A TESTEMUNHA INVOLUNTÁRIA - Conto Clássico Cruel - Lucien Descaves

A TESTEMUNHA INVOLUNTÁRIA

Lucien Descaves

(1861 – 1949)

Tradução de autor anônimo do séc. XX

 

O expresso, que parte da estação de Lião às nove e um quarto, levava, naquela tarde, pouca gente. Regressava-se de Nice muito mais do que se ia.

Não havia a costumada animação na plataforma, ao longo dos vagões-leitos, vastos apartamentos ambulantes que esperavam o seu locatário de uma noite. Alguns homens acabavam um charuto; três ou quatro famílias estrangeiras, já senhoras do seu quarto, instalavam-se comodamente, soberanamente; carregadores, com bagagens nas mãos ou sobre os ombros, precediam o viajante que quer reservar-se um cantinho; um empregado oferecia cobertores e travesseiros empilhados sobre um carrinho de mão; uma vendedora de jornais, sem os ter mais, lá estava por simples hábito.

Não havia, à roda dos que partiam, o grupo de parentes e amigos, que se observa à saída dos expressos, em certas épocas do ano.

Uma velhota, entretanto, corpulenta e sufocada pelo enfisema, adiantava-se apoiada no braço de um homem de mais ou menos trinta anos, que parecia não dever acompanhá-la além de seu vagão. Manifestava-lhe os mais solícitos cuidados, moderava o passo quando ela se sentia fatigada, respirando com dificuldade.

— Não te atormentes, mamãe. Serás bem guardada, garanto-te eu.

— Oh, bem sei que estou ranzinzando...

— Não! Queres tranquilizar-te e compreendo-o perfeitamente, tanto mais que eu compartilharia da tua inquietação, se ela tivesse que subsistir...

— Não quero, principalmente, o vagão reservado às senhoras!...

— Arriscar-te-ias, efetivamente, a ficar sozinha; o que é preciso evitar.

— Nem o dos fumantes, bem entendido...

— E no vagão em que não houver crianças, se é possível, porque te impediriam de dormir se não dormissem.

— Estás me debicando...

— Oh, mamãe! Pelos tempos que correm, nunca as medidas de segurança são demais...

— E a audácia dos criminosos!... Estão espalhados por toda a parte. Em quem ter confiança?

— Em mim, mamãe. Se o meu labor me permitisse uma ausência de alguns dias, teriam sido teus. Mas, não só não sou livre, como espero que a minha tia exagere a gravidade do seu estado, chamando-te junto dela, e que a tua ausência seja muito curta.

Pararam diante do vagão do meio e o filho carinhoso disse ainda:

—Vou descobrir o que precisas. Espera-me...

E, pulando no estribo, ele entrou no corredor que dá acesso nos compartimentos e explorou-os um por um.

Quando voltou ao lado dela, disse ele, alegremente:

— Cavei um esplendido lugar. Calcula que viajarás com... adivinha? Com dois recém-casadinhos! De vocês três, o mais digno de lastima não és tu. É provável que os atrapalharás um pouco... e mesmo muito. Mas fingirás que estás dormindo.

A velhota não acolheu logo essa notícia com grande entusiasmo.

— Recém-casados? Como o podes saber? É uma simples suposição da tua parte...

— Sim. Quando passei em frente ao seu compartimento, estavam ternamente enlaçados. Já! Mas as suas efusões não são, em suma, preferíveis à correção de um sujeito qualquer que arrancaria a máscara logo que te visse cochilando? Com esses dois, pelo menos, estás prevenida.

— De tal forma que receio até perturbá-los.

— Qual o quê! Permite-me ser egoísta e pensar, unicamente, no teu repouso — e no meu.

Ela não hesitou mais. Ele auxiliou-a a subir no vagão, levou-a para o local escolhido no fim do corredor.

Os dois jovens ocupavam apenas dois lugares perto da porta, mas com o ingênuo e habitual intuito de fazer crer que os outros estavam retidos, tinham espalhado, diante deles uma valise, um saco, um cobertor e um indicador.

 

 


 

A intrusa, para chegar ao canto oposto, pediu desculpas aos casadinhos de fresco, os quais, ouvindo ruído, afastaram-se ligeiramente um do outro e, sem o menor vexame, continuaram a conversar em voz baixa, enquanto a velha e o filho trocavam algumas palavras ainda antes de se deixarem.

— Se os perturbares, sabes o que temo agora, mamãe? Que eles abandonem este compartimento, deixando-te só! Mal sabem eles a contrariedade que experimentaríamos!

Mas os dois jovens no seu enlevo não cogitavam de procurar outra solidão.

Os empregados fechavam as portinholas; o filho e a mãe beijaram-se uma última vez e separaram-se finalmente.

