A TESTEMUNHA INVOLUNTÁRIA - Conto Clássico Cruel - Lucien Descaves
A TESTEMUNHA
INVOLUNTÁRIA
Lucien Descaves
Tradução de autor anônimo do séc. XX
O
expresso, que parte da estação de Lião às nove e um quarto, levava, naquela
tarde, pouca gente. Regressava-se de Nice muito mais do que se ia.
Não
havia a costumada animação na plataforma, ao longo dos vagões-leitos, vastos apartamentos
ambulantes que esperavam o seu locatário de uma noite. Alguns homens acabavam
um charuto; três ou quatro famílias estrangeiras, já senhoras do seu quarto,
instalavam-se comodamente, soberanamente; carregadores, com bagagens nas mãos
ou sobre os ombros, precediam o viajante que quer reservar-se um cantinho; um
empregado oferecia cobertores e travesseiros empilhados sobre um carrinho de
mão; uma vendedora de jornais, sem os ter mais, lá estava por simples hábito.
Não
havia, à roda dos que partiam, o grupo de parentes e amigos, que se observa à
saída dos expressos, em certas épocas do ano.
Uma
velhota, entretanto, corpulenta e sufocada pelo enfisema, adiantava-se apoiada
no braço de um homem de mais ou menos trinta anos, que parecia não dever acompanhá-la
além de seu vagão. Manifestava-lhe os mais solícitos cuidados, moderava o passo
quando ela se sentia fatigada, respirando com dificuldade.
—
Não te atormentes, mamãe. Serás bem guardada, garanto-te eu.
—
Oh, bem sei que estou ranzinzando...
—
Não! Queres tranquilizar-te e compreendo-o perfeitamente, tanto mais que eu
compartilharia da tua inquietação, se ela tivesse que subsistir...
—
Não quero, principalmente, o vagão reservado às senhoras!...
—
Arriscar-te-ias, efetivamente, a ficar sozinha; o que é preciso evitar.
—
Nem o dos fumantes, bem entendido...
—
E no vagão em que não houver crianças, se é possível, porque te impediriam de
dormir se não dormissem.
—
Estás me debicando...
—
Oh, mamãe! Pelos tempos que correm, nunca as medidas de segurança são demais...
—
E a audácia dos criminosos!... Estão espalhados por toda a parte. Em quem ter
confiança?
—
Em mim, mamãe. Se o meu labor me permitisse uma ausência de alguns dias, teriam
sido teus. Mas, não só não sou livre, como espero que a minha tia exagere a gravidade
do seu estado, chamando-te junto dela, e que a tua ausência seja muito curta.
Pararam
diante do vagão do meio e o filho carinhoso disse ainda:
—Vou
descobrir o que precisas. Espera-me...
E,
pulando no estribo, ele entrou no corredor que dá acesso nos compartimentos e
explorou-os um por um.
Quando
voltou ao lado dela, disse ele, alegremente:
—
Cavei um esplendido lugar. Calcula que viajarás com... adivinha? Com dois recém-casadinhos!
De vocês três, o mais digno de lastima não és tu. É provável que os
atrapalharás um pouco... e mesmo muito. Mas fingirás que estás dormindo.
A
velhota não acolheu logo essa notícia com grande entusiasmo.
—
Recém-casados? Como o podes saber? É uma simples suposição da tua parte...
—
Sim. Quando passei em frente ao seu compartimento, estavam ternamente
enlaçados. Já! Mas as suas efusões não são, em suma, preferíveis à correção de
um sujeito qualquer que arrancaria a máscara logo que te visse cochilando? Com
esses dois, pelo menos, estás prevenida.
—
De tal forma que receio até perturbá-los.
—
Qual o quê! Permite-me ser egoísta e pensar, unicamente, no teu repouso — e no
meu.
Ela
não hesitou mais. Ele auxiliou-a a subir no vagão, levou-a para o local
escolhido no fim do corredor.
Os
dois jovens ocupavam apenas dois lugares perto da porta, mas com o ingênuo e
habitual intuito de fazer crer que os outros estavam retidos, tinham espalhado,
diante deles uma valise, um saco, um cobertor e um indicador.
A
intrusa, para chegar ao canto oposto, pediu desculpas aos casadinhos de fresco,
os quais, ouvindo ruído, afastaram-se ligeiramente um do outro e, sem o menor
vexame, continuaram a conversar em voz baixa, enquanto a velha e o filho
trocavam algumas palavras ainda antes de se deixarem.
—
Se os perturbares, sabes o que temo agora, mamãe? Que eles abandonem este
compartimento, deixando-te só! Mal sabem eles a contrariedade que experimentaríamos!
Mas
os dois jovens no seu enlevo não cogitavam de procurar outra solidão.
Os
empregados fechavam as portinholas; o filho e a mãe beijaram-se uma última vez
e separaram-se finalmente.
Um
silvo. O trem pôs-se em marcha.
