RUMOR DE ASAS - Conto Clássico de Terror - John Brandon
RUMOR DE ASAS
John Brandon
(Séc. XX)
Tradução e autor
anônimo do séc. XX
Durante
longos anos de peregrinações pelo mundo, na minha qualidade de agente de uma
grande companhia oriental, eu tinha travado relações com muitos indivíduos pitorescos,
especialmente no Arquipélago Malaio, e tinha feito algumas amizades. Mas Alfred
Conquest ocupava o primeiro lugar, incontestavelmente, entre os meus afetos.
Marinheiro experimentado, de espírito generoso e cordial, era um desses amigos
dignos de absoluta confiança, que se encontram tão raras vezes na vida, e eu
estimava-o tanto como ele a mim.
Ninguém,
nem eu mesmo, conhecia o seu passado. Sabia-se, em compensação, que a sua
situação era muito boa sob o ponto de vista pecuniário, e que era dono da “Loreley”,
uma esplêndida goleta[1].
Eu
não o tinha visto há alguns meses. É de supor, por isso mesmo, a minha alegria
quando, uma tarde de verão, cheguei a Surabay e vi a “Loreley” ancorada no
porto, e depois encontrei Conquest, de impecável palm beach, no hotel.
Pusemo-nos
a conversar, bebemos uns uísques com soda no hall, e, quase desde o
primeiro momento, notei-lhe o semblante fatigado e as olheiras.
—
E então? — perguntei, acendendo o charuto que me ofereceu. — Onde fez escala, Conquest? Sem dúvida em
Batu, Pandang, Pontianak...
—
Nada disso — respondeu ele, sorrindo. — Estive tranquilamente hospedado num
hotel de Singapura, enquanto concertavam a minha goleta nos estaleiros...
Estou-me tornando ocioso, Durant...
Confessei
que a minha vontade se ia deixando ganhar, também, por uma singular inércia.
—
É a influência que o Oriente exerce sobre os europeus — disse o meu amigo, com
gravidade. — É a sua vingança por todos os nossos alardes de superioridade...
—
E, não obstante — observei —, a civilização aqui é necessária. O Oriente parece
incapaz de agir por si mesmo...
Conquest
olhou-me com assombro.
—
Incapaz? — replicou. — Durant, a sua afirmação é ridícula! Tenho visto nestas
ilhas, e ao longo da costa, tais coisas que me encheram de terror, ao
compreender o seu poder latente. Coisas ocultas, mistérios incompreensíveis até
para os homens mais sábios do Oriente...
Conquest
ficou alguns instantes em silêncio, e os seus olhos davam-me a impressão de um
homem acabrunhado por alguma recordação odiosa. De súbito, com um esforço,
pareceu voltar a si.
—
Meu caro amigo — disse, com riso irônico —, desculpe-me. Além de preguiçoso,
tornei-me ridículo... A propósito... que
estranho navio!
Segui
a direção do seu olhar e vi um barco de misterioso aspecto que ancorava
lentamente perto da “Loreley”. A julgar pelas suas linhas, tratava-se de um
iate. Mas a sua cor pardacenta, cor de
nevoeiro, dava-lhe a aparência de um navio de guerra inglês. À luz agonizante do crepúsculo, tinha um
aspecto fantasmagórico. Nenhuma bandeira ondulava no seu mastro. E mal acabou
de lançar ferro, um escaler se destacou de um dos lados do barco e dirigiu-se
em silêncio para o cais.
—
Curioso barco! — disse Conquest, depois de uma pausa meditativa. — Ameaçador...
Pardo e sombrio como...
Interrompeu-se
bruscamente. Despertada a minha curiosidade, atravessei o hall e pedi o
binóculo emprestado a um francês meu amigo.
