A HISTÓRIA DE O-TEI - Conto Clássico Sobrenatural - Koizumi Yakumo
A HISTÓRIA DE
O-TEI
Koizumi Yakumo
(Lafcadio Hearn)
(1850 – 1904)
Tradução de
Paulo Soriano
Há
muito tempo, na cidade de Niigata, província de Echizen, vivia um homem chamado
Nagao Chosei.
Nagao,
filho de um médico, fora educado para seguir a profissão do pai. Ainda jovem,
havia sido prometido em casamento a uma moça chamada O-Tei, que era filha de um
amigo de seu pai; e ambas as famílias concordaram que as núpcias ocorreriam tão
logo Nagao concluísse seus estudos. A saúde de O-Tei era, contudo, frágil; aos
quinze anos, ela foi acometida por uma tuberculose fatal. Quando percebeu que
morreria, a moça mandou chamar Nagao para se despedir.
Enquanto
ele permanecia ajoelhado ao lado de sua cama, disse-lhe ela:
—
Nagao-Sama[1],
meu noivo, nós fomos prometidos um ao outro desde a infância; e deveríamos ter-nos
casado no final deste ano. Agora,
contudo, morrerei. Sabem os deuses o que é melhor para nós. Se, por mais alguns
anos, eu vivesse, continuaria sendo, apenas, motivo de problemas e tristeza
para os outros. Com este corpo frágil, eu não poderia ser uma boa esposa.
Destarte, ainda que, por sua causa, eu desejasse viver, tal aspiração seria
apenas egoísta. Resigno-me à morte e
desejo que você me prometa que não cairá em tristeza. Por fim, digo-lhe que
creio que nos encontraremos novamente.
—
De fato, nós nos encontraremos novamente — respondeu, seriamente, Nagao. — E naquela Terra Pura[2]
não haverá a dor da separação.
—
Não, não! — respondeu ela suavemente. — Não me refiro à Terra Pura. Creio que,
malgrado eu já esteja sepultada amanhã, estamos destinados a nos encontrar
novamente neste mundo terreno.
Encantado,
Nagao olhou para ela e viu-a sorrir diante de sua admiração. Ela prosseguiu,
com sua voz suave e sonhadora:
—
Sim, quero dizer neste mundo — na sua própria vida presente, Nagao-Sama... Mas
desde que, de fato, seja esse o seu desejo. Todavia, para que tal aconteça,
preciso nascer menina novamente e crescer até me tornar mulher. Você, então,
terá que esperar. Quinze... dezesseis anos: é muito tempo... Mas, meu prometido
marido, você tem apenas dezenove anos agora.
Ansioso
por confortá-la em seus últimos momentos, ele respondeu ternamente:
—
Será uma alegria esperar por ti, minha noiva. Por sete vidas, estamos
prometidos um ao outro.
—
Você duvida? — perguntou ela, observando-lhe as feições.
—Minha
querida — respondeu ele —, duvido que eu consiga reconhecê-la em outro corpo,
sob outro nome, a menos que você possa revelar-se a mim por indício ou sinal.
—
Isso eu não posso fazer — disse ela. —
Somente os Deuses e os Budas sabem como e onde haveremos de nos encontrar. Mas
tenho certeza — muita, muita certeza — de que, acaso não haja recusa de
receber-me, poderei voltar para você... Lembre-se destas minhas palavras.
Ela
parou de falar e seus olhos se fecharam. Estava morta.
*
Porque
sinceramente apegado a O-Tei, a dor de Nagai era profunda. Mandou erigir uma laje
mortuária, com a inscrição de seu zokumyo[3];
e a colocou em seu butsudan[4].
E todos os dias depositava oferendas diante dela. Ele refletia muito sobre as
coisas estranhas que O-Tei lhe dissera pouco antes de sua morte; e, na
esperança de agradar o seu espírito, escreveu uma promessa solene de se casar
com ela, caso O-Tei pudesse voltar para ele noutro corpo. Nagai gravou tal promessa escrita com o seu
selo e a colocou no butsudan, ao lado da lápide mortuária da
falecida.
Sendo,
contudo, filho único, era necessário que Nagao se casasse. Logo se viu obrigado
a ceder aos desejos de sua família e a aceitar uma esposa escolhida por seu
pai. Após o casamento, continuou a depositar oferendas diante da tábua de O-Tei.
E jamais deixou de lembrar-se dela com carinho. Aos poucos, todavia, a imagem
dela se desvaneceu em sua memória, qual um sonho de difícil de recordação. E passaram-se
os anos.
Durante
aqueles anos, muitas desgraças o atingiram. Nagao perdeu os pais, depois a
esposa e o único filho. De modo que se viu sozinho no mundo. Abandonou seu lar
desolado e, na esperança de esquecer as suas mágoas, partiu numa longa jornada.
Certa
feita, numa de suas viagens, chegou a Ikao, uma aldeia montanhosa ainda famosa
por suas fontes termais e pela bela paisagem circundante. No albergue onde se
hospedou, uma jovem veio servi-lo; e, assim que, pela primeira vez,
contemplou-lhe a face, sentiu palpitar-lhe o coração como nunca antes. Ela se
parecia tanto com O-Tei que ele se beliscou para ter certeza de que não estava
sonhando. Enquanto ela ia e vinha — trazendo fogo e comida, ou arrumando o
quarto do hóspede —, cada gesto e movimento seu reavivava-lhe alguma doce
lembrança da jovem a quem, na juventude, se havia prometido em casamento. Ele
falou-lhe. E ela respondeu-lhe com uma voz suave e clara, cuja doçura o afligia
com uma tristeza de outros tempos.
Então,
com grande espanto, ele a questionou, dizendo:
—
Irmã mais velha[5],
você se parece tanto com uma pessoa que conheci há muito tempo, que, assim que
você entrou nesta sala, eu me assustei. Hás de me perdoar, portanto, se eu
perguntar qual o seu lugar de origem e o seu nome?
Imediatamente
— e com a voz inesquecível dos mortos — ela assim respondeu:
—Meu
nome é O-Tei; e você é Nagao Chosei, de Echigo, meu prometido marido. Há
dezessete anos, eu morri em Niigata. Você, então, fez uma solene promessa de
casar-se comigo, se eu pudesse retornar a este mundo no corpo de uma mulher. E
você marcou essa promessa escrita com seu selo e a colocou no butsudan,
ao lado da tábua com meu nome inscrito. Assim, portanto, eu voltei...
Tendo
proferido tais palavras, a moça perdeu a consciência.
Nagao
casou-se com ela. E o casamento foi feliz. Mas, em nenhum momento depois, ela
conseguiu lembrar-se do que lhe havia dito em resposta à sua pergunta em Ikao;
tampouco se lembrava da própria existência anterior. A recordação do nascimento primevo — misteriosamente despertada no momento daquele encontro — tornara-se
novamente obscura, e assim permaneceu desde então.
Notas:
[1] “-sama” é um
sufixo de cortesia adicionado a nomes próprios. (N. do A.)
[2] Termo budista
comumente usado para designar um tipo de paraíso.
[3] O termo budista
zokumyo (“nome profano”) representa o nome pessoal, usado durante a
vida, em contraposição ao kaimyo (“nome sila”) ou homyo
(“nome da lei”) dado após a morte. Trata-se de designações religiosas póstumas
inscritas no túmulo e na lápide do templo paroquial. (N. do A.) — Sila significa nome de virtude moral
concedido com a morte. (N. do T.)
[4]
Santuário
budista. (N. do A.)
[5]
Tradução
direta de uma forma japonesa de tratamento usada para mulheres jovens e
solteiras. (N. do A.)

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