AS ÚLTIMAS SENSAÇÕES DE UM GUILHOTINADO E AS PRIMEIRAS DE UM MORTO - Narrativa Clássica Verídica de Horror - Autor anônimo do séc. XX
AS
ÚLTIMAS SENSAÇÕES DE UM GUILHOTINADO E AS PRIMEIRAS DE UM MORTO
Autor
anônimo do séc. XX
Este
título sinistro, que bem ficaria na capa de um romance policial de pura
imaginação é, entretanto, a rigorosa epígrafe que, com justiça, cabe à macabra
experiência feita há alguns anos, mas só há pouco divulgada, porque só há pouco
foi comunicada às sociedades chamadas “sábias” da Europa.
Wiertz[1],
célebre pintor belga, amador do ocultismo, foi sempre, como muitos outros,
atormentado pelo desejo de saber o que pode pensar um guilhotinado no momento
em que o cutelo fatal lhe corta o pescoço e, se possível, depois de tal
momento.
Esse
artista, de nome universal e honrosamente conhecido, foi o herói da experiência
aludida. De um certo modo, ele submeteu-se em pessoa à ação do horrível aparelho
de morte que tornou famoso, aliás erroneamente, o Dr. Guillotin, dado como seu
inventor.
MACABRA
IDEIA
Wiertz
era intimamente ligado com um médico da prisão de Bruxelas. Um outro médico,
seu amigo também, guiava-o nos estudos ocultos, e, como se dedicasse mais
particularmente à hipnose, havia, frequentes vezes, adormecido o artista, no
qual encontrara magníficos dons de exteriorização da sensibilidade, fenômeno
cuja pesquisa imortalizou o célebre coronel de Rochas[2],
antigo diretor da Escola Politécnica de Paris.
Ia
realizar-se na capital belga uma execução capital. Alguns dias antes, Wiertz submetera-se,
diversas vezes, à ação magnética de seu amigo que, quando o paciente se achava
adormecido, habituou-o a identificar-se com várias pessoas, buscando fazê-lo
penetrar no mais íntimo do pensamento desses terceiros, nas dobras mais
recônditas das suas consciências.
Se ele conseguisse também penetrar no espirito
do condenado à morte? Era uma ideia, tétrica certamente; mas talvez viável e
seguramente interessantíssima...
UM
VOLUNTÁRIO À GUILHOTINA
Ao
cabo de um certo treino diário, a ação tornou-se, por assim dizer, mecânica. Wiertz
repetia, sob o influxo magnético de seu amigo, e com uma precisão prodigiosa,
essa experiência que os magnetizadores fazem frequentemente nos teatros,
adivinhando o esconderijo de um objeto ou um nome inscrito num pedaço de papel,
porque leem esses informes no pensamento da pessoa que escondeu o objeto ou no
da que escreveu a palavra.
Concluído
esse primeiro preparo, o pintor obteve a permissão de se ocultar, no dia da
execução, juntamente com “seu amigo magnetizador”, e duas testemunhas, sob o
estrado em que se elevaria a guilhotina.
Feita
a hipnose, o médico ordenaria a Wiertz que se identificasse com o criminoso,
que seguisse os seus pensamentos e experimentasse todas as sensações que o
próprio executado experimentaria, exprimindo-as em voz alta. Ser-lhe-ia
ordenado mais que, quando a cabeça rolasse no cesto de serragem, colocado junto
aos experimentadores, se agarrasse a ela, penetrasse e analisasse os seus últimos
pensamentos e os exprimisse como se fosse o próprio executado.
A
DECAPITAÇÃO
Chegou,
enfim, o sinistro dia. Tudo se passou como fora previsto e preparado. Wiertz, o
médico e as testemunhas estão escondidos sob a guilhotina. O paciente é hipnotizado.
O condenado, vacilante, galga os degraus do cadafalso. O momento é tétrico. O
cutelo cai...
—
Diga o que vê! — ordena o médico, imperioso.
Wiertz
torce-se em medonhas convulsões e responde num gemido de angústia:
—
Um relâmpago! O raio caiu!... Oh, que horror! Ele pensa ainda!... Ele vê!...
—
Diga o que pensa, diga o que vê! — exige o magnetizador.
