer restituir a liberdade a D. Fernando de la
Cueva, que havia multo tempo era noivo de sua filha Inés, ali presente, e ia
desposá-la no domingo seguinte. A estas palavras, os olhos do terrível chefe de
polícia brilharam com um fulgor tão extraordinário que amedrontaram Inés e
mesmo seu pai.
—Sempre
vivemos no temor de Deus e somos velhos cristãos — continuou aquele. — Minha
raça é antiga, mas eu sou pobre, e D. Fernando é bom partido para minha filha.
Nunca exerci função alguma no tempo dos franceses, nem antes, nem depois.
D.
Blas não saía de seu silêncio feroz.
—
Pertenço à mais antiga nobreza do reino de Granada — continuou o velho — e,
antes da revolução — acrescentou, suspirando —, eu cortaria as orelhas de um
monge insolente que não me respondesse quando eu lhe falasse.
Os
olhos do velho encheram-se de lágrimas. A tímida Inés tirou do seio um pequeno
rosário que tocara o manto da Madona del Pilar e suas lindas mãos apertavam a
cruz com um movimento convulso.
Os
olhos do terrível D. Blas prenderam-se àquelas mãos. Ele reparou depois no
corpo bem-feito, embora um pouco robusto, da jovem Inés.
“Suas
feições poderiam ser mais regulares — pensou ele —, mas essa graça celestial
nunca a encontrei em outra criatura.”
— E o senhor se chama D. Jaime Arregui? —
disse ele, finalmente, ao velho.
— É o meu nome — respondeu D. Jaime,
endireitando o corpo.
— Com setenta anos de idade?
—
Sessenta e nove, apenas.
—
É o senhor — disse D. Blas, melhorando visivelmente de expressão. — Há muito tempo que o procuro. O rei nosso
senhor dignou-se conceder-lhe uma pensão anual de quatro mil reais. Tenho comigo,
em minha casa, em Granada, dois anos dessa mercê real que já estão vencidos e
que lhe entregarei amanhã ao meio-dia. Farei o senhor verificar que meu pai era
um rico agricultor da Castela Velha, cristão velho como o senhor, e que nunca
eu fui frade. Assim, o insulto que o senhor me dirigiu não me atinge.
O
velho gentil-homem não ousou faltar ao encontro. Era viúvo e vivia sozinho com
sua filha Inés. Antes de partir para Granada, levou-a para a casa do pároco da
aldeia e tomou suas providências como se jamais devesse tornar a vê-la.
Encontrou D. Blas Busto em trajos de gala; ele trazia um grande cordão sobre o
casaco. D. Jaime achou-o cortês como um velho soldado que quer parecer bondoso e
sorriu a propósito de tudo e mesmo fora de propósito.
Caso
se atrevesse a tanto, D. Jaime teria recusado os oito mil reais que D. Blas lhe
entregou; não pôde recusar-se a jantar com ele. Finda a refeição, o terrível
chefe de polícia o fez ler todos os seus diplomas, sua certidão de batismo e
mesmo uma declaração para conhecimento geral, graças à qual ele saíra das
galés, e que provava que ele nunca havia sido frade.
D.
Jaime continuava a temer algum tracejo de mau gosto.
—
Assim, tenho quarenta e cinco anos — disse-lhe D. Blas para concluir. — Uma
situação honrosa que me rende cinquenta mil reais. Tenho uma renda de mil onças
no banco de Nápoles. Peço-lhe em casamento sua filha D. Inés Arregui.
D.
Jaime empalideceu. Houve um instante de silêncio. D. Blas continuou:
— Não lhe esconderei que D. Fernando de la
Cueva se encontra comprometido num caso desagradável. O ministro da polícia
procura-o, isso lhe pode valer o garrote (forma de estrangulamento reservuda
aos nobres) ou, pelo menos, as galés. Eu nelas estive oito anos e lhe posso garantir
que se trata de uma estada detestável.
Ao
dizer estas palavras, chegou-se ao ouvido do ancião.
—
Dentro de quinze dias ou três semanas, provavelmente receberei do ministro
ordem para transferir D. Fernando da prisão de Alcalote para a de Granada. Essa
ordem será executada altas horas da noite; se D. Fernando aproveitar as trevas
para fugir, fecharei os olhos em consideração à amizade com que o senhor o
distingue. Ele que vá passar um ano ou dois em Maiorca, porque ninguém o
denunciará.
O
velho gentil-homem não respondeu coisa alguma; estava apavorado e voltou para
sua aldeia com muita dificuldade. O dinheiro que havia recebido causava-lhe
horror.
“Então
— dizia consigo —, é esta a paga pelo sangue de meu amigo D. Fernando, o noivo
de minha Inés?”
—
Minha filha, o frade quer desposar-te! —
exclamou.
Em
breve, Inés secou suas lágrimas e pediu licença para ir consultar o pároco que
estava na igreja, em seu confessionário. Apesar da insensibilidade de sua idade
e de sua profissão, o pároco chorou. O resultado da conversação foi que era
preciso dispor-se a casar com D. Blas ou fugir aquela noite. D. Inés e seu pai
deviam tentar alcançar Gibraltar e embarcar para a Inglaterra.
—
E com que viveremos? — disse Inés.
—
Poderiam vender sua casa e o jardim.
— Quem a comprará? — inquiriu a moça debulhada
em lágrimas.
—
Tenho economias — disse o pároco —, que talvez cheguem a cinco mil reais;
dou-lhas, de todo o meu coração, minha filha, se você julgar comprometer a sua
salvação desposando D. Blas Busto.