—
Já o vi antes, senhor — informou-me o francês cortesmente. — É um iate russo propriedade da senhora princesa
Strugaliev, uma aristocrata do velho regime. O príncipe, seu marido, possuía
vastas propriedades perto de Odessa, e foi assassinado durante os prelúdios da
revolução. A princesa fugiu por um dos portos do Mar Negro. Vi-a passeando pela
costa chinesa. É uma bela mulher.
Aquele
poderoso binoculo só me revelou que a tripulação, que estava sobre o convés,
era evidentemente chinesa. Regressei e comuniquei a Conquest as novidades que
vinha de saber.
—
Tenho ouvido falar da princesa — respondeu-me com negligência. — Mas nunca lhe
fui apresentado. Um velho provérbio diz que um russo em águas orientais é de mau
agouro...
Mal
acabavam de se extinguir em seus lábios estas palavras, quando aconteceu uma
coisa extraordinária. Pelo hall, guiada por um obsequioso camareiro,
passou uma das mulheres mais lindas que eu tenho visto em minha vida. Alta, de
silhueta admirável e majestoso porte, dirigia-se lentamente para nós. Mas era o
seu rosto que chamava a atenção: tinha ele impressa uma estranha rigidez, uma
palidez quase cadavérica; a fixidez dos seus olhos e a sensação da sua
proximidade fazia frio, o frio que se sente na presença da morte.
Conquest,
cujo olhar estava perdido na lonjura do mar, não lhe havia notado a chegada, e
eu estava a ponto de chamar-lhe a atenção, quando os olhos da dama se
encontraram com os meus. Num lapso de poucos segundos, notei que o rosto da
dama se transformava noutro. Os olhos azuis escureciam e tornavam-se oblíquos;
a pele pálida tomou um tom de âmbar; e nos seus olhos apareceu um ódio implacável,
diabólico.
O
rosto que agora nos olhava era chinês, de uma mulher mandchu de elevada
estirpe. E aquele esplendor dos olhos de amêndoa pertencia a uma fúria... a um demônio
encarnado!
Como
atraído por uma força irresistível, Conquest fitou-a. Vi que empalidecia, que
abafava um gemido de horror. Depois, o rosto asiático desvaneceu-se e a dama
russa, de olhos frios, passou de largo, falando com o camareiro em francês correto.
Tudo
se passara num abrir e fechar de olhos. Só Conquest e eu tínhamos visto a
horrível transformação. Por um instante, nenhum de nós falou. O meu amigo
tremia.
—
Santo Deus! — murmurei. — Que significa isso?
—
O impossível! — respondeu ele, com voz rouca. — Acaba de ver o impossível!
Pensei
que Conquest ia desmaiar. Mas, repondo-se, disse:
—
Preciso voltar para bordo... Não me sinto bem. Venha jantar comigo esta noite...
Sem
pronunciar uma única palavra mais, girou sobre os calcanhares e retirou-se. Eu
fiquei meditando no que acabava de ver, no enigma sem chave. Afinal, ocorreu-me
consultar o meu amigo francês. Fui procurá-lo, e perguntei-lhe, com ar
negligente, se aquela dama distinta, que viera hospedar-se no hotel, era a
mesma de que ele me falara pouco antes.
—
Sim, senhor — respondeu-me, em tom indeciso. — É a senhora princesa, certamente. Mas há uma
coisa que eu não posso compreender. É a princesa... e não é... Há uma diferença que não consigo explicar. É o
seu corpo... e a sua beleza... mas a vida abandonou-a! Dir-se-ia a morte que
caminha a nosso lado... Dir-se-ia uma alma morta assomando aos olhos de um ser vivo,
e uma alma amaldiçoada para sempre!
Anoitecia
quando me achei num dos escaleres da “Loreley”, que me esperava encostado ao cais.
Dentro dele, estava Banagi, o velho criado malaio de Conquest, que o servia com
apaixonada dedicação.
Sentou-se
comigo na popa e ordenou aos marinheiros que remassem devagar. Notei nele uma
grande ansiedade em regressar a bordo.
