O ANEL ENCANTADO - Conto Clássico Sobrenatural - Autor anônimo do séc. XIX

O ANEL ENCANTADO

Autor anônimo do séc. XIX

 

Estamos em Liverpool.

Corria o ano de 1872. O Sr. Raynardt, capitão de um belo navio mercante que costumava navegar pelos mares da Índia e da China, vivia nessa cidade, onde era muito conhecido pela sua honradez, lealdade e franqueza.

Tinha ele conseguido aumentar a sua fortuna por meio de negociações perfeitamente lícitas e não devia a ninguém.

Aos 32 anos de idade, casara-se com uma jovem formosíssima, de 25 anos, descendente de pais escoceses, que lhe haviam dado excelente educação, tendo sido ela interna de um importante colégio da capital da França.

Como dissemos, o capitão Raynardt era a personificação da lealdade. Sua esposa, porém, devido talvez à educação parisiense que recebera, era um tanto leviana e inconsequente, amante de teatros e bailes, porém honesta, nunca tendo tido ocasião de desviar-se do caminho da virtude.

Naquela vida calma que levava, teve um belo dia o capitão saudades do oceano e do seu belo navio.

Sentia ele a nostalgia da terra, e morria por ver-se entre o mar e o céu, sobre o tombadilho da sua airosa e veleira embarcação.

Não podendo mais resistir a esse desejo que o aguilhoava, mandou preparar o navio. Antes, porém, de fazer-se de vela para os portos da China, despediu-se da adorada esposa, e, com as lágrimas nos olhos, disse-lhe as seguintes palavras:

 — Adeus, Mary! Até a volta, se o céu permitir. Daqui a um ano, devo estar em Liverpool.

—Adeus, meu querido Raynardt — disse a esposa, chorando. — Que Deus te conserve a vida e te acompanhe.

Abraçaram-se marido e mulher. O capitão, tirando então do dedo um anel de valor, com um único brilhante, enfiou-o no dedo de sua esposa, dizendo com grande solenidade:

— Toma este anel, Mary. Nunca o tires do dedo! Se algum dia estiveres em perigo, olha para ele atentamente, e lembra-te de mim.

Tendo dito isto, arrancou-se o capitão Raynardt dos braços de sua esposa e partiu para bordo. No dia seguinte, velejava o navio para a China.

São decorridos seis meses.

Mary acaba de ler uma carta de seu marido, anunciando-lhe que havia chegado são e salvo a Xangai e que começava a receber o carregamento de chá, contando que o navio chegasse a Liverpool daí a cinco meses.

Depois de ler a carta e do beijá-la carinhosamente, a moça ficou pensativa. Ouvindo ruído, olhou ela para a porta e viu o entrar seu primo Leopold, um rapagão que outrora a requestara.

Leopold era na verdade um rapaz sedutor e atraente, e há muito andava a perseguir sua prima com olhares ternos e alentados suspiros, que ela fingia não perceber.

Encontrando-a só, o belo rapaz atirou-se-lhe aos pés, e, apaixonadamente, exclamou, beijando-lhe a mão direita:

— Como eu te adoro, minha querida e formosa prima! Há muito que conheceste a chama que me devora! Por que hás de ser ingrata?

—E meu marido?...  — perguntou ela, timidamente, querendo fugir do sedutor.

— Teu marido! — exclamou ele, abraçando-a pela cintura. — Teu marido talvez não volte mais! Uma viagem ao extremo do Oriente é muito arriscada! Concede-me ao menos um beijo, e depois... depois, mata-me!

Ofegante, sentindo que se lhe comunicava a chama daquele amor, deixou-se ela beijar, não uma, porém muitas vezes.

Apertava-a o primo contra o peito, que sentia ela a carne a estremecer do gozo. Com os olhos semicerrados pela volúpia, quase a desmaiar, já não lutava!

Leopold agarrou-a nervosamente, e...

Nesse momento, sentiu Mary uma coisa estranha. O anel que trazia, o anel que lhe fora dado por seu marido, à hora da partida, fez ouvir um ligeiro estalido e apertou-lhe por tal forma o dedo que ela deu um grito.

Então, por detrás de seu primo, viu a pobre moça aparecer a figura de seu marido, não de sobrecenho carregado, mas triste, triste, e ouviu ele dizer-lhe:

— Mary, não te deixes seduzir pelas frases apaixonadas de teu primo! É um pérfido sedutor, que te há de abandonar! Mary, não te esqueças dos teus deveres e da fidelidade que deves a teu esposo!

Aterrada, pálida, fora de si, Mary empurrou violentamente o sedutor, e correu para o seu quarto.

 Um momento mais, e ela teria cometido um crime!

 Leopold não voltou àquela casa, porque mandara-lhe ela dizer que o detestava, e que nunca mais pusesse os pés ali onde ele a insultara, declarando-lhe um amor desonesto.

Cinco meses depois chegou o capitão, e a primeira coisa que disse, depois de abraçar sua espoca, foi o seguinte:

—Mary, perdoo-te, como desejo que Deus me perdoe os meus pecados. Sei que foste tentada e que resististe.

—Como?!  — exclamou Mary estupefata.

—Não te lembras, então, do que aconteceu contigo, nesta sala, no mesmo dia em que recebeste a minha carta? — perguntou o capitão.

—Santo Deus! — exclamou Mary. — Porém, tu estavas tão longe!  Como soubeste?

—Estava longe, é certo — respondeu o capitão. — Porém, meu espirito estava contigo. Avisada por um aperto que senti no dedo em que trazia o anel que te dei, transpôs-se minh’alma as vinte mil léguas, que nos separavam, para salvar-te do um perigo iminente!

Beijaram-se depois disso, e viveram ditosos o resto dos Seus dias.

 Ah, se houvesse muitos anéis como aquele, todos os maridos dormiriam sossegados, e extinguir-se-ia a imensa prole de D. Juan!

 

Fonte: “Gazeta de Noticias”/RJ, edições de 9 e 10 de agosto de 1889.

 

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