O PESO DA ESCURIDÃO - Conto de Terror - Paulo Alexandre Filho

O PESO DA ESCURIDÃO

Paulo Alexandre Filho

 

Francisca sentia que seu tempo estava esgotando e não havia mais nada o que fazer. Os médicos desistiram, agora restava ao seu corpo fazer o mesmo. Ela não conseguia movimentar-se e não tinha forças sequer para sentir dores.

Sua mente, ao contrário, permanecia viva. Sua percepção nos momentos finais estava mais aguçada do que nunca, talvez fosse uma espécie de compensação sem sentido que a morte proporcionava antes de chegar. Ela ouvia — não necessariamente pelos ouvidos já surdos pela degeneração física — os mais discretos sussurros, quase penetrando nos pensamentos alheios. Era capaz de sentir as reações escondidas de quem a cercava e até de quem nem estava ali. Seus olhos fechados, que não suportavam mais a luz, estavam cegos, mas ela inexplicavelmente via tudo sem eles. E ninguém sabia que ela detinha tais habilidades.

O quarto estava escuro, impregnado do cheiro ácido de medicamentos, do dulçor de flores murchas e da cera de vela queimada. Uma atmosfera pesada envolvia seu leito de morte, carregada de um pesar tão falso que agora ela conseguia compreender com clareza absoluta. Cada suspiro de pena era uma nota desafinada; cada lágrima enxugada, uma performance vazia. Ela percebia o alívio contido no ar, a pressa disfarçada de luto, a espera quase obscena pelo último suspiro. Sua imobilidade tornava-se uma plateia privilegiada para o espetáculo macabro da despedida.

Clara, a filha mais velha, usava uma voz chorosa quando entrava no quarto e estava diante de mais alguém — como a enfermeira Amélia —, mas suas palavras para o marido, ditas logo após a porta se fechar, destoavam completamente.

— Quanto tempo isso vai levar? Preciso voltar para a cidade, tenho a reunião com fornecedores na segunda.

Carlos, o genro, sussurrou uma resposta contida:

— O médico disse que é questão de horas. Já chamei a funerária. Já está tudo pago.

Do corredor, a voz de Pedro, o filho caçula, chegava como um zumbido através da porta entreaberta. Ele falava baixo ao telefone:

— Sim, sim, a velha está quase partindo. Finalmente vamos poder vender a fazenda e dividir o que sobrou. Grana alta, essa propriedade vale muito…

E no andar de baixo, Vânia, a filha do meio, já procurava comprador para o valioso piano alemão, seus dedos deslizando sobre as teclas de marfim enquanto calculava o lucro.

Francisca sentia, com clareza aterradora, o verdadeiro sentimento de todos. Eles não estavam tristes; estavam aliviados. Eles a viam como um fardo, uma inconveniência financeira, um obstáculo. Eles desejavam seu fim. Sua impotência era total. Seu coração — metafórico e literal — partiu-se. A última coisa que ouviu foi Clara dizendo:

— Às vezes acho que ela já se foi faz tempo. Só o corpo teima em ficar e nos fazer perder tempo.

Então o corpo de Francisca se arqueou num espasmo súbito e doloroso, seus olhos arregalados percorreram o quarto, encarando cada um dos presentes e lançando sobre eles um olhar intimidante que os fizeram gelar. Sua voz ecoou como um urro rouco e engasgado, mas com o peso de uma maldição. Depois disso, ela ficou inanimada como se não existisse mais.

A enfermeira inclinou-se sobre o leito, seus dedos frios encontraram o pulso de Francisca. Apertou, pressionou, procurou um sinal de vida que não existia mais.

— Já se foi — anunciou aquele fato médico, seco e final.

Francisca sentiu o toque. Sentiu a pressão dos dedos contra sua pele inerte, mas sentiu no corpo inteiro a severidade daquele diagnóstico.

Morreu, sim. Mas, de alguma forma, nunca se sentiu tão viva.

Estar fora do corpo foi uma libertação. Livre das limitações que aquela velha carcaça lhe impunha, ela estava num canto do quarto quando os agentes funerários chegaram e observou quando levavam o cadáver embora. Não sentiu nada. Nenhum apego, nenhuma perda.

Abaixo, as falsas reações de dor se desenrolavam como um teatro mal ensaiado. Clara encobriu o rosto com as mãos, mas seus ombros não se sacudiram de verdade. Carlos conferia o relógio disfarçadamente. Pedro já não escondia o sorriso de alívio. Vânia sussurrava sobre o preço do piano, agora que estava finalmente livre.

Nenhuma daquelas performances tocou a percepção aguçada que a morte lhe trouxe. Ela via através da farsa com uma clareza absoluta e gelada.

Quando o enterro foi consumado, os herdeiros logo iniciaram a disputa pelos despojos feito hienas. Francisca circulava entre eles como uma brisa gelada, uma presença imperceptível e penetrante. Clara sentiu um arrepio súbito e foi fechar a janela, mas o frio que a acometia só aumentou, um gelo que nascia de dentro para fora.

