OSSO ASSASSINO - Conto Clássico Macabro e Humorístico - João Bastos

OSSO ASSASSINO

João Bastos

(Séc. XX)

 

Chico Carreira era como o rapazio chamava o filho do carapina Salustiano dos Reis, procurando fazer justiça ao mérito do moço cigarreiro, que outro não era senão, reconhecendo a utilidade das pernas, saber movimenta-las, com pasmosa rapidez, nos momentos oportunos. Nos frequentes “charivaris” provocados, nas noites de alegria pelos olhos feiticeiros de uma cabocla qualquer, bonitona e faceira, Chico jamais se deixara reconhecer senão pela agilidade dos calcanhares rachados e cinzentos.

Era, assim, rapaz de juízo, amando mais o pelo do que o nome deixado pelo honrado Salustiano, de quem todos diziam em vida nunca haver corrido a não ser atrás da ardilosa fortuna.

Mercê das gambias finas e velozes, Chico Carreira nunca apanhara na própria, nem dera na cara de ninguém. Seria um poltrão só por isso? Talvez. O seu argumento encerrava, porém, certa dose de razão. “A cara dum home — dizia de cenho carregado — não é tuaia d'inxugá mão. Quem dé na cara de Chico, pode pontá cum o sete parmo. E quem num qué pra si, num qué pro zotro.”

Ele era, afinal, um bom rapaz. Pondo de parte os seus olhos “perigosos”, diga-se que, com os amavios da voz baritonada e os queixumes languentes do “pinho” português, o mulato era a perdição do mulherio. Daí a necessidade de ser bom nas canelas, que o ciúme dos caboclos é uma coisa sinistra.

Com vinte e três anos, já tinha mais em riscos no cinturão de couro, onde, com o canivete, costumava marcar o número das conquistas amorosas. Aqui, fizera alto e, apagando a todos, da melhor forma, desenhou adiante uma seta atravessando um coração. Queria dizer que fora finalmente ferido, que estava amando de verdade. E rindo declarava: “Agora sentei praça”.

A causadora dessa mudança era a menina Rosalina, formoso e único rebento da Sinhá Vicência, costureira.

Nas primeiras manifestações do amor, o mulato, violão casado ao peito, não se cansava de improvisar galanteios rimados debaixo da janela do quarto da sua eleita, de onde, com surpresa, foi arrastado para dentro da casa pela boa e cautelosa Sinhá Vicência que, medrosa de escândalos, quis ser a única testemunha do namoro. E como outra coisa não desejava, o nosso poeta não se fez mais de rogado. Visita vai, visita vem, e quando o moço caiu em si estava pelo fio do matrimônio impossibilitado de correr... Mas desta feita, ficou de gostosa e espontânea vontade. Era a primeira vez que tinha coragem de fato.

Como se já não fosse necessária neste mundo, pouco tardou que Sinhá Costureira comprasse passagem para o outro. E porque desgraça atrai desgraça, a inconsolável Rosalina, acompanhando os restos mortais ao cemitério, com tal infelicidade se houve que sequer as chinelas tão novinhas evitaram enfiasse um osso no calcanhar esquerdo.

Aquilo não era nada... Sim, não era nada; mas um pouco de desleixo foi bastante para o tétano surgir ameaçador. Ai! Quando o marido descobriu um círculo violáceo em torno da ferida, tomou um susto danado, mordido por cruel pressentimento, e esbaforido foi esmurrar a porta do curandeiro, sujeito meio cirurgião, meio clínico, a quem se deviam alguns milagres e muitas mortes.

Justamente quando o esculápio, arrastando a maleta, botica transportável, e o trambolho da perna direita desconjuntada, fazia majestosa a sua entrada no quarto da enferma, começavam as primeiras convulsões.

Conhecendo a natureza da doença, não pôde o charlatão evitar uma careta de desapontamento, e, misterioso e grave, chamando à parte o pobre cigarreiro, confessou descaradamente que a medicina, quanto ao mal em evidência, estava ainda atrasadíssima, razão por que lhe era de todo impossível tomar a menor providência.

