A LEBRE - Conto Clássico Cruel - Octave Mirbeau

A LEBRE

Octave Mirbeau

(1848 – 1917)

Tradução de autor anônimo do séc. XX

 

Com as suas ferramentas sobre o ombro, Jean voltava do campo onde, o dia inteiro, trabalhara com afinco. Entrou triunfalmente no pátio da fazenda, tendo entre as mãos alguma coisa que esperneava.

A noite ia caindo e não se distinguia nitidamente os objetos.

— Que tens aí? — perguntou-lhe o dono da fazenda, que lavava as mãos na bica.

 — É uma pequena lebre que apanhei na cerca do Clos-Serbier — respondeu Jean.

 — Este Jean! — replicou o patrão. — E que queres fazer dessa lebre? Não vês como é pequena!...

—Ora esta! Quero criá-la.

E indagou:

 — O senhor dá-me licença de pôr a minha lebre no viveiro ao lado dos coelhos e tirar uma gota de leite, de manhã, para ela beber?...

— Isto é com minha mulher...

— Oh, a patroa com certeza deixará!

Pierre, sob o telheiro, desatrelava os cavalos. Resmungou baixinho:

— É assim mesmo! Ele traria para a fazenda um lobisomem, que haviam de agradecer a essa peste! Se fosse eu!...

Deu um soco nos cavalos e largou uma praga.

— Lá está o Pierre com o seu crônico acesso de ciúmes — disse o fazendeiro. — Cala-te animal, sabes que não gosto de rezingas e já estou farto com os teus maus modos...

Pierre exasperou-se e respondeu num tom azedo:

— Meus modos! Estou dizendo a verdade e o senhor não me mete medo!

O patrão sacudiu os ombros, fingindo não ter ouvido. E, enquanto Pierre continuava a resmungar, sob o telheiro, ele entrou na casa, onde a sopa o esperava fumegante sobre a mesa.

Pierre não tardou em vir também, tendo amarrado os cavalos na cocheira. Jean chegou depois, tendo arranjado um lugar vazio no viveiro para a sua lebre. A refeição correu silenciosa. Pierre tinha um ar rebarbativo; com o seu rosto chato, a sua curta barba ruiva e seus olhos oblíquos, parecia um tigre... Jean, com o seu ar cheio de meiguice, pensava no seu animalzinho como uma criança. E, quando foram deitar-se, Pierre acercou-se de Jean, e disse-lhe entre os dentes, baixinho:

 — Foi ainda por tua causa que me censuraram. Ainda te farei pagar tudo isto, verás... E Jean, muito calmo, respondeu:

— Não tenho medo de ti.

 

*

 

Pierre não tolerava Jean; detestava-o porque Jean era simpático a toda a gente na fazenda e na localidade. Meigo, solícito, de gestos menos pesados que os outros, mais delicado de maneiras, firme no trabalho, hábil em criar distrações agradáveis, os homens e as mulheres gostavam dele. Pierre não podia suportar, ao seu lado, essa superioridade. Todo elogio, toda boa palavra, toda carícia endereçada a Jean destilava ódio no coração ciumento, no coração covarde do carroceiro. Pierre frequentemente tentara provocar Jean, mas este evitava as rixas com uma encantadora ironia. Muitas vezes, pensara em esperá-lo, no domingo, à noite, quando voltava da cidade, para lançar-se sobre ele, espatifar-lhe o rosto a pedradas, enterrar-lhe a foice no ventre ou quebrar-lhe a cabeça a marteladas. Receava, porém, as consequências do crime. Também não ousava ultrapassar os limites das injúrias, porque sabia que o patrão não hesitaria entre Jean e ele, e o emprego era bom. O ódio acumulava-se, pois, no seu ser, exasperado de não poder dar às suas energias condensadas um outro derivativo senão o dos insultos clandestinos e das brigas quotidianas.

Naquela noite, na estrebaria, sobre a sua maca, ele estendeu-se, mais empolgado, mais atazanado pelo ódio do que nunca. O seu peito roncava como uma máquina por demais aquecida e ele apertava os lençóis, com gestos de estrangulador. Imagens sinistras perseguiram-no toda a noite e ele não pôde dormir.  Oh, matar Jean! Qualquer dor desapareceria então da sua alma. Matar Jean! Parecia-lhe que poderia talvez, depois disso, gostar dos seus cavalos, como antes, os seus bons cavalos, que ele espancava desde que Jean lhe derramara no coração o veneno do ódio! Oh! Matar Jean! Então, em lugar de enxotar as rubras imagens de morte que o faziam arquejar, as rubras e fugazes imagens de morte, que passavam diante dele, nas trevas, com estranhas imprecisões, ele procurou dar-lhes um aspecto menos vago, um corpo exato, um corpo odiado, o aspecto e o corpo de Jean, estrangulado aos seus pés e nas ânsias da agonia. E sentiu-se aliviado! Foi como uma gota d’água sobre os lábios de um viajante morrendo de sede. Oh! Matar Jean!