A discussão se centrava na distribuição da rica coleção de joias, e os ânimos se alteraram com ofensas sendo distribuídas sem o mínimo pudor. As vozes subiam de tom, ganhavam gumes afiados, até que, no instante de maior exaltação, todas as janelas da sala abriram-se de uma vez, com um estalo seco. Um vento impetuoso invadiu o ambiente, trazendo consigo um turbilhão de folhas secas e o cheiro úmido e distinto de terra revolvida — o cheiro do cemitério.

Vânia fez um sinal da cruz, um reflexo mecânico e vazio. Pedro riu, nervoso, sacudindo a cabeça.

— Foi o vento, gente. Obra da mãe natureza — disse ele, fazendo uma piada forçada. — Ou então foi obra da mão da velha!

Ele nem imaginava quão certa estava sua piada.

Na manhã seguinte, as intrigas foram servidas como café da manhã. As discussões ecoavam em cada cômodo do velho casarão, envenenando a tradicional propriedade da família. Entre insultos e acusações, eles reviraram eventos do passado, revelando mentiras e traições que Francisca nunca soube. Nenhuma palavra amena foi dita sobre ela, nenhuma memória gentil foi evocada.

Em algum momento, Clara riu alto ao telefone, sua voz estridente cortando o ar pesado.

— Foi libertador, você não imagina — disse ela à pessoa do outro lado da linha. — Uma página virada, finalmente.

Vânia batia o dedo na mesa da cozinha, sua impaciência transbordando.

— Precisamos concluir isso ainda neste fim de semana. Não vou atrapalhar minha programação da próxima semana por causa dessa herança maldita.

Pedro apontou um dedo acusador para as irmãs, seus olhos injetados.

— Vocês já esconderam joias, não adianta negar! Eu conheço seus truques.

O cunhado, Carlos, observava tudo com um calculismo silencioso, avaliando mentalmente o valor de cada hectare como se tivesse direito a alguma coisa

Francisca, habituando-se à sua nova condição fantasmagórica, forçada a testemunhar a vida continuar sem ela, já compreendia. Sua presença não era mais apenas observação; seus sentimentos, intensos e puros, manifestavam-se no mundo perceptível. Cada onda de desgosto, cada pontada de desprezo que sentia ao ouvir aquelas palavras, perturbava o ambiente à sua volta.

O ar ficava mais pesado onde ela pairasse. Uma friagem inexplicável acompanhava sua atenção mais aguda. Pequenos objetos tremiam de forma quase imperceptível quando sua indignação crescia. Ela era uma testemunha invisível, mas não mais impotente. Sua mágoa, seu desapontamento absoluto, começava a ecoar na casa, escrevendo sua resposta final nas entranhas daquela família.

O tempo não funcionava mais da mesma forma para Francisca. Ela não sentia sua passagem nem seus efeitos corrosivos. As ansiedades que antes consumiam os dias e o tédio que pesava as horas haviam se dissolvido no seu novo estado. Isso facilitava as coisas, pois ela não se importava de esperar.

Naquela noite, após as tramas e negociações, todos dormiam quando a casa despertou. As paredes começaram a umedecer, suando uma água fria e espessa que escorria para o assoalho, deixando o ambiente pesado e sufocante. Uma perturbação desagradável impregnou o ar.

As portas e janelas travaram de repente. Nenhuma força era capaz de girar as trancas ou deslizar os ferrolhos; estavam seladas, como se a casa tivesse cerrado seus próprios dentes. Um rangido indefinido ecoava de todos os lados ao mesmo tempo, um som que não vinha de madeira ou metal, mas da própria estrutura, deixando todos os ocupantes aflitos em seus quartos.

As luzes piscaram violentamente, combatendo uma força invisível, até que finalmente se renderam. A escuridão dominou a casa inteira, uma escuridão absoluta e impositiva. Velas se apagavam no instante em que a chama nascia. Lanternas permaneciam mortas, seus interruptores clicando inutilmente no vácuo negro. As trevas não eram ausência de luz; eram uma presença.

A escuridão persistiu como uma substância viva e espessa que preencheu cada centímetro da casa. Clara, Carlos, Pedro e Vânia estavam cada um em seus quartos, incapazes de sair. As portas não cediam, transformadas em extensões sólidas das paredes. As janelas estavam seladas, não pela madeira, mas pela própria negritude que pressionava contra os vidros. Eles gritavam, mas seus sons eram absorvidos pela escuridão antes mesmo de nascerem, como se nunca tivessem existido.

Francisca não era mais uma presença passiva, um espectro que assombrava os cantos. Ela era a casa. Sua raiva, sua decepção absoluta, sua solidão dilacerante — tudo se fundiu com as paredes, impregnou o piso, tornou-se o próprio ar que eles lutavam para respirar. Ela não queria apenas assustar; queria fazer com que sentissem na carne e na alma o que ela sentiu. O desprezo que a consumiu. A invisibilidade de seus últimos dias. O silêncio ensurdecedor de sua morte solitária em meio à família.