Rosalina, em conclusão, iria “ad patres”, irremediavelmente. Mas era preciso ter paciência... “Que diabo! Ninguém nasce para semente, meu caro senhor Carreira.”

E sempre a arrastar a perna e a mala, lá se foi o “doutor”, deixando o infeliz ainda bestificado, mudo, sem ação, como se houvera recebido uma paulada no alto da cabeça.

Ninguém descreveria as cenas de loucura representadas à parca luz da candeia por aquele desesperado esposo, que ouvia os gemidos e assistia aos gestos de sofrimento da amada companheira, sem poder tentar nada, nada em seu favor. Ah! Para que pecados havia de servir a augusta ciência de que o curandeiro tantas vezes lhe falara com orgulhoso respeito, se era assim impotente para restituir a saúde à sua Rosalina, que estava ali sobre o leito a gemer e a finar-se? Uma coisa tão à-toa... Uma insignificante espetadela!... Não era para um homem descrer de tudo, até mesmo de Deus?

Quanto tempo duraria aquela crise?

O relógio começou a marcar, qual dobre de finados, onze horas da noite. E aquelas pancadas, soando lugubremente, como que despertaram qualquer coisa adormecida na massa cerebral do alucinado que, às primeiras vibrações, arrancou-se, impetuoso, do velho mocho, transpôs a porta escancarada e desapareceu entre ais sombras da noite.

Meia hora não passara e já ele voltava, rebocando um mostrengo de velha, que vinha a pôr a alma pela boca.

O quê? Mas era a bruxa da aldeia vizinha! Uma mulher odienta de quem se contavam histórias complicadas e tremendas...

Só o extremo desespero levaria o mais obediente paroquiano àquele passo temerário, que o punha em contato com o Demo.

Entretanto, tendo procedido a um rápido exame, a feiticeira declarou com firmeza, estaria salva a doente se, antes de meia noite, Chico se achasse no cemitério, à procura do maldito osso, o qual, torrado e feito pó, seria aplicado à ferida, que imediatamente havia de sarar, cessando desde logo aquele angustioso padecer da pobre enferma.

No cemitério, antes de meia noite!... O moço cigarreiro sentiu o frio do terror percorrer-lhe o espinhaço. Ele que fora sempre a personificação perfeita do medo... Em outra ocasião admirar-se-ia de que alguém lhe ousasse fazer tão absurda proposta. Naquele momento, porém, tratava-se da salvação da mulher adorada. Impulsionado pelo amor, de que rasgos de audácia não será capaz um espírito pusilânime?

E foi sem um protesto que aceitou o convite da megera, abalando, numa disparada, para a alva cidade dos mortos, que emergia da escuridão noturna como lívido fantasma das entranhas da terra.

Mas à medida que se ia aproximando, sentia mais intenso o pavor. E a dois passos do portal, que transpôs os olhos fechados, teria certamente desfalecido se lhe não ressoassem aos ouvidos as palavras da bruxa — “Só assim viverá”.

Felizmente a sepultura da Vicência estava ali pertinho. E com a ajuda de um fósforo, aceso a grande custo, Chico pôde distinguir um pequeno objeto manchado de sangue que outra coisa não era senão o osso infernal. Colheu-o, num gesto de demente, fazendo estalar, sob os saltos das botas, os restos de uma caveira abandonada à flor da terra. E apertando entre as falanges geladas aquela partícula venenosa de uma velha carcaça anônima, batendo os dentes de frio, com os cabelos eriçados de horror, Chico pôs em rápido movimento as pernas invencíveis, trazendo bem fechados os olhos e os ouvidos para não ver nem ouvir os passos e alaridos do exército macabro de esqueletos que o devia perseguir.

E ao peso do seu corpo, atirado qual um aríete à porta da cabana, foi beijar com rudeza a parede amarela, deixando que as estrelas contemplassem o cadáver de Rosalina estirado na enxerga...

 

Fonte: “Primeira”/RJ, edição de 25 de julho de 1928.

 

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