 

*

 

A pequena lebre crescia. Todas as vezes que Jean voltava do campo, ia levar um pouco de leite ao animalzinho e colocar palha fresca no viveiro. Dizia-lhe coisas gentis e ingênuas canções, como se fosse uma criança. Na fazenda, gostavam da lebre porque gostavam do Jean. Toda a gente perguntava-lhe com solicitude:

— Então, como vai a pequena lebre?

Jean respondia com um bom sorriso:

— Vai bem... Bebe bem... Está com os olhos bem espertos...

Pierre detestava a lebre, porque detestava Jean. E, todas as vezes que faltavam da lebre diante dele, uma hedionda careta ainda tornava mais repelente a sua cabeça chata e mais feroz a expressão de covardia de seus olhos oblíquos.

E, várias vezes, à noite, quando iam dormir, Pierre repetia a Jean:

— Canalha! Um dia dar-te-ei cabo do canastro!

 

*

 

Uma noite, Pierre levantou-se, não podendo pegar no sono. Acendeu a lanterna da estrebaria e foi para o pátio. Estava descalço, em camisa. Esgueirou-se pela parede da casa onde Jean dormia àquela hora, parou perto da janela, atrás da qual ele estava, depois continuou o seu caminho. Os cães de guarda vieram farejá-lo e, reconhecendo-o, não ladraram. Ele bem teve vontade de lhes arrumar uns pontapés, mas temeu os seus gemidos no silêncio da noite.

Chegando perto do viveiro, parou de novo; depois, deitou-se no chão diante de uma pequena grade, através da qual passavam pedaços de palha e de ervas que a lanterna alumiava.

— Canalha! Canalha!  — rugiu Pierre entre os dentes cerrados.

Abriu a grade, afastou a palha e as ervas, mergulhou a mão.

— Bem que te encontrarei, canalha! Podes te esconder! Hei de te achar!

 A sua mão tateou algum tempo e trouxe alguma coisa mole, uma bola fulva que ele colocou diante da lanterna, a pequena lebre.

—Diz-me que és Jean, bicho imundo! — gritou Pierre, cujos olhos faiscaram de uma alegria feroz.

A pequena lebre tinha as orelhas deitadas; só se via no seu pelo eriçado a ponta do focinho que se mexia e a pupila negra em que se via um indizível terror.

— Diz-me que és Jean! —repetiu Pierre, cuja voz se tornava muito baixa, muito rouca. — Jean... Jean... Jean!...

Aproximou ainda mais a lebre da lanterna.

— Que eu te veja!... Que eu te veja morrer... Jean... Porque és o Jean.

 Passou a mão na garganta da lebre.

—Há muito tempo que quero e fazer sofrer! Que te quero fazer morrer! Porque és o Jean... És a sua alma... sua alma que odeio!...

Apertou a garganta da lebre. A cabeça do pequeno animal pareceu crescer desmedidamente; seus olhos pareciam sair das órbitas: debateu-se nos dedos de Pierre.

E, à medida que a vida se extinguia, que os movimentos se tornavam mais fracos, que o corpo se inteiriçava, Pierre gritava:

— Ah! Finalmente estás nas minhas mãos, Jean!... Tenho a tua vida, Jean!... Não me farás mais sofrer, Jean! Ninguém mais gostará de ti!...

Quando a pequena lebre ficou inerte, Pierre atirou-a no viveiro, fechou a grade e entrou na estrebaria, onde se deitou.

Com os membros lassos, o cérebro vazio, adormeceu profundamente, como um homem sem remorsos, como um homem feliz, como um homem finalmente livre de um mau pensamento.

 

Fonte: “Selecta”/RJ, edição de 21 de junho de 1919.

Ilustração: PS/Gemini.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O GATO PRETO - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe

O CORAÇÃO DELATOR. Conto clássico de terror. Edgar Allan Poe

O BARBA AZUL - Conto Clássico de Terror - Charles Perrault

O RETRATO OVAL - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe