O PRÍCIPE BENÉVOLO - Conto Clássico Fantástico - Horace van Hoffel
O
PRÍCIPE BENÉVOLO
Horace
van Hoffel
(1876
– 1944)
Tradução
de autor anônimo do séc. XX
Aqui
vai uma história que nossas avós não se lembraram de nos contar. É a história
do príncipe Benévolo.
Quando
Benévolo nasceu, seu pai, o rei Randolfo, convidou todas as fadas da terra para
as festas do batismo. Conhecendo a desventura da Bela Adormecida no bosque,
Randolfo ordenou todas as providencias para que se não esquecesse nenhum nome
na lista dos convidados.
— E, principalmente — recomendou —, muito
cuidado com as fadas más. Só elas inspiram temor. Enquanto isso, as boas
continuam sempre a ser boas, mesmo quando se possam queixar de alguma afronta.
Em
verdade, Randolfo bem poderia inverter sua proposição e dizer que uma fada má
fica sempre má, por mais que se lhe faça. Mas não era profundo em raciocínio.
E, além disso, em seu tempo ainda não se havia inventado a pólvora.
O
batismo de benévolo foi esplêndido. Nunca se havia visto semelhante cavalgata
de príncipes de princesas, damas, cavaleiros, pajens, delfos, sílfides e
espíritos aéreos.
Compareceram
as fadas dos quatro cantos do mundo. As do polo estavam vestidas de neve e
toucadas de cristal. As indianas ostentavam pérolas e diamantes. As africanas
apareceram armadas de arcos e flechas. As chinesas abriam leques mágicos, de
onde voavam borboletas. As inglesas, mais louras do que o Sol pela aurora, cantavam
estrofes de Shakespeare. Quanto às
francesas, eram as mais lindas: de instante em instante, esfregavam a ponta do
nariz com um arminho de pó de arroz.
Naturalmente,
todas as fadas fizeram inúmeros vaticínios ao recém-nascido. Seria belo,
galante, espirituoso, bravo, sério, caridoso, fino como o âmbar etc.!
Por fim, o pobre inocente se viu cumulado de qualidades e esmagado ao peso das
virtudes. Porém, a pior das fadas não havia pronunciado ainda sua sentença.
Aproximou-se:
—
Por minha fé — resmungou —, estou contentíssima por não me haverem esquecido
hoje. Quero assinalar meu reconhecimento de um modo que vos surpreenderá. Dizem
que sou má? Pois bem! Eis um presente de batizado que desmentirá esse vil
conceito: Principe Benévolo, não só tu serás bom como o pão, mas durante toda a
vida serás incapaz de qualquer violência, crueldade, ódio, cólera ou rancor.
Tenho dito.
—
Oh! — pensou o rei Randolfo, que, todavia, era bonachão. — Isso parece-me exagerado. Pássaro sem bico
e unhas bem depressa fica sem penas.
Terminados os festejos, Benévolo foi confiado
às amas. Ah! Não fosse ele robusto e teria morrido de frio, de sono de fome,
desde os primeiros dias, porque, como era dócil demais para gritar, as amas
descuidavam-se de agasalhá-lo, de embalá-lo e de lhe darem de mamar. Mais
tarde, deram ao príncipe Benévolo pajens e companheiros para brincadeiras.
Rasgavam-lhe as roupas, batiam-lhe, beliscavam-no e quebravam-lhe os
brinquedos. Benévolo não dizia uma nem duas, com medo de que esses tratantes
fossem castigados. Sua adolescência foi um verdadeiro martírio.
Morrendo,
porém, o rei Randolfo, Benévolo ascendeu ao trono com a idade de vinte anos.
Sua mansidão era conhecida de todos; daí o haver logo grandes desordens no
palácio. Os ministros só queriam fazer o que entendiam, os cortezões
rebelavam-se, as sentinelas dormiam nos postos, os capitães embriagavam-se, os
lacaios jogavam cartas até nos aposentos de seu senhor. E, na cidade e nos
campos, a situação não ia melhor do que isso. Os ladrões e os salteadores
zombavam do carrasco. Os impostos não foram mais pagos. Dentro em pouco, a
maioria das estradas, pontes, fortalezas, represas e outros trabalhos de arte
ficaram em ruinas.
Entretanto,
Benévolo pensou em casar-se e escolheu para esposa sua vizinha, a rainha dos
Amadrantas. Realmente, Clarmondina — assim se chamava a rainha — era muito
bela, mas havia feito morrer seu primeiro marido de pesar. Batia nos cortesãos,
nas camareiras, lacaios e aias. Em seus estados, as prisões estavam sempre
cheias e os patíbulos bem guarnecidos. Era respeitada ao extremo.