Quinze
dias depois, todos os esbirros de Granada, em grande uniforme, rodeavam a
escuríssima igreja de São Domingos. A custo, em pleno meio-dia, as pessoas
conseguem nela se orientar. Mas nesse dia ninguém — a não ser os convidados —
ousava penetrar na igreja.
Numa
capela lateral, iluminada por centenas de círios, cuja claridade atravessava a
escuridão da igreja com uma estrada de fogo, via-se de longe um homem ajoelhado
nos degraus do altar; todos os que o rodeavam batiam-lhe pelos ombros, tão
grande ele era. Sua cabeça estava inclinada com ar devoto e seus braços magros
cruzavam-se sobre o peito. Não demorou a se levantar e mostrou um traje cheio
de condecorações. Dava a mão a uma moça cujo andar leve e juvenil contrastava
estranhamente com a sua gravidade. Brilhavam lágrimas nos olhos da jovem
desposada; a expressão de sua fisionomia e a suavidade angélica que conservava,
apesar de sua tristeza, impressionaram o povo quando ela subiu para a carruagem
em frente à igreja.
É
preciso confessar que, depois de seu casamento, D. Blas tornou-se menos feroz;
as execuções começaram a ser mais raras. E em vez de mandar fuzilar os
condenados pelas costas, fê-los simplesmente enforcar. Multas vezes permitiu
que se despedissem de sua família antes de caminhar para a morte. Um dia, disse
à sua mulher, a quem ele amava exaltadamente:
—
Tenho ciúme de Sancha.
Era
a irmã de leite e a amiga de Inés. Ela vivera em casa de D. Jaime como criada
grave de sua filha e nessa qualidade é que a acompanhara ao palácio onde Inés fora
residir em Granada.
—
Quando me afasto de você, Inés — continuou D. Blas —, você fica a conversar
sozinha com Sancha. Ela é agradável, faz você rir; quanto a mim, sou apenas um
velho soldado incumbido de funções severas; reconheço que sou pouco amável.
Sancha, com a sua fisionomia risonha, deve fazer com que eu pareça nos olhos de
você ainda mais velho. Olhe, eis a chave de meu baú, dê-lhe todo o dinheiro que
você quiser, tudo o que o baú contém, caso queira, mas ela que se afaste, que
desapareça e que eu não mais a veja,
À
noite, ao voltar de sua repartição, a primeira pessoa que D. Blas viu foi
Sancha, entretida em seu trabalho, como de costume. Sua primeira reação foi de
furor; aproximou-se rapidamente de Sancha, que ergueu os olhos e encarou-o com
firmeza, com esse olhar espanhol, que reúne tão estranhamente o temor, a coragem
e o ódio. Daí a um Instante, D. Blas sorriu:
—
Minha querida Sancha — disse-lhe —, D. Inés terá dito a você que lhe dei dez
mil reais?
—
Só aceito presentes de minha ama — respondeu ela, sem dele despregar os olhos.
D.
Blas Bustos entrou nos aposentos de sua mulher.
—
Quantos prisioneiros o cárcere de Torre Vieja contém neste momento? —
perguntou-lhe ela.
—
Trinta e dois nos calabouços e creio que duzentos e sessenta nos outros pavimentos.
—
Dê-lhes liberdade — disse Inés e eu me separarei da única amiga que possuo no
mundo.
—
O que você me pede está fora de meu poder — respondeu D. Blas e não mais uma
palavra o serão todo.
Inés,
que costurava junto à sua lâmpada, viu-o corar e empalidecer sucessivamente;
pôs de lado seu trabalho e começou a rezar o rosário. No dia seguinte, o mesmo
silêncio. Na noite imediata, irrompeu um incêndio na prisão de Torre Vieja.
Morreram dois prisioneiros. Apesar, porém, de toda a vigilância do chefe de polícia
e de seus auxiliares, todos os outros conseguiram fugir.
Inés
e D. Blas não trocaram uma palavra. No dia seguinte, ao voltar para casa, D.
Blas não viu mais Sancha; ele se atirou nos braços de Inés.
Dezoito
meses haviam decorrido depois do incêndio de Torre Vieja, quando um viajante
coberto de poeira saltou do cavalo diante da pior hospedaria do burgo de la
Zuia, situado nas montanhas, uma légua ao sul da Granada, enquanto Alcalote
fica ao norte.
Esse
subúrbio de Granada forma uma espécie de oásis encantado em meio às planícies
ardentes da Andaluzia. É a mais bela região da Espanha. Mas o viajante viria
orientado exclusivamente pela curiosidade? Pelo seu traje, ele teria passado
por um catalão. Seu passaporte, entregue em Maiorca, estava de fato visado em
Barcelona, onde ele desembarcara. O dono dessa má hospedaria era multo pobre.
Ao lhe entregar o passaporte, que trazia o nome de D. Pablo Rodil, o viajante
catalão olhou-o.
—Sim,
senhor — disse-lhe o dono da hospedaria. — Avisarei vossa senhoria no caso de a polícia
de Granada mandá-lo chamar.
O
viajante disse que queria conhecer aquela região tão formosa; saía uma hora
antes de amanhecer e só voltava ao meio-dia, no auge do calor, quando todos
estão almoçando ou fazendo a sesta.
D.
Fernando ia passar horas inteiras numa colina coberta de sobreiros novos. Via
daí o antigo Palácio da Inquisição de Granada, onde residiam agora D. Blas e Inés.
