A MULHER GAIVOTA - Conto Clássico Fantástico - Lafcadio Hearn

A MULHER GAIVOTA

(Conto Esquimó)

Lafcadio Hearn

(1850 – 1904)

Tradução de autor anônimo do séc. XX

 

Naquelas paragens, a lua envelhece muitas vezes e outras tantas se renova, como um ente que morresse continuamente e por um sortilégio continuamente ressuscitasse. Enquanto isso, o sol gira num círculo de nuvens pálidas e nunca se deita. Enfim, quando desaparece no horizonte, ainda é dia, porque os mortos acendem fogueiras rubras no céu, acima dos bancos de gelo, esperando que de novo se levante após longos e sombrios meses.

 

Naquelas paragens, tudo, menos o mar, que é negro, e os nevoeiros, que são lívidos. Contudo, é difícil determinar onde termina a água e começa a terra, porque os deuses se esqueceram de acabar aquela parte do mundo. Os picos das geleiras aumentam e diminuem, mudam seu alinhamento do norte para o sul e, grotescamente, transformam seu aspecto. Há, no gelo, figuras que se alongam, ou alargam, e formas que parecem de criaturas desaparecidas. Quando a lua é cheia, os inúmeros cães, que se alimentam de peixe morto, uivam todos ao mesmo tempo diante do mar, que ruge, ouvindo-os; os grandes ursos apertam-se uns contra os outros nos mais altos cimos dos montes de gelo, de onde atiram contra os cães blocos alvos e pontudos. Dominando tudo, ergue-se entre lumes vermelhos a montanha que foi fonte de fogo desde o começo do mundo, e toda a superfície em redor dela está juncada de ossadas monstruosas.

Assim é o verão nesse país. No inverno, não se ouve o menor ruído, salvo o ciciar da neve que cai, o uivar do vento e o crepitante ranger do campo de gelo.

E há homens que vivem ali, homens cujas moradias são cabanas de neve, iluminadas com lâmpadas de azeite dos bichos do mar. Mas esses homens vivem com o pavor do Havstramb, monstro da forma dum homem sem braços, esverdinhado como gelo velho; temem também a Margige, do feitio de mulher, que chora debaixo do gelo sobre o qual se erguem suas casas; o Urso Fantasma, cujos dentes são gelados; os Kajarissats, ou espíritos do banco de gelo, que afundam os caiaques na água escura; o fantástico Caçador de Marfim, que conduz seu carro silencioso e vaporoso por cima da neve, da camada da agua solidificada, mais delgada do que uma escama de peixe; os Veados de Olhos Brancos, que não devem ser perseguidos; e, enfim, o Espectro Branco, que espreita os que perdem o caminho à noite, e tem o poder de destruir aqueles que, por artes magicas, consegue fazer rir!

Lá também é o pouso predileto do Warlocks, dos Feiticeiros e dos Iliseetsuts, criadores do Tupilek. Ora, o Tupilek é, de todas as coisas horríveis, a mais horrível; de todas as coisas inexprimíveis a mais inexprimível.

Toda essa região está coberta de ossadas — ossos de monstros da terra do mar, crânios de animais que pereceram nos éons, antes da criação do homem — e há montanhas e ilhas só desses ossos!

Às vezes, os grandes mercadores das distantes nações do sul enviam até ali, com trenós de muitos cães, caçadores de marfim, que arriscam a vida pelos dentes brancos, presas pavorosas que surgem da areia, ou da neve, pouco profundas para cobri-las de todo. E os Iliseetsuts escolhem os maiores desses ossos, envolvem-nos numa grande pele de baleia, misturam-lhes corações e miolos de bichos do mar e da terra, e pronunciam sobre eles palavras mágicas. Então, aquela massa colossal estremece, ginga e se modela numa forma mais horrorosa e maior do que qualquer outra forma criada pelos deuses. Aquilo se move sobre muitos pés, vê por muitos olhos, devora com muitos dentes e obedece à vontade de quem o fez.

É, em resumo, o Tupilek!

*

 


 

Tudo muda constantemente de aspecto nessa região, como o gelo eternamente transforma suas fantásticas silhuetas, como os limites das terras incessantemente variam e o que é osso se torna em pó e o que é pó parece tornar-se osso. Do mesmo modo, os animais tomam expressões humanas e os pássaros formas humanas. Porque nessas paragens tudo parece obra de feitiçaria.

Eis o que certo dia aconteceu a um caçador de marfim.

Viu, de súbito, um bando de gaivotas metamorfosear-se num bando de mulheres. Avançando sorrateiramente por cima da neve, todo vestido de peles brancas, surpreendeu-as e apoderou-se depressa da que lhe ficava mais perto, enquanto as companheiras, retomando o feitio de aves, voavam para os lados do sul, soltando gritos esquisitos.

A rapariga era esbelta como a lua nova e tinha os olhos doces como os das gaivotas selvagens. O caçador, vendo que chorava, sem procurar fugir, teve pena dela, levou-a para a sua quente toca de gelo, vestiu-a com sedosas peles e deu-lhe a comer o coração dum grande bacalhau. Depois, sua compaixão se tornou amor e desposou-a.

Assim viveram dois anos seguidos. Ele alimentava-a com carne e peixe, porque sabia manejar bem a rede e a flecha. Mas, quando se ausentava, fechava bem fechada a porta da cabana, com receio que de novo se transformasse em ave e para sempre fugisse. Ela deu-lhe dois filhos e pouco a pouco seus medos se dissiparam como a lembrança dum sonho. Tendo aprendido a servir-se do arco com admirável destreza, seguia-o à caça, porém, convenceu-o de nunca perseguir as gaivotas.

Viveram juntos muitos e muitos anos mais, sempre se amando. Os filhos cresceram fortes e ágeis. Uma feita, durante a caçada, após terem morto muitos pássaros, de repente a mãe gritou aos rapazinhos:

— Filhos! Filhos! Tragam-me depressa algumas penas!

Eles lhe trouxeram algumas mancheias. Então, colocou-as nos seus braços, nos seus ombros e nos deles, gritando:

— Voai! Fugi! Sois da raça das Aves! Sois filhos do Vento!

Logo, suas roupas caíram como por encanto, e mãe e filhos, transformados em gaivotas, elevaram-se no ar puro e gelado, espiralando para o céu, cada vez mais alto, mais alto. Três vezes descreveram um círculo, no seu voo, em torno do pai desesperado, soltaram três gritos estridentes além dos picos de gelo cintilantes; depois, dirigindo-se ligeiramente para o sul, desapareceram para sempre num derradeiro bater de asas.

 

Fonte: “Primeira”/RJ, edição de 10 de agosto de 1928.

 

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