—
Como está o teu patrão? — perguntei.
—
É bom que o senhor venha vê-lo, tuan — respondeu-me. — Não está nada
bem.
—
Vi-o esta tarde. Receio pela sua saúde, Banagi.
—
Não é o seu corpo que sofre, tuan. É a alma. Corre um perigo que nenhum
homem pode evitar...
—
Pensas que o inquieta... alguma coisa que não seja deste mundo? — interroguei. —
Alguma recordação do passado? Talvez... algum morto que o odiava?
Banagi
olhou-me com ar de censura.
—
Tuan — disse solenemente —, o ódio dos mortos nunca morre. O livro de
Brahma diz que não podem entrar no Paraíso; e, por isso, vagueiam pelo mundo
arrastando a sua maldição. O seu ódio está sempre com os vivos. Ouvimos o bater
das suas asas sobre o mar, quando cai a noite. Ninguém sabe cumprir um
juramento melhor do que os condenados, tuan...
Estas
palavras encheram-me de temor.
Não
disse mais nada, e permanecemos em silêncio.
Conquest
esperava-me na coberta. Notei nele imediatamente, com intenso alívio, uma
mudança favorável. A angustiosa tensão do seu rosto tinha desaparecido por
completo, e um tranquilo sorriso lhe assomava à flor dos lábios.
—
Está melhor? — perguntei.
—
Estou bem — respondeu, com o seu habitual sorriso bonachão. — Os nervos são uma
coisa terrível. Vamos para a minha cabine. O jantar espera-nos...
Durante
a refeição, foi o mesmo de sempre, conversador e jovial. Todavia, sob aquela máscara,
eu notei qualquer coisa de estranho. Deu-me a impressão de um homem que espera
alguma coisa inevitável.
De
súbito, reparei que, sobre a cabeça de Conquest, na parte inferior da
prateleira onde se arrumavam as louças, estava cravada uma comprida faca, de folha
recurva, de modelo esquisito. A lâmina estava embotada, cheia de manchas e, em
parte, de ferrugem. O cabo era finamente cinzelado em prata, e parecia, sem dúvida
alguma, de origem chinesa. Fora enterrada na madeira até a profundidade de
algumas polegadas, mas o aço era tão elástico e bem temperado que vibrava
incessantemente com o leve balanço da “Loreley”.
Guardei
silêncio até se afastar o moço malaio que nos servia. Este não parecia ter
visto a faca. Conquest seguiu a direção do meu olhar e riu de um modo estranho.
—
Vejo que a descobriu — disse. — Eu
estava pensando se a veria ou não.
—
Quer o senhor dizer... que outros a
viram?
—
Parece que não. Só Banagi.
—
Mas... que vem a ser isso?
—
É uma faca chinesa. Ninguém sabe como veio aqui parar. Encontrei-a esta noite,
ao regressar.
Fitei-o
completamente desconcertado.
—
Mas... alguém a deve ter cravado ali! — protestei. — Por que não a tira?
—
Ah! — observou, enigmaticamente, pondo-se em pé. — O senhor é muito forte. Por que não o faz
por mim?
Levantei-me,
sem hesitar, e agarrei o cabo da arma com gesto resoluto. Mas larguei-o imediatamente.
O cabo estava úmido, frio, como gelo, e um lodo escuro me escorreu pelos dedos.
—É
limo do leito de um rio — disse Conquest. — Por que não insiste?
Maravilhado
pela resistência que parecia oferecer, envolvi o cabo num lenço e puxei com
todas as minhas forças. Mas não consegui desenterrá-lo sequer um milímetro.
Finalmente, com os músculos doloridos, larguei-a e olhei para o meu amigo com
ar estupefato.
—
Durant — disse ele —, nem a sua força, nem qualquer outra força humana, poderia
tirar daí essa faca...
Eu
não soube o que responder. De repente, ocorreu-me perguntar:
—
Viu alguma vez esta faca, sem ser agora?