Seus olhos não se podiam afastar das paredes enegrecidas daquele palácio, que
se erguia como um gigante entre as casas da cidade. Ao deixar Maiorca, D.
Fernando comprometera-se a não entrar em Granada. Um dia, não pôde resistir a
um impulso que o arrebentou; foi passear pela rua estreita onde se erguia a
alta fachada do Palácio da Inquisição. Entrou numa loja e achou um pretexto
para deter-se um pouco e para conversar. O dono da loja mostrou-lhe as janelas
dos aposentos de D. Inés. Ficavam no segundo andar, a grande altura.
Na
hora da sesta, D. Fernando retornou o caminho de la Zula com o coração devorado
por todas as fúrias do ciúme. Teria querido apunhalar Inés e matar-se depois.
—
Caráter fraco e covarde — repetia raivosamente —, ela é capaz de amá-lo, se
imaginar que esse é o seu dever!
Ao dobrar uma rua, encontrou Sancha:
—
Ah, não, amiga! — exclamou ele, sem parecer que lhe estava falando. — Chamo-me
D. Rodil. Resido no albergue do “Anjo”, em la Zuia. Amanhã, na hora das
vésperas, podes encontrar-te comigo à igreja grande?
—
Aí estarei — disse Sancha, sem olhá-lo.
No
dia seguinte, na hora marcada, D. Fernando avistou Sancha e encaminhou-se sem
dizer palavra para a sua hospedaria. Ela entrou sem ser vista. Fernando fechou a
porta.
—
Então! — disse-lhe com lágrimas os olhos.
—
Não estou mais a seu serviço — respondeu-lhe Sancha. — Faz ano e meio que ela
me despediu sem motivo, sem explicações. Por minha fé, creio que ela mama D. Blas.
—
Ela ama D. Blas? — exclamou D. Fernando, secando as lágrimas. — Faltava-me isso.
—Quando
ela me despediu — prosseguiu Sancha —, atirei-me a seus pés, suplicando-lhe que
me dissesse a causa de meu infortúnio. Ela me respondeu com frieza: “Meu marido
o quer”. Nem mais uma palavra. O senhor a conheceu muito piedosa; agora, toda a
sua vida é uma contínua oração.
Para
agradar à facção reinante, D. Blas conseguira que metade do Palácio da Inquisição,
onde ele residia, fosse dado às religiosas Claristas. Essas senhoras aí se
haviam instalado e acabavam de inaugurar sua igreja. Era onde D. Inés passava
sua vida. Mal D. Blas saía de casa, podia-se ter a certeza de vê-la ajoelhada
em frente ao altar da adoração perpétua.
—
Ela ama D. Blas! — repetiu D. Fernando.
—
Na véspera de meu infortúnio — respondeu Sancha —, D. Inés falava-me...
—
Ela se mostra alegre? — interrompeu D. Fernando.
—
Alegre, não, mas de uma disposição de espírito uniforme e suave, multo diferente
da que o senhor conheceu; ela perdeu completamente aquele rompante de vivacidade
e de loucura, como dizia o pároco.
— Que infame! — exclamou D. Fernando, andando
agitadamente de um lado para outro do quarto. — Eis a maneira pela qual ela cumpre suas
juras; eis o seu amor por mim! Nem sequer tristeza! E eu...
—
Como estava dizendo a Vossa Senhoria — Interrompeu Sancha —, nas vésperas de
meu infortúnio, D. Inés me falou com amizade, bondosamente, como fazia em
Alcalote. No dia seguinte, um “meu marido o quer”, foi tudo o que achou para me
dizer, entregando-me um papel assinado por ela e que me garante uma boa pensão
de oitocentos reais.
—
Ah! Dá-me esse papel — disse D. Fernando.
Ele
cobriu de beijos a assinatura de Inés.
—E
ela falava a meu respeito?
—Nunca — respondeu Sancha —, e a tal ponto que,
na minha frente, o velho D. Jaime a censurou uma vez por ter esquecido um
vizinho tão amável. Ela empalideceu e não respondeu. Assim que seu pai se
despediu, depois de tê-lo levado até a porta, correu a se encerrar na capela.
—
Sou um tolo, eis tudo — exclamou D. Fernando. — Como vou odiá-la! Não falemos mais nisso...
Foi uma felicidade, para mim, ter entrado em Granada, uma felicidade mil vezes
maior ter-te encontrado... E tu, que fazes?
—Sou
negociante na aldeiazinha de Albaracen, a meia légua de Granada. Tenho —
acrescentou, baixando a voz — belas mercadorias inglesas que os contrabandistas
dos Alpujarras me trazem. As minhas malas contêm mercadorias de valor superior
a dois mil reais. Sou feliz.
— Compreendo — disse D. Fernando. — Tens um
amante entre os valentes dos montes Alpujarras. Jamais tornarei a ver-te. Olha,
usa este relógio como lembrança minha.
Sancha
ia-se retirar; ele a reteve.
—
Se eu me apresentasse em casa dela... — disse.
—
Ela o evitaria, ainda que precisasse atirar-se pela janela. Tome cuidado —
disse Sancha, aproximando-se mais de D. Fernando. — Por melhor que o senhor se
disfarçasse, seria preso pelos oito ou dez espiões que vagam constantemente em
torno da casa.
Fernando,
envergonhado de sua fraqueza, não acrescentou uma palavra. Acabava de se
decidir a partir no dia seguinte para Maiorca.
