O MEDALHÃO - Conto Clássico de Terror - D. O. Marama


 

O MEDALHÃO

D. O. Marama[1]

(Séc. XX)

Tradução de autor anônimo do séc. XX

 

Tinham-me falado naquele “caso” como um dos mais “curiosos” e, como sempre me interessei especialmente pelos problemas cerebrais em que o raciocínio se confunde com a loucura — o que chamarei “os limites da razão humana” —, fui a esse presídio-sanatório. O diretor explicou-me:

— Trata-se de um homem que cometeu um crime inexplicável e vive, depois disso, perseguido por uma alucinação, uma só, mas estranhamente pertinaz. Durante o dia, mantem-se calmo; mas, desde que anoitece, só há um meio de atenuar o pavor, que o acomete:  deixar uma lâmpada elétrica acesa em sua célula. E, contudo, recusa a companhia de um guarda, que lhe ofereci. O desgraçado vive sob o terror da escuridão e a preocupação de guardar o objeto pelo qual praticou o crime, um medalhão, de resto sem valor, que deixamos em seu poder, para acalmá-lo.

*

Encontrei na célula indicada um homem franzino, com olhos negros de uma mobilidade inquietadora. Mas não me recebeu mal e, quando tentei enganá-lo, dizendo-me jornalista, ele protestou, mas sem cólera.

— Não, não... é inútil mentir. Eu sei... O senhor é médico, como os outros... E, como os outros, quer saber... quer que eu lhe conte... Tolice... Os médicos não podem compreender. Isso não é coisa que se possa verificar nem com uma autopsia.

— Mas eu não seu apenas médico — observei com uma inspiração feliz. — Sou também escritor e estudo especialmente os fenômenos que...

— Ah! — exclamou ele com um lampejo de júbilo no olhar irrequieto. — Ah! Um escritor! Então talvez seja capaz de...

Foi até a porta, verificou que nenhum guarda nos estava espionando, e prosseguiu:

 — Ouça... Diga-me... Acredita na transmigração das almas? Sim?... Sim?... Ora, ainda bem... Negar uma coisa tão evidente é o maior dos absurdos. Todos nós tivemos outras existências e conservamos delas lembranças vagas, confusas... Mas, por vezes, o acaso nos coloca diante de um fato, ou de um objeto, que desperta nossa memória e ressuscita o passado. Eu comecei por ter uma intuição vaga, mas, há dois meses, vi claro, tive uma prova indiscutível, absoluta...

“Ouça. . . Foi assim. Na mesma casa em que eu moro, num quarto modesto, morava um velho antiquário, Christian Haller, que ocupava duas grandes salas cheias de preciosidades antigas ou exóticas. Como sou grande apreciador dessas coisas, não tardamos a travar relações, e, tendo ele que se mudar, ofereci-me para ajudá-lo a arrumar todos aqueles tesouros. Foi então que o incidente surgiu. Eu estava pondo em ordem uma mala cheia de tecidos antigos, brocardos suntuosos e sedas pesadas, quando um pequeno objeto caiu de entre eles ao chão. Voltei-me para apanhá-lo, mas o velho precipitara-se e sua mão — que só então notei como era monstruosa, com dedos secos, longos, cheios de nós, como patas de uma aranha — apoderou-se do objeto antes que eu pudesse vê-lo, e atirou-o dentro dê uma das gavetas de uma cômoda Luís XV, situada ali perto.

— É um medalhão — disse ele, como para explicar seu gesto —; um medalhão do século XVIII, com uma pintura muito fina.

E continuou a trabalhar, falando em outros assuntos.

Eu, porém, ficara com uma curiosidade ardente, insopitável. Que medalhão seria esse que Haller, por assim dizer, subtraíra a meu olhar? Não me atrevia a interrogá-lo, mas também não lograva sufocar o desejo de tirar a limpo aquele mistério.

Pouco depois, tendo o velho ido ao outro aposento, para colocar algumas espadas em um molho já ali preparado, não hesitei. Aproveitando esse instante de isolamento, abri a gaveta da cômoda Luís XV e vi... Ah! O que eu vi então pode parecer inverosímil a outro qualquer homem, mas estou certo de que o senhor compreenderá. Vi um retrato de mulher, um rosto oval muito doce, pálido, com olhos serenos, uma cabeleira empoada... Vi-o por um instante apenas, mas foi o suficiente para que essa mulher ressuscitasse diante de mim, tal como vivera há mais de um século, tal como eu a conhecera.