Permaneceu
em silêncio. Depois, sacudiu cuidadosamente a cinza do seu charuto num
cinzeiro, olhou-me com estranha expressão e disse que sim.
—
Sim, Durant. Vi-a. E com ela, noutros tempos, matei uma mulher...
Fez
uma pausa, e acrescentou:
—
Vamos para o convés. Lá, no escuro, poderei contar-lhe melhor a história.
Subimos
para o convés. A poucos metros, divisava-se a mole pardacenta do iate da princesa.
—
Quem era aquela mulher que passou hoje por nós no hotel, Conquest? —
interroguei. — Tem alguma coisa que ver com todas estas bruxarias?
—
É a mulher que eu matei — respondeu lentamente. — A mulher que eu matei, aquela
noite, no rio Songa, chamado o Rio Vermelho. Para mim, um rio de sangue... Nesse
tempo, eu estava em missão diplomática em Xangai e recebi inesperadamente uma
carta de minha noiva, que eu amava com loucura. Suplicava-me, com urgência, que
averiguasse o paradeiro de seu Jovem irmão Henry, um simpático rapaz que eu
conhecera no ano anterior na Universidade de Oxford. A história de Henry não
era nova: muito dinheiro e liberdade, amigos viciosos e mulheres pérfidas. Henry
desaparecera subitamente, depois de um escândalo. De vez em quando, a irmã
recebia cartas dele. Como tantos outros, Henry procurara o esquecimento no
Oriente. Tinha dinheiro, pois vendera as terras que havia herdado da mãe. Só o
seu advogado lhe sabia o paradeiro, e negava-se a revelá-lo. Minha noiva, louca
de ansiedade e desespero, suplicava-me que o procurasse até dar com ele, e que
o levasse para junto dela.
—
E teve êxito nessa busca? — perguntei, depois de um curto silêncio.
—
Sim. A sorte — se é que se pode chamar sorte — acompanhou-me. Encontrei-o,
depois de longas pesquisas, na cidade de Hanói, no Tomquim. Vivia numa cabana
dos arredores da cidade, sobre a margem do rio Songa. Estava em poder de uma
mulher, a respeito da qual já me tinham falado, filha de um nobre chinês e de
uma mulher russa, já falecida.
“Logo
que vi Henry — uma simples sombra do garboso rapaz que eu recordava —, pressenti
que, a não ser por um milagre, fracassaria na minha missão. Durant, é
impossível descrever a assombrosa beleza daquela mulher. Era encantadora. Um esquisito
espírito do mal criado para a perdição dos homens... Henry não me quis ouvir. Amaldiçoou-me.
Ordenou-me que o deixasse só com a sua felicidade, e me retirasse para sempre. Quando
lhe falei na irmã, pôs-se a praguejar e a injuriá-la. Com um soco, fi-lo rodar por
terra. Ela, Lou Chan Fu, contemplava a cena, imóvel, com um ríctus de desdém. Henry
jurou que me mataria como a um cão se seu ficasse... e eu fiquei.
Por
amor de minha noiva, suportei aquela mulher todos os insultos e disputei àquela
mulher o domínio sobre a alma de Henry. Lou Chan envilecera-o, ensinando-o a
fumar ópio. Procurei inutilmente tirar-lhe esse vício. Ela proporcionava-lhe
sempre novas doses de fumo. Eu estava desesperado. Não sabia o que fazer. Então,
resolvi agir com audácia, Durant. Para libertar Henry do domínio daquela mulher
era necessário fazê-la minha escrava, como ele o era dela.
O
resultado foi um êxito completo. Lamentável triunfo o meu, Durant. Lamentável,
mas necessário. Chegou, afinal, a hora de jogar a cartada decisiva.
Lou
Chan Fu já não ocultava a sua paixão por mim. Se Henry não andasse cego,
tê-lo-ia notado muito antes.