Oito
dias depois, passou por acaso na aldeia de Albaracen. Os salteadores tinham
acabado de prender o capitão-general O’Donnel, que haviam conservado uma hora a
fio estirado de barriga na lama. D. Fernando viu Sancha, que corria com ar
espavorido.
—
Não tenho tempo para lhe falar — disse-lhe ela. — Venha à minha casa.
A
loja de Sancha estava fechada. Ela apressava-se em colocar seus tecidos
ingleses num grande baú preto de carvalho.
—
Talvez sejamos atacados aqui esta noite — disse ela a D. Fernando. — O chefe desses
salteadores é inimigo pessoal de um contrabandista que é meu amigo. Esta loja
seria a primeira a ser saqueada. Estou de volta de Granada; acabo de conseguir
de D. Inés que, afinal de contas, é uma mulher muito boa, permissão para
colocar em seu quarto as mercadorias de maior valor. D. Blas não verá este baú,
que está cheio de contrabando. Se, por infelicidade, o vir, D. Inés arranjará
uma desculpa.
Ela
se atarefava em acomodar suas fazendas e seus chalés. D. Fernando olhava-a
agir; de repente se atira sobre o baú, joga para fora as fazendas e os chales,
e coloca-se em seu lugar.
—
Está louco? — disse Sancha, aterrorizada.
—
Olha, eis cinquenta onças; mas que o céu me destrua se eu sair desse baú antes
de estar no Palácio da Inquisição, em Granada. Quero vê-la.
Por
maiores que fossem os protestos de Sancha, apavorada, D. Fernando não quis
escutá-la. Ela ainda estava falando quando entrou Zanga, um carregador, primo
de Sancha, que devia levar o baú para Granada num burrico. Ao rumor que ele
fizera ao entrar, D. Fernando apressara-se em puxar sobre si a tampa do baú. A
todo risco, Sancha o fechou a chave. Era mais imprudente deixá-lo aberto.
Pelas
onze horas da manhã, um dia do mês de junho, D. Fernando entrou em Granada,
conduzido em um baú; estava quase sufocado. Chegaram ao Palácio da Inquisição.
Pelo tempo que Zanga levou para subir a escada, D. Fernando supôs que
colocassem o baú no segundo andar e talvez no próprio quarto de Inés.
Quando
fecharam as portas, e ele não mais ouviu rumor algum, procurou, valendo-se de seu
punhal, forçar a lingueta da fechadura do baú. Conseguiu-o. Para sua inexprimível
alegria, estava, de fato, no quarto de Inés. Avistou trajes femininos; viu,
junto ao leito, um crucifixo que outrora estava em seu pequeno quarto do
Alcalote. Uma vez, após violenta discussão, ela o levara para seu quarto e sobre
aquele crucifixo lhe jurara amor eterno.
O
calor era intenso e o quatro escuro. As gelosias estavam cerradas, bem como
grandes cortinas da mais leve musselina das Índias, presas multo baixo. O silêncio
profundo era apenas a custo perturbado pelo murmúrio de um pequeno repuxo que,
erguendo-se alguns pés, num canto do quarto, morria em sua concha de mármore
negro.
O
débil ruído daquele pequeno repuxo fazia estremecer D. Fernando, que em sua
vida dera vinte provas da mais audaciosa bravura. Ele estava longe de encontrar
no quatro de Inés aquela perfeita felicidade com que tantas vezes sonhara em Maiorca,
ao refletir nos meios para nele ingressar. Exilado, infeliz, separado dos seus,
um amor apaixonado e quase enlouquecido pela duração e continuidade da desgraça
formava todo o caráter de D. Fernando.
Naquele
instante, o receio de desagradar a Inés, que ele sabia tão casta e tímida, era
o único sentimento de D. Fernando. Eu teria vergonha de confessar, se não esperasse
que o leitor conheça um pouco o temperamento singular e apaixonado dos homens do
Sul, que D. Fernando esteve a ponto de desmaiar quando, pouco depois de terem soado
duas horas no relógio do convento, ouviu, em meio ao profundo silêncio, leves
passos que subiam a escada de mármore. Depressa se aproximaram da porta. Ele
reconheceu o andar de Inés; e, não ousando afrontar o primeiro impulso de
indignação de uma pessoa tão presa a seus deveres, escondeu-se no baú.
O
calor era excessivo, grande a obscuridade. Inés estendeu-se em seu leito e,
logo, pela tranquilidade de sua respiração, D. Fernando percebeu que ela
dormia. Só então ousou aproximar-se do leito; viu aquela Inés, que havia tantos
anos era seu único pensamento. Sozinha, abandonada a ele, na inocência de seu
sono, ela causou-lhe medo. Tão singular sentimento cresceu quando ele verificou
que, naqueles dois anos em que não a via, seus traços tinham adquirido um cunho
de dignidade severa que lhe era desconhecido.
Pouco
a pouco, contudo, a felicidade de tornar a vê-la penetrou em sua alma; o meio
desalinho de seus trajes de verão constituía um contraste tão encantador com
aquele ar de dignidade quase austera!
Ele
compreendeu que a primeira ideia de Inés, ao vê-lo, seria fugir. Foi fechar a porta e guardou a chave.
Chegou,
finalmente, aquele instante que ia decidir de todo o seu futuro. Inés fez
alguns movimentos, estava quase a despertar; ele teve a inspiração de ir-se
ajoelhar perante o crucifixo que em Alcalote estava no quarto de Inés. Ao
descerrar os olhos ainda pesados de sono, sacudiu a Inés a ideia de que
Fernando acabava de morrer ao longe, e que sua imagem, que ele via perante o
crucifixo, era uma visão.