A
velhota, então, examinou disfarçadamente os seus companheiros de viagem, aos quais
a sua presença era manifestadamente indiferente.
Ele
— alto, robusto, muito moreno — parecia ter uns vinte e oito anos e o aspecto
de um militar à paisana, com o seu espesso bigode, seus cabelos cortados
rentes, seu olhar decidido. Ela, ao contrário, pequena, franzina, alva e loura,
devia ter dezesseis ou dezessete anos; mas o brilho febril dos seus olhos azuis
e uma certa desordem espalhada sobre as suas finas feições por outros
sentimentos que o da impaciência da ventura, tornavam-na mais idosa.
Viagem
de núpcias? Provavelmente. Não era o caminho da Côte d’Azur, e da Itália,
Florença, Veneza, Nápoles, estações de amor estabelecidas pelo uso?...
Quarenta
anos antes, a velha fizera também essa peregrinação... E, com os olhos semicerrados,
recordava-se; no seu íntimo, dizia: “Ainda se vai lá!”.
—Tão
engraçadinhos que eles são! Fazem mal ocupando-se de mim. Eu não deveria ter
ouvido Henrique; o malfeitor sou eu, que me intrometo no seu sonho. Não lhes
posso dar ânimo senão fechando os olhos! Eles me rogam pragas, não há dúvida, e
têm razão, os coitadinhos!
Eles
cochilavam entre si, é verdade, depois de terem olhado a vizinha de esguelha,
mas nada na sua atitude indicava um intuito de represálias. Em Laroche, o trem
parou cinco minutos. Eles levantaram-se e foram para o corredor, onde, de pé, prosseguiram
a sua palestra, até o trem partir de novo.
—
É para que eu possa conciliar o sono — pensou a velhota. Ah! Vou lhes dar de
boa vontade esta satisfação! Que devo eu recear destes pombinhos ...
E
ela começava a cochilar, quando os dois entraram e tomaram as suas disposições
para a noite. Ele fechou cuidadosamente a porta e correu as cortinas, enquanto
a sua companheira, refastelada num canto, estendia sobre os joelhos o cobertor.
—
Eis o momento de deixá-los à vontade...
E
a velha, elevando a voz e fingindo despertar, disse:
—
O senhor far-me-ia o obséquio de cobrir esta lâmpada... A do meu lado? Sinto
não poder fazê-lo eu mesma. Peço-lhe desculpas...
Ele
cumprimentou cortesmente; mas, em lugar de atender ao pedido da viajante,
sentou-se defronte dela e respondeu:
—
Sou eu, somos nós, minha senhora, que íamos justamente pedir-lhe perdão, no
mais rigoroso sentido da palavra, porque o acaso quer que a senhora represente,
na nossa vida, um papel do qual desejaríamos bem poupar-lhe as atribulações...
—
Não compreendo...
—
Queira prestar-me alguns minutos de atenção e compreenderá. Somos, esta senhorita e eu, o que parecemos
ser... recém-casados; mas a nossa viagem de núpcias tem esta singularidade:
partimos com a certeza absoluta de não chegarmos... pelo menos vivos, ao nosso
destino...
Ele
falava tão seriamente que a sua confidente, um pouco desconcertada por esse
preâmbulo, esperou a confirmação para ter uma atitude.
Ele
prosseguiu:
—
Permita antes, minha senhora, que nos apresentemos. Chamo-me Fernando Braier.
Sou tenente de infantaria em Toulon e vou para o meu posto. Senhorita Alice
Guéret é a filha do Sr. Guéret, o grande manufatureiro. Conheci-a no inverno
passado, em casa de amigos comuns. Amamo-nos. Obtive uma licença para vir pedir
a sua mão aos pais. Não me deram. Sou pobre; ela é rica. A minha licença acaba
amanhã de manhã. Poderíamos fugir e fazer do consentimento dos pais de Alice a
condição do nosso regresso. Mas essa chantagem repugna-nos. É melhor partirmos
juntos para o país de onde não se volta nunca mais. Eis, pois, minha senhora, o
serviço que reclamamos da sua parte, um pouco despoticamente, sem dúvida, mas
não obedecemos nós mesmos a imperiosas circunstâncias?
—
Estarei lidando com um louco? — interrogava-se a velha, ouvindo esse singular
discurso. E, para certificar-se, ela fitava a jovem que, com olhos faiscantes,
aprovava, torneando a cabeça, a declaração de seu marido... ou de seu companheiro.
Era
preciso, entretanto, responder alguma coisa.
—
Não percebo — disse a velha — qual possa ser o papel que devo representar no
pequeno romance do qual o senhor expôs tão bem o enredo. Declino, em todo o
caso...
O
oficial interrompeu-a.
—
Teremos, pois, o pesar de considerar como nula a sua resistência...
—
Sim... o pesar — disse a jovem, cujos olhos ardiam no doloroso rosto.