Um silvo. O trem pôs-se em marcha.

A velhota, então, examinou disfarçadamente os seus companheiros de viagem, aos quais a sua presença era manifestadamente indiferente.

Ele — alto, robusto, muito moreno — parecia ter uns vinte e oito anos e o aspecto de um militar à paisana, com o seu espesso bigode, seus cabelos cortados rentes, seu olhar decidido. Ela, ao contrário, pequena, franzina, alva e loura, devia ter dezesseis ou dezessete anos; mas o brilho febril dos seus olhos azuis e uma certa desordem espalhada sobre as suas finas feições por outros sentimentos que o da impaciência da ventura, tornavam-na mais idosa.

Viagem de núpcias? Provavelmente. Não era o caminho da Côte d’Azur, e da Itália, Florença, Veneza, Nápoles, estações de amor estabelecidas pelo uso?...

Quarenta anos antes, a velha fizera também essa peregrinação... E, com os olhos semicerrados, recordava-se; no seu íntimo, dizia: “Ainda se vai lá!”.

—Tão engraçadinhos que eles são! Fazem mal ocupando-se de mim. Eu não deveria ter ouvido Henrique; o malfeitor sou eu, que me intrometo no seu sonho. Não lhes posso dar ânimo senão fechando os olhos! Eles me rogam pragas, não há dúvida, e têm razão, os coitadinhos!

Eles cochilavam entre si, é verdade, depois de terem olhado a vizinha de esguelha, mas nada na sua atitude indicava um intuito de represálias. Em Laroche, o trem parou cinco minutos. Eles levantaram-se e foram para o corredor, onde, de pé, prosseguiram a sua palestra, até o trem partir de novo.

— É para que eu possa conciliar o sono — pensou a velhota. Ah! Vou lhes dar de boa vontade esta satisfação! Que devo eu recear destes pombinhos ...

E ela começava a cochilar, quando os dois entraram e tomaram as suas disposições para a noite. Ele fechou cuidadosamente a porta e correu as cortinas, enquanto a sua companheira, refastelada num canto, estendia sobre os joelhos o cobertor.

— Eis o momento de deixá-los à vontade...

E a velha, elevando a voz e fingindo despertar, disse:

— O senhor far-me-ia o obséquio de cobrir esta lâmpada... A do meu lado? Sinto não poder fazê-lo eu mesma. Peço-lhe desculpas...

Ele cumprimentou cortesmente; mas, em lugar de atender ao pedido da viajante, sentou-se defronte dela e respondeu:

— Sou eu, somos nós, minha senhora, que íamos justamente pedir-lhe perdão, no mais rigoroso sentido da palavra, porque o acaso quer que a senhora represente, na nossa vida, um papel do qual desejaríamos bem poupar-lhe as atribulações...

— Não compreendo...

— Queira prestar-me alguns minutos de atenção e compreenderá.  Somos, esta senhorita e eu, o que parecemos ser... recém-casados; mas a nossa viagem de núpcias tem esta singularidade: partimos com a certeza absoluta de não chegarmos... pelo menos vivos, ao nosso destino...

Ele falava tão seriamente que a sua confidente, um pouco desconcertada por esse preâmbulo, esperou a confirmação para ter uma atitude.

Ele prosseguiu:

— Permita antes, minha senhora, que nos apresentemos. Chamo-me Fernando Braier. Sou tenente de infantaria em Toulon e vou para o meu posto. Senhorita Alice Guéret é a filha do Sr. Guéret, o grande manufatureiro. Conheci-a no inverno passado, em casa de amigos comuns. Amamo-nos. Obtive uma licença para vir pedir a sua mão aos pais. Não me deram. Sou pobre; ela é rica. A minha licença acaba amanhã de manhã. Poderíamos fugir e fazer do consentimento dos pais de Alice a condição do nosso regresso. Mas essa chantagem repugna-nos. É melhor partirmos juntos para o país de onde não se volta nunca mais. Eis, pois, minha senhora, o serviço que reclamamos da sua parte, um pouco despoticamente, sem dúvida, mas não obedecemos nós mesmos a imperiosas circunstâncias?

— Estarei lidando com um louco? — interrogava-se a velha, ouvindo esse singular discurso. E, para certificar-se, ela fitava a jovem que, com olhos faiscantes, aprovava, torneando a cabeça, a declaração de seu marido... ou de seu companheiro.

Era preciso, entretanto, responder alguma coisa.

— Não percebo — disse a velha — qual possa ser o papel que devo representar no pequeno romance do qual o senhor expôs tão bem o enredo. Declino, em todo o caso...

O oficial interrompeu-a.

— Teremos, pois, o pesar de considerar como nula a sua resistência...

— Sim... o pesar — disse a jovem, cujos olhos ardiam no doloroso rosto.

