O MALABARISTA DE NOSSA SENHORA - Conto Clássico Fantástico - Anatole France
O
MALABARISTA DE NOSSA SENHORA
Anatole
France
Tradução
de autor anônimo do séc. XX
No
tempo do rei Luís, havia em França um pobre malabarista, nascido em Compiègne,
chamado Barnabé, que andava de cidade em cidade fazendo sortes de
prestidigitação e jogos de mão.
Nos
dias de feira, ele estendia na praça pública um tapete muito velho, todo gasto,
e, depois de ter atraído as crianças e os vagabundos com os ditos chistosos que
aprendera de um muito antigo saltimbanco e aos quais não mudava uma palavra,
tomava atitudes que não eram nada naturais e equilibrava um prato de estanho
sobre a ponta do nariz.
O
povo olhava a princípio com indiferença.
Mas
quando, segurando-se com as mãos, a cabeça para baixo, ele lançava ao ar e
apanhava com os pés seis bolas de cobre que brilhavam ao sol, ou quando,
arqueando o corpo, se virava na forma de uma roda perfeita e nessa atitude
jogava com doze facas ao mesmo tempo, um sussurro de admiração se elevava na
assistência e as moedas choviam sobre o tapete.
Entretanto,
como a maioria dos que pertencem à sua arte, Barnabé de Compiègne vivia muito
pobremente.
Ganhando
o pão com o suor do seu rosto, sofria, mais do que qualquer um, as misérias
decorrentes da culpa de nosso pai Adão.
Não podia também fazer as suas sortes tantas
vezes como quisera. Para mostrar os seus talentos, era-lhe preciso, assim como
para as árvores darem flores e frutos, o calor do sol e a luz do dia. No inverno, ele era como uma árvore despojada
das suas folhas e quase morta. A terra gelada era dura para o acrobata. E, como
a cigarra de que Maria de França falou, ele sofria frio e fome na má estação.
Mas, como tinha o coração simples, suportava os seus males com paciência.
Ele nunca cogitara da origem das riquezas e da
desigualdade das condições humanas.
Confiava
plenamente que se este mundo é mau, o outro não poderia deixar de ser bom e
essa esperança animava-o. Ele não imitava os saltimbancos larápios e
malfeitores, que vendem a sua alma ao diabo.
Não
blasfemava nunca contra o nome de Deus; vivia honradamente, e, embora não
tivesse mulher, não cobiçava a do próximo, porque a mulher é a inimiga dos
homens fortes, como se vê na história de Sansão, contada na Escritura Sagrada.
Na
verdade, ele não tinha inclinação para os pecados da carne, e custava-lhe mais
renunciar aos canjirões do que às senhoras. Pois, sem pecar contra a
sobriedade, ele amava beber quando fazia calor.
Era um homem de bem, temente a Deus e muito
devoto da santíssima Virgem.
Nunca
deixava, quando entrava numa igreja, de ajoelhar-se diante da imagem da Mãe de
Deus e de dirigir-lhe esta prece:
—
Senhora, olhai para a minha vida até que aprouver a Deus que eu morra e, quando
eu morrer, fazei com que eu tenha as alegrias do paraíso.
II
Ora,
uma noite, depois de um dia de chuva, quando ele caminhava triste e curvado,
carregando as suas bolas e facas escondidas no tapete velho, procurando alguma
granja onde deitar-se para dormir de estomago vazio, avistou na estrada um
frade que seguia o mesmo caminho, e cumprimentou-o polidamente. Como
caminhassem de par, trocaram algumas frases.
—
Companheiro — disse o frade —, como é que estais todo vestido de verde? Não
será para representar o papel de louco em algum mistério?
—
Não, meu pai — respondeu Barnabé. — Tal como me vedes, chamo-me Barnabé e sou
um malabarista de profissão. Seria o mais belo ofício do mundo se desse com que
comer todos os dias.
—
Amigo Barnabé —prosseguiu o frade—, cuidado com o que dizeis. Não há mais belo
estado do que o estado monástico. Celebram-se com ele os louvores de Deus, de
Nossa Senhora, e dos Santos, e a vida do religioso é um continuo cântico ao
Senhor.
Barnabé
respondeu:
—
Meu padre, confesso que falei como um ignorante. O vosso estado não pode ser
comparado ao meu, e, embora haja merecimento em dançar, equilibrando uma moeda
sobre um pau, esse merecimento não chega ao vosso. Eu quisera, como vós, meu padre,
cantar todos os dias o ofício da santíssima Virgem, a quem dedico uma devoção
particular. Renunciaria de bom grado à arte na qual sou conhecido, de Soissons a
Beauvais, em mais de seiscentas cidades e aldeias, para abraçar a vida monástica.
O
frade enterneceu-se com a simplicidade do acrobata e, como não lhe faltava
tino, verificou ser Barnabé um desses homens de boa vontade de quem Nosso
Senhor disse: “A paz seja com eles na terra!”. Foi por isso que lhe respondeu:
—Amigo Barnabé, vinde comigo e far-vos-ei
entrar no convento de que sou prior. Aquele que conduziu Maria do Egito no
deserto pôs-me no vosso caminho para levar-vos na senda da salvação.
Assim
é que Barnabé se fez frade. No convento onde ele foi recolhido, os religiosos
celebravam à porfia o culto de Nossa Senhora, e cada um empregava em servil a
todo o seu saber e toda a habilidade que Deus lhe havia dado.
O
prior, do seu lado, compunha livros que tratavam, segundo as regras da escolástica,
das virtudes da Mãe de Deus.
Frei
Maurice copiava, com letra formosa, esses tratados sobre folhas de pergaminho.