  

 


 

Sim, porque eu a conhecera. Mas quando? Onde? Isso é que eu não podia determinar no momento...

O ruído dos passos do velho Haller arrancou-me subitamente dessa contemplação. Fechei rapidamente a gaveta e afastei-me da cômoda Luís XV; mas, ao que parece, uma grande perturbação transparecia em meu rosto, porque, ao voltar, o velho Haller deteve-se no limiar e olhou para mim, longamente, com insistência, como se desconfiasse de alguma coisa. Ainda hoje estremeço, lembrando-me da intensidade de seu olhar, que penetrava em mim como uma lâmina aguda.

Porém, nada disse e eu me retirei, pouco depois, também sem lhe dizer coisa alguma sobre esse assunto.

Que noite passei! A imagem daquela moça empoada ficara gravada em meu espirito como uma obsessão, a tal ponto que eu tinha a impressão de sentir o perfume de seus cabelos e ouvir sua respiração junto de mim. E o mais singular é que, assim como eu reconhecera o retrato, reconhecia o perfume. Pela madrugada, o fenômeno acentuou-se. Eu vi, positivamente vi, aquela encantadora criatura mover-se em torno de mim e compreendi toda a verdade. Eu vivera, outrora, junto daquela mulher e amara-a com paixão ardente.

Tudo isso me aparecia claramente no meio da espécie de torpor a um tempo delicioso e angustiante em que passei essa noite.

E a cada instante essa visão do passado se tornava mais nítida e inebriante.

Por isso, quando o sol me despertou afinal, tomei uma resolução inabalável. Aquele medalhão tinha que ser meu. Eu havia de compra-lo a Haller, custasse o que custasse.

Ainda não eram 8 horas, já eu batia à porta do aposento do antiquário e, quando ele abriu, eu lhe disse, sem preâmbulos:

— Haller, quanto quer por aquele medalhão de que me falou ontem?

— Que medalhão? — perguntou ele friamente, mas fitando-me bem nos olhos.

— Aquele, que estava entre os brocardos.

— Então, o senhor viu-o?

Sua voz tornara-se ríspida; porém, eu respondi com firmeza:

— Se não o tivesse visto, não teria resolvido comprá-lo.

As mãos enormes e descarnadas do velho agitaram-se febrilmente e seu olhar faiscou. Mas sua voz mantinha-se calma quando ele me respondeu:

— Aquele medalhão não está para vender.

— Pagarei por ele o que quiser — disse eu, surpreendido por aquela recusa.

— Mas eu não quero vendê-lo.

Houve um momento de silêncio. Minhas têmporas batiam fortemente e senti um nó na garganta. Com que direito aquele homem, um negociante de antiguidades, recusava vender aquele medalhão? E uma suspeita atroz irrompeu em meu cérebro. Saberia ele quem era aquela mulher.

Suspirei profundamente; mas, sem saber o que decidisse, tive a esperança de esquecer aquela impressão. O homem não queria vender aquele medalhão... Paciência. Eu não tinha meio algum de obrigá-lo.

— Está bem — murmurei. — Até logo.

— Até logo — repetiu o velho.

E a porta se fechou atrás de mim com uma pancada brutal, que parecia um desafio.

*

Eu tivera a esperança de esquecer. Que loucura! Aquela imagem se incrustara em meu cérebro e agora eu via minha amada estender-me os braços chamando-me pelo nome. Oh! Aquela voz tão longínqua, suplicando-me, pedindo-me que a libertasse! E eu, agora, compreendia tudo. Haller fora o meu rival implacável, outrora; escravizara, sequestrara, atormentara a infeliz para separá-la de mim, para se opor a nosso amor.

Ah, que noite eu passei, ouvindo aquele apelo!... Foi uma tortura tão intensa que não pude mais resistir.

Na terceira noite, fui pedir a Haller que examinasse um manuscrito do século XIV, que eu adquirira meses antes num leilão. Não sei dizer se havia premeditado tudo. Lembro-me apenas de que bebera, antes de bater na porta do antiquário, dois ou três cálices de uísque. Quando ele se inclinou para a mesa, procurando os óculos, vi, junto a um mata-borrão, um objeto, que brilhava. Era um punhal da idade média, desses com punho em cruz, que chamavam “misericórdias”. Então, tive a impressão de ouvir o apelo de minha amada e, apanhando o punhal, cravei-o até o cabo no meio das costas de Haler.

