A ORELHA - Conto Clássico Cruel - Lucien Descaves

A ORELHA

Lucien Descaves

(1861 – 1949)

Tradução de autor anônimo do séc. XX

 

O hotel dirigido pelo casal Groslevays, sob a insígnia de La Petite Renfile, era situado na vertente do Jura que dá para as margens do Lago Leman, entre as gargantas de La Faucile e de Saint-Cergne. Aparecia a meio da encosta, no escrínio verde-escuro de uma mata de pinheiros, como um dedal de pedra marcado com seis pontos negros, que eram as aberturas da casa no rés do chão e no primeiro andar.

Assim isolada, e na proximidade da Suíça, não gozava de muita boa fama e passava, nessa época, por ser um covil, pelo menos um lugar de encontro de contrabandistas.

Um estreito corredor de entrada separava em baixo a cozinha de uma sala grande exclusivamente mobiliada de mesas e de bancos para os fregueses. De três quartos constava o primeiro andar, em cima do qual um grande celeiro ocupava todo o espaço. Do telhado inclinado, elevava-se, nos dias de bom tempo, uma triste fumaça que se desmanchava nas agulhas dos pinheiros, todo o inverno ativas em cardar as nuvens.

 Os dois quartos que o hoteleiro não ocupava com a sua mulher eram por eles reservados, segundo se dizia, para os fregueses que o nevoeiro, a tempestade, a avalanche de neve ou redobramento da vigilância da alfandega aconselhavam salutares precauções. Esperando uma hora mais propícia, eles podiam estirar o corpo, mesmo vestidos, em dois catres guarnecidos somente de uns dois colchões de palha.

Dizia-se mais que a taverna tinha retiros subterrâneos seguros, raia os fardos de fumo e de pólvora, para o fósforo e a sacarina que os contrabandistas encaminhavam da Suíça à França pelas veredas das montanhas, cujos mínimos desfiladeiros eram deles sobejamente conhecidos.

Finalmente, pessoas bem informadas afirmavam que o serviço da alfândega e as contribuições indiretas, avisados, vigiavam a casa.

Groslevays, na verdade, não parecia nada inquieto. Era homem de um cinquenta anos, robusto, rude e agreste à semelhança da paisagem. A sua basta barba não encanecia senão na ponta, como os pinheiros cujas haste resiste às geadas, conservando o seu manto de folhagem verde escuro, salvo a extremidade branca de neve.

Da Sra. Groslevays, um pouco mais jovem que seu marido, ativa e animada, podia-se igualmente dizer que ninguém a enganava.

Também o casal, dispensando as criadas, atendia a todo o serviço, recompensado do seu esforço e dos bons serviços que prestava na redondeza, pela confiança e a fidelidade dos seus fregueses.

Viam-se sempre mais ou menos os mesmos em La Petite Renfile. Ali se reuniam aos grupos, para jogar cartas, um defronte do outro, os cotovelos na mesa e a cabeça nas mãos. Muitas vezes também enregelados pelo frio, eles sonhavam diante do seu chope, sem, entretanto, perder um só dos ruídos, mesmo leves, mesmo remotos, que fazem os gatos, encolhidos nos cantos, endireitar as orelhas.

Embora eles, na realidade, formassem esquadras, pareciam vindos ali unicamente pelo desejo de beber e bater baralhos em companhia. Fora, dispersavam-se, cada um tomando o seu rumo e boa-noite, até amanhã.

Eu conhecia-os todos de vista e já havia observado os seus modos quando me acontecia estar em caminho na montanha e parar na taverna para tomar fôlego. Mas, não passando nesse sítio senão na boa estação, que acabava ao mais tardar no mês de setembro, eu retirava-me na época mais favorável para o contrabando — o outono e entrada do inverno —, antes das neves, quando anoitece cedo na montanha tristonha.

