UM HOMEM AGRADECIDO - Conto Clássico Insólito - George Auriou
UM HOMEM
AGRADECIDO
George Auriou
(1863 – 1938)
Tradução de
autor anônimo do séc. XX
Há
tempos, tendo necessidade de um secretário, alguém me recomendou um sujeito que
tinha uma perna de pau, aconselhando-me que o tomasse a meu serviço, pois que,
entre muitas virtudes, possuía a de ser um homem extraordinariamente
agradecido.
À
vista da informação, marquei hora no meu escritório e, no dia seguinte, muito
cedo, lá se apresentou o candidato.
Era
um homem de meia-idade, completamente calvo e… perneta.
— Sou eu — disse, apresentando-se — a pessoa
que lhe foi recomendada.
— Muito bem, queira sentar-se. Informaram-me
que o senhor tem viajado muito.
—
É verdade.
—
Por onde andou?
—
Em 1893, abandonei Paris para dirigir-me ao Canadá. Mas, ali chegado, tomei
logo o rumo do Oeste americano.
—
E por que ficou calvo? Alguma enfermidade do cabelo?
—
Não, senhor; um nativo pele-vermelha arrancou-me a pele da cabeça, com cabelo e
tudo.
— Permaneceu muito tempo no Oeste?
—
Não. Em seguida, por dificuldades de emprego, transportei-me para Nova York,
onde fui cozinheiro, farmacêutico, bombeiro, barbeiro, motorneiro de bonde e
guarda-noturno.
—
Nunca esteve na Índia?
—
Sim, senhor. Trabalhei dois anos em casa de um rajá. Mas tive de abandonar o
emprego por causa de uma aventura amorosa. Parti durante a noite na barca de um
pescador de pérolas, na qual fui joguete das ondas durante cinquenta e quatro
horas, três minutos e dezoito segundos. Ao fim desse tempo, fui atacado por uma
piroga de antropófagos, que me fizeram prisioneiro.
—
E por que razão eles não o devoraram?
—
Justamente no momento em que se preparavam para me assar nas brasas,
desembarcaram na ilha os guerreiros de Rabo, tribo inimiga que, depois de uma
carnificina terrível, me levaram prisioneiro para a terra deles.
—
Ora! E esses eram antropófagos também?
—
Muito mais que os outros! Mas tão agradáveis, tão corretos, tão educados, que
logo no primeiro dia chamaram-me e solenemente declararam que, embora tivessem
o salutar costume de devorar todos os seus prisioneiros, eu ficava perdoado em
vista de ter sido condenado pelos homens da tribo inimiga. E, assim, passei
três meses deliciosos: bem alimentado, boa casa, cozinheiro, lavadeira...
Cheguei mesmo a casar-me ali.
—
E... por que os abandonou?
—
Nostalgia. A saudade era maior que o conforto da ilha. Por isso regressei à
França, a bordo de um navio holandês que fazia o comércio de penas e peles com
os indígenas. O chefe da tribo trouxe-me para o vapor em sua própria canoa. O
pobre chorava quando se despediu de mim. Para consolá-lo, prometi que, logo que
chegasse à Europa, eu lhe mandaria de presente setenta e quatro relógios de
ouro: um para cada filho dele.
—E
o senhor pôde arranjar todos esses relógios?
—
Infelizmente não. Quando cheguei ao Havre, a miséria mais negra me esperava no
cais. Fui obrigado a ser engraxate para viver, e nunca pude reunir a quantia
necessária para comprar os cronômetros.
—
Compreendo. E que fez, então?
—
Então eu me lembrei da inocente preferência daqueles benditos indígenas por
certos pratos… E, como sou um homem agradecido, mandei cortar a minha perna
esquerda, que, depois de convenientemente salgada, foi posta na fumaça para
aumentar-lhe o sabor. E, nas proximidades do Ano Novo, remeti-a ao chefe da
tribo, com um cartão-postal, rogando-lhe que a comesse, sem escrúpulos, à minha
saúde.
Positivamente,
o homem, além de agradecido, era do outro mundo. Tomei-o imediatamente ao meu
serviço sem lhe fazer mais nenhuma pergunta!
Fonte:
“Boa Nova”/RJ, edição de janeiro de 1934.
Fizeram-se
adaptações textuais.
Ilustração:
Frederic Remington (1861 – 1909)

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