Permaneceu
imóvel, ereta junto ao leito, com as mãos postas.
—
Pobre infeliz! — disse ela em voz trêmula e quase sufocada.
D. Fernando, sempre de joelhos e meio voltado
para olhá-la, mostrava-lhe o crucifixo; mas, em sua perturbação, ele fez um
movimento. Inés, inteiramente desperta, compreendeu a verdade e correu para a
porta que encontrou fechada.
—
Que audácia! — exclamou ela — Saia, D. Fernando!
Refugiou-se
no canto mais afastado do quarto, junto ao pequeno repuxo.
— Não se aproxime, não se aproxime! — repetia,
com voz entrecortada. — Saia!
Todo
o brilho da mais pura virtude resplandecia em seus olhos.
—
Não, não sairei antes de me ouvires. Há dois anos que não te posso esquecer.
Noite e dia tenho tua imagem perante meus olhos. Não me juraste a esta cruz que
me pertenceria para sempre?
—Saia
— repetia ela, enfurecida —, ou chamarei e você e eu seremos degolados!
Correu
para uma sineta, mas D. Fernando alcançou-a antes dela e apertou Inés em seus
braços. D. Fernando estava trêmulo. Inés percebeu-o perfeitamente e perdeu toda
a força que lhe vinha de sua cólera.
D.
Fernando não mais se deixou dominar pelos pensamentos de amor e de volúpia e se
entregou inteiramente a seu dever.
Estava mais trêmulo do que Inés, porque acabava de sentir que agira em
relação a ela como um inimigo; mas não deparou com arrebatamento nem cólera.
—
Então queres a perdição de minha alma imortal? — disse-lhe Inés. — Pelo menos,
acredita numa coisa: é que te adoro e que sempre amei somente a ti. Não
decorreu um só minuto da vida abominável que levo desde o meu casamento, sem
que eu tenha pensado em ti. Era um pecado horroroso. Tudo fiz para esquecer-te,
mas inutilmente. Não te horrorizes com a minha impiedade, meu Fernando.
Acreditarás que esse santo crucifixo, que estás vendo ao lado de meu leito,
muitas vezes deixa de me apresentar a imagem daquele Salvador que nos vai
julgar; e recorda-me apenas os juramentos que te fiz estendendo a mão para ele,
em meu pequeno quarto de Alcalote. Ah! Estamos condenados, irremediavelmente
condenados, Fernando — exclamou ela arrebatadamente. — Sejamos pelo menos bem
felizes durante os poucos dias de vida que nos restam.
Essa
linguagem libertou D. Fernando de qualquer temor; a felicidade começo para ele:
—
Mas como? Perdoas-me? Ainda me amas?
As
horas fugiam rapidamente, as sombras se adensavam. Fernando contou-lhe a
inspiração repentina que tivera pela manhã ao ver o baú. Foram tirados de seu
enlevo por um grande rumor que provinha da porta do quarto. Era D. Blas que
vinha buscar sua mulher para o passeio vespertino.
—
Diz que passaste mal por causa do calor excessivo — disse D. Fernando a Inés. —
Vou-me encerrar no baú. Eis a chave de tua porta; finge não poderes abri-lo. Faze-a girar ao contrário, até ouvires o ruido
da fechadura do baú se fechando.
Tudo
decorreu a contento; D. Blas acreditou no mal-estar causado pelo calor excessivo.
—Pobre
amiga! — exclamou ele, pedindo-lhe desculpas por tê-la acordado tão
inopinadamente. Tomou-a nos braços e levou-a para o leito. Cobria-a das mais
ternas carícias, quando avistou o baú:
—
Que é isso? — disse, franzindo os sobrolhos. Todo o seu gênio de chefe de polícia
pareceu despertar subitamente. — Isto em minha casa! — repetiu cinco ou seis vezes enquanto D. Inés
lhe relatava os temores de Sancha e a história do baú.
—
Dê-me a chave — disse com ar implacável.
—
Não quis recebê-la — respondeu Inés. — Um de seus criados poderia encontrá-la.
Minha recusa em recebê-la pareceu agradar muito a Sancha.
—Está
muito bem! — exclamou D. Blas. — Mas tenho aqui, na caixa de minhas pistolas,
meios para abrir todas as fechaduras do mundo.
Dirigiu-se
â cabeceira do leito, abriu uma caixa cheia de armas, e aproximou-se do baú com
um molho de ganchos ingleses. Inés abriu as gelosias de uma janela, e
inclinou-se no parapeito de madeira a poder atirar-se na rua no instante em que
D. Blas descobrisse Fernando. Mas o
excesso do ódio que Fernando sentia por D. Blas restituíra-lhe todo o seu
sangue frio; ele teve a ideia de colocar a ponta de seu punhal atrás da
lingueta da péssima fechadura do baú e foi inutilmente que D. Blas torceu os
seus ganchos ingleses.
—
É singular —disse D. Blas, levantando-se. —Estes ganchos nunca haviam falhado.
Minha querida Inés, o nosso passeio fica adiado; não me sentiria feliz, mesmo a
teu lado, com a lembrança deste baú, que talvez contenha documentos
comprometedores. Quem me diz que, durante minha ausência, o bispo, meu inimigo,
não revistará a minha casa, valendo-se de alguma ordem arrancada ao rei? Vou à
minha repartição e voltarei imediatamente com um operário que será melhor
sucedido que eu.