Agora, eles conheciam o mesmo silêncio. A mesma solidão. O mesmo desprezo, emanando das próprias paredes que ela ajudou a construir.

Seus hóspedes — ou reféns — experimentavam manifestações distintas da presença de Francisca, cada punição meticulosamente costurada à sua culpa.

No quarto de Clara e Carlos, a mesma escuridão os separava em realidades isoladas. Para ela, o ar tornou-se gelado e pesado, e então ouviu a própria voz, ecoando do nada: “Às vezes acho que ela já se foi faz tempo.” A frase repetia-se, distorcendo-se a cada vez, ganhando volume até se tornar um grito ensurdecedor que lhe cobria os ouvidos — um grito que ela tentava soltar, mas o som sumia antes de deixar sua boca, sufocado pelas trevas. Carlos, ao seu lado, não ouviu nada disso. Para ele, havia apenas o silêncio. Um silêncio tão absoluto que ele começou a ouvir o próprio sangue correndo nas veias, o ritmo cada vez mais desesperado do próprio coração. Ele foi deixado na escuridão silenciosa, sozinho com o eco vazio de sua própria insignificância.

Pedro viu vultos se movendo na penumbra, formas que se contorciam à beira de sua visão, nunca se aproximando, apenas observando. De repente, um tilintar metálico e arrastado preencheu o aposento — o som de joias sendo puxadas pelo chão. Uma voz sussurrou rente ao seu ouvido, tão próxima que parecia vir de dentro dele: “Você queria tanto… agora é todo seu.” Quando ele estendeu as mãos para agarrar as joias invisíveis, seu toque encontrou apenas matéria orgânica e fria, que se desfez em podridão nas palmas de suas mãos.

Vânia sentiu o cheiro de terra molhada e flores apodrecidas invadirem seu nariz, um perfume fúnebre que a engasgava. Lá embaixo, no salão vazio, as teclas do piano alemão começaram a tocar sozinhas, uma melodia distorcida e arrastada, cada nota um gemido. Quando ela tapou os ouvidos com força, a música não parou. As notas passaram a ressoar dentro de sua própria mente, um concerto funesto que não tinha mais como escapar.

O tempo perdeu todo nexo. Eles não sabiam se se passaram horas ou dias. A escuridão não recuou um milímetro, mantendo seu domínio absoluto. A fome e a sede, sensações que deveriam torturá-los, nunca chegaram — Francisca os mantinha vivos, conscientes, alimentados apenas pela própria energia espectral para que sentissem mais.

De vez em quando, a exaustão os vencia. Paravam de lutar contra portas e janelas, de gritar por ajuda que não viria. Sentavam-se no chão frio, encolhidos, encarando o vazio que os engolia. Suas mentes, privadas de estímulos reais, começaram a desfazer-se. Memórias dissolveram-se como fumaça.

Já não lembravam por que estavam ali. Já não lembravam quem eram, quais nomes carregavam, que vidas levavam antes daquela escuridão. Apenas sabiam, com uma certeza aterradora, que alguém os odiava. Um ódio profundo e absoluto que preenchia cada partícula de ar que não conseguiam respirar.

E, no fundo do que restava de suas consciências, sabiam que mereciam.

Francisca observou de maneira onisciente. Mas tudo mudou. Sua raiva, que foi um fogo consumidor, lentamente se esvaiu, substituída por uma paz vazia e infinita. Ela não sentia mais ódio. Não sentia mais nada. Percebeu, então, que não estava se vingando — estava apenas perpetuando o próprio sofrimento, repetindo o ciclo de dor que a prendeu naquele lugar.

Ela não era um fantasma. Era um eco de dor preso em atos que se repetiam eternamente, sem propósito, sem consciência.

A casa parou de ranger. A escuridão permaneceu, mas perdeu a qualidade opressiva e viva. Agora era apenas escuro. Silencioso. Vazio.

Anos depois, a casa permanece intocada. Dizem na região que é mal-assombrada. Ninguém se aproxima dali e o abandono é evidente na degradação que consome suas paredes e telhados.

Às vezes, à noite, luzes fracas são vistas nas janelas — não de lâmpadas, mas de velas que ninguém acendeu.

Às vezes, ouvem-se sussurros — não de raiva, mas de conversas triviais, fragmentos de memórias que não pertencem a ninguém vivo.

 

 

Fonte: Fabulae Noctis (https://fabulaenoctis.wordpress.com/2025/09/21/o-peso-da-escuridao/)

Sobre o autor: Paulo Alexandre Filho é professor da rede pública estadual de Pernambuco, mestre em História pela UFPE, licenciado em História pela UFRPE, com especializações em ensino da História (UFRPE) e Direito Educacional (UNIARA/SP). Mantém na Internet os sites HistóriaBlog  https://historiablog.org/ e Fabulae Noctis https://fabulaenoctis.wordpress.com/ .

 

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