OS ABISMOS DO CORAÇÃO - Narrativa Clássica Cruel - Humberto de Campos
OS ABISMOS DO
CORAÇÃO
Humberto de
Campos
(1886 – 1934)
“Uma
colaboração de Shakespeare e de Victorien Sardou teria sido capaz, apenas, de
conceber, para a cena, o assombroso drama passional, que terminou recentemente,
em Bruxelas, perante a Corte Militar, com a absolvição do major de artilharia
Scouvemont, assassino da sua mulher. Os autores de ‘Otelo’ e da ‘Tosca’, eles
próprios, teriam hesitado, talvez, ante a inverossimilhança de detalhes desta
horrível história de amor, de crime e. de sangue".
É
com essas palavras de homem abalado ainda pelas particularidades da tragédia,
que Gérard Harry procede, em uma correspondência da Bélgica para a imprensa
parisiense, o formidável romance humano, ou desumano, que é objeto de
comentários e discussões ainda hoje ali, nos jornais e na tribuna parlamentar.
Ao
rebentar a guerra, em 1914, o tenente Scouvemont, que contava então trinta e
quatro anos, foi dos primeiros a correr à fronteira, para deter o inimigo.
Nenhum outro oficial da sua arma, ou do seu posto, era precedido de tamanha
faina de coragem, de inteligência e de intrepidez. Nas escolas por onde havia
passado, nas missões que havia desempenhado, tinha sido, sempre, o primeiro.
Amado dos chefes e querido pela tropa, adivinhava-se, entre as névoas claras do
seu futuro, a figura de um grande soldado.
Feliz
no seu quartel e na sua carreira, tinha-o sido, igualmente, no seu lar. A
esposa, Yvonne, uma linda moça de vinte e seis anos, havia-lhe dado uma vida
encantadora, quase um idílio de que fora cenário um chalé, que era mais um
ninho do que uma casa, nas proximidades de Mons.
Recuando diante do inimigo, o exército belga
foi deixando para trás, em poder dos alemães, o território da pátria. Liége,
Namur, Charleroi, foram caindo ou sendo cercadas. E finalmente, Mons, onde o
comandante Scouvemont tinha a esposa amada, jovem, radiosa de beleza e de
graça, e, ao lado desta, os seus três filhos, o mais novo dos quais com,
apenas, três anos.
Entre
1914 e 1918, conseguiu Mme. Scouvemont,
duas vezes, permissão para ver o marido. Entrevistas rápidas e vigiadas
serviram, apenas, para mostrar que ambos sofriam. Nesse último ano vem, porém,
o recuo alemão. Perseguidos de perto pelos aliados, as tropas de Guilherme II
abandonam Mons, combatendo. Na sua alegria infantil, feliz por ir rever o pai,
o filho mais velho do major Scouvemont corre para o jardim, saudando a chegada
dos libertadores, que se aproximam. Um obus, o último, lançado pela artilharia
alemã, rebenta na rua. Um estilhaço apanha a criança, que é encontrada no
jardim, o crâneo espedaçado, a bandeira belga nas mãos.
Após
o armistício, volta o major Scouvemont, coberto de glória e de cicatrizes, à
sua casinha em Mons. A guerra envelheceu-o. Cada galão do seu punho representa
cinco anos de vida. Yvonne está linda, mais linda que nunca. Os seus modos não
são, porém, mais os mesmos. Há qualquer coisa de misterioso no seu espírito, e
que ela tenta abafar, afogar no atordoamento mundano. Vive nervosa e
preocupada. Aos cuidados do lar, que o tornavam tão doce, sucederam os chás de
beneficência, as obras de caridade. Atribuindo esse nervosismo intermitente à
morte do filho, o marido sugere viagens, ora à Suíça, ora aos Estados Unidos.
De regresso da América, encontra Yvonne Scouvemont o esposo com a suspeita no
coração. Uma carta destinada à mulher, e que lhe cai nas mãos, abre-lhe uma
porta para o Inferno. As suas desconfianças sobre um médico amigo, frequente na
casa, durante a sua ausência, acentuaram-se. Pesquisas feitas perante as
autoridades alemães, que ocupavam Mons, deram-lhe a certeza do seu infortúnio.
Homem inteligente, espírito alto e coração nobre, o major Scouvemont resolve
agir com prudência e humanidade.
A
princípio vem-lhe, é certo, a ideia de matar os dois amantes, e suicidar-se
depois. O sedutor estava, porém, longe, em viagem, e o seu coração não podia
mais esperar. Do quartel, no dia em que teve a certeza absoluta, mandou ele à
esposa um bilhete, pedindo-lhe que o esperasse, para um assunto grave, e de
solução imediata. “Então — informa o “reporte”[1]
belga —, passa-se uma cena que confundiria a imaginação do mais audacioso
dramaturgo”.
