STINKY DRIVER - Conto de Terror - Diony Scandela

STINKY DRIVER

Diony Scandela

 

O mesmo homem que dirige o ônibus caindo aos pedaços não é outro senão a aberração do filme que viu ontem à noite na casa da namorada. Os passageiros nem percebem, mas lá está ele… Stinky Driver, o pestilento saco de excremento com sangue e pele podre. Mauricio não tem medo; mal respira e, a cada exalação, parece que a vida lhe escapa. “Vou chegar atrasado pro jogo de basquete”, pensa.

O ônibus desvia de um, dois e três buracos na rua, mas Stinky Driver olha para Mauricio pelo espelho retrovisor. Sangue e vermes amarelados caem no chão do transporte, e o cheiro de excremento vai sufocando o rapaz… Caralho, essa porra é real, é real! Abraça a bola de basquete e pressiona o rosto contra a borracha. Se antes era negro, agora vai ficar roxo de medo.

 

 


 

Uma senhora pede para descer em frente ao Sambil[1] mais antigo da cidade. Mauricio consegue ver como Stinky Driver tira do seu uniforme pestilento um rato com as tripas para fora e o coloca na bolsa da velha, sem que ela perceba.

Mauricio quer gritar, quer correr, mas ainda não consegue definir se aquilo é real ou se é a arepa[2] com mortadela e o malte fazendo efeito, junto com o cansaço do filme de ontem à noite. Stinky Driver faz uma parada em frente a um sebo de livros e vomita vermes amarelados pela janela, banhando em sucos pestilentos o livreiro e respingando na janela do ônibus.

Mauricio já se levantou do assento para ir em direção à saída. Um braço enorme coberto de crostas e pus o detém:

— Palhaçozinho saltitante, de onde você saiu?

— Vai se foder — responde Mauricio, dando-lhe uma bolada.

Stinky dá um pulo e cai sobre o atleta:

— Shhhh… Abra a boca.

O hálito, mistura de vômito e carne morta, deixa Mauricio atordoado. Os passageiros nem se abalam, como se aquela aberração fosse apenas fruto da mente do garoto. Uma chuva de vermes cai do nariz de Stinky e Mauricio se liberta com um chute na virilha. Vai engatinhando até a saída até alcançar o asfalto duro. O trânsito quase o engole e, na calçada, vê os pedestres com a careta nojenta do demônio; vê imediatamente uma loja de artigos esportivos e sai correndo, mas alguém, ao sair, o atinge sem querer com a porta. Mauricio cai de cara no chão.

Mauricio acorda na sala de aula. O exame de Física já terminou e todos já foram embora. Ali, na mesa, está o professor racista de Mauricio corrigindo as provas:

— Pra jogar basquete e dormir você é bom, né, Mauricio?

O atleta boceja e toca no uniforme. Não está sujo de vômito:

— Professor, o senhor não vai acreditar: tive um pesadelo horrível.

O professor acena com a cabeça e lhe mostra a prova reprovada:

— Isso sim é um pesadelo, meu filho. Vai pra recuperação.

Horas mais tarde, o garoto estava na quadra municipal, pronto para dar uma de LeBron James[3]. Enquanto se aquecia, lembrou com certo deboche do professor e das suas notas de merda. Ali estava o magricela Elio, pronto para jogar:

— Mauricio, a coisa tá feia contra o outro time.

— Por quê?

— Eles têm um monstro, literal. Não lembro o nome dele… — dá um assobio — Epa, cara, vem cá!

Primeiro viu os pés, que deixavam um rastro viscoso; depois, o torso cheio de vermes dançantes e, finalmente, a cabeça ossuda com sangue seco e vômito verde. Os olhos sem retina, a língua pendurada entre lábios cheios de crostas… Era o Stinky Driver!

 

Ilustração do miolo: PS/Gemini.

 

Diony Scandela. Escritor amador nascido na Venezuela, em 3 de julho de 1993. Iniciou-se formalmente na escrita com o romance "Perros de la Prehistoria", é autor de vários contos e relatos, sendo os mais conhecidos "Zorobabel", "Alienación", "La abominación desoladora" e "Al Dios no conocido"; reconhece em seus trabalhos influências de Jorge Luis Borges, Edgar Allan Poe, Horacio Quiroga e Dan Brown. Cristão convicto, é leitor fiel da Bíblia. Atualmente dirige a Revista Paladín, um fanzine dedicado à literatura de gênero.

 

Notas:



[1] Shopping Center venezuelano. (N. do E.)

[2] Pãozinho redondo e achato, elaborado com milho moído ou farinha de milho pré-cozido em lume brando, frequentemente recheado, da culinária venezuelana e colombiana.

[3] Famoso jogador de basquete norte-americano.

 

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