Eu não era um estranho para os Groslevays, que me viam todos os anos ali voltar. Fazia-lhes em julho a minha primeira visita e trocávamos cortesias. As deles era no modo de falar da Suíça. Assim, perguntavam-me, por exemplo:

—Vai bem de saúde? Madame, passa bem como sempre? E as crianças, sempre traquinas? Tanto melhor!

Ora, este ano, entrando na taverna, tive a sensação que a desgraça ali penetrara antes de mim, durante o inverno. Tive essa sensação ao receber o bafo úmido e ao ar de abandono que me acolheram na sala geral, onde os postigos, que se descuidaram de abrir, faziam completa escuridão.

A minha presença e o barulho de meus passos, propositalmente ruidosos no chão de ladrilho, não fazendo aparecer ninguém, dirigi-me para os lados da cozinha, cuja porta estava meio aberta. Então,9 a hoteleira veio ao meu encontro e cumprimentou-me, mas sem as demonstrações às quais ela me acostumara. Quanto ao homem, sentado numa cadeira a um canto, nem se levantou, conservou o chapéu na cabeça e estendeu-me somente a mão inerte e febril.

Ele mudara muito, mas atribuí a princípio a sua transformação ao aspecto doentio que lhe dava uma larga atadura preta embrulhando a cabeça, e que o chapéu cobria inteiramente, não deixando de fora senão a parte que descia obliquamente da testa e cobria a orelha direita. Houve entre nós um momento embaraçoso de silêncio. Por fim, procurei conversar e perguntei aos Groslevays:

— Então, que há? O senhor está passando mal de saúde?

A mulher respondeu no seu lugar:

— Sim, está. Passou o inverno muito mal. Resfriou-se... Está custando a ficar bom...

Mostrei com um gesto a atadura:

— Feriu-se?

Ela disse vivamente:

—Não, não!  É nevralgia, enxaqueca... Não se sabe bem o que é... É preciso aplicar-lhe constantemente compressas... Evitar as correntezas, proteger-lhe sobretudo a cabeça...

Groslevays não acrescentou uma palavra a essa explicação; contentou-se em enterrar ainda mais o seu chapéu mole de abas, tanto que a atadura preta ainda ficou menos visível.

A conversa não se animava; não insisti e despedi-me do casal.

Quis o acaso que esse dia, justamente, eu encontrasse, no caminho, o entregador do correio da montanha e descemos juntos. Eu prestara-lhe o ano antecedente um pequeno serviço e entrei em conversa sem preâmbulos.

— Que foi que aconteceu em casa dos Groslevays este inverno?

O entregador do correio disse entre os dentes:

— Muita coisa...

— Que coisa?

— Coisas de que não se tem muita certeza... Boatos que correm, sabe? Talvez não seja boa a informação. Enfim, aqui está o que se conta... Bem entendido, fica entre nós. No mês de novembro passado, cinco rapazes do lugar foram presos ao mesmo tempo na montanha, com a sua carga de pólvora e de fumo, cento e cinquenta quilos... Condenaram-nos a meses de prisão e a multas que se converteram em castigos corporais.... Ora, parece que eles souberam que os Groslevays os haviam traído.

— E esta?  — exclamei eu. — É impossível! Estou mais disposto a crer que ele estava sempre pronto a esconder-lhes o roubo, quando necessário, e isso no seu próprio interesse...

— Justamente! Foi no seu interesse que ele os traiu. Os despachantes da Alfândega, sabendo que ele escondia muitas mercadorias de contrabando, puseram-lhe, como se diz, a corda ao pescoço. Enfim, para evitar que lhe fizessem uma devassa em casa e as consequências que daí decorreriam, ele traiu a esquadra de contrabandistas que lhe retirava de casa o comprometedor depósito.

— Não será talvez alguma suposição sem fundamento?

— Não digo que não... Seja como for, aconteceu o seguinte. Os cinco contrabandistas estavam presos, quando, uma noite de janeiro, Groslevays foi chamado a Saint-Claude por um telegrama da irmã, que estava muito mal, para morrer. Ele partiu a pé e não voltou senão dois dias depois. Ah, senhor, em que estado! Caiu numa emboscada de contrabandistas que vingaram cruelmente os companheiros denunciados, decepando a orelha direita do delator.