Um
dia, ao anoitecer, levei-a para junto da janela do quarto onde o jovem estava
estendido no sofá, sob a influência do ópio, e fi-la falar desdenhosamente
dele. De súbito, apareceu diante de nós Henry, lívido e cambaleante. Tinha
ouvido as palavras da mulher! Era lastimável o espetáculo daquele infeliz na
agonia da sua ilusão e da sua vergonha. Lançou-lhe em rosto as mais negras
injúrias. Ela ria-se dele.
E,
depois de insultar também a mim, Henry disse-me, com voz estranha:
—Tinha
razão, Conquest... Há alguma coisa melhor do que isto...
Em
seguida, girou sobre os calcanhares e afastou-se.
Pouco
depois, vi-o sentado à escrivaninha, no seu quarto, a escrever febrilmente, e
imaginei que seria uma carta para a irmã. Compreendi, então, que Lou Chan Fu
tinha perdido todo o poder sobre ele. Pensei em levá-lo imediatamente para
bordo da “Loreley”; mas, de repente, ouvi uma detonação. Corri ao seu quarto e
encontrei Henry estendido no chão, com o revolver ainda fumegante apertado na
destra. O infeliz estava morto. Em cima da escrivaninha, vi uma carta quase ilegível,
dirigida à irmã...
Acabrunhado
pelo trágico e inesperado final — ruína de todas as minhas esperanças —, peguei
a carta e saí, correndo, daquela casa. Não queria tornar a encontrar-me com Lou
Chan Fu. Sabia que seria capaz de matá-la. Caminhei para o rio, a fim de tomar
uma lancha e dirigir-me a Hanói.
Mal
tinha acabado de desamarrar a lancha, ela chegou. Vinha atrás de mim. Ao
contato das suas mãos, estalou a tempestade que em meu espirito se acumulara.
Insultei-a da maneira mais soez. E, só então, Lou Chan Fu compreendeu que eu a
enganara...
Tirou
da cinta uma faca e lançou-se sobre mim. Tinha a violência de uma possessa. Em
legítima defesa, arrebatei-lhe a faca, e a enterrei no peito. Cambaleou,
arrancou a faca da ferida, e murmurou:
—
Vou, mas voltarei por ti. Voltarei para te levar para o Inferno!
Com
um olhar terrível, e a faca apertada nos dedos rígidos, deixou-se cair sobre a
margem e foi arrastada pela corrente do rio...
Minutos
depois, tornei a ver o seu corpo flutuando à tona da água, com a faca ainda na
mão.
O
seu rosto morto fitava-me. Acelerei a marcha da minha lancha com supersticioso
terror...”
Conquest
estremeceu. Via-se que sofria intensamente ao recordar aqueles acontecimentos.
—
E a jovem? A que ia ser sua esposa? — perguntei-lhe.
—
Escrevi-lhe, como é natural, enviando-lhe a carta do suicida. Foi, sem dúvida,
uma loucura da minha parte. Mas eu amava-a e queria que ela acreditasse em mim.
Minha noiva respondeu-me, comunicando-me simplesmente que recebera a carta do
irmão. Querendo salvar-me, eu me perdera irremediavelmente.
—
Mas, certamente, o senhor insistiu...
—
Tornei a escrever-lhe. As minhas cartas nem sequer foram abertas. Daí a pouco,
soube que ela tinha morrido de uma síncope cardíaca.
Conquest
pôs-se a passear pelo convés, desesperado. Eu não sabia o que dizer, mas, naqueles
momentos, sofria com ele.
Por
volta da meia-noite, o velho Banagi preparou o escaler e dispus-me a regressar à
terra.
—
Durant! — exclamou, de súbito, o meu amigo. — O senhor disse que tem de ir amanhã a
Macassar. Deixe-me levá-lo. A sua companhia será para mim um prazer...
