O HOMEM QUE VIU O DIABO - Conto Clássico Sobrenatural - Lucília

O HOMEM QUE VIU O DIABO

Lucília

(Séc. XX)

 

Apesar de gostar imensamente de ler livros de aventuras e contos, nunca pensei em fazer literatura, pelo menos nunca ousei tal; fiquem, portanto, os leitores convencidos que relato simplesmente o que ouvi da própria pessoa com quem se passou o caso, e que, ao contá-lo, não pensava absolutamente em “épater”[1], como dizem os franceses; verifiquei, depois, que a referida pessoa merecia todo o crédito.

Viajávamos pelo interior brasileiro e hospedamo-nos numa fazenda em Minas, onde deveríamos permanecer algum tempo. Gente simples e boa — porém, de instrução rudimentar e supersticiosa —, falava muito em Saci Pererê, lobisomem, fantasmas etc., o que muito me divertia em falta de outras distrações.

A casa estava situada num outeiro e era rodeada de um pátio onde os peões, de vez em quando, experimentavam os potros bravios que vinham do mato com as crinas emaranhadas e cheios de carrapichos; estes espetáculos tinham para nós, da cidade, um sabor novo, e muito nos interessavam, mas, como não era todos os dias que se amansavam potros, a vida da fazenda, principalmente fazenda de gado, cansa depressa, e aquela monotonia já me pesava.

Um dia, apareceu na fazenda um rapaz que conduzia uma tropa; porém, como era fino de maneiras e falava bem, fiquei com curiosidade de saber quem era; ao ver o acolhimento cheio de carinho que lhe fez o dono da casa, vi que eram velhos amigos. Soube então que o rapaz se chamava Augusto Moreira e era filho de um professor que as dificuldades da vida jogaram para a roça, onde lutava para criar e educar dez filhos. Haviam morado naqueles arredores.  Este rapaz estudara engenharia na capital do estado, carreira que abandonou, dedicando-se à Odontologia; já estava formado, mas não exercia a profissão; casara com a filha de um fazendeiro e andava comprando gado para levar para o sogro, razão que o forçaria a uma demora de duas semanas na fazenda, onde os tropeiros, que o acompanhavam, também descansariam. Fizemos logo camaradagem: era alguém com quem se podia trocar ideias naquele ermo, variando um pouco o assunto da roça, que é sempre o mesmo. 

Estávamos em agosto, as noites eram bem frias, nós nos reuníamos todos na desguarnecida sala de jantar em volta de uma mesa tosca, que sustinha um lampião mortiço, e cavaqueávamos até que o sono chegasse.  

Num desses serões, contou-nos ele que, certa ocasião, quando estudante, morava em Belo Horizonte, num quarto modesto, no porão de uma antiga casa, e ali lhe acontecera um caso muito interessante, mas ele receava contar porque na roda havia duas mocinhas que poderiam impressionar-se.

Insistimos, porém, tanto que ele contou o seguinte, que relato sem alteração alguma.

Como a mesada que tinha era diminuta, ele trabalhava uma noite sim outra não, e estudava de dia para se poder manter.

Aconteceu que foi tomado de evidente “surmenage”[2] e ficou muito enfraquecido. Um dia, já havia soado meia noite, achara-se ele deitado, estudando, quando, levantando os olhos dos livros, fixou-os na porta, que se achava fechada, e viu, com assombro, que uma estranha figura se achava sentada num tamborete, bem em frente à porta; a pose do estranho ser fazia lembrar o famoso “pensador” de Rodin. Estava de perfil, a mão fincada no queixo, terminado por áspera barba preta; os pés eram em forma de pata, bifurcados. Circundava-o uma luz arroxeada, e ele era todo avermelhado, com tons esverdeados, muito peludo e tinha enorme cauda, tal qual como é imaginado pelos que creem na existência do Diabo. Os cornos curtos eram pontiagudos, a figura era repulsiva e — coisa singular — a estranha personagem parecia não vê-lo em absoluto. Neste momento, o rapaz sentiu um estranho mal-estar, um frio percorreu-lhe a espinha, e, pensando que sonhava, cerrou os olhos; ao abri-los, viu-o novamente na mesma posição impassível.

 

 


 

  Que fazer em semelhante situação? Gritar seria ridículo, fugir impossível: o quarto não tinha janelas, somente um mezanino com grades de ferro deixava coar a luz no modesto aposento; porta, só havia uma, e esta estava bem guardada. Pensava tudo isto com os olhos fechados, e, quando os abriu novamente, nada mais viu. Contou isto simplesmente e disse recordar-se dos mínimos detalhes da horrível aparição; no entanto, como é ateu e nega a existência de todas estas coisas sobrenaturais, disse ele que, depois de algumas horas de insônia e muito nervoso, conseguiu dormir.

No dia seguinte, tomou emprestado livros de Medicina referentes a alucinações e, lendo-os, procurou fortalecer o espírito, convencendo-se de que somente a fraqueza em que se achava ocasionou aquele fato, e ele viu o Diabo como poderia ver um anjo ou outra qualquer coisa.

Olhei-o com interesse, perguntando a mim mesma que espécie de homem seria ele, e por que vira o “demo”, quando existem tantas coisas para se ver, mesmo em alucinações!?

 Uma semana depois nos separamos, e nunca mais ouvi falar do homem que viu o Diabo.

 

 

Fonte: “O Malho”/RJ, edição de 22 de junho de 1929.

Ilustração do miolo da autora.


Notas:



[1] Em francês, no original: chocar, espantar, surpreender.

[2] Em francês, no original: esgotamento físico ou mental.

 

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