Saiu.
D. Inés deixou a janela para fechar a porta. Em vão, D. Fernando suplicou-lhe
que fugisse com ele.
—
Não conheces a vigilância do terrível D. Blas — disse-lhe ela. — Ele pode, em
poucos minutos, corresponder-se com seus agentes a muitas léguas de Granada.
Por que realmente não posso fugir contigo e ir viver na Inglaterra?! Sabes que
esta enorme casa é diariamente esquadrinhada em todos os seus cantos. Contudo,
tentarei esconder-te; se amas, sê prudente, porque não sobreviverei a ti.
A
conversação dos dois foi interrompida por forte pancada na porta. Fernando
coloca-se atrás da porta, de punhal em punho. Felizmente, era apenas Sancha. Disseram-lhe
tudo em duas palavras.
—
Mas, a senhora não reflete que, se esconder D. Fernando, D. Blas encontrará o baú
vazio? Vejamos, como poderemos enchê-lo em tão pouco tempo? Mas. em minha
perturbação. estou esquecendo uma boa notícia: toda a cidade está em tumulto e
D. Blas muito atarefado. D. Pedro Ramos, deputado às Cortes, insultado por um
voluntário realista no café da Praça Grande, acaba de matá-lo a punhaladas.
Acabo de encontrar D. Blas entre os seus esbirros na Puerta del Sol. Por isso,
esconda Fernando, que eu vou procurar por toda a parte Zanga para mandá-lo
retirar o baú, onde D. Fernando tornará a se colocar. Mas teremos o tempo necessário?
Transporte o baú para qualquer outro aposento, a fim de ter uma primeira resposta
a dar a D. Blas, e que ele não a apunhale num impulso repentino. Diga que fui eu
que mandei transportar o baú e que o abri. Principalmente, não tenhamos
ilusões: se D. Blas voltar antes de mim, estamos todos mortos.
Os
conselhos de Sancha não perturbaram absolutamente os dois apaixonados. Eles
transportaram o baú para um corredor escuro; contaram reciprocamente a história
de sua vida nos últimos dois anos.
—
Não encontrarás censura alguma em tua amiga — dizia Inés a D. Fernando —;
obedecer-te-ei em tudo; tenho o pressentimento de que nossa vida não será
longa. Não fazes ideia da pouca importância que D. Blas dá a sua vida e à dos
outros. Ele descobrirá que eu te vi e há de me matar.
—
“Que encontrarei em sua vida?” — continuou ela após um momento de abstração. —
“Castigos eternos!”.
Depois,
atirou-se ao pescoço de Fernando.
—
Sou a mais feliz das mulheres! — exclamou ela. — Se achares algum meio de nos
tornarmos a encontrar, manda-me dizer por Sancha; tens uma escrava que se chama
Inés.
Zanga
só apareceu de noite; levou o baú onde Fernando tornara a se instalar; várias
vezes foi interrogado pelas patrulhas de esbirros que, por toda a parte,
procuravam o deputado liberal sem o encontrar. Todas deixaram Zanga passar, porque
ele dizia que o baú que carregava pertencia a D. Blas.
Zanga
foi interrogado pela última vez ruma rua deserta que ladeia o cemitério; ela
fica separada do cemitério, que é doze ou quinze pés mais baixo, por um muro de
regular altura, contra o qual Zanga teve a ideia de descansar. Enquanto ele
respondia aos policiais, o baú estava em cima do muro.
Zanga,
a quem tinham feito carregar o baú precipitadamente, no temor de D. Blas
voltar, segurava-o de maneira tal que D. Fernando ficava de cabeça para baixo.
A dor, que Fernando sentia nessa posição, tornou-se insuportável; ele esperava
que tudo acabasse rapidamente; mas, quando sentiu o baú imóvel, perdeu a
paciência. Um grande silêncio reinava na rua; ele calculou que deviam ser pelo
menos nove horas da noite.
—
Alguns ducados — pensou — garantirão a discrição de Zanga.
Vencido
pela dor, disse-lhe baixinho:
—Vira
o baú noutra direção, doí-me horrivelmente assim.
O
carregador, que se sentia bastante inquieto por encontrar-se junto ao cemitério,
naquela hora avançada da noite, assustou-se com essa voz tão próxima de seu
ouvido; julgou que fosse a fala de um fantasma e saiu correndo desabaladamente.
O baú continuou sobre o parapeito; a dor de D. Fernando aumentava. Não
recebendo a menor resposta de Zanga, compreendeu que tinha sido abandonado. Por
maior que pudesse ser o perigo, resolveu abrir o baú e fez um movimento
violento que o precipitou no cemitério.
Atordoado
com a queda, D. Fernando só adquiriu a consciência ao cabo de alguns instantes;
via as estrelas brilharem sobre sua cabeça. A fechadura do baú cedera com a
queda e ele se encontrou caído sobre a terra de uma sepultura recentemente
revolvida. Lembrou-se do perigo que Inés poderia correr; este pensamento lhe
restituiu toda a sua força.
Ele
perdia sangue, estava muito escoriado; todavia, conseguiu levantar-se e pouco
depois caminhar. Com certa dificuldade, escalou o muro do cemitério e se
dirigiu para a habitação de Sancha. Esta, ao vê-lo coberto de sangue, julgou
que tivesse sido descoberto por D. Blas.
—
É preciso confessar — disse-lhe ela, rindo, quando verificou seu engano — que o
senhor nos meteu em maus lençóis!