Não houve um grito, um gemido. Ele caiu, ou antes escorregou, para trás da mesa, tentando em vão agarrar-se à sua borda.

Eu dirigi-me logo para a cômodas Luís XV e abri a gaveta. O medalhão ali estava. Com que alegria, com que volúpia o apertei contra meu peito. Mas, nesse momento, olhando para a mesa, vi que Haler conservara uma das mãos agarrada à borda do móvel... Aquela mão ossuda, enorme.  Ele caíra entre a mesa e a parede, desaparecera naquele vão estreito, mas a mão ficara.

Com um frêmito de horror, procurei em torno um pedaço de pau, um objeto qualquer, para empurrá-la, fazê-la cair... E, para isso, pousei o medalhão sobre a mesa.

Então... Então aconteceu pela primeira vez essa coisa horrenda, inadmissível. A chama da vela — luz única na sala — inclinou-se de súbito, como atingida por um sopro invisível, e extinguiu-se. E, logo em seguida, ouvi o ruído da mão descarnada adiantando-se sobre a mesa para alcançar o medalhão. Procurei-o às apalpadelas, aflito, encontrei-o e meti-o num bolso.

O ruído cessou. Corri para a porta e precipitei-me pela escada, tendo a impressão de que, na escuridão do corredor, uma mão gigantesca, com os dedos torcidos como as patas de uma aranha, me perseguia.

Não me lembro onde passei o resto da noite, provavelmente vaguei pelas ruas. Somente ao romper do dia recobrei a consciência de mim mesmo. Recordei-me de tudo, mas não senti remorsos. Meu único receio era este: se me prendessem, tomar-me-iam o medalhão. Então, para fugir à polícia, dirigi-me à casa de uma irmã, que mora em um subúrbio distante e, alegando estar doente, pedi-lhe hospitalidade por alguns dias. Para sustentar essa mentira e, também, porque estava muito fatigado, deitei-me às 2 horas da tarde e adormeci logo, com um sono tranquilo e sem sonhos. Mas, quando se fez noite, o perigo ressurgiu.

Eu guardara o medalhão na gaveta de uma secretária, colocada junto a meu leito. E fui despertado pelo ruído apavorante, o mesmo ruído, que já me enregelara, na véspera. O ruído de uma mão, enorme, seca e ossuda, adiantando-se, arrastando-se ao longo da secretária. Ela voltara, compreende? Voltara para me roubar o medalhão.

Com os cabelos em pé, tiritante de horror, saltei da cama, abri a luz elétrica e abri a gaveta. O medalhão ainda ali estava. Apanhei-o e, tendo-o bem seguro na mão, passei o resto da noite em claro. No dia seguinte, apenas amanheceu, despedi-me de minha irmã e parti.

Desde então, tenho vivido perseguido assim. Por mais que me oculte, o miserável me descobre, e, desde que haja escuridão em torno de mim, a mão monstruosa surge tentando despojar-me. Não há esconderijo que ele não desvele. ... Foi por isso que preferi entregar-me à prisão. Ao menos aqui, ele não pode entrar. E, como o diretor faz-me o favor de deixar a lâmpada acesa durante toda a noite, creio que posso ficar tranquilo...”

*

O desgraçado dizia isso, mas seu olhar continuava inquieto, rebuscando medrosamente todos os recantos do cubículo.

Oito dias depois, começava a esquecer o pobre louco, quando fui chamado ao presídio e soube que, naquela noite, um guarda, fazendo sua ronda, notou que a célula nº 3 estava em escuridão. Como o diretor ordenara que deixassem a lâmpada ali, aproximou-se para ver o que havia. Manobrou o comutador situado do lado de fora da porta e não obteve luz. Evidentemente, queimara a lâmpada. Foi buscar uma lanterna, penetrou na célula e encontrou caído, junto do leito, o preso n. 3. Estava morto e seu rosto revelava os horrores de uma agonia muito dolorosa. O desgraçado estava estrangulado com um barbante. O diretor testemunhou que esse barbante pertencia ao morto, que o usava ao pescoço, tendo pendurado a ele um medalhão. Mas esse medalhão não foi encontrado.

E também não se encontrou explicação para o fato de se ter queimado a lâmpada daquela célula justamente nessa noite.

 

Fonte: “Eu Sei Tudo”/RJ, edição de outubro de 1928.

Ilustrações: Angelika Kauffmann (1741 – 1807) e Franz Ebyl (1806 – 1880).

 

Nota:



[1] Provável pseudônimo.

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