Frei
Alexandre pintava nelas miniaturas. Via-se a Rainha do Céu sentada no trono de
Salomão, ao pé do qual velavam quatro leões; em torno da sua cabeça aureolada,
esvoaçavam sete pombas, que são os sete dons do Espirito Santo: dom de temor,
piedade, ciência, força, conselho, inteligência e sabedoria.
Ela
tinha por companheiras seis Virgens de cabelos de ouro: a Humildade, a
Prudência, o Retiro, o Respeito, a Virgindade e a Obediência. Aos seus pés
estavam duas figurinhas nuas, muito brancas, numa atitude de súplica. Eram
almas que imploravam a sua salvação, e, não certamente debalde, a sua toda
poderosa intercessão.
Frei
Alexandre representava na outra página Eva defronte de Maria, a fim de que se
visse ao mesmo tempo a culpa e a redenção, a mulher humilhada e a virgem
exaltada.
Admirava-se
também nesse livro o Poço das Águas vivas, a Fonte, o Lírio, a Lua, o Sol e o
Jardim fechado de que se fala no Cântico, a Porta do Céu e a Cidade de Deus, e
eram símbolos da Virgem.
Frei Marbode era igualmente um dos mais ternos
filhos de Maria. Esculpia de contínuo imagens de pedra, de sorte que tinha a
barba, as sobrancelhas e os cabelos brancos de poeira e os seus olhos estavam habitualmente
inchados e lacrimejantes; mas ele era robusto e cheio de alegria, embora de
idade adiantada e, visivelmente, a Rainha do paraíso protegia a velhice do seu
filho. Marbode representava-a sentada numa cadeira, a fronte cercada por uma
aureola de pérolas. E ele tinha o cuidado de cobrir com a saia os pés daquela
de quem o profeta disse: “A minha muito amada é como um jardim fechado”.
Às
vezes também ele a figurava como uma criança
cheia de graça e ela parecia dizer: “Senhor, vós sois o meu Senhor!”.
Havia,
também, no convento poetas que compunham, em latim, hinos e prosa em honra da
bem-aventurada Virgem Maria e, mesmo estava, entre eles, um que contava os
milagres de Nossa Senhora em língua vulgar e versos rimados.
III
Vendo
um tal concurso de louvores e tão bela messe de obras, lamentava Barnabé a sua ignorância
e simplicidade.
—Ai de mim — suspirava ele passeando só no
jardim sem sombra do convento —, sou muito desgraçado por não poder, como meus
irmãos, louvar dignamente a santa Mãe de Deus a quem devotei o afeto do meu
coração. Pobre de mim, sou um homem rude e sem arte, e não tenho para o vosso serviço,
Senhora Virgem Santíssima, sermões edificantes nem tratados divididos segundo
as regras, nem finas pinturas, nem estátuas bem esculpidas, nem versos bem
cadenciados. Não tenho nada, pobre de mim!
Ele gemia e entregava-se todo à tristeza.
Uma
noite que os frades se distraíam conversando, ele ouviu um deles contar a história
de um religioso que não sabia senão rezar a Ave Maria. Esse religioso
era desprezado por sua ignorância; mas, à sua morte, saíram-lhe da boca cinco
rosas em honra das cinco letras do nome de Maria, e a sua santidade assim se
manifestou.
Ouvindo esta narração, Barnabé admirou mais
uma vez a bondade da Santíssima Virgem; mas não se consolou com o exemplo dessa
bem aventurada morte, pois o seu coração estava cheio de ardor e ele queria
cantar a glória da sua Senhora que está no céu.
Procurava
o meio sem o poder achar e afligia-se cada vez mais, quando, uma manhã, havendo
despertado muito alegre, correu à capela e lá ficou só durante mais de uma
hora. Ali voltou depois do jantar.
E,
desde esse momento, ia todos os dias à capela, à hora em que estava deserta, e
ali passava grande parte do tempo que os outros frades consagravam às artes
liberais e às artes mecânicas. Não estava mais triste, não se queixava mais.
Tão
singular conduta despertou a curiosidade dos frades. Na comunidade, perguntavam
uns aos outros porque Barnabé fazia retiros tão frequentes.
O
prior, cujo dever é não ignorar nada do comportamento dos seus religiosos,
resolveu observar Barnabé durante os seus momentos de solidão.
Um
dia, pois, que este último estava, como de costume, fechado na capela, o prior
foi, acompanhado por dois antigos frades do convento, observar, através dos
interstícios da porta, o que se passava lá dentro.
Eles
viram Barnabé diante do altar da Santíssima Virgem, a cabeça para baixo, os pés
para cima jogando com seis bolas de cobre e seis facas.
Ele
fazia, em honra da Mãe de Deus, malabarismos que lhe haviam merecido mais
aplausos. Não compreendendo que esse homem simples punha ao serviço da
Santíssima Virgem os seus talentos, os dois antigos frades escandalizaram-se,
dizendo que era um sacrilégio.
O
prior sabia que Barnabé tinha a alma inocente, mas julgava que ele houvesse
enlouquecido. Aprontavam-se todos os três a tirá-lo à força da capela, quando
viram Nossa Senhora descer os degraus do altar e enxugar com o seu manto azul o
suor que brotava na fronte do acrobata.
Então
o prior, prosternando-se no lajedo, citou estas palavras:
—Bem-aventurados os simples, porque verão
Deus!
—Amém!
— responderam os anciãos, beijando o chão.
Fonte:
“Selecta”/RJ, edição de 25 de janeiro de 1918.
Fizeram-se
adaptações textuais.

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