Eles
concordaram que era preciso, a todo o custo, aproveitar a noite para retirar o baú
do cemitério.
—
Se, amanhã, algum espião de D. Blas descobrir esse maldito baú, será o fim de
D. Inés e o meu. Sem dúvida, ele está manchado de sangue.
O
único homem que se poderia utilizar para isso era Zanga. Quando estavam falando
a seu respeito, ele bateu à porta de Sancha, que muito o surpreendeu quando lhe
disse:
— Sei tudo o que me vens contar. Abandonaste
meu baú; ele caiu no cemitério com todas as minhas mercadorias de contrabando;
que perda para mim! Olha o que vai acontecer agora: D. Blas vai-te interrogar
esta noite ou amanhã cedo.
— Ah! Estou perdido! — exclamou Zanga.
—
Estarás salvo se responderes que, ao saíres do Palácio da Inquisição, levaste o
baú para minha casa.
Zanga
estava muito aborrecido por ter extraviado as mercadorias de sua prima; mas
tinha medo do fantasma, tinha medo de D. Blas e parecia incapaz de compreender
completamente o que Sancha lhe dizia sobre a maneira pela qual deveria
responder ao chefe de polícia, a fim de a ninguém comprometer.
— Aqui estão dez ducados para ti — disse D.
Fernando, que surgiu de súbito. — Mas se
não disseres exatamente o que Sancha te explicou, morrerás sob este punhal.
—
E quem é o senhor? — disse Zanga.
—
Um infeliz perseguido pelos voluntários realistas.
Zanga
estava completamente perturbado; seu medo redobrou quando ele via entrar dois
sequazes de D. Blas, um dos quais o prendeu e levou-o imediatamente a seu
chefe. O outro vinha apenas comunicar a Sancha que a chamavam no Palácio da
Inquisição; sua incumbência era menos rigorosa. Sancha gracejou com ele e
convidou-o a provar um excelente vinho velho. Queria fazê-lo tagarelar de
maneira a fornecer alguma indicação a D. Fernando que, do lugar onde estava oculto,
tudo podia ouvir.
O
esbirro contou que, ao fugir do fantasma, Zanga entrara, pálido como a morte,
numa taverna onde relatara sua aventura. Um dos espiões encarregados de descobrir
o liberal que matara um realista encontrava-se na taverna e apressara-se em
tudo transmitir a D. Blas.
—
Mas o nossos chefe, que não é tolo — acrescentou o esbirro —, percebeu que a voz que Zanga ouvira era a do liberal
escondido no cemitério. Mandou-me buscar o baú, nós o encontramos e mandou-me
aqui. Partamos.
—
Inés e eu estamos mortas — refletia Sancha, dirigindo-se com o seu guarda para
o Palácio da Inquisição. D. Blas reconheceu o baú e sabe agora que um desconhecido
entrou em sus casa.
A
noite estava muito escura e Sancha pensou um instante em fugir.
—
Não — disse consigo. — Seria infame abandonar D. Inés que é tão ingênua e deve
estar sem saber o que dizer.
Ao
chegar ao Palácio da Inquisição, admirou-se de a fazerem subir ao segundo
andar, no próprio quarto de Inés. O lugar da cena pareceu-lhe de augúrio sinistro.
O quarto estava fortemente iluminado.
Ela
encontrou D. Inés sentada junto a uma mesa, tendo D. Blas de pé, a seu lado, com
o olhar coruscante; diante de ambos, estava aberto o baú fatal, coberto de
sangue. Quando ela entrou, D. Blas
estava entretido em interrogar Zanga; fizeram-na sentar imediatamente.
—
Será que ele nos traiu? — pensou Sancha. —Terá compreendido o que lhe disse
para responder? A vida de D. Inés está em suas mãos.
Fitou
D. Inés a fim de tranquilizá-la. Sancha ficou surpresa. Onde aquela mulher tão
tímida hauria tanta coragem?
Logo
às primeiras palavras de sua resposta às perguntas de D. Blas, Sancha notou que
aquele homem, geralmente tão senhor de si, estava como louco. Em pouco tempo,
ele disse, falando consigo mesmo:
—
A coisa é clara!
D.
Inés, sem dúvida, também ouviu essas palavras, porque disse com ar muito
simples:
—
A quantidade de velas acesas neste quarto tornou-o uma fornalha.
E
aproximou-se da janela.
Sancha
sabia qual fora o seu projeto de algumas horas antes; compreendeu aquele
movimento. Imediatamente, fingiu um violento ataque de nervos:
—
Estes homens querem matar-me — exclamou — porque salvei D. Pedro Ramos.
E
agarrou fortemente Inés pelos punhos.
Em
meio à alucinação de um ataque de nervos, as meias palavras de Sancha diziam
que, um instante depois de Zanga ter levado para sua casa o baú de mercadorias,
um homem todo ensanguentado entrara em seu quarto segurando um punhal. “Acabo
de matar um realista — dissera; os companheiros do morto procuram-no. Se não me
socorrer, serei trucidado debaixo de seus olhos.”
—
Ah! Veja este sangue em minha mão — exclamou Sancha, parecendo fora de si. — Querem
matar-me.
—Prossiga,
— disse D. Blas friamente.