O outro continuou:

— Tínhamos pensado no suicídio certificado por uma carta que teria sido achada sobre nós. Precedentes desagradáveis dissuadiram-me, porém, de recorrer a esse meio. Dos dois amantes, decididos a morrerem juntos, tem acontecido, efetivamente, que um matasse o outro, sem morrer também depois, o que é ridículo e sujeito às piores suposições. Como nunca se sabe, por falta de testemunhas, o que se passou exatamente; o sobrevivente, seja qual for a sua boa-fé, parece anunciar um projeto que, propositalmente, executou pelo meio. Enquanto que um testemunho sincero, como o seu, minha senhora, não levantará a menor dúvida, se, por acaso, falharem as nossas intenções.

Dessa vez a velha julgou ter compreendido e, conservando todo o seu sangue-frio, respondeu, sorrindo:

— O senhor é realmente espirituoso, assim como a senhorita, e mereço a pequena lição que me deram. Estou de acordo que um terceiro, esta noite, é de fato importuno; como não quero por mais tempo perturbar o seu idílio, peço-lhe a fineza de ajudar-me a passar para o compartimento vizinho e abandonar-lhes-ei este de todo coração, onde me introduzi tão indiscretamente.

Os dois esposos fitaram-se em silêncio; depois, de seu lugar, e sempre com toda a polidez, a jovem disse:

— A senhora engana-se redondamente acerca da veracidade da nossa confidência. Se preferimos este vagão a um quarto de hotel, é justamente devido à facilidade de fiscalização que nos oferecia a presença de uma testemunha. Ainda uma vez sentimos enormemente sacrificar a sua tranquilidade em nossa vantagem, mas é-nos impossível agir de outro modo. A minha fuga já foi denunciada. Quem sabe se, em Dijon, o comissário de polícia não está avisado da nossa passagem!... Não temos mais tempo a perder...

Curvou-se para a frente, pegou a sua valise e, tendo-a aberto, tirou de dentro um revólver, uma pequena arma cintilante que colocou sobre os seus joelhos.

A velha mudou imediatamente de tom.

— Acabem com isto! A brincadeira, prolongando-se, tornar-se-ia de mau gosto. Verei, chegando em Dijon, o que devo fazer.

O oficial levantou-se e inclinou-se.

— Queira desculpar se lhe infligimos explicações um pouco longas, mas o ato que vamos praticar tornava-as indispensáveis.

Convencida que estavam divertindo-se à sua custa, a velha não respondeu; mas o revólver nas mãos da moça, seu ar estranho, a polidez despida de ironia dos dois mistificadores começava a inquietá-la.

— São talvez loucos — pensou ela. — Tão perigosos quanto os malfeitores. Em Dijon, procurarei um outro compartimento. Se até lá continuarem a divagar, eu...

Ela mediu com o olhar a distância que a separava da campainha de alarme. Para atingi-la, bastava dar um passo e estender o braço. Esperava, porém, não chegar a esse extremo...

Os dois jovens, sentados de novo um defronte do outro, tinham reencetado a sua conversa e pareciam não se preocupar com a estranha.

— É isto mesmo — cogitou esta.  — Quiseram divertir-se à minha custa, mas compreenderam a inconveniência da sua troça em relação a uma pessoa da minha idade e vão me deixar quieta.

Consultou o seu relógio. Chegar-se-ia daí a pouco em Dijon. Afastou a cortina lateral; o trem, que corria através de um deserto, falho de luzes, passava como uma flecha diante de uma estaçãozinha posta como uma sentinela à margem da estrada e guardando uma aldeia estirada lá longe, nas trevas...

De súbito, o leve ruído de uma detonação fez-lhe crer que tinham atirado sobre ela, por trás...

Virou-se sobressaltada, ergueu-se e foi lançada sobre a almofada por uma sacudidela. A moça loura não se tinha mexido, quedava-se imóvel, com os olhos esbugalhados. Seu corpinho, porém, estava aberto e o braço dobrado sobre o coração; ela segurava ainda na mão a arma que lhe dera a morte. O oficial tirou-a vagarosamente, depois disse:

— A senhora é testemunha involuntária de que a minha adorada Alice se matou voluntariamente; e de que não tenho a intenção de sobreviver-lhe.

E, levando o revólver ao peito, puxou o gatilho.

Sobrepujando a sua falta de vigor, a velha, doida de terror, conseguira puxar a campainha de alarma.

O trem arrastou-se ainda uns cem metros e estacou em pleno campo, no negror da noite...

 

Fonte: “Selecta”/RJ, edição de 22 de maio de 1919.

Fizeram-se breves adaptações textuais.

Ilustração do miolo: Ricardo López Cabrera (1864 – 1950).

 

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