—
Com muito gosto — concordei. — Mas, antes, preciso de tratar certos assuntos em
terra. Cartas de negócios, contas, telegramas. Estarei de volta dentro de uma
hora.
Conquest
ficou pensativo e, depois, suspirou.
—
Assim seja — disse, com estranha calma.
E
deu algumas instruções a Banagi.
—
Não demorarei mais de uma hora! — gritei-lhe do escaler.
—
Isso será se Alá o quiser, como diria Banagi — respondeu-me o meu amigo.
Um
súbito pressentimento de indizível terror me encheu a alma, e murmurei ao
ouvido de Banagi que apressasse o mais possível os seus remadores, para
voltarmos depressa.
Mas,
de repente, quando estávamos já a certa distância, Banagi segurou-me o braço:
—Tuan,
escute —murmurou, com voz rouca e apagada. — As asas! Escute!
Ofegante,
com a testa salpicada de suor, eu escutei. Não sei se seria a caótica desordem
que reinava em meu espírito, mas julguei ouvir um bater de asas no ar, como se
grandes pássaros revoluteassem por cima de nós, e das suas asas viesse um sopro
frio como a morte.
Soltamos
um involuntário grito de horror. O escaler parecia ter chocado num obstáculo...
À luz da lanterna de Banagi, vimos então “aquilo” que passava ao nosso lado,
flutuando sobre as ondas. Era o corpo de uma bela chinesa com um punhal cravado
no peito. Tinha os olhos abertos, e neles resplandecia o ódio imortal de uma
alma perversa...
Soltando
uma interjeição, Banagi ergueu um remo e bateu com força no rosto do espectro.
—
Para trás, maldita! — gritou. — Vai-te, em nome de Alá!
O
vulto flutuante afundou-se na água.
As
luzes do iate cinzento da princesa foram-se apagando, até se extinguirem
totalmente.
—
Banagi, voltemos para a “Loreley” — gritei por minha vez, com um angustioso pressentimento.
—
É tarde demais, tuan — murmurou Banagi, desolado. — É tarde demais!
Encontramos
Conquest na cadeira, tal como o tínhamos deixado. No seu peito — no mesmo lugar
onde aquele espectro flutuante tinha um punhal cravado — estava a faca da
prateleira, enterrada até o cabo. O rosto do meu amigo mostrava uma serenidade
perfeita, como se a alma da sua noiva se houvesse juntado com ele no céu.
Quando
voltei ao hotel na manhã seguinte, esgotado pela noite de vigília e pela terrível
impressão sofrida, notei logo que alguma coisa extraordinária tinha ali
acontecido. O meu amigo francês saiu-me ao encontro no hall.
—
Ah! Meu caro senhor! — murmurou. — Aconteceu uma coisa horrível. Morreu a princesa!
—
Morreu... a princesa? — repeti, maquinalmente.
—
Sim. Assomou à janela do seu apartamento, à meia noite, e ficou-se a contemplar
o mar. Eu e outros hóspedes estávamos também a ver o mar. Nisto, aconteceu uma
coisa estranha. O ar encheu-se de um rumor de asas, como se todas as aves
marinhas se tivessem ajuntado a esvoaçar por cima de nós. Então, soltando um
grito medonho, terrível, dilacerante, a princesa caiu da janela. Descemos
precipitadamente e encontramo-la morta.
—
Jesus! —exclamei, de olhos horrorizados fitos no meu amigo francês.
E
ele concluiu:
—
Mas a morte foi para ela uma felicidade. O seu rosto mudou de expressão. Era
suave, puro, belo... Como se aquela outra alma... da mulher mandchu... a houvesse abandonado para sempre.
Fonte:
“O Cruzeiro”/RJ, edição de 19 de maio de 1934.
Ilustração: Layout e engenharia de prompt
artístico: Rogério S. de Farias; arte-final: IA Grok (xAI).
Nota:

Muito bom, um trabalho em equipe altamente fantástico! Ass. Roger.
ResponderExcluir