O
outro continuou:
—
Tínhamos pensado no suicídio certificado por uma carta que teria sido achada
sobre nós. Precedentes desagradáveis dissuadiram-me, porém, de recorrer a esse
meio. Dos dois amantes, decididos a morrerem juntos, tem acontecido, efetivamente,
que um matasse o outro, sem morrer também depois, o que é ridículo e sujeito às
piores suposições. Como nunca se sabe, por falta de testemunhas, o que se
passou exatamente; o sobrevivente, seja qual for a sua boa-fé, parece anunciar
um projeto que, propositalmente, executou pelo meio. Enquanto que um testemunho
sincero, como o seu, minha senhora, não levantará a menor dúvida, se, por
acaso, falharem as nossas intenções.
Dessa
vez a velha julgou ter compreendido e, conservando todo o seu sangue-frio,
respondeu, sorrindo:
—
O senhor é realmente espirituoso, assim como a senhorita, e mereço a pequena
lição que me deram. Estou de acordo que um terceiro, esta noite, é de fato
importuno; como não quero por mais tempo perturbar o seu idílio, peço-lhe a
fineza de ajudar-me a passar para o compartimento vizinho e abandonar-lhes-ei
este de todo coração, onde me introduzi tão indiscretamente.
Os
dois esposos fitaram-se em silêncio; depois, de seu lugar, e sempre com toda a
polidez, a jovem disse:
—
A senhora engana-se redondamente acerca da veracidade da nossa confidência. Se
preferimos este vagão a um quarto de hotel, é justamente devido à facilidade de
fiscalização que nos oferecia a presença de uma testemunha. Ainda uma vez
sentimos enormemente sacrificar a sua tranquilidade em nossa vantagem, mas
é-nos impossível agir de outro modo. A minha fuga já foi denunciada. Quem sabe
se, em Dijon, o comissário de polícia não está avisado da nossa passagem!...
Não temos mais tempo a perder...
Curvou-se
para a frente, pegou a sua valise e, tendo-a aberto, tirou de dentro um revólver,
uma pequena arma cintilante que colocou sobre os seus joelhos.
A
velha mudou imediatamente de tom.
—
Acabem com isto! A brincadeira, prolongando-se, tornar-se-ia de mau gosto.
Verei, chegando em Dijon, o que devo fazer.
O
oficial levantou-se e inclinou-se.
—
Queira desculpar se lhe infligimos explicações um pouco longas, mas o ato que
vamos praticar tornava-as indispensáveis.
Convencida
que estavam divertindo-se à sua custa, a velha não respondeu; mas o revólver
nas mãos da moça, seu ar estranho, a polidez despida de ironia dos dois
mistificadores começava a inquietá-la.
—
São talvez loucos — pensou ela. — Tão perigosos quanto os malfeitores. Em Dijon,
procurarei um outro compartimento. Se até lá continuarem a divagar, eu...
Ela
mediu com o olhar a distância que a separava da campainha de alarme. Para atingi-la,
bastava dar um passo e estender o braço. Esperava, porém, não chegar a esse
extremo...
Os
dois jovens, sentados de novo um defronte do outro, tinham reencetado a sua
conversa e pareciam não se preocupar com a estranha.
—
É isto mesmo — cogitou esta. — Quiseram
divertir-se à minha custa, mas compreenderam a inconveniência da sua troça em
relação a uma pessoa da minha idade e vão me deixar quieta.
Consultou
o seu relógio. Chegar-se-ia daí a pouco em Dijon. Afastou a cortina lateral; o
trem, que corria através de um deserto, falho de luzes, passava como uma flecha
diante de uma estaçãozinha posta como uma sentinela à margem da estrada e
guardando uma aldeia estirada lá longe, nas trevas...
De
súbito, o leve ruído de uma detonação fez-lhe crer que tinham atirado sobre
ela, por trás...
Virou-se
sobressaltada, ergueu-se e foi lançada sobre a almofada por uma sacudidela. A
moça loura não se tinha mexido, quedava-se imóvel, com os olhos esbugalhados.
Seu corpinho, porém, estava aberto e o braço dobrado sobre o coração; ela
segurava ainda na mão a arma que lhe dera a morte. O oficial tirou-a vagarosamente,
depois disse:
—
A senhora é testemunha involuntária de que a minha adorada Alice se matou voluntariamente;
e de que não tenho a intenção de sobreviver-lhe.
E,
levando o revólver ao peito, puxou o gatilho.
Sobrepujando
a sua falta de vigor, a velha, doida de terror, conseguira puxar a campainha de
alarma.
O
trem arrastou-se ainda uns cem metros e estacou em pleno campo, no negror da
noite...
Fonte:
“Selecta”/RJ, edição de 22 de maio de 1919.
Fizeram-se
breves adaptações textuais.
Ilustração
do miolo: Ricardo López Cabrera (1864 – 1950).


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