— Sempre é uma plausível explicação do pano preto que ele não tira! — disse eu, interrompendo.

O entregador do correio continuou:

— Groslevays voltou à taverna e não disse palavra da sua aventura, a não ser à mulher, que tratou dele. Pois não mandaram chamar o médico. Não era um ferimento de que ele se poderia gabar, nada glorioso, não é? Mas, para dizer a verdade, sofreu menos disso que da tácita combinação dos fregueses de desertar a sua taverna de um dia para o outro.

— Isto também não é justo — observei eu.  — Se ele tivesse realmente cometido a feia ação de que o acusavam, já estava bastante castigado e a expiação devia cessar. Tanto mais que ele podia dar queixa e mandar prender os seus agressores,

— Sem dúvida. Ficando calado, ele nada lucrou, pois a freguesia que ele protegia não lhe volta. E não volta porque tomou o seu silêncio por confissão. Olhe, estou certo que ele daria de bom grado a sua outra orelha para ver de novo a sua taverna frequentada como antes... Mas está acabado de uma vez... Os contrabandistas, com quem ele procurou falar, fingiram não saber o que ele queria dizer. Nem por que a taberna era abandonada. E eles vão beber em outra.

Por duas vezes voltei à casa dos Groslevays. Encontrei-os na cozinha, tristonhos, acabrunhados, indiferentes às minhas amabilidades. E, todas as vezes, o homem, avistando-me, enterrava o chapéu na cabeça e me apresentava a única orelha que ficava a descoberto.

— Continuam sempre as malditas nevralgias? — dizia eu para provocar confidências.

— Sempre a mesma coisa! — respondia a mulher, cuja voz soava lúgubre na casa deserta.

Passou-se um ano.

Quando voltei ao Jura, o meu primeiro cuidado foi procurar o entregador do correio para saber as notícias. Ele não se fez de rogado.

— O senhor não verá mais os Groslevays — disse ele.  — O taverneiro morreu e a mulher, depois de passar a taverna a outro, desapareceu.

— E então, e a coisa... Sempre pôde tirar a limpo a questão? Era Groslevays realmente culpado da suposta delação?

— É verdade, o senhor não sabe o fim do folhetim... embora o seguimento seja novidade de ontem e não de amanhã! Pois, há uns três meses, o nosso homem sucumbiu à enfermidade, ao remorso, à solidão. Todo o inverno eu via-o decair, acabar-se... Mesmo quando eu não tinha nada para entregar, eu entrava na taverna... e madame Groslevays era-me grata, pois não entrava ali senão eu.

O dia seguinte da morte de seu marido, levei um pacote postal mandado de Lausane para a viúva. Era uma caixinha contendo um vidro com espírito de vinho... e nesse vidro nadava uma orelha... a orelha cortada de Groslevays!

— Até parece gracejo!

— Vi-a como o estou vendo. O vidro estava embrulhado numa folha de papel branco todo furado com alfinete; os furos representavam letras para melhor disfarçar a letra, compreende?...

— E que dizia a singular missiva?

— O seguinte: “Agora que ele nunca mais fará mal a ninguém, pode ser enterrado com as suas duas orelhas”.

— O senhor viu?

— Vi... e mais ainda, pois ajudei a boa mulher a enterrar o morto. Ela cumpriu o voto dos que haviam mutilado o seu marido... Posso dar testemunho. Se duvidarem, desenterrem o taverneiro: acharão entre as suas mãos cruzadas, como se fosse um crucifixo, o vidro contendo a orelha que os contrabandistas lhe restituíram.

 

Fonte: “Selecta”/RJ, edição de 20 de setembro de 1929.

Ilustração: Vincent van Gogh (1853 – 1890).

 

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