Benévolo
fez-lhe a corte durante algumas semanas. Deu um torneio em sua honra. Nesse
torneio, Benévolo apareceu na liça, revestido de lindas armaduras e montado num
guapo palafrém. Após as primeiras
solenidades, o príncipe correu sobre o barão de Bournegeles, seu adversário.
Embora admirável cavaleiro e valoroso guerreiro, o barão foi desmontado logo ao
primeiro golpe de lança. Então, Benévolo impeliu o palafrém para o lado em que
se achava a rainha. E perguntou-lhe:
—
Acha que andei bom, senhora?
—
Teríeis andado bem — replicou a rainha —, se houvésseis cortado a cabeça a esse
miserável barão e me a tivésseis trazido em uma salva.
—
Oh!... — exclamou o rei Benévolo. — Que
Deus me guarde de cometer semelhante crime! Trata-se de um torneio cortês de
que não pode resultar nenhum mal nem contratempo para os vencidos.
E,
dizendo isto, correu para o barão, levantou-o, abraçou-o, prodigalizando-lhe
mil carícias. O povo começou a murmurar, porque o povo gosta de sangue. Quanto
a Clarmondina, ficou tão irritada que pediu a liteira e partiu para nunca mais
voltar.
Benévolo
consolou-se facilmente. “Ela era muito violenta”, pensou consigo mesmo.
E
continuou tudo a ir de mal a pior em seu reino. Os patifes, os saltimbancos, as
cartomantes dominavam a situação. Em lugar de trabalhar, os súditos de Benévolo
passavam o tempo dançando o tango e lendo os jornais. Um profundo
descontentamento agitava as massas populares.
Ora,
certa manhã, Benévolo foi passear nos campos. Às margens de um regato, viu uma
jovem que chorava.
—
Por que é que choras? — perguntou o rei.
—
Sou órfã — suspirou ela. — Vi-me obrigada a entrar para o serviço de um patrão
impiedoso que me alimenta mal e me obriga guardar as cabras durante toda a
estação.
Ela
era bela. O rei Benévolo consolou-a e prometeu voltar outra vez. No dia
seguinte, encontrou-a no mesmo lugar; pusera ela algumas flores nos cabelos.
Sua voz era tão doce e seus olhos tão ternos que Benévolo ficou apaixonado. A
moça não o desacoroçoou.
Benévolo reuniu os ministros e anunciou-lhes
que tencionava casar com uma pastora. Os ministros fizeram-lhe mil objecções.
Alguns deles dirigiram-se à cidade para espalhar a extravagante notícia. Os
jornais da tarde apareceram cheios de pilhérias, sátiras, críticas e
caricaturas contra esse rei ridículo, que não sabia manter sua linha. Então, o
povo, escandalizado, revoltou-se. Diante do furor popular, Benévolo teve de
fugir do palácio.
Via-se
sem súditos e sem cortejo e, de fortuna, não possuía mais do que o manto de
arminho e uma bolsa cheia de moedas de ouro.
—
Tenho ainda com que tomar feliz a minha pastora — pensou.
E
encaminhou-se para o lugar onde a vira pela primeira vez. Ah! Ela não o
esperava. Estava a seus pés outro namorado e ela não lhe fazia má cara.
O
rei Benévolo murmurou tristemente:
—
Ingrata! Perco tudo por sua causa e nem sequer me é fiel.
Mas
o namorado não tinha bom gênio. Saltou sobre o rei, moeu-o de pancadas e
tomou-lhe o ouro e o manto. Depois, fugiu com seu despojo e sua conquista,
deixando Benévolo meio morto na campina
Quando
Benévolo voltou a si, já a noite descia sobre o prado. Quase nu e coberto de
chagas, entrou novamente na floresta para viver ali como um eremita, longe dos
homens e das mulheres. Quando vagava de um lado para outro, à procura de uma
caverna, ouviu um gemido doloroso que saía do mato. Aproximou-se e avistou um
grande lobo, cuja pata estava presa numa armadilha de ferro. Seu coração sentiu um movimento de piedade.
E, como lera em alguns livros que os animais são mais reconhecidos que as
criaturas humanas, resolveu libertar a fera cativa. Abaixou-se, pois, para
abrir a armadilha. O lobo, que estava faminto, não hesitou. Apenas libertado,
cravou as garras no pescoço do rei Benévolo e estrangulou-o.
Em
verdade, talvez as nossas avós tivessem razão não nos contando essa história.
Fonte:
“Eu Sei Tudo”/RJ, edição de janeiro de 1931.
Ilustração:
PS/Canva.

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