—
D. Pedro Ramos disse-me: “o prior do convento dos hieronimitas é meu tio; se eu
conseguir alcançar o seu convento, estarei salvo.” Eu tremia; ele avistou o baú
aberto donde eu acabava de tirar os tecidos ingleses. De repente, ele atira
para fora os embrulhos que ainda se encontravam no baú e mete-se dentro dele. “Fecha-o
sobre mim — exclama — e mande levar o baú para o convento dos hieronimitas sem
perder um instante". Atira-me um punhado de ducados, ei-los; são o preço
de uma impiedade, causam-me horror.
—
Basta de fingimento! — exclamou D. Blas!
—
Receei que ele me matasse se não o obedecesse — continuou Sancha. — Ele conservava na mão esquerda o punhal
tinto do sangue do pobre voluntário realista. Confesso que tive medo e mandei
buscar Zanga, que apanhou o baú e o levou para o convento. Eu tinha...
—
Nem uma palavra mais ou morrerá — disse D. Blas, quase adivinhando que Sancha
queria ganhar tempo.
A
um aceno de D. Blas vão buscar Zanga. Sancha repara que D. Blas, comumente
impassível, está fora de si: tem dúvidas quanto à criatura que há dois anos ele
julgava fiel. O calor parece prostrar D. Blas; mas, quando avista Zanga,
trazido pelos policiais, corre para ele e aperta-lhe furiosamente o braço.
—
Eis-nos chegados ao momento fatal — diz Sancha de si para consigo. — Esse homem
vai decidir sobre a vida de D. Inés e sobre a minha. É-me inteiramente
dedicado, mas, esta noite, atemorizado pelo fantasma e pelo punhal de D.
Fernando, sabe Deus o que irá dizer.
Zanga,
violentamente sacudido por D. Blas, olhava-o — o olhar desvairado — e sem
responder.
“Ah,
meu Deus! — pensou Sancha. — Vão fazê-lo
jurar, dizer a verdade, e ele é tão religioso que não quererá mentir.”
Por acaso, D. Blas, que não se encontrava em
seu tribunal, esqueceu-se de prestar juramento. Zanga finalmente, alertado pelo
perigo extremo, pelos olhares de Sancha e pelo próprio excesso de seu medo, decidiu-se
a falar. Fosse por prudência ou por verdadeira perturbação, sua narrativa foi
muito confusa. Dizia ele que, chamado por Sancha para carregar novamente o baú
que trouxera da casa do senhor chefe de polícia, achara-o muito mais pesado.
Não podendo mais de cansaço ao passar junto ao muro do cemitério, apoiara-o no
parapeito. Uma voz queixosa ressoara a seu ouvido e ele fugira.
D.
Blas perseguia-o com perguntas, mas parecia ele próprio prostrado pela fadiga.
A uma hora adiantada da noite, ele suspendeu o interrogatório a fim de prossegui-lo
na manhã seguinte. Zanga ainda não se havia comprometido. Sancha pediu a Inés
que permitisse ocupar o cubículo junto a seu quarto, onde antigamente ela
passava a noite. Provavelmente, D. Blas não ouviu as poucas palavras que a esse
respeito foram trocadas. Inés, que receava pela vida de D. Fernando, dirigiu-se
a Sancha.
— D. Fernando está em segurança, mas, senhora
— continuou Sancha —, a sua vida e a minha estão por um fio. D. Blas está suspeitoso.
Amanhã cedo ele ameaçará seriamente Zanga e utilizará, para fazê-lo falar, o
frade confessor de Zanga, que o domina por completo. A história que eu contei
servia apenas para diminuir o perigo no primeiro instante.
—
Pois então foge, minha querida Sancha — respondeu D. Inés com sua mansidão
costumeira, parecendo por completo indiferente à sorte que a aguardava dentro
de poucas horas. — Deixa-me morrer sozinha, morrerei feliz; tenho comigo a
imagem de Fernando. A vida não é um preço superior à felicidade de tê-lo
tornado a ver depois de dois anos. Ordeno-te que me deixes imediatamente. Vais
descer para o pátio grande e esconder-te junto à porta. Espero que te possa
salvar. Peço apenas uma coisa: entrega esta cruz de diamante a D. Fernando e
dize-lhe que abençoo, ao morrer a sua ideia de voltar de Maiorca.
Ao
alvorecer, mal soaram as matinas, D. Inés acordou seu marido, para lhe dizer que
ia ouvir a primeira mista no convento das Claristas. Embora não precisasse sair
de casa, D. Blas, que não lhe disse uma sílaba, mandou que quatro de seus
criados a acompanhassem.
Tendo
chegado à igreja, Inés colocou-se junto à grade das religiosas. Um instante
depois, os guardas que, Blas havia dado à sua mulher, viram as grades se
abrirem. D. Inés penetrou na clausura. Declarou ela que se tomara religiosa por
um voto secreto e que jamais sairia do convento. D. Blas foi exigir sua mulher,
mas a abadessa já mandara prevenir o bispo. Este prelado respondeu com ar paternal
ao arrebatamento do D. Blas:
—
Sem dúvida, a multo ilustre D. Inés Busto y Mosquera não possui o menor direito
de se dedicar ao Senhor, caso seja a sua legítima esposa, mas D. Inés receia
que haja motivos de nulidade em seu casamento.
Poucos
dias depois, D. Inés, que litigava com seu marido, foi encontrada em seu leito
transpassada por muitas punhaladas: e, em consequência de uma conspiração
descoberta por D. Blas, o pai de Inés e D. Fernando foram decapitados na praça
de Granada.
Fonte:
“Vamos Ler”/RJ, edição de 19/4/1947
Fizeram-se
breves adaptações textuais.
Ilustração:
PS/ChatGPT.

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