O FANTASMA DE POLÍCRITO - Narrativa Clássica de Terror - Collin de Plancy

O FANTASMA DE POLÍCRITO

Collin de Plancy[1]

(1794 – 1881)

Tradução de Paulo Soriano 

 


Um cidadão da Etólia, de nome Polícrito, foi eleito pelo povo para governar o país, devido à sua probidade e talento. Enquanto gozava da sua dignidade, casou-se com uma senhora de Lócrida, com quem nutriu a esperança de que seria feliz. Mas ele morreu na quarta noite de núpcias, deixando a mulher grávida de um hermafrodita, a quem ela deu à luz nove meses depois.

Quando os sacerdotes e os augures foram consultados sobre esse prodígio, conjecturaram que os etólios e os lócrios entrariam em guerra, porque aquele monstro tinha as duas naturezas. Decidiu-se que, para evitar estes males, a mãe e a criança deveriam ser levadas para além dos limites Etólia, onde ambas seriam queimadas

Em consequência desta sábia conclusão, os sacerdotes e as vítimas partiram, acompanhados por uma grande multidão. Mas quando estavam prestes a proceder à execução, o espectro de Polícrates, vestido com uma túnica negra, apareceu na pira e colocou-se ao lado do seu filho. Os espectadores, aterrorizados, quiseram fugir, mas a aparição os chamou de volta e os convidou-os a nada temerem. Em seguida, proferiu, com voz baixa e grave, um discurso em que alertou aos compatriotas de que, se queimassem a sua mulher e o seu filho, cairiam numa extrema calamidade.

Contudo, vendo que, apesar das suas admoestações, os etólios permaneciam determinados a fazer o que já haviam decidido, o espectro pegou o seu filho e, ainda vivo, despedaçou-o e devorou-o. O povo gritou, horrorizado, contra ele, e atirou-lhe pedras, querendo afastá-lo dali.  Mas o espectro pouco deu importância a tais insultos: enfrentou as pedradas e continuou a comer o filho, deixando-lhe apenas a cabeça. Depois disso, o fantasma desapareceu.

Este prodígio pareceu tão terrível que quiseram invocar o oráculo de Delfos. Mas, a cabeça da criança, tendo-se posto a falar, predisse em versos todos os males que posteriormente recaíram sobre os Etólios.

 

Fonte: Histoire de Vampires, Chez Masson, Paris, 1820.

Ilustração: PS/Gemini.

 

Nota:



[1] Narrativa baseada em episódio do “Livro dos Prodígios”, de Flegon de Trales (séc. II).

 

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