O ALQUIMISTA - Conto Clássico Sobrenatural - Autor anônimo do séc. XX
O
ALQUIMISTA
(Lenda
Espanhola)
Autor
anônimo do séc. XX
Começa
esta narração no ano de 1670.
Tempo
era aquele em que se guardava uma grande rigidez com os adeptos das ciências
maravilhosas. A Santa Irmandade mantinha supremo zelo em deter suas
investigações e era nesse trabalho muito auxiliada pela cruel hostilidade do
povo a todos os alquimistas e feiticeiros.
Muito
natural parecerá, pois, que os discípulos de Mercúrio tratassem de se ocultar;
mas nem por isso deixavam de ocupar todo o melhor de seu tempo em investigação
de alquimia.
*
Nesse
tempo, vivia em Madri um fidalgo que o vulgo chamava simplesmente D. Diogo,
embora ele pudesse merecer todos os direitos na corte e os nomes ilustres de Velez
de las Novas.
Sua
história era a de todos os cortesãos. Fizera uma viagem às Índias, vivera por
algum tempo na Alemanha e ali travara relações com um partidário da Reforma; e não
duvidou em se filiar a tal heresia, sem precaver os desgostos que essa aceitação
de seu espírito aventureiro lhe acarretaria.
Então,
apagando em seu cérebro as últimas prevenção contra os sectários, e arrastado
pela inextinguível curiosidade, dedicou-se inteiramente às ciências chamadas
ocultas.
Ao
cabo de algum tempo, logrou ser íntimo do famoso Efraim Helds e, graças à sua
benevolência, começo a versar-se nos extravagantes segredos de Jacob Corn,
Nicolas Flamel e Jean de Meung.
Regozijava-se
com a saborosa leitura do Seculum Alchimiae, de Roger Bacon, e com o Libelus
de Alchimia, de Alberto Magno. Decifrou obras do árabe Geber e instruiu-se
nos tratados de Arnaud Villeneuve.
Passados
alguns anos nesse estudo, resolveu regressar à pátria, um pouco mais carregado de
anos e mais leve de ouro; mais inquieto também e menos jovial, como se a ciência,
mais do que o tempo, o tivesse envelhecido.
Mas
havia em seu coração o mesmo ardor de saber, de encontrar o daib, como o
famoso eleitor de Mogúncia, que, segundo conta Jacob Heilman, logrou, em 1604, diante
do imperador Adolfo, transformar balas de chumbo vulgar em ouro puro.
*
Mas
tal era então o rigor com que se tratava os que, como ele, não se curvavam ao
dogma, que D. Diogo não procurou a mansão de seus maiores e, temeroso,
albergou-se em uma casa solitária, na Plaza Mayor, junto à Moreria, e, ali,
isolado da grande sociedade, julgou-se a coberto de toda a suspeita.
Estabeleceu
sua vivenda no primeiro andar, e o mais alto, que era um só salão amplo e
espaçoso, destinou a seu laboratório, instalando nele inúmeros artefatos que,
pouco a pouco, transportava ocultamente.
Nada
mais grotesco e tétrico do que esse laboratório, uma vez completo, mais sombrio
do que a cela de Claude Frolo, embora não tão imundo como o gabinete astrológico
de Ruggieri. As paredes eram orladas com sinais cabalísticos, indecifráveis
para o profano e, em frente à porta, lia-se o aforismo do sábio Filoctetes:
“O
espírito é o ouro da vida e o calor de nosso corpo.”
Uma
vez instalado, começou nosso bom cavalheiro a laborar.
Diariamente,
se provia com ossos de animais e ainda comprava bichos mortos que, à noite, com
grande precaução, submetia a estranhas manipulações. E o caso é que extraía
deles uma espécie de substrato que alojava em redomas, tendo por etiqueta um
signo astronômico.
—
Isso é fósforo — dizia em seus solilóquios o Sr. Velez de las Novas. — Se o espírito
é “o ouro da vida”, esta substância contém ouro, porque o fósforo é o
provocador da energia do sistema nervoso e este, por sua vez, é o espírito e o
calor de nosso corpo.
Eu
não sou muito seguro em teorias químicas, mas quer-me parecer que, traduzindo a
sentença de Filoctetes sobre ela, talvez nosso sábio não andasse por mau
caminho.
Um
dia, deslisou um pouco do tal substrato em um cadinho de argila e, submetendo-o
ao fornilho filosófico, viu-o inflamar-se. Depois dessa experiência, D. Diego
sacudiu a cabeça e abandonou aquele lugar. E, nos dias seguintes, repetiu a
experiência, sem que se pudesse descobrir em seu rosto a expressão do êxito.
Mas, exatamente porque era impenetrável, todos desconfiavam dele, e os vizinhos,
ao vê-lo passar, diziam:
—
D. Diogo tem pacto com o Tinhoso; à noite, recebe a visita de bruxas envoltas
em túnicas azuis, tão resplandecentes que parecem tecidas de luar.
Uma
noite, para completar suas experiências, D. Diogo misturou o crisol fósforo com
outra essência estranha; produziu-se uma longa chama azul, no centro da qual
cintilaram brasas amarelas.
— É ouro — murmurou D. Diogo. — Bem diz Geber
que o mercúrio é a alma da alquimia.
Mas
o fulgor da explosão, embora intensivo, alarmara a vizinhança, que correu a
pedir socorro à Santa Irmandade. Na noite seguinte, os inquisidores vieram
seguidos pela turba e, batendo à porta, deram o aviso estarrecente:
— O Santo Oficio!
No
mesmo instante, ouviu-se uma explosão muito mais terrível do que a primeira e
as janelas voaram em estilhaços.
Quando
o pânico serenou, os primeiros que entraram na casa semiderrubada encontraram o
sábio caído sem vida; mas sua cabeça desaparecera.
A
Inquisição decretou que, de fato, D. Diogo era feiticeiro, mas não soube
explicar a presença de uma grande massa de ouro em pó sobre a qual o corpo
repousava.
E,
até hoje, ninguém conseguiu reproduzir a fórmula de fabricar o metal entre
todos prestigioso.
Ilustração:
PS/Caiyon.

Comentários
Postar um comentário