E
descreve, lírico: “É uma alegre tarde de maio. Os pássaros cantam a sua última
canção na folhagem do jardim, antes de esconder a cabeça na asa. Ao chegar, o
oficial afasta os filhos, João e Fernando, encaminhando-se, em seguida, para
Yvonne, a quem diz, à queima-roupa, haver ouvido do próprio amante a confissão
do seu adultério.
— Sim, é verdade...— confirma a esposa.
—
Desde quando?
—
Desde a guerra... Tu não estavas aqui... Eu me sentia só... sozinha... Ele se
apossou de mim... Eu não soube resistir...
—
E por que não rompeste com ele, depois que eu voltei? Dize!
—
Eu não podia. Ele me dominava...
—
E que tinha esse homem de extraordinário, de irresistível, para que tu
capitulasses?
— Nada! Ele me detinha... ele me detém!
—
Ainda?
— Ainda!"
Louco
de cólera, o major Scouvemont atira-se contra Yvonne. Ouve-se uma bofetada.
—
Mata-me! — pede a adúltera, as mãos no rosto. — Mata-me!
Mais
calmo, o oficial chama os filhos.
— Dize aqui a teus filhos — ordena ele — o que
fizeste. Confessa-lhes a tua falta.
Abraçando
as crianças, Yvonne diz-lhes:
—
Meus filhos, eu enganei papai!
Os
pequenos entreolham-se espantados. O oficial, o rosto na mão, medita. De
súbito, levanta-se, e comunica à esposa que ela vai ser julgada. Um tribunal de
honra será constituído ali mesmo. Serão juízes ele, João e Fernando. João tem
quinze anos; Fernando tem doze. Entram todos em casa. Na sala de jantar, o
oficial sobe, ordenando:
— Espera-me, Yvonne!
De
volta, ele manda que ela suba ao seu escritório, e escreva, lá, a confissão do
seu crime, dirigida aos filhos. Ela, que poderia ter fugido, obedece. Na sua
ausência, o tribunal funciona.
— Meus filhos, que se deve fazer? —indaga o
herói do Yser, a voz tremula.
— Eu não sei, papai...— suspira Fernando, com
os seus doze anos.
—
Perdoar! — suplica João.
—
Perdoar é impossível — ruge o pai, precipitando-se para a escada, em direção ao
escritório. Em cima, aproxima-se, e encontra-a escrevendo, tranquilamente.
—
Ainda uma vez, peço-te; deixa esse homem!
—
Ele me domina! — é a resposta, quase apagada... E estende-lhe o papel, em que
ele lê:
“Meus
filhinhos queridos: papai vai me matar. Eu vos adoro. Não vos esqueçais de mim.
Eu o amo também... Vossa mamãezinha desesperada, que vos abraça ternamente —
(assinado – Mamã).”
Três
detonações foram o eco dessa leitura. Sem um grito, sem um movimento de
resistência, Yvonne recebe na cabeça as três balas fatais. Segurando-lhe o
corpo, a fim de que não role no tapete, o major Scouvemont abraça-se, chorando,
à morta, beijando-a, acariciando-a, perdoando-a...
No
seu depoimento, feito sob a sua fé de soldado e de bravo, o criminoso
confessou, com uma convicção de místico:
— Ela abençoou o meu gesto. O seu último olhar
foi de gratidão. Libertei-a de um tormento, de uma obsessão, que lhe tomava
impossível a vida.
E
com serenidade:
— Se aos mortos fosse permitido o julgamento,
ela, que era intimamente pura, beijaria a mão que a libertou de si mesma!
Submetido
a um tribunal militar, foi o major Scouvemont absolvido. Fanático da honra,
como soldado e como homem, não lhe ficou na alma o menor arrependimento.
E
enquanto — acrescenta o jornalista que narra este drama — o criminoso quedava,
sereno, diante da sua consciência e do seu destino, os juízes tremiam,
debruçados, com pavor, sobre os abismos do coração humano...[2]
Fonte: “A Reforma”/AC,
edição de 15 de junho de 1924.
Ilustração da portada:
John Singer Sargent (1856 – 1925).
Ilustração do Miolo: “Vida
Policial”, edição de 25 de abril de 1925.
Notas:
[1] Em francês, no
original: relato.
[2]
Em Mons, Bélgica, na tarde de 2 de maio
de 1923, o major Alphonse Scouvemont disparou três tiros contra a cabeça de
Yvonne (nascida Yvonne Vanderpepen), sua esposa, na residência do casal.

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