VILIPÊNDIO DE CADÁVERES - Narrativa Verídica Fúnebre - Autor anônimo do séc. XX
VILIPÊNDIO
DE CADÁVERES
Autor
anônimo do séc. XX
Canhoto,
coveiro do Cemitério do Araçá, onde se encontra o necrotério do Instituto
Médico Legal de São Paulo, estacou num assombramento, arrepiado, com os nervos
em desordem. Vira, sobre o mármore de uma das mesas da sala de autópsias, um
cadáver todo perfurado a golpes violentos. Dominando a custo a excitação, o
coveiro observou melhor, confirmando a primeira impressão. Alguém desferira
golpes sobre golpes, com extraordinária força, sobre o corpo inanimado, no
peito, no ventre, nas pernas. Por que tão estranha brutalidade contra um corpo
sem vida? E quem teria cometido o ato, quando toda aquela dependência permanece
fechada?
Canhoto,
homem supersticioso, sentia frêmitos de pavor, não encontrando explicação para
tão monstruoso atentado. Teria sido um louco? Mas um alienado não teria tido
tino para conseguir entrar e sair na sala sem despertar a atenção de ninguém.
Ainda
perturbado com o macabro espetáculo, o humilde serventuário do Araçá deu
ciência do ocorrido a seus superiores, que investigaram sem resultado. Mas o
fato deixara ambiente de susto e de apreensão. Cada um formulava hipóteses e
investigava, em redor, as pessoas desconhecidas que se aproximavam do
cemitério. Devia ser uma criatura musculosa, a concluir-se pela violência dos
golpes desferidos. O muro do cemitério é de dois metros de altura. O feroz
intruso talvez tivesse escalado a muralha.
E
eis que, mal abrandavam os comentários sobre o pavoroso acontecimento, outro
fato idêntico alarma a todos. Um estranho, que tudo indicava ser o mesmo,
escalara a sala de autópsias e perpetrara novo atentado.
Desta
vez usara, em vez do punhal, uma grande agulha de furar sacos, com ela crivando
de pontaços o cadáver de um afogado em estado de putrefação. Trespassara-o
todo, numa fúria, e, para maior requinte, deixando o instrumento cravado no
peito do morto.
Houve
providências imediatas para a captura do intruso, que deveria ser um necrófilo,
um desses tarados que a ciência classifica e que surgem, de vez em quando, para
espanto e horror das criaturas normais.
A
intervenção da polícia surtiu resultado, sendo descoberto e identificado o
intruso do Cemitério do Araçá. E todos pasmaram, interditos. Tinham imaginado
um indivíduo repelente, uma figura humana de monstro, e defrontavam um
adolescente, quase uma criança, com apenas dezesseis anos, esmeradamente
educado por sua família, residente à Avenida Angélica, e cujo chefe é o
capitalista João Assumpção Teixeira.
Soube-se,
depois, que desde menino o jovem manifestara sintomas da repugnante psicose,
mas não de modo tão acentuado que pudesse ser identificado pelas pessoas da família,
leigas no assunto. Ele sentia um prazer indefinível em ver enterros. Em caso de
morte de parentes ou conhecidos, timbrara em passar a noite velando o cadáver,
e o mais próximo possível do mesmo, observando-o com olhos de encantado embevecimento.
Apartava-se o menos possível do caixão, sempre atento à fisionomia do morto.
Todos, porém, julgavam natural a atitude do menino, interpretando-a como
resultante de uma sensibilidade requintada e da emoção fácil com a morte de
conhecidos. Crescia, e com ele crescia, aquela fascinação doentia pelos mortos.
Mais tarde, passou a interessar-se pelos casos de assassínio, acompanhando-os
nos jornais com interesse apaixonado, recortando o noticiário e, principalmente,
as gravuras reproduzindo cadáveres de assassinados. Passava horas a fio absorto
na contemplação desses quadros horripilantes. Mas, ainda ali ninguém poderia
suspeitar que tivesse no íntimo a tremenda aberração.
Por
último, com a intensidade crescente da tara, entrou a frequentar cemitérios,
entre eles o do Araçá. Postava-se nas grades longo tempo, perscrutando com
olhos sequiosos as filas de sepulturas estendidas, e mais interessado quando
podia ver, embora de longe, um sepultamento. Era uma atração irresistível para
os seus nervos tensos, num desvio alucinante de sensibilidade. Aquela vontade íntima,
dominadora, absorvente, exigia sempre mais, sempre mais próximo, o motivo do
êxtase doentio.
Por
fim, queria tocar o cadáver, e veio a primeira aventura, quando conseguiu
entrar e permanecer a sós na sala de autópsias do Gabinete Médico Legal. Tivera
à mão os corpos mortos, de carnes já exalando fétido. Cevara-se, então, com
voluptuosa fúria, crivando de punhaladas o cadáver à sua mercê. A sede saciada
trouxera outra ainda mais feroz, verdadeiramente indominável. Todo ele vibrava,
dia e noite, no desejo febril de cortar as carnes mortas de seus semelhantes.
Veio a segunda incursão, quando esgotara no corpo do afogado o aceso de necrofilia.
Agora, internado no Juqueri pela polícia, a ciência
procurará libertar o jovem da tara que o coloca à margem da humanidade.
Fonte:
“A Noite Illustrada”/RJ, edição de 1º de abril de 1936.
Ilustração:
Enrique Simonet (1866 – 1927).

Meu deus do céu essa é a história mais assustadora que eu já li, meus pêsames para a família 🥲
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