— É horrível! A cabeça sofre atrozmente. Sente, pensa; mas
não compreende bem o que se passou... A desgraçada procura o corpo...
Parece-lhe que este vai juntar- se a ela novamente... Espera ainda o golpe
supremo... Espera a morte... Mas a morte não chega!...
OS
PRIMEIROS INSTANTES DO MORTO
Durante
esse diálogo atroz, a cabeça do decapitado caíra no cesto com os cabelos para
baixo e a horrível chaga sanguinolenta do pescoço cortado para cima... Os
lábios estão abertos numa expressão hedionda, os músculos do rosto contraídos
num ríctus trágico, os dentes cerrados, como se se quisessem reciprocamente
partir... As artérias batem precipitadamente no lugar em que o cutelo as
seccionou e o sangue delas jorra aos borbotões... Wiertz, os olhos fechados, prossegue
nas suas dolorosas lamentações:
—
Oh! Que mão é esta que me estrangula? É uma mão enorme e impiedosa. Oh! Que
peso é este que me esmaga? Diante dos meus olhos, só há uma nuvem vermelha... Oh!
Livrem-me desta mão maldita! Larga-me, monstro! O meu sangue se esvai!... Mas
que é isto? Onde está o meu corpo?... Eu sou agora apenas uma cabeça
cortada!...
E
o pintor cala-se, então, como se desmaiasse.
Mas
o magnetizador, implacável, continua impiedoso, ordenando num tom que não
admitia tergiversação:
—E,
agora, vamos! Diga o que vê! Diga onde está!
A
ENTRADA NO ESPAÇO
—
Voo pelo espaço — responde o outro — como se fosse um pião que rodasse
vertiginosamente lançado numa fogueira. Oh! É horrível! O meu pobre corpo!
Ligai-me a ele novamente! Ainda poderei viver! Ainda me lembro de tudo! Tende
piedade de mim! Ainda vejo o tribunal!... A toga vermelha dos juízes!... Ouço a
minha condenação! Oh, minha desgraçada mulher! Oh, meu pobre filhinho! Não,
eles não me amam mais! Têm horror de mim!... E eu os amo ainda, apesar de
tudo!... Pobres entes queridos!... Se me dessem, outra vez, o meu corpo, eu
correria atrás deles e seria um homem de bem!... Oh! É horrível! Meu filho me
repele!... Sujei-o de sangue com a minha cabeça ao querer beijá-lo!... Que martírio
cruel! Quando acabará tudo isto? Será este o Inferno? É o suplício eterno que
começa?!...
Neste
momento, o médico e a testemunhas veem, na cesta, colocada ao seu lado, a
cabeça do condenado abrir os olhos num sofrimento indizível.
E Wiertz termina assim:
— Não!... Não é possível. Deus não pode ser um
algoz como o que me guilhotinou... Esta dor não pode durar eternamente! Deus é
misericordioso!... Mas, que é isto? Tudo quanto pertence à Terra desaparece
diante dos meus olhos... Percebo ao longe uma pequenina estrela que lança
fulgores como um diamante... Que grande bem-estar o que deve reinar lá no alto!
Como sinto a calma penetrar todo o meu ser!... Como me sinto aliviado!...
*
Foi
impossível ao magnetizador arrancar mais uma só palavra ao pintor, que caiu num
sono profundo. Ele tocou, então, as têmporas da cabeça seccionada. Estavam
gélidas. Levantou-lhe uma pálpebra: apareceu um olho vidrado que perdera o
fulgor do seu último clarão entrevisto um minuto antes...
*
Essa
assombrosa experiência de exteriorização da sensibilidade será mesmo a cena
vivida da passagem de um guilhotinado para o Astral?
Fonte:
“O Malho”/RJ, edição de 14 de outubro de 1937.
Fizeram-se
breves adaptações textuais.
Notas:
[1] Antoine Joseph
Wiertz (1806 –1865), pintor romântico belga. Sobre ele, leia “A Vingança do
Pintor” (https://www.litteratus.site/2025/08/a-vinganca-do-pintor-conto-humoristico.html).
[2]
Eugene
Auguste Albert de Rochas (1837 – 1914), militar, historiador e pesquisador de
